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domingo, 25 de outubro de 2009

FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - NUM MEIO-DIA DE FIM DE PRIMAVERA

Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.

Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso de mais para fingir
De segunda pessoa da trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era uma mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou –
«Se é que ele as criou, do que duvido» -.
«Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres».

E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

.......................................................................

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural,
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E a outra a tudo o que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é o de saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos os dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos às cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

.................................................................

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

..................................................................

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Po que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - DA MINHA ALDEIA VEJO QUANTO DA TERRA SE PODE VER DO UNIVERSO...

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.
Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram todo o tamanho que podemos olhar,
E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - PENSAR EM DEUS É DESOBEDECER A DEUS

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que não o conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou...

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Nós como as árvores são árvores
E como os regatos são regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais seria tirar-nos-nos.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR EM NADA

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

«Constituição íntima das coisas»...
«Sentido íntimo do universo»...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.

O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, “Aqui estou!”

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - ESTA TARDE A TROVOADA CAIU

Esta tarde a trovoada caiu
Pelas encostas do céu abaixo
Como um pedregulho enorme...

Como alguém que duma janela alta
Sacode uma toalha de mesa,
E as migalhas, por caírem todas juntas,
Fazem algum barulho ao cair,
A chuva chiou do céu
E enegreceu os caminhos...

Quando os relâmpagos sacudiam o ar
E abanavam o espaço
Como uma grande cabeça que diz que não,
Não sei porquê – eu não tinha medo –
Pus-me a querer rezar a Santa Bárbara
Como se eu fosse a velha tia de alguém...

Ah! é que rezando a Santa Bárbara
Eu sentir-me-ia ainda mais simples
Do que julgo que sou...
Sentir-me-ia familiar e caseiro
E tendo passado a vida
Tranquilamente, como o muro do quintal;
Tenho ideias e sentimentos por os ter
Como uma flor tem perfume e cor...

Sentia-me alguém que possa acreditar em Santa Bárbara...
Ah, poder crer em Santa Bárbara!

(Quem crê que há Santa Bárbara,
Julgará que ela é gente e visível
Ou que julgará dela?)

(Que artifício! Que sabem
As flores, as árvores, os rebanhos,
De Santa Bárbara?... Um ramo de árvore,
Se pensasse, nunca podia
Construir santos nem anjos...
Poderia julgar que o sol
Alumia, e que a trovoada
É um barulho repentino
Que principia com luz...
Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!)

E eu, pensando em tudo isto,
Fiquei outra vez menos feliz...
Fiquei sombrio e adoecido e soturno
Como um dia em que todo o dia a trovoada ameaça
E nem sequer de noite chega...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - AO ENTARDECER, DEBRUÇADO PELA JANELA




Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo por cima dos olhos que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O Livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas pessoas
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E vê que está a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem não anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL



O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que teria uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a grande novidade do mundo...

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo.

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a inocência,
E a inocência é não pensar...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - EU NUNCA GUARDEI REBANHOS



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


JOSÉ MARIA ALVES
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sábado, 24 de outubro de 2009

FERNANDO PESSOA - MENSAGEM - NEVOEIRO




Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - MENSAGEM - MAR PORTUGUÊS



Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - MENSAGEM - O MOSTRENGO


O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse, «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo,
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse,
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes,
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - MENSAGEM - O INFANTE


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - MENSAGEM D. DINIS


Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - QUADRAS

Cantigas de portugueses
São como barcos no mar –
Vão de uma alma para outra
Com riscos de naufragar.



O sino dobra a finados
Faz tanta pena a dobrar!
Não é pelos teus pecados
Que estão vivos a saltar.



Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.



Há um doido na nossa voz
Ao falarmos, que prendemos:
É o mal-estar entre nós
Que vem de nos percebermos.



O coração é pequeno,
Coitado, e trabalha tanto!
De dia a ter que chorar,
De noite a fazer o pranto...



Boca de riso escarlate
E de sorriso de rir...
Meu coração bate, bate,
Bate de te ver e ouvir.



Teus olhos querem dizer
Aquilo que se não diz...
Tenho muito que fazer...
Que sejas muito feliz!



No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não,
Tal qual como os outros dias.



Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.



Depois do dia vem noite
Depois da noite vem dia
E depois de ter saudades
Vêm as saudades que havia.



Tenho um desejo comigo
Que hoje te venho dizer:
Queria ser teu amigo
Com amizade a valer.



Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz bem quem se esconde...
Mas, onde foste Maria?



Não sei se a alma no Além vive...
Morreste! E eu quero morrer!
Se vive, ver-te-ei; se não
Só assim te posso esquecer.



Rosmaninho que me deram,
Rosmaninho que darei,
Todo o mal que me fizeram
Será o bem que eu farei.



Tenho um segredo a dizer-te
Que não te posso dizer
E com isto já to disse
Estavas farta de o saber...



No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.



Andorinha que vais alta,
Porque não me vens trazer
Qualquer coisa que me falta
E que te não sei dizer?



