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terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

NO PRINCÍPIO (MAS NUNCA HOUVE PRINCÍPIO)


No princípio (mas nunca houve princípio!)
tudo fluía
Como agora flui
E como para sempre fluirá
Manifestando-se em formas multíplices,
Impermanentes e ocasionais
Sujeitas a leis errantes, encobertas e locais.


O Ser vive em si,
No infinito, na eternidade.
Não habita em quem o vive
Nem no que vive.
Não está e não é,
É e está.
Indeterminado, inominado,
Sem fim ou começo,
Alto ou baixo, ou lado,
Sem espaço,
Não pode ser buscado.

Não existe para si,
Para mim, para ti;
Existe por si na eternidade.
O eterno sem centro é perfeito
Como o rio que corre no seu leito
E com humildade se faz oceano.
Não se esgota,
Não é tudo nem nada,
É o vazio íntegro da totalidade.

O que não tem fim nada sustenta
Não é sustentado
Não é teu ou meu,
De qualquer marca de gente,
E quando por mim passa, estou certo:
Não há “eu”, apenas o vácuo da mente.



O tempo dos tempos
É percorrido em mutações sucessivas,
Inesperadas, no seio do que sem começo nem fim
Muda e flui na sua majestosa permanência
E enganadora aparência.

Muitos milhões são as galáxias,
Incontáveis os profundos “universos”
Fabricando-se e desfazendo-se
Por amor da união e da desintegração
No tempo eterno e espaço infinito
Do que permanece
Na dança cósmica dos mundos.

Não houve princípio,
Não haverá fim.
Inventaste o princípio e os deuses
Atormentado por medos
E pelo sentimento do vazio entediado
Gerado pelo cárcere do tempo
E pelo esquife do espaço imenso.

Há um campo de concentração
Onde abunda a fome de espírito.
Os reclusos alimentam-se de fantasmas
Enquanto o cérebro esquelético
Se degrada e definha.
Há gente de esperança e desespero,
Todos ludibriados por espectros visíveis,
Almas de outro reino inventado.



Quando vos conheço (neste mundo, sim, porque outros os há...)
Amo-vos.
Por vezes, mutilo-vos pela adaga,
No entanto, amo-vos.
Amar não é mentir, adular –
Reservado, acautelo-me,
Protejo-me da superficialidade,
Da falta de seriedade.
A mim busco-me na profundeza
E ilumino-me na escuridão,
No breu da noite
Que parece não ter fim.


Estou no mundo, mas o mundo não me vê
Nem ter me quer (e para que havia de me querer?).
A luz envolve-me e reina a escuridão
De cegos que o são por não almejarem ver.

Amo os outros sem os abandonar,
E eles não o sabem e nunca o irão saber.
Não os quero desamparar,
Mesmo os que trilham caminho próprio
Sem clamar por auxílio,
Por quem os proteja.
Compassivo é o que não interfere,
Que está longe e perto,
Nem cá nem lá,
Distante, afectuoso,
E áspero se o tiver de ser;
O que tiver de ser que seja
O que for será.

Vivo na obscuridade,
Reservado e quieto na acção.
Os desejos extinguem-se,
Não sei o que é a ambição.
Nem sequer sei o que sou
Nem o que quero ser.
Sou o que não tem significado e que perante o mundo
É apenas o insignificante sem rumo,
O caminhante do nada.

Não ouso desejar, até o desejo do Ser é ilegítimo;
Nenhum desejo é permitido, apenas o do ancoradouro.
Desejar –
Desejar a ausência do desejo já é desejar.
O desejo é insaciável, a ambição desmedida,
A paixão dilacerante e o apego mata.
Só existe alívio para quem a si se basta.

Não saio de casa; do meu pequeno e dócil quarto
Vejo tudo o que se pode ver,
Conheço tudo o que se pode conhecer.
Viajo sem me movimentar, conheço sem ler,
Ajo na tranquilidade e por todo o lado
Sopra o vento da felicidade.

Sou abastado por nada possuir.
Sou forte por sem esforço me vencer;
Poderoso sem me mexer.

Poderei eu perder o que não tenho nem intento ter?


O que faz muitas coisas e guarda o seu fruto
Não o conservará: tudo perderá.
Quem age sem intenção frutifica naturalmente.
Quem busca, perde-se no além da floresta virgem
E nada retém ou encontra;
Encontrar significa liberdade.
Quem quiser guardar a reputação, perdê-la-á,
Quem quiser amontoar riqueza, arruinar-se-á,
Quem quiser aferrolhar paixões, corromper-se-á,
Quem quiser escudar-se do perigo, perecerá.

Morto, ficarei onde estou, estarei onde não estava,
Verei o que não vi, sentirei o que não senti,
Serei o que não sou e irei onde não vou.

Séculos e séculos a investigar a morte
Que dilacera corações e agrilhoa espíritos.
Sabeis o que é a morte? Sabeis o que é morrer?
Se falecerdes para o passado a cada minuto,
A todo o instante, sabereis o que é o decesso,
O que é fenecer.
Extinto o “ego”, resta a Mente vazia
Na paz dos tempos infindáveis.
Afinal, o que por tanto procurardes
Nunca encontrásteis, nem encontrareis.


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

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