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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

GOMES LEAL - AS CRIANÇAS






Repele alguém do Mestre, brutalmente,
os louros querubins de rostos finos.
- Mas o sábio Rabi lhes diz, clemente:
«Deixai virem a mim os pequeninos.

Deixai-os vir a mim. Sou o ceifeiro
que nada perde, e os mundos vem ceifar.
- Feliz de quem como estes é rasteiro.
- Ai daquele, cruel, que os molestar!»


WALT WHITMAN - PLENO DE VIDA AGORA






Pleno de vida agora, concreto, visível,
Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três dos Estados Unidos,
A ti que viverás dentro de um século ou vários séculos mais,
A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

Quando leres isto, eu que era visível, serei invisível,
Agora és tu, concreto, visível, aquele que me lê, aquele que me procura,
Imagino quanto serias feliz se eu estivesse a teu lado e fosse teu companheiro,
Sê tão feliz como se eu estivesse contigo. (Não penses que não estou agora junto a ti.)

Tradução de José Agostinho Baptista

WALT WHITMAN - QUANDO OUVI O DOUTO ASTRÓNOMO



Quando ouvi o douto astrónomo,
Quando em colunas me apresentaram as provas e os números,
Quando me mostraram as listas e os diagramas
para somar, dividir e medir,
Quando ouvi o astrónomo discorrer com muitos aplausos na sala,
Quando cedo me senti inexplicavelmente cansado e doente,
Até me levantar e fugir e caminhar sozinho,
No húmido e místico ar nocturno, olhando de vez em quando,
E em perfeito silêncio as estrelas.

Tradução de José Agostinho Baptista

POEMA AMERÍNDEO - O DEUS DO MILHO







- Eu, o Milho Florido, já nasci com fitas vermelhas.
- O nosso alimento matiza-se de cores diversas:
ergue-se além para mostrar os grãos
diante do deus que faz brilhar o dia.

- Na região das chuvas e das brumas
só as preciosas plantas da água podem crescer:
eu sou a criatura do deus,
eis-me: sou a sua criatura!

- Apenas entre as cores vive o teu coração:
cantas no átrio de musgo aquático,
fazes dançar os príncipes, tu, na terra
fincado.

Deus te criou, fez-te nascer como uma corola,
pintou-te como se pintam os cantos.
Os mtoltecas pintavam:
os livros pintados pintaram-se até à morte:
chegaste à perfeição, tu,
inteiro.

Poema mudado para português por Herberto Helder

CAMILO PESSANHA - CRISTALIZAÇÕES SALINAS






Cristalizações salinas,
Myrrai na areia o plasma vivaz,
Não se desenvolvam as ptomaínas.
Que adocicado! Que obsessão de cheiro!
Putrescina! – Flor de lilás!
Cadaverina! – Branca flor do espinheiro!

Só o meu crânio fique
Rolando insepulto no areal,
Ao abandono e ao acaso do simum...
Que o sol e o sal o purifique.

CESÁRIO VERDE - ALTA NOITE, OS PLANETAS ARGENTADOS







Alta noite, os planetas argentados
Deslizam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas águas mansíssimas do lago.

Pudesse eu ser a lua, a lua terna,
E faria que a noite fosse eterna!

HILDEGARD VON BINGEN (1098-1179) - Ó QUÃO ADMIRÁVEL


Ó quão admirável é a presciência do divino coração,
na qual previu toda a criatura.
Pois quando Deus contemplou o rosto do homem,
que formou,
todas as suas obras
divisou em sua forma inteiramente.
Ó quão admirável é o sopro,
que assim animou o homem.

Tradução de Joaquim Félix de Carvalho e de José Tolentino Mendonça

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

FREI AGOSTINHO DA CRUZ (1540-1619) - AO TRISTE ESTADO



Passa por este vale a Primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelos campos aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera;

Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem;
Os dias mais fermosos amanhecem;
Não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.

Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser.

CECCO (1258-1320) - SE FORA FOGO, EU ABRASAVA O MUNDO




Se fora fogo, eu abrasava o mundo,
Se fora vento eu o arrasaria,
Se eu fora a água então o afogaria,
Se fora Deus, mandava-o prò profundo.

Se fora papa, em delírio jucundo
A todos os cristãos eu prenderia,
Se fora imperador, o que faria?
Golpeava a todos o pescoço, fundo.

Se fosse morte, ao meu pai procurava,
Se fosse vida, o não queria mais
E coisa igual com minha mãe se dava.

Se fosse Cecco, como o sou de mais,
As mais lindas mulheres para mim guardava
E deixaria as feias para os mais.

Tradução de Herculano de Carvalho

GEORGE HERBERT (1593-1633) - UM TOSCO ALTAR, SENHOR, EU TE LEVANTO






Um tosco ALTAR, Senhor, eu te levanto,
Feito de coração, cimentado com pranto:
As suas partes têm tua estrutura,
E não o fere ferramenta impura.

Um coração
Por tua mão
Cortado, medra
Na dura pedra.
Pois cada parte
Para cantar-te
Se une e cresce
Em pedra-prece.

E se eu alcanço paz com tal altar,
Que as pedras nunca parem de cantar:
Faz que teu SACRIFÍCIO santo seja o meu,
Santifica este altar que o poema te ergueu.

Tradução de Augusto de Campos

TOMMASO CAMPANELLA (1568-1639) - DE SI MESMO





Solto e amarrado, acompanhado e só,
em gritos e calado, aos mais confundo:
louco aos olhos mortais do baixo mundo,
sábio porém pra o Deus de quem sou pó.