Teu vestido, porque é teu,
Não é de cetim nem chita.
É de sermos tu e eu
E de tu seres bonita.



Trazes o vestido novo
Como quem sabe o que faz.
Como és bonita entre o povo,
Mesmo ficando para trás.



Dá-me um sorriso a brincar.
Dá-me uma palavra a rir,
Eu me tenho por feliz
Só de te ver e de te ouvir.



Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?



Morto, hei-de estar a teu lado
Sem o sentir nem saber...
Mesmo assim, isso me basta
P´ra ver um bem em morrer.



Rezas porque outros rezaram,
E vestes à moda alheia...
Quando amares vê se amas
Sem teres o amor na ideia.



Vai alta a nuvem que passa.
Vai alto o meu pensamento
Que é escravo da tua graça
Como a nuvem o é do vento.



Dias são dias, e noites
São noites e não dormi...
Os dias a não te ver
As noites pensando em ti.



A rosa que se não colhe
Nem por isso tem mais vida.
Ninguém há que te não olhe
Que te não queira colhida.



Só com um jeito do corpo
Feito sem dares por isso
Fazes mais mal que o demónio
Em dias de grande enguiço.



Não me digas que me queres
Pois não sei acreditar.
No mundo há muitas mulheres
Mas mentem todas a par.



Levas chinelas que batem
No chão com o calcanhar.
Antes quero que me matem
Que ouvir esse som parar.



Tenho uma pena que escreve
Aquilo que eu sempre sinta.
Se é mentira, escreve leve.
Se é verdade não tem tinta.



Nunca dizes se gostaste
Daquilo que te calei.
Sei bem que o adivinhaste
O que pensaste não sei.



O manjerico comprado
Não é melhor que o que dão.
Põe o manjerico ao lado
E dá-me o teu coração.



Mas que grande disparate
É o que penso e o que sinto.
Meu coração bate, bate
E se sonho muito, minto.



Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.



Dei-lhe um beijo ao pé da boca
Por a boca se esquivar.
A ideia talvez foi louca,
O mal foi não acertar.



Eu te pedi duas vezes
Duas vezes, bem o sei.
Que por fim me respondesses
Ao que não te perguntei.



Tens um anel imitado
Mas vais contente de o ter.
Que importa o falsificado
Se é verdadeiro o prazer.



Todas as coisas que dizes
Afinal não são verdade.
Mas, se nos fazem felizes,
Isso é a felicidade.



A vida é um hospital
Onde quase tudo falta
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.



Ris-te de mim? Não me importo.
Rir não faz mal a ninguém.
Teu rir é tão engraçado
Que, quando faz mal, faz bem.



Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.



Ribeirinho, ribeirinho,
Que vais a correr ao léu
Tu vais a correr sozinho,
Ribeirinho, como eu.



Andei sozinho na praia
Andei na praia a pensar
No jeito a tua saia
Quando lá estiveste a andar.



Tenho um livrinho onde escrevo
Quando me esqueço de ti.
É um livro de capa negra
Onde inda nada escrevi.



O papagaio do paço
Não falava – assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.



JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - HÁ DOENÇAS PIORES QUE AS DOENÇAS - LAST POEM




HÁ DOENÇAS PIORES que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma,
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com o imaginá-las
Que são mais nossas do que a nossa vida.
Há tanta cousa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa, é nós...
Por sobre o verdor turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

19/11/1935 – 11 dias antes de falecer




LAST POEM

(ditado pelo poeta no dia da sua morte – 30/11/1935)

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

(CAEIRO)


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SOLENEMENTE



SOLENEMENTE
Carneirissimamente
Foi aprovado
Por toda a gente
Que é, um a um, animal,
Na assembleia nacional
Esse projecto do José Cabral.

Está claro
Que isso tudo
É desse pulha austero e raro
Que, em virtude de muito estudo,
E de outras feias coisas mais
É hoje presidente do conselho,
Chefe de animais,
E astro de um estado novo muito velho.

Que quadra
Isso com qualquer espécie de graça.
Nada.
A Igreja Católica ladra
E a Maçonaria passa.

E eles todos a pensar
Na vitória que os uniu
Neste nada que se viu,
Dizem, lá se conseguiu,
Para onde agora avançar?
Olhem, vão p´ra o Salazar
Que é a puta que os pariu.

4/1935


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O AMOR É QUE É ESSENCIAL

O AMOR É que é essencial.
O sexo é só um acidente.
Pode ser igual
Ou diferente.
O homem não é um animal:
É uma carne inteligente,
Embora às vezes doente.

4/1935


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ESTE SENHOR SALAZAR




ESTE SENHOR SALAZAR
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só o azar, é natural.

Oh, c´os diabos!
Parece que já choveu...

3/1935


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR



ANTÓNIO DE OLIVEIRA Salazar.
Três nomes em sequência regular...
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido
É o sentido que tudo isto tem.

3/1935


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - LIBERDADE


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doura
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa.

Livros são papeis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

3/1935


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TUDO, MENOS O TÉDIO, ME FAZ TÉDIO



TUDO, MENOS O TÉDIO, me faz tédio.
Quero, sem ter sossego, sossegar.
Tomar a vida todos os dias
Como um remédio,
Desses remédios que há para tomar.

Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto
De tantos tantos me fez nada em mim.
Minhas mãos ficaram frias
Só de aguardar o encanto
Daquele amor que as aquecesse enfim.

Frias, vazias,
Assim.

9/1934


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - BEBEDEIRA



QUE BEBEDEIRA! Mas no fundo
Há quem eu sou...
Uma visão anónima do mundo
Visto de onde estou.

Que bebedeira! Mas que bem que vejo
Todos perder
Aquele antigo e natural ensejo
Que os faria viver...

Que bebedeira... Mas os outros são
Mais bêbados do que eu...
Porque trazem nas mãos o coração
E perguntam se é seu...

8/1934


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O SILVA


Morreu o filho do barbeiro,
Uma criança de cinco anos.
Conheço o pai – há um ano inteiro
Que me barbeia e nos falamos.

Quando mo disse, o que em mim há
De coração sofreu assombro
E eu abracei-o, incerto já,
E ele chorou sobre o meu ombro.

Nunca acho uma atitude plana
Na vida estúpida e tranquila;
Mas, meu Deus, sinto a dor humana!
Nunca me tires o senti-la!

3/1934


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SONO



Tenho tal sono que pensar é um mal.
Tenho sono. Dormir é ser igual,
No homem, ao despertar do animal.

É viver fundo nesse inconsciente
Com que à tona da vida o animal sente.
É ser meu ser profundo alheiamente.

Tenho sono talvez porque toquei
Onde sinto o animal que abandonei,
E o sono é uma lembrança que encontrei.

11/1933


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ERA UM MAJOR REFORMADO



ERA UM MAJOR reformado
Que tinha aquele passado
Que os majores todos têm
Quando a reforma lhes vem.

Burocrata do combate,
Viveu como um bonifrate
O nada p´ra que nasceu.
Deu-me o sorriso, e eu
Encontrando-o não podia
Fingir-me que não sorria.

Dizia ele: «O senhor,
Que é poeta e pensador,
Nunca pode calcular
Como se pode passar
Uma vida sem pensar
Como esta que está vivida
E teve que ser mesquinha...
Nunca fiz nada da vida...»

Pois sim, pois sim,
E eu da minha?
(Eu nem posso, o que é pior,
Ser reformado em major.)

11/1933


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ENTRE O SONO E O SONHO


ENTRE O SONO e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre –
Esse rio sem fim.

9/1933


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O PIANO NOUTRO ANDAR

O PIANO noutro andar
Tem sempre um som magoado...
Sem querer, faz-me lembrar,
Com saudade, o passado.

Não um passado que houvesse,
Pelo piano repetido,
Mas um que só entristece
Sem que tivesse existido.

É um passado absoluto,
Abstracto, de toda a gente.
Penso ou cismo? Sonho ou escuto?
Sinto ou alguém em mim sente?

Por que é que, sem nexo ou jeito,
Fala este som casual
Ao coração imperfeito,
À sensação desigual?

Não sei. Mas surge do fundo
Do meu ser desconhecido
Um tédio de haver o mundo,
Um horror a ter vivido.

6/1933


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ISTO


Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação,
Não uso o coração.

Tudo que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra cousa ainda.
Essa cousa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

1933


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NÃO MEU, NÃO MEU É QUANTO ESCREVO



NÃO MEU, não meu é quanto escrevo.
A quem o devo?
De quem sou o arauto nado?
Por que, enganado,
Julguei ser meu o que era meu?
Que outro mo deu?
Mas, seja como for, se a sorte
For eu ser morte
De uma outra vida que em mim vive,
Eu, o que estive
Em ilusão toda esta vida
Aparecida,
Sou grato Ao que do pó que sou
Me levantou.
Ao de quem sou, erguido pó,
Símbolo só.

11/1932


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - AH, FELIZ QUEM NÃO PENSA




AH, FELIZ QUEM NÃO PENSA, porque a vida,
Pois que é parente seu, lhe dá guarida!
Feliz quem faz de bicho, pois que o é!
Quanto a ter crenças, antes ter só fé,
Que é não saber quem se é nem que se quer.
Ah, feliz quem não pensa, pois que é um ser.
Visto que ser é estar no espaço e dar
Consciência a um lugar.

6/1932


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - A MORTE É A CURVA DA ESTRADA




A MORTE é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

5/1932


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SOU UM EVADIDO




SOU UM EVADIDO,
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte.
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia.
Ser eu, é não ser.
Eu vivo fugido
Mas vivo a valer.

4/1931


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - AUTOPSICOGRAFIA




O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

4/1931


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - AS FORMIGAS DO ARDOR



AS FORMIGAS do ardor
Mato-as sem regas nem pós,
E não sei o que é pior –
Se ter por alguém amor
Ou alguém tê-lo por nós.

8/1930


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ENTRE O LUAR E O ARVOREDO

ENTRE O LUAR e o arvoredo,
Entre o desejo e não pensar,
Meu ser secreto vai a medo
Entre o arvoredo e o luar.
Tudo é longínquo, tudo é enredo
Tudo é não ter nem encontrar.

Entre o que a brisa traz e a hora,
Entre o que foi e o que a alma faz,
Meu ser oculto já não chora
Entre a hora e o que a brisa traz.
Tudo não foi, tudo se ignora.
Tudo em silêncio se desfaz.

8/1930


JOSÉ MARIA ALVES
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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

FERNANDO PESSOA - O SOL QUEIMA O QUE TOCA

O SOL QUEIMA o que toca.
O verde à luz desenverdece.
Seca-me a sensação da boca,
Nas minhas papilas esquece.

Eu múltiplo, ou isolado,
Povoação em mim,
Não sei que hei-de sentir, e é enfado,
Nestes momentos, ser-se assim.

Gostava, realmente,
De sentir com uma alma só,
Não ser eu só tanta gente.
De muitos, meto-me dó.

Não ter lar, vá. Não ter calma,
Está bem, nem ter pertencer.
Mas eu, de ter tanta alma,
Nem minha alma chego a ter.

8/1930


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SE SOU ALEGRE OU SOU TRISTE?


SE SOU ALEGRE ou sou triste?...
Francamente, não o sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.
Verdade, não sei que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim...
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim...
Mas a alegria é assim...

8/1930


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TER SAUDADES É VIVER



TER SAUDADES É VIVER.
Não sei que vida é a minha
Que hoje só tenho saudades
De quando saudades tinha.

Passei longe pelo mundo.
Sou o que o mundo seu fez,
Mas guardo na alma da alma
Minha alma de português.

E o português é saudades.
Porque só as sente bem
Quem tem aquela palavra
Para dizer que as tem.

7/1930


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TOMÁMOS A VILA DEPOIS DE UM INTENSO BOMBARDEAMENTO



A criança loura
Jaz no meio da rua.
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe –
Dos que bóiam nas banheiras –
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

6/1929


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NATAL



Natal. Na província neva.
Nos lares aconchegados
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo:
Por isso tenho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista por trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

12/1928


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TENHO DÓ DAS ESTRELAS



TENHO DÓ das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

12/1928


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NÃO VENHAS SENTAR-TE À MINHA FRENTE, NEM A MEU LADO



NÃO VENHAS SENTAR-TE À MINHA FRENTE, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
Quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes ao meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales –
Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e as ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.

8/1927


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - JÁ NÃO VIVI EM VÃO



JÁ NÃO VIVI em vão
Se escrevi bem
Uma canção.

A vida o que tem?
Estender a mão
A alguém?

Nem isso, não.
Só o escrever bem
Uma canção.

5/1927


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TUDO



Dizem?
Esquecem.
Não dizem?
Disseram.

Fazem?
Fatal.
Não fazem?
Igual.

Porquê?
Esperar?
- Tudo é
Sonhar.

1926


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ANTIGAZETILHA



No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada,
Uns por verem rir os outros
E os outros sem ser por nada –
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela,
Uns calados para os outros
E os outros a dar-lhes trela –
No comboio descendente
Da Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormindo, outros com sono,
E os outros nem sim nem não –
No comboio descendente
De Palmela a Portimão...

11/1926


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O MENINO DA SUA MÃE


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado –,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com o olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora, que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“O menino de sua mãe.”

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

5/1926


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O CARRO DE PAU


O carro de pau
Que bebé deixou...
Bebé já morreu,
O carro ficou...

O carro de pau
Tombado de lado...
Depois do enterro
Foi assim achado...

Guardaram o carro,
Guardaram bebé...
A vida e os brinquedos –
Cada um é o que é...

Está o carro guardado...
Bebé vai esquecendo...
A vida é p´ra quem
Continua vivendo...

E o carro de pau
É um carro que está
Guardado num sótão
Onde nada há...

A vida é a mesma
Esquecida, curiosa...
Quem sabe se o carro
Sente alguma cousa?...

4/1926


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - GLOSA - DOZE SIGNOS DO CÉU O SOL PERCORRE





Doze signos do céu o Sol percorre,
E, renovando o curso, nasce e morre
Nos horizontes do que contemplamos.
Tudo em nós é o ponto de onde estamos.

Ficções da nossa mesma consciência
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.

8/1925


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - GLOSA - NEM O BEM NEM O MAL DEFINE O MUNDO



Nem o bem nem o mal define o mundo.
Alheio ao bem e ao mal, do céu profundo
Suposto, o Fado que chamamos Deus
Rege nem bem nem mal a terra e os céus.

Rimos, choramos através da vida.
Uma coisa é uma cara contraída
E a outra uma água com um leve sal.
E o Fado fada alheio ao bem e ao mal.

8/1925


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - O AVÔ E O NETO



Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p´ra o outro dia;

E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p´ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»

1924


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NADA SOU, NADA POSSO, NADA SIGO

NADA SOU, nada posso, nada sigo.
Trago, por ilusão, meu ser comigo.
Não compreendo compreender, nem sei
Se hei-de ser, sendo nada, o que serei.

Fora disto, que é nada, sob o azul
Do largo céu um vento vão do sul
Acorda-me e estremece no verdor.
Ter razão, ter vitória, ter amor.

Murcharam na haste morta da ilusão.
Sonhar é nada, e não saber é vão.
Dorme na sombra, incerto coração.

1/1923


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NATAL



Nasce um deus. Outros morrem. A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.

Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

12/1922


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - VENTO QUE PASSAS



VENTO QUE PASSAS
Nos pinheirais
Quantas desgraças
Lembram teus ais.

Quanta tristeza
Sem o perdão
De chorar, pesa
No coração.

Minh´alma alada
Sente-te bem,
Vento na estrada
Poeirando além...

Gemes distante
Desfolhas perto...
Repassas errante
Meu passado aberto.

E ó vento vago
Das solidões
Traze um afago
Aos corações.

À dor que ignoras
Presta os teus ais,
Vento que choras
Nos pinheirais.

8/1921


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - EPIGRAMA



Os deuses são felizes.
Vivem a vida calma das raízes.
Seus desejos o Fado não oprime,
Ou, oprimindo, redime
Com a vida imortal
Não há
Sombras ou outros que os contristem.
E, além disso, não existem...

7/1920


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ONDE É QUE A MALDADE MORA?



ONDE É QUE a maldade mora?
Poucos sabem onde é.
Há maneira de o saber?
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente a não entender.

11/1919


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - BÁQUICA MEDIEVAL



O nosso patrão é pai.
Faz-nos o bem.
Bebamos à saúde dele,
E à nossa também!
Não falte trigo p´ra semente,
Remédio ao doente,
Nem vinho à gente!

O nosso rei é padrinho.
Que Deus o ajude!
Bebamos à saúde dele,
E à nossa saúde!
Não falte caridade a quem deve,
Direito a quem recebe,
Nem vinho a quem bebe!

E vá à saúde da terra,
Que é bem preciso!
Livre-nos Deus, a nós e a ela,
De seca e granizo!
Que há três coisas que Deus proibiu –
A fome, o frio,
E um copo vazio!

12/1918


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - NÃO TENHO NADA PARA TE DIZER


NÃO TENHO NADA p´ra te dizer
Salvo que a vida já não me quer.

Não tenho nada para te ouvir.
Para que ouvir-te? Não sei sentir...

Sofro nos sonhos, sofro na vida.
Não tenho norma nem direcção...

Levo o cadáver da fé perdida
Para o jazigo da ilusão.

3/1917


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - UM PIANO NA MINHA RUA



UM PIANO na minha rua...
Crianças a brincar...
O sol de domingo e a sua
Alegria a doirar...

A mágoa que me convida
A amar todo o indefinido...
Eu tive pouco na vida
Mas dói-me tê-lo perdido.

Mas já a vida vai alta
Em muitas mudanças!
Um piano que me falta
E eu não ser as crianças!

2/1917


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - DIÁRIO NA SOMBRA



Lembras-te ainda de mim?
Tu conheceste-me há muito tempo...
Eu era aquela criança triste de quem tu não gostavas,
E por quem depois, pouco a pouco, te foste interessando
(Pela angústia, e a tristeza, e mais qualquer cousa),
E de quem tu acabaste por gostar, quase sem o saber;
Lembras-te? A Criança triste que brincava na praia
Sozinho, longe dos outros, sossegadamente,
E de vez em quando lhes lançava um olhar triste mas sem pena...
Vejo que olhas para mim disfarçadamente de vez em quando...
Estás recordado? Queres ver se te recordas? Eu sei...
Sem saber sentes ainda no meu rosto calmo e triste
A criança que brincava sempre longe dos outros
E de vez em quando olhava tristemente para eles, mas sem pena?
Sei que olhas, e que não compreendes qual a tristeza
Que me faz triste...
Que não é pena, nem é saudade, nem desgosto, nem mágoa...
Ah, é a tristeza
Daquele a quem, no grande solo antenatal,
Deus disse o Segredo –
O segredo da vacuidade absoluta das cousas,
E da ilusão do mundo...
A tristeza imparável
Daquele que sabe que nada serve ou vale,
Que o esforço é um absurdo desgaste,
Que a vida é um espaço vazio,
Porque a desilusão vem sempre atrás da ilusão
E parece que a Morte é o sentido da Vida...
É isto, mas não é só isto, que tu vês no meu rosto
E faz com que olhes para mim, de vez em quando, disfarçadamente...
Há, além disto,
Aquele pasmo negro, aquele arrepio sombrio,
Que seria na alma
O ter havido um segredo de Deus
Dito no grande solo antenatal, quando a vida
Não raiava ainda ao longe
E todo o Universo luminoso e complexo
Era ainda um destino materialmente a cumprir.
Se isto me não define, nada me define
E isto não me define –
Porque o segredo que Deus me disse não era só isto
Houve outra cousa que é hoje estar do lado do irreal,
O gozo que há nisso, o meu dom de compreender o incompreensível,
O meu sentimento daquilo que não se pode sentir,
O meu garbo interior de imperador sem império,
O domínio de sonhos arquitectados na luz.
Sim, é isto que põe
Uma velhice anterior à minha infância na minha face
E no meu olhar uma angústia interior à minha alegria.
Olhas-me disfarçadamente, de vez em quando,
E não me compreendes,
E tornas a olhar, disfarçadamente e sempre...
Sem Deus não há nada senão vida
E não poderás nunca compreender.

9/1916


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - HÁ UMA VAGA MÁGOA



HÁ UMA VAGA MÁGOA
No meu coração...
Como que um som de água
Suma solidão...
Um som ténue de água...

Memoro o que, morto,
Ainda vive em mim...
Memoro-o absorto
Num sonho sem fim,
Estéril e absorto.

Será que me basta
Esta vida em vão?
Que nada se afasta
Da sua solidão...
Nem de mim me afasta?

Não sei. Sofro o acaso
Da mágoa em meu ser...
Cismo, e há em mim o ocaso
Do que quis viver –
Sempre só o ocaso.

7/1916


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TANGE A TUA FLAUTA, PASTOR



TANGE A TUA FLAUTA, pastor. Esta tarde
Pertence à dor, à tua dor que em mim arde.

Tange por isso pastor, a tua flauta a tremer.
Tange, tange, para que eu me não sinta sofrer.

Leve, um vento antigo passa entre ti e mim.
Leve, o vento regressa, e a música está no fim.

Mas nunca haverá fim ou música em meu tormento.
Tange outra vez a flauta, pastor. Deixa o vento

Estar entre ti e mim outra vez, como a sombra triste
Que está na tua alma, e na minha alma, e não existe.

6/1916


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TENHO UM SEGREDO QUE NEM EU PRÓPRIO CONHEÇO


TENHO UM SEGREDO que nem eu próprio conheço...
Data de almas minhas anteriores à actual...
Outras paisagens sugerem-se através das janelas
E a hora visível recua até ao fundo
Do meu ser e intercala-se
Uma ideia de mim entre compreender e olhar...

Tenho um segredo que o Tempo não inclui
Nem a Vida, nem a sombra nos vales
Chamada sentir, nem os palmeirais do sonho,
Não – nem o teu gesto lento de enfado
Escrito ainda mole nas pregas da tua túnica
(Tudo com sombrias águas ao fundo).
Em torno ao meu sono falso ou profundo eu circulo
E a voz do encantador afastando-me de agir...

Murmúrio das águas...
Humidade das pedras...
Nitidez sem arestas dos rochedos...
O segredo disto tudo é outras eras...
O sentido para que tudo isto se inclina espelha-se no infinito...
E a vida que vivi em tudo isto, e que sofri e amei
Antes do Tempo, parece hoje visto assim ser meu de longe,
É a bailadeira ao canto esperando a vez de dançar
Árabe e com a luz da porta oblíqua sobre os ombros.

4/1916


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - DEUS SABE MELHOR DO QUE EU


DEUS SABE melhor do que eu
Quem sou eu
Por isso a sorte que me deu
É aquela em que melhor estou.

Deus sabe quem eu sou e alinha
Minhas acções
Duma forma que não é a minha
Mas ele tem suas razões.

2/1915


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SABER? QUE SEI EU?



SABER? Que sei eu?
Pensar é descrer.
- Leve e azul é o céu -
Tudo é tão difícil
De compreender!...

A ciência, uma fada
Num conto de louco...
- A luz é lavada –
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!

11/1914


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - CHUVA OBLÍQUA IV



Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

3/1914


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - CHUVA OBLÍQUA I



Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

3/1914


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ROMPER TODOS OS LAÇOS



ROMPER TODOS OS LAÇOS,
Galgar todos os muros,
Fazer todas as estátuas brancas em pedaços
E deixá-las sobre os monturos.

Todo o universo em mim, todo o Universo
Dentro de mim disperso –
Estrelas, terras, expansões de céus
Tudo submerso
Em confusões e Deus.

11/1913


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÀS VEZES SOU O DEUS QUE TRAGO EM MIM



ÀS VEZES SOU O DEUS que trago em mim
E então eu sou o deus, e o crente e a prece
E a imagem de marfim
Em que esse deus se esquece.

Às vezes não sou mais do que um ateu
Desse deus meu que eu sou quando me exalto.
Olho em mim todo um céu
E é um mero oco céu alto.

6/1913


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ABDICAÇÃO



Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei;
E meu ceptro e coroa – eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas, de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

1/1913


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - PARAÍSO




Se houver além da Vida um Paraíso,
Outro modo de ser e de viver,
Onde p´ra ser feliz seja preciso
Apenas ser;

Onde uma Nova Terra áurea receba
Lágrimas, já diversas de alegria,
E em Outro Sol nosso olhar outro beba
Um Novo e Eterno Dia;

Onde o Áspide e o Pomba de nossa alma
Se casem, e com a Alma Exterior
Numa unidade dupla – sua e calma –
Nossa alma viva, e à flor

De nós nosso íntimo sentir decorra
Em outra Cousa que não Duração,
E nada canse porque viva ou morra –
Acalmaremos então?

Não: uma outra ânsia, a de infelicidade,
Tocar-nos-á como uma brisa que erra,
E subirá em nós a saudade
Da imperfeição da Terra.

11/1912


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - DORME ENQUANTO EU VELO


DORME ENQUANTO eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.

7/1912


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - CANSADO DO UNIVERSO E SOCIEDADE



CANSADO DO UNIVERSO e sociedade,
Da abstracção que não finda e que é o fundo
Do meu fatal pôr-olhos sobre o mundo,
Pobre de amor e rico de ansiedade,
Já nada me seduz nem me persuade.

12/1911


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - JUNHO DE 1911



Vinte e três anos, vãos inutilmente,
Sou vinte e três remorsos e fastios.
Vinte e três portos de lembrar, sombrios,
Cada um dos passados descontente,

Cada um triste de se ver presente
Na mesma vida vã que os outros, rios
De dor atravessaram fugidios
Só mortas algas indo na corrente

De futuros iguais meio em terror
Quase na crença desassossegada
De ser eternamente assim, passada.

A vida trémula, no eterno horror
De passar, desejar e, desejando,
Nada haver, e ir correndo e acabando.

6/1911


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - SINTO ÀS VEZES EM MIM NAS HORAS CALMAS



SINTO ÀS VEZES EM MIM nas horas calmas
Em combate de ânsias desiguais
Intercruzadas vidas ancestrais
A múltipla unidade de ermas almas.

8/1910


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - TRISTEZA


Falo-me em versos tristes,
Entrego-me a versos cheios
De névoa e de luar;
E esses meus versos tristes
São ténues, céleres veios
Que esse vago luar
Se deixa pratear.

Sou alma em tristes cantos,
Tão tristes como as águas
Que uma castelã vê
Perderem-se em recantos
Que ela em soslaio, de pé,
No seu castelo de prantos
Perenemente vê...
Assim as minhas mágoas não domo
Cantam-me não sei como
E eu canto-as não sei porquê.

7/1910


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÀS VEZES, EM SONHO TRISTE




Às VEZES, em sonho triste,
Aos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.

11/1909


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - AGNOSTICISMO SUPERIOR



Foi-se do dogmatismo a dura lei
E o criticismo não foi mais feliz.

«Nada sei» o Agnóstico enfim diz...

Eu menos, pois nem sei se nada sei.

11/2008


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ABANDONADA



Inda fechadas estão
As janelas. Já é dia –
Meio-dia. A escuridão
Tem sombras de claridade
De janela em cada vão.

O passo pára ao entrar
Nessa estranha soledade,
Tão perto e longe do dia.
De silêncio, não de frio,
A vaga sala está fria.

Há um vazio no ar
Cuja tristeza apavora;
E sem ver, ouvir, lembrar,
O pronto coração sente
Que no silêncio alguém chora
Lágrimas vãs a rolar
Dormente, caladamente,
Tristemente e devagar.

11/1908


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - A KEATS




(Depois de ler o seu soneto:
« Wen I have fears that I may cease to be»)

Estatuário da poesia, tu disseste:
«Ah, se eu morrer sem pôr em verso ardente
Tudo – sim, tudo – que a minha alma sente!»
E morreste, e em pouco! Súbito horror!
Se comigo assim for!
Se eu também não puder dizer ao mundo
O meu sentir atónito e profundo!
Se eu morrer dentro em mim guardando fria
A minha inspiração e a minha dor,
Como tu, Estatuário da poesia!

11/1908


JOSÉ MARIA ALVES
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - AMAR



Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - TRISTEZA NO CÉU



No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.
Os anjos olham-no com reprovação,
e plumas caem.
Todas as hipóteses: a graça, a eternidade, o amor
caem, são plumas.

Outra pluma, o céu se desfaz.
Tão manso, nenhum fragor denuncia
o momento entre tudo e nada,
ou seja, a tristeza de Deus.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - CANÇÃO AMIGA


Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - ESPECULAÇÕES EM TORNO DA PALAVRA HOMEM


Mas que coisa é homem,
que há sob o nome:
uma geografia?

um ser metafísico?
uma fábula sem
signo que a desmonte?

Como pode o homem
sentir-se a si mesmo,
quando o mundo some?

Como vai o homem
junto de outro homem,
sem perder o nome?

E não perde o nome
e o sal que ele come
nada lhe acrescenta

nem lhe subtrai
da doação do pai?
Como se faz um homem?

Apenas deitar,
copular, à espera
de que do abdômen

brote a flor do homem?
Como se fazer
a si mesmo, antes

de fazer o homem?
Fabricar o pai
e o pai e outro pai

e um pai mais remoto
que o primeiro homem?
Quanto vale o homem?

Menos, mais que o peso?
Hoje mais que ontem?
Vale menos, velho?

Vale menos, morto?
Menos um que outro,
se o valor do homem

é medida de homem?
Como morre o homem,
como começa a?

Sua morte é fome
que a si mesma come?
Morre a cada passo?

Quando dorme, morre?
Quando morre, morre?
A morte do homem

consemelha a goma
que ele masca, ponche
que ele sorve, sono

que ele brinca, incerto
de estar perto, longe?
Morre, sonha o homem?

Por que morre o homem?
Campeia outra forma
de existir sem vida?

Fareja outra vida
não já repetida,
em doido horizonte?

Indaga outro homem?
Por que morte e homem
andam de mãos dadas

e são tão engraçadas
as horas do homem?
mas que coisa é homem?

Tem medo de morte,
mata-se, sem medo?
Ou medo é que o mata

com punhal de prata,
laço de gravata,
pulo sobre a ponte?

Por que vive o homem?
Quem o força a isso,
prisioneiro insonte?

Como vive o homem,
se é certo que vive?
Que oculta na fronte?

E por que não conta
seu todo segredo
mesmo em tom esconso?

Por que mente o homem?
mente mente mente
desesperadamente?

Por que não se cala,
se a mentira fala,
em tudo que sente?

Por que chora o homem?
Que choro compensa
o mal de ser homem?

Mas que dor é homem?
Homem como pode
descobrir que dói?

Há alma no homem?
E quem pôs na alma
algo que a destrói?

Como sabe o homem
o que é a sua alma
e o que é alma anónima?

Para que serve o homem?
para estrumar flores,
para tecer contos?

Para servir o homem?
Para criar Deus?
Sabe Deus do homem?

E sabe o demónio?
Como quer o homem
ser destino, fonte?

Que milagre é o homem?
Que sonho, que sombra?
Mas existe o homem?



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - CARTA


Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objecto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado;
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando o tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança,
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - CONCLUSÃO



Os impactos de amor não são poesia
(tentaram ser: aspiração noturna).
A memória infantil e o outono pobre
vazam no verso de nossa urna diurna.

Que é poesia, o belo? Não é poesia,
e o que não é poesia não tem fala.
Nem o mistério em si nem velhos nomes
poesia são: coxa, fúria, cabala.

Então, desanimamos. Adeus, tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - INTIMAÇÃO


Abre em nome da lei.
Em nome de que lei?
Acaso lei sem nome?
Em nome de que nome
cujo agora me some
se em sonho o soletrei?
Abre em nome do rei.

Em nome de que rei
é a porta arrombada
para entrar o aguazil
que na destra um papel
sinistramente branco
traz, e ao ombro o fuzil?

Abre em nome de til.
Abre em nome de abrir,
em nome de poderes
cujo vago pseudônimo,
não é de conferir:
cifra oblíqua na bula
ou dobra na cogula
de inexistente frei.

Abre em nome da lei.
Abre sem nome e lei.
Abre mesmo sem rei.
Abre, sozinho ou grei.
Não, não abras; à força
de intimar-te, repara:
eu já te desventrei.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - ESTAMPAS DE VILA RICA - V



São palavras no chão
e memória nos autos.
As casas inda restam,
os amores, mais não.

E restam poucas roupas,
sobrepeliz de pároco,
a vara de um juiz,
anjos, púrpuras, ecos.

Macia flor de olvido,
sem aroma governas
o tempo ingovernável.
Muros pranteiam. Só.

Toda história é remorso.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - CONSOLO NA PRAIA



Vamos, não chores
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te – de vez – nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - QUADRILHA



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.



JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - OS BENS E O SANGUE - V



- Não judie com o menino,
compadre.
- Não torça tanto o pepino,
major.
- Assim vai crescer morfino,
sinhô!

- Pedimos pelo menino porque pedir é o nosso destino.
Pedimos pelo menino porque vamos acalentá-lo.
Pedimos pelo menino porque já se ouve planger o sino
do tombo que ele levar quando monte a cavalo.

- Vai cair do cavalo
de cabeça no valo.
Vai ter catapora
amarelão e gálico
vai errar o caminho
vai quebrar o pescoço
vai deitar-se no espinho
fazer tanta besteira
e dar tanto desgosto
que nem a vida inteira
dava para contar.
E vai muito chorar.
(A praga que te rogo
para teu bem será.)



JOSÉ MARIA ALVES
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