Pregado à terra, para o Céu eu vou,
na carne triste um espírito jucundo:
se da pesada carga sitibundo,
as asas me alçam deste chão sem dó.

A dúbia guerra faz virtude tudo.
Breve é face ao eterno qualquer tempo.
Nada é mais leve que uma carga amada.

Na fronte eu trago a imagem estampada
do meu amor, seguro de que a tempo
hei-de chegar onde me entendam, mudo.

Tradução de Jorge de Sena


GUILHERME DE SAINT-THIERRY (século XII) - PARA TI SENHOR





Para Ti Senhor
se dirigem os meus olhos,
assim o seja sempre.

Para Ti, em Ti e através de Ti
encontram sentido as tensões da minha alma;
quando declinarem minhas forças,
que nada são,
clame por Ti tudo o que em mim desaba.

Esconde-me, peço-Te, no abrigo dos Teus olhos.
Põe-me em segurança na Tua tenda,
longe da rixa das línguas.

Tradução de José Tolentino Mendonça


ELENA BONO (1921) - OS CANTOS DA MONTANHA





Só quem todos os dias vai morrer
pode cantar assim.
Era como cantariam
as torrentes
as grandes ervas bravas
a montanha.
O vosso coração continha tudo
dentro de si:
ervas, águas, montanha,
humano coração
maior que a morte

Tradução de Jorge de Sena

SANTA TERESA DE ÁVILA (1515-1582) - FORMOSURA QUE EXCEDEIS



Formosura que excedeis
mesmo as grandes formosuras!
Sem ferir, sofrer fazeis,
e sem sofrer desfazeis
o amor das criaturas.
Oh, laço que assim juntais
duas coisas tão díspares!,
não sei porquê vos soltais,
pois atado força dais
pra ter por bem os pesares.
Quem não tem ser vós juntais
com o Ser que não se acaba;
sem acabar acabais,
e sem ter que amar amais,
engrandeceis vosso nada.

Tradução de José Bento

BERNARDO DE CLARAVAL (século XII) - INCLINA PARA TI, Ó DEUS






Inclina para Ti, ó Deus
aquele pouco que quiseste eu fosse.

De minha pobre existência suplico
toma os anos
que me restam.

Quanto aos anos que se perderam
experimento humilhação e desgosto,
não desprezes meu pranto.

Em mim não há senão
o desejo da Tua sabedoria
meu coração é agora
minha única oferta.

Tradução de José Tolentino Mendonça

POESIA ESPANHOLA - ANÓNIMO DO SÉCULO XVII - A CRISTO CRUCIFICADO






Não me move, meu Deus, para querer-te
o céu que me tens tanto prometido;
não me move o inferno tão temido
para deixar por isso de ofender-te.
Moves-me tu, Senhor; move-me o ver-te
cravado numa cruz e escarnecido;
move-me ver teu corpo tão ferido,
entre ofensas e morte conhecer-te.
Move-me o teu amor, de tal maneira
que, mesmo sem o céu, inda te amara,
e mesmo sem o inferno, eu te temera.
Nada tens que me dar pra que te queira;
pois, embora o que espero não esperara,
o mesmo que te quero te quisera.

Tradução de José Bento


PAUL GERHARDT (1607-1676) - A SANTA FACE






Fronte sangrenta e ferida
De opróbrio e sofrimento,
Ó fronte escarnecida
De espinhos no tormento,
Fronte há pouco adornada
De louros e jasmim,
Hoje tão ultrajada,
Sê bendita de mim!

Tu, ó face tão nobre
Que os grandes desta vida
Honravam, deste modo
És agora cuspida!
Como te vejo pálida!
Quem a luz desse olhar,
Que o sol não igualava,
Nos veio assim turvar?

O que sofres, Senhor,
É meu pesado fardo;
De mim, tão pecador,
Suportas o pecado.
Repara: só castigo
Mereci da tua mão:
Dá-me tu, compassivo,
A luz de teu perdão!

Tradução de Herculano de Carvalho

GIORDANO BRUNO (1548-1600) - BEM QUE A MARTÍRIOS TU ME TENS SUJEITO



Bem que a martírios tu me tens sujeito
devo-te muito e te sou grato, Amor:
com nobre chaga me rasgaste o peito,
e o coração me deste a um tal senhor,

de tão excelso e de tão vivo aspeito,
na terra imagem do divino autor.
Pense quem quer que é ímpio o meu destino,
se morro esp´rança e vivo desatino.

Contenta-me alta empresa;
e quando o fim clamado me escapara,
e em tanto arder minh´alma se gastara,

basta que seja nobremente acesa,
e que eu mais alto ascenda
e do número ignóbil me defenda.

Tradução de Jorge de Sena



DIOGO BERNARDES (1530-1595) - ONDE POREI MEUS OLHOS QUE NÃO VEJA





Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?

Já sei como se engana quem deseja,
Em vão amor, firme contentamento:
De que nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz esta alma sojigada
Que dele está pendendo o meu desejo...

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada:
Que, quanto mais me chego, menos vejo!

WILLIAM BLAKE (1757-1827) - VER NUM GRÃO DE AREIA UM MUNDO





Ver num grão de areia um mundo
numa flor um céu profundo;
ter na mão a infinidade,
num minuto a eternidade...

O morcego que volita
pela noite, esse acredita;
mas a coruja que grita,
porque não crê anda aflita...

Olha a dor: é um tecido
com a alegria: um vestido
para a alma. Sob a dor
sempre a alegria anda à flor...

Cada lágrima chorada
Torna-se em criança alada...

Balir, uivar – que sei eu?
ondas a bater no céu...

Quem duvida do que vê,
Por mais que faça, não crê.
Olha o sol, se duvidava:
Logo, logo se apagava...

Deus é clarão na amargura
das almas da noite escura;
veste o manto de Jesus
para as que vivem à luz.

Tradução de Luiz Cardim

CHRISTIAN HOFMANN VON HOFMANNSWALDAU (1617-1679) - O MUNDO





O que é o mundo e o seu brilho afamado?
O que é o mundo e todo o seu esplendor?
Uma aparência vil em espaço limitado,
Um breve raio na noite de céu ameaçador,
Um campo colorido onde verdejam cardos,
Um belo hospital onde a doença é astro,
Uma casa de escravos onde tudo são fardos,
Um túmulo já podre coberto de alabastro.

Nós, homens, construímos sobre um terreno assim,
E é a ele que a carne como um ídolo abraça.
Vem, alma, vem e ensina-nos o olhar sem fim
Para além do círculo que este mundo nos traça!
Liberta-te da tua mesquinha ostentação,
Vê como o seu prazer te faz pesada e presa:
E sem esforço darás com o cais da salvação
Onde a eternidade se casa com a beleza.

Tradução de João Barrento

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863) - A VIDA DO HOMEM


Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára-turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á-bê-cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno...
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.

Tradução de Alexandre O´Neill


JUAN DE TASSIS (1582-1622) - DEFINIÇÃO DE MULHER


É a mulher um mar só tempestade,
uma volúvel vela a todo o vento,
um cometa de fácil movimento,
no rosto sol, na alma lua em quantidade.
Fé de inimigo, sem qualquer lealdade,
breve descanso e imortal tormento;
ligeira mais que o próprio pensamento,
para suportar um peso, e crueldade.
É mais que víbora arrogante e fera;
pra seu prazer, de cera derretida,
e prò alheio mais dura do que a palma;
cobre dentro, que fora ouro tempera,
e é um doce veneno para a vida,
que nos mata sangrando-nos a alma.

Tradução de José Bento


VICTOR HUGO (1802-1885) - AMANHÃ, PELA AURORA EM QUE ALVEIAM OS CAMPOS






Amanhã, pela aurora em que alveiam os campos,
Eu partirei. Vê tu, eu sei que aí me esperas.
Irei pelas florestas, irei pelos outeiros,
Não posso assim ficar longe de ti mais horas.

Caminharei de olhos fitos no pensamento,
Sem nada ver de fora, sem ouvir nenhum ruído,
De mãos cruzadas, só, assim curvado, incógnito,
Triste, terei o dia como a noite vivido.

Não verei essa tarde esplendorosa e escura,
As velas no horizonte descendo para Harfleur,
E ao chegar, porei na tua sepultura
Um ramo de azevinho e de giesta em flor.

Tradução de Filipe Jarro


HUANG WAN-CHIUNG (1712-1763) - O ORVALHO ALJOFRA






O orvalho aljofra
os bambus verdes.
Dir-se-iam lágrimas.
O vento dormente
perpassa no loto
fazendo tombar
uma pétala rósea.

Devagar a noite
estende o seu manto.
Pelo meu caminho
passam pirilampos.
Das bandas do leste
vem o canto suave
de uma flauta distante.

Tradução de António Ramos Rosa

WILLIAM SHAKESPEARE (1564-1616) - DE TI ME SEPAREI NA PRIMAVERA






De ti me separei na Primavera:
quando o radioso Abril, ao sol voando,
em cor e luz, a plenas mãos, cantando,
nova alegria entorna pela esfera...

No viridente bosque até dissera
o pesado Saturno ver folgando...
Porém nem cor vistosa ou cheiro brando
lograram incender minha quimera.

A brancura dos lírios, não a vi...
O vermelhão das rosas, desmaiava...
Eram fantasmas só: ao pé de ti
- o seu modelo – quanto lhes faltava!

Par´cia inverno; e eu, a viva alfombra,
só pude imaginá-la a tua sombra.

Tradução de Luiz Cardim


AUGUST GRAF VON PLATEN (1796-1835) - TRISTÃO






Quem olhou a beleza bem no fundo,
À morte logo se foi entregar;
Não serve para as tarefas deste mundo,
Mas ante a morte irá estremecer
Quem olhou a beleza neste mundo!

Eterna é para ele a dor de amar,
Pois nesta terra só um louco espera
A um apelo assim corresponder:
Aquele a quem do belo a seta fere
Eterna é para ele a dor de amar!

Ah, como fonte desejara secar,
Sorver veneno em cada sopro mudo,
E em cada flor essa morte cheirar:
Quem olhou a beleza bem no fundo,
Ah, como fonte desejara secar!

Tradução de João Barrento

GWALTER MECHAIN (1761-1849) - NOITE






A noite de sombra e de silêncio
Mergulha o mundo na escuridão.
O sol recolhe ao leito do mar
Água de prata descida da lua.

Tradução de José Domingos de Morais


JO MYÓNG-LI (1697-1756) - OS GANSOS SELVAGENS







Os gansos selvagens
foram todos embora
E quantas vezes a geada
já não se formou?

Longa longa
é a noite outonal
Cresce a nostalgia
neste viajante

O luar que alumbra o jardim
me faz sentir
em casa

Tradução de Yun Jung Im e Alberto Marsicano

DAFYDD INAWR (1751-1827) - EPITÁFIO PARA UMA MENINA






Os meus pecados e os meus desgostos
Eu não os vejo.
Por mim não choreis.
Eu estou curada de toda a doença
E no meu túmulo
Eu sou feliz.

Tradução de José Domingos Morais


DELMIRA AGUSTINI (1885-1914) - O INEFÁVEL






Eu morro estranhamente... Mas não me mata a Vida,
a Morte não me mata, não me mata o Amor;
morro de um pensamento silente qual ferida...
Não sentistes jamais a estranha dor

de um pensamento imenso que se arraiga na vida
devorando alma e carne, sem conseguir dar flor?
Nunca levastes dentro a estrela adormecida
que vos abrasava todos e não dava um fulgor?

O cume dos Martírios!... Levar eternamente,
dilacerante e árida, a trágica semente
como um dente feroz nas entranhas cravada!...

Mas arrancá-la um dia na flor que, salvadora
e inviolável, se abrisse... Ah, maior não fora
ter a cabeça de Deus entre as mãos levantada!

Tradução de José Bento

FILINTO ELÍSEO (1734-1819) - ESTENDE O MANTO, ESTENDE, Ó NOITE ESCURA





Estende o manto, estende, ó noite escura,
enluta de horror feio o alegre prado;
molda-o bem c´o pesar dum desgraçado,
a quem nem feições lembram da ventura.

Nubla as estrelas, céu, que esta amargura
em que se agora ceva o meu cuidado,
gostará de ver tudo assim trajado
da negra cor da minha desventura.

Ronquem roucos trovões, rasguem-se os ares,
rebente o mar em vão n´ocos rochedos,
solte-se o céu em grossas lanças de água.

Consolar-me só podem já pesares;
quero nutrir-me de arriscados medos,
quero saciar de mágoa a minha mágoa!

ANGELUS SILESIUS (1624-1677) - EPIGRAMAS



O que é bom permanece

Pura como o ouro mais fino, forte como um rochedo,
Clara como cristal: eis da alma o segredo.

Serás o que Deus é

Chego ao último fim e ao primeiro começo
Se a Deus em mim e a mim em Deus conheço;
E se for o que Ele é, serei um céu nos céus,
Palavra na palavra, um deus em Deus.

Sou como Deus e Deus é como eu

Sou grande como Deus. Ele igual aos pequenos;
Nem Ele é mais do que eu, nem eu do que Ele menos.

Deus não vive sem mim

Eu sei que Deus é nada no dia em que eu me for;
Sem mim, tem de entregar a alma ao Criador.

Sem porquê

A rosa é sem porquê, está em flor porque é flor,
Não pergunta se a vemos, de si não quer saber.

Acaso a essência

Homem, busca a essência, pois se o mundo acabar
O acaso vai morrer, a essência vai ficar.

Tradução de João Barrento



LORD BYRON (1788-1824) - ESTÂNCIAS PARA MÚSICA






Muita mulher tem beleza,
nenhuma a tua magia;
e a tua voz tal riqueza,
que nem a da melodia
por sobre as águas do mar:
quando, num encantamento,
sonhando adormece o vento
e a onda pára um momento
e desfalece, a brilhar...

E a lua no céu fiando
a sua teia, a sorrir;
e o mar brandamente arfando
qual criancinha a dormir:
assim, dentro da minha alma,
eu me inclino, ao encontrar-te,
me suspendo, a escutar-te,
me curvo, para adorar-te:
com funda emoção, mas calma.

Tradução de Luiz Cardim


VOROSMARTY MIHÁLY (1800-1855) - QUIMERA





Por teu amor,
destruía a razão
e, com ela, todos os pensamentos,
e das doces imagens região;
alma soltava aos ventos,
por teu amor.

Por teu amor,
árvore era no cume
de rocha, verde folhagem vestia,
sofrendo raio, temporal em fúria,
e no Inverno morreria,
por teu amor.

Por teu amor,
pedra de rocha era,
ali no fundo em chama ardente,
numa dor insuportável deveras,
sofrendo mudamente,
por teu amor.

Por teu amor,
alma solta um dia
a Deus pediria que devolvesse,
ornando-me com virtude maior,
e, alegre, eu ta daria,
por teu amor.

Tradução de Ernesto Rodrigues

COSTACHE CONACHI (1777-1849) - FINO-ME, QUE DOR ME ARDE!





Fino-me, que dor me arde!
De quem pena hei-de querer?
Tudo é sem dó nem piedade,
Tudo diz: morre a sofrer!

Nem suspiro, nem lamento,
Nem ferida em peito a arder
Trazem dó, mas sim tormento...
Tudo diz: morre a sofrer!

Peço à gente, rezo ao santo,
Se o dó alívio me der...
Não há dó pelo meu pranto,
Tudo diz: morre a sofrer!

Morte chamo, tarda a morte,
Não se chega a quem a quer.
Tudo é cruel co´a minha sorte...
Tudo diz: morre a sofrer!

Tradução de Doina Zugravescu

LEI YÂU (1611-1680) - DE PAÍSES OCIDENTAIS VEIO O ESTRANHO OBJECTO




De países ocidentais veio o estranho objecto
Com o qual temporariamente se consegue distinguir aquilo que as enevoadas pupilas vêem turvadamente.
Os óculos são por si mesmo brilhantes.
tornam nítidos os objectos que se vêem indistintamente.
Num dia de lazer, compus estes versos para os elogiar.
No ano passado, quando aprendia o I-Keng,
Incomodei os óculos, para me servirem de luz.
Já não me atrevo a desperdiçar o resto da minha vida.

Tradução de Luís Gonzaga Gomes

PERCY BYSSHE SHELLEY (1792-1822) - A FILOSOFIA DO AMOR





Correm as fontes ao rio
os rios correm ao mar;
num enlace fugidio
prendem-se as brisas no ar...
Nada no mundo é sozinho:
por sublime lei do Céu,
tudo frui outro carinho...
Não hei-de alcançá-lo eu?

Olha os montes adorando
o vasto azul, olha as vagas
uma a outra se osculando
todas abraçando as fragas...
Vivos, rútilos desejos,
no sol ardente os verás:
- Que me fazem tantos beijos,
se tu a mim mos não dás?

Tradução de Luiz Cardim

JOSÉ CADALSO (1741-1782) - ANACREÔNTICA






Quem é esse que desce
por aquela colina,
de garrafa na mão,
com um riso que brilha,
de pâmpanos e hera
a cabeça cingida,
cercado de zagais,
rodeado de ninfas,
que tocando pandeiros
dão brados de alegria,
celebram os seus feitos,
aplaudem sua vinda?
Por certo será Baco,
por certo o pai das vinhas.
Pois não, que é o poeta
autor desta poesia.

Tradução de José Bento



PAUL FLEMING (1609-1640) - A SI




Inflexível serás. Darás sem perder nada.
Não cederás à morte. Põe-te acima da inveja.
Deleita-te contigo, e não penses que seja
Um mal se aqui e agora a sorte te for negada.

O que te aflige e encanta a ti foi destinado.
Aceita esse teu fardo. Não há que arrepender.
Antes que alguém to mande, faz o que há a fazer.
Aquilo que tu esperas não te há-de ser negado.

Lamentos e louvores? Para quê? Sorte e azares
Cada um é que os faz. Olha as coisas da vida:
Tudo isso está em ti, deixa essa vã corrida,

Retoma a consciência antes de avançares.
Quem é senhor de si e cultiva a medida,
Nada há no vasto mundo sobre que não decida.

Tradução de João Barrento

TUKARAM (1608-1649) - TU O MEU AVATAR




Tu o meu avatar
Eu renascendo sem cessar
Perseguindo a união
Nós os dois

A minha alegria o teu corpo
As tuas delícias a minha presença
Eu torno-te visível
Tu tornas-me infinito

Um só corpo nós os dois
Eu em Ti Tu em Mim

Nenhuma diferença
entre nós

Tradução de Jorge de Sousa Braga

POESIA CELTA (século XVII) - A LÍNGUA DAS MULHERES






Eu li num livro que o discurso do mundo
Tem oito partes.
E li também que as mulheres repartem
Sete das oito à sua conta.

O meu desejo é que lhes faça
Mui bom proveito!

Tradução de José Domingos de Morais

POESIA CELTA (século XVII) - PENSAMENTOS DE MORTE



Quando um homem passa dos quarenta
Pode ainda mostrar o vigor
De uma árvore coberta de folhas.

Mas ao ouvir o ruído de um túmulo
Que se descerra e abre
Mudam-se as cores da sua face.

Tradução de José Domingos Morais

YUAN MEI (1716-1797) - MUITO ESTRANHO SEMPRE ME PARECEU







Muito estranho sempre me pareceu
Os homens adorarem um deus.
E a vida a esse deus dedicarem
E diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
Da matéria da sombra ou do vento.

Tradução de Maria Ondina Braga

YUNUS EMRE (século XIII) - TIROU-ME TEU AMOR DE MIM






Tirou-me Teu amor de mim
De Ti preciso e só de Ti
Noites e dias ando assim
De Ti preciso e só de Ti

Nem me alegra ter e haver
Nem me entristece nada ter
Amor me está sempre a aquecer
De Ti preciso e só de Ti

Morte de amor tem quem Te amar
Que empurra até ao fundo do mar
Tua presença enche o lugar
De Ti preciso e só de Ti

da paixão provo o licor
Feito Mejnun subo o pendor
És dia e noite meu ardor
De Ti preciso e só de Ti

O Sufi quer conversação
Vida do além quer o Irmão
Mejnun quer Leyla, sua paixão
De Ti preciso e só de Ti

Se alguma vez for morto eu
A cinza atirem para o céu
Virá da terra grito meu:
De Ti preciso e só de Ti

Yunus me chamam, eu bem sei
Mais ardo e mais fogo terei
Cá em baixo, lá em cima direi:
De Ti preciso e só de Ti

Tradução de Doina Zugravescu


MOSCHÉ HAIM LUZZATTO (1707-1746) - O HOMEM É COMO A FLOR





O homem é como a flor do campo, como o arbusto.
Por que vieste à luz? E para quê?
Se tenro e alegre de manhã floresces
eis que de tarde
cortam-te a flor e já não te conhecem.
A morte pasce em ti, como um rebanho.
É possível que acedas à alegria,
se tens sob teus pés escondida a armadilha?
Por que, homem, gozar o mel com a boca
se a tua língua deve estar disposta
a degustar o amargo pó da morte?
Ó morte! Quanto tempo ainda terás, soberba,
para zombar do nosso sofrimento?
Sobre a criança e sobre o velho desces
fulminante tua lâmina de espada
para ceifar, qual trigo, teus rebanhos.

Tradução de Renata Pallotini

YUN SÓN-DO (1587-1671) - SENTADO SOZINHO




Sentado sozinho
com um copo na mão
contemplo
os montes distantes

Nem que chegasse
a amada
sentiria
prazer maior

Mesmo que não falem nem riam
gosto mais
das montanhas

Tradução de Yun Jung Im e Alberto Marsicano

THOMAS LOVE PEACOCK - (1785-1866) - OS TRÊS MARINHEIROS





Olá marinheiros! Que homens sois vós?
Os Magos de Gotham que seguem a sós.
Aonde assim firme, essa casca de noz?
Partir o luar numa esteira veloz.
A barca vai bem. O luar é um espelho.
O lastro que temos é só vinho velho,
O lastro que temos é só vinho velho.

E tu, quem és tu, ao gosto das ondas?
Eu sou tudo aquilo a que chamam Tristeza.
Terás alegria aonde te escondas.
A bordo de um barco não posso estar presa.
Porque é que não podes? Os deuses me mandam:
Em cascas de noz tristezas não andam,
Em cascas de noz tristezas não andam.

E medo não tendes do eterno rolar?
A barca em que vamos é barca encantada.
Que encanto tão estranho vos faz flutuar?
As vagas não podem saltar a amurada.
A barca vai bem. O luar é um espelho.
O lastro que temos é só vinho velho,
O lastro que temos é só vinho velho.

Tradução de Jorge de Sena

MARQUESA DE ALORNA (1750-1839) - SE ME APARTO DE TI, DEUS DE BONDADE


Se me aparto de ti, Deus de bondade,
Que ausência tão cruel! Como é possível
Que me leve a um abismo tão terrível
O pendor infeliz da humanidade!

Conforta-me, Senhor, que esta saudade
Me despedaça o coração sensível;
Se a teus olhos na cruz sou desprezível,
Não olhes para a minha iniquidade!

À suave esperança me entregaste,
E o preço de teu sangue precioso
Me afiança que não me abandonaste.

Se, justo, castigar-me te é forçoso,
Lembra-te que te amei, e me criaste
Para habitar contigo o Céu lustroso!

MARTIN OPITZ (1597-1639) - SINTO QUASE UM ARREPIO



I
Sinto quase um arrepio,
Meu Platão, só de pensar
Que andei anos a estudar.
É tempo de ir ver o rio,
No verde matar a sede
Lá nas fontes cristalinas
Onde há flores belas, tão finas,
E o pescador arma a rede.

II
Que ganha quem assim estudou?
Só desventura e tormento.
E o ribeiro, entretanto,
Ao seu fim, e eu receio
Nem me ter apercebido.
Tudo volta (sem sentido)
À terra de onde proveio.

III
Vai, rapaz, pergunta ao vento
Onde é que o vinho é de lei
E enche o pichel como um rei.
Toda a tristeza e lamento
Que temos de viver cá
Antes de Cloto cortar
O fio eu quero enterrar
Na seiva que a uva dá.

IV
Não te esqueças de comprar
Melões, e açúcar também.
Que nada falte, vê bem!
Poupe, se quiser poupar,
Quem, com seu ouro e riqueza,
Passa a vida a remoer
E vai dormir sem comer.
Eu quero viver em grandeza.

V
Por favor, vizinho, irmão,
Venha música e bebida!
Nada há melhor nesta vida
Que um bom vinho e uma canção.
Minha herança mete dó?
Mas bom vinho não me falta!
Quero estar alegre coa malta,
Já que morrer, morro só.

Tradução de João Barrento

POESIA CELTA (século XV) - A SENHORA INDIFERENTE


Ela é o meu amor:
É o meu maior tormento
É dona das minhas dores
E quem me rouba o sossego.

Ela é a minha amada:
É quem me deixa sem força
É quem por mim não suspira
E quem me mata e não sabe.

Ela é o meu tesouro:
É quem tem os olhos verdes
É quem não me dá um afago
E não se deita a meu lado.

Ela é o meu segredo:
É quem comigo não fala
É quem não ouve o que eu digo
E não me olha nos olhos.

Ela é o meu penar:
É quem a mim não me quer
É quem me leva a morrer
E quem me conta os minutos.

Foi uma jura que eu fiz:
Ela é o meu amor!

Tradução de José Domingos Morais


POESIA GREGA (século VII a.C.) - CANÇÃO DA ANDORINHA





Chegou, chegou a andorinha,
trazendo os belos dias
e a bela estação:
alva no ventre
negra nas costas.

Da casa abastada,
não vem um docinho,
um copo de vinho,
um cesto de pão
e trigo? E lentilhas,
tão-pouco as enjeita
a andorinha. Então, dás ou não dás?
Se alguma coisa deres... Se não, não vos largamos!
Ou vos levamos a porta ou a padieira
ou a mulher que está sentada lá dentro.
É pequena, fácil é levá-la.
Mas se algo me deres, traz coisa grande!
Abre, abre a porta à andorinha,
que nós não somos velhos, apenas meninos!

Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira


MIRON COSTIN (1633-1691) - VIDA DO MUNDO






Muitos foram, muito somos e muitos te esperam,
E as gentes com a mudança nada aprenderam.
Tudo aquilo que é mortal com o tempo se gasta;
Passando o tempo, dos seus todos se afasta.
Os que agora cá passamos nos lembramos de outros
Que ultrapassámos; com tempo nos lembrarão outros.
Por ter nascido morremos, feitos cinza morta;
Por este mundo passamos – qual passo de porta.
Hoje grande e poderoso, cheio de grandeza,
Passas e amanhã traspassas com grande tristeza.
Barro e cinza fazes-te, homem, e assim pereces
Ora verme, em fedor tu logo apodreces!
Pois de quem és neste mundo, homem, tu magica!
Tal qual espuma, ao de cima nem o nome fica.
Só uma cousa: a boa obra fica e te enaltece,
No céu, bem-aventurado, tua ventura cresce.

Tradução de Doina Zugravescu


THOMAS HODD (1799-1845) - LEMBRO-ME, LEMBRO-ME






Lembro-me, lembro-me
Da casa onde nasci,
Da pequena janela por onde o sol
Vinha espreitar pela manhã;
Nunca chegava um piscar de olhos demasiado cedo,
Nem trazia um dia demasiado longo,
Mas agora muitas vezes desejo que a noite
Me tivesse levado a respiração!

Lembro-me, lembro-me
Das rosas, vermelhas e brancas,
Das violetas e dos lírios,
Daquelas flores feitas de luz!
Dos lilases onde o tordo fazia ninho,
E onde meu irmão plantou
O laburno no dia do seu aniversário, -
A árvore ainda está viva!

Lembro-me, lembro-me
De onde costumava correr
E pensar que o ar devia ser também assim fresco
Nas asas das andorinhas;
O meu espírito, que então voava em penas,
Que está agora tão pesado,
E os lagos do Verão mal podiam refrescar
A febre da minha testa!

Lembro-me, lembro-me
Dos abetos negros e altos;
Costumava pensar que as suas copas esguias
Estavam perto, em comparação com o céu:
Era uma ignorância infantil
Mas agora não é grande alegria
Saber que estou mais longe do céu
Do que quando era menino.

Tradução de Cecília Rego Pinheiro


ANDREAS GRYPHIUS (1616-1664) - TUDO É VÃO



Olhes para onde olhares, no mundo tudo é vão!
O que hoje este constrói, um outro arrasará;
Onde hoje se erguem cidades, um prado nascerá
E nele um pastorinho e o gado saltarão.

O que hoje cresce viçoso, breve será pisado,
O que hoje tem vida e força será cinza letal;
Aqui nada é eterno, nem mármore nem metal,
Hoje a sorte sorri-te, amanhã cais prostrado.

Desfaz-se como um sonho a glória de altos feitos.
Vence o jogo do tempo, e os homens imperfeitos.
Ah, como é nada tudo o que quer valer mais,

Medíocre e mesquinho, sombra, vento e poeira,
Como uma flor do campo a que se perde a esteira!
Não se mostra o Eterno aos olhos dos mortais!

Tradução de João Barrento

JOÃO XAVIER DE MATOS (1730-1789) - QUE ASSIM SAI A MANHÃ SERENA E BELA!






Que assim sai a manhã serena e bela!
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fronte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante;

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.


ANTÓNIO BECCADELLI (1394-1471) - EPITÁFIO DE NIQUINA DE FLANDRES, MERETRIZ EGRÉGIA




Se te demoras lendo estes gravados versos,
conhecerás a cróia que é sepulta aqui.
Da pátria em que nasci, por vãs promessas falsas,
raptada fui, donzela, em tenra idade, um dia.
A Flandres me gerou, andei o mundo inteiro
até estabelecer-me nesta Siena plácida.
Meu nome, e conhecido, era Niquina. Fui
a estrela do bordel, entre as demais primeira.
Fui bela, e fui graciosa, e perfumada, e tinha
mais alvo do que a neve o deslumbrante corpo.
Taís nenhuma em Siena melhor que eu movia
em sábios movimentos as vibrantes ancas.
Os homens minha língua em beijos exauria
dados ainda depois de consumado o gozo.
Coberto era o meu leito de uma colcha vasta,
e a minha mão aos nervos percutia branda.
Para lavar-me tinha uma bacia sempre,
e os flancos me lambia cadelinha mansa.
Uma noite, assaltou-me um bando de rapazes,
que me teve cem vezes, sem me saciarem.
Fui doce e amena, e a muitos minha arte era grata.
Mas mais doce me foi o quanto me pagavam.

Tradução de Jorge de Sena

MIRABAI (1503-1573) - ENQUANTO O MUNDO DORME





Enquanto o mundo dorme
Eu permaneço acordada
Num glorioso palácio de prazer
Sento-me vigilante
E vejo uma rapariga abandonada
Com uma grinalda de lágrimas
Que passa a noite a contar
As estrelas a contar as horas
Que a separam da felicidade

Se eu soubesse que
O amor e o desespero
Andam de mãos dadas
Teria pegado num tambor
Para proclamar pela cidade
Que o amor foi banido para sempre

Tradução de Jorge de Sousa Braga

TAI FU KU (século XII) - OS NEGÓCIOS NÃO OS DEIXAM DESCANSAR





Os negócios não os deixam descansar
De noite fazem contas de dia galopam
A sua vida é uma azáfama constante
Desconhecem que sobre as suas casas o céu é azul

Tradução de Jorge de Sousa Braga

BERNARDO DE BALBUENA (1568-1627) - PERDIDO ANDO, SENHORA, ENTRE ESTA GENTE



Perdido ando, senhora, entre esta gente
sem vós, sem mim, sem ser, sem Deus, sem vida:
sem vós, porque de mim não sois servida;
sem mim, porque ante vós não estou presente;
sem ser, porque do ser estando ausente
tudo do ser me força à despedida;
sem Deus, porque minha alma Deus olvida
para vos contemplar continuamente;
sem vida, porque ausente de sua alma
ninguém vive, e se nisto não me afogo
é porque espero achar-vos nesta lida.
Oh belos olhos, luz cândida e calma,
voltai a olhar-me, pois voltar-me-eis logo
a vós, a mim, a meu ser, meu Deus e vida!

Tradução de José Bento

INGER CHRISTENSEN (1935) - SE ESTOU SOZINHA NA NEVE


Se estou
sozinha na neve
é óbvio
que sou um relógio

de outro modo como poderia
a eternidade deslizar

Tradução de José Alberto Oliveira

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - QUERO IGNORADO, E CALMO





QUERO ignorado, e calmo
Por ignorado, e próprio
Por calmo, encher meus dias
De não querer mais deles.

Aos que a riqueza toca
O ouro irrita a pele.
Aos que a fama bafeja
Embacia-se a vida.

Aos que a felicidade
É sol, virá a noite.
Mas ao que nada espera
Tudo que vem é grato.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - QUER POUCO: TERÁS TUDO







QUER pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - VIVEM EM NÓS INÚMEROS...



VIVEM em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - TODA VISÃO DA CRENÇA...






TODA visão da crença se acompanha,
Toda crença da acção; e a acção se perde,
Água em água entre tudo.
Conhece-te, se podes. Se não podes
Conhece que não podes. Saber sabe.
Sê teu. Não dês nem esperes.

JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - FRUTOS, DÃO-OS AS ÁRVORES QUE VIVEM

FRUTOS, dão-os as árvores que vivem,
Não a iludida mente, que só se orna
Das flores lívidas
Do íntimo abismo.
Quantos reinos nas mentes e nas coisas
Te não talhaste imaginário! Tantos
Sem ter perdeste,
Antedeposto.
Ah, não consegues contra o adverso muito
Criar mais que propósitos frustrados!
Abdica e sê
Rei de ti mesmo.


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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - SE HÁS-DE SER O QUE CHORAS







SE HÁS-DE ser o que choras
Ter que ser, não o chores.
Se toda a mole imensa
Do mundo ser-te-á noite,
Aproveita este breve
Dia, e sem choro ou cura
Goza-o, contente por viveres
O pouco que te é dado.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - TÃO CEDO PASSA TUDO QUANTO PASSA!






TÃO cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.


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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - UM VERSO REPETE

UM VERSO repete
Uma brisa fresca,
O verão nos campos,
E sem gente ao sol
O átrio da alma.

Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.

Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querer ter outros.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - BOCAS ROXAS DE VINHO



BOCAS roxas de vinho,
Testas brancas sob rosas,
Nus, brancos antebraços
Deixados sobre a mesa:

Tal seja, Lídia, o quadro
Em que fiquemos, mudos,
Eternamente inscritos
Na consciência dos deuses.

Antes isto que a vida
Como os homens a vivem,
Cheia da negra poeira
Que erguem das estradas.

Só os deuses socorrem
Com seu exemplo aqueles
Que nada mais pretendem
Que ir no rio das coisas.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - TIREM-ME OS DEUSES



TIREM-ME os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
Amor, glória e riqueza.

Tirem, mas deixem-me
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.

Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.

Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.

Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido universo,
Sua riqueza a vida.

A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.

O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.

Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - EM CERES ANOITECE

EM CERES anoitece.
Nos píncaros ainda
Faz luz.
Sinto-me tão grande
Nesta hora solene
E vã
Que, assim como há deuses
Dos campos, das flores
Das searas,
Agora eu quisera
Que um deus existisse
De mim.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - SÁBIO É O QUE SE CONTENTA COM O ESPECTÁCULO DO MUNDO



SÁBIO é o que se contenta com o espectáculo do mundo,
E ao beber nem recorda
Que já bebeu na vida,
Para quem tudo é novo
E imarcescível sempre.
Coroem-nos pâmpanos, ou heras, ou rosas volúteis,
Ele sabe que a vida
Passa por ele e tanto
Corta à flor como a ele
De Átropos a tesoura.
Mas ele sabe fazer que a cor do vinho esconda isto,
Que o seu saber orgíaco
Apague o gosto às horas,
Como a uma voz chorando
O passar das bacantes.
E ele espera, contente quase e bebedor tranquilo,
E apenas desejando
Num desejo mal tido
Que a abominável onda
O não molhe tão cedo.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - A ALBERTO CAEIRO

A Alberto Caeiro

MESTRE, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver.

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Tendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O Tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - MELHOR DESTINO QUE O DE CONHECER-SE



Melhor destino que o de conhecer-se
Não frui quem mente frui. Antes, sabendo
Ser nada, que ignorando:
Nada dentro de nada.
Se não houver em mim poder que vença
As parcas três e as moles do futuro,
Já me dêem os deuses
O poder de sabê-lo;
E a beleza, incriável por meu sestro,
Eu goze externa e dada, repetida
Em meus passivos olhos,
Lagos que a morte seca.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - COROAI-ME DE ROSAS



Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas –
Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - RICARDO REIS - SEGURO ASSENTO NA COLUNA FIRME

Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico,
Nem temo o influxo inúmero futuro
Dos tempos e do olvido;
Que a mente, quando, fixa, em si contempla
Os reflexos do mundo,
Deles se plasma torna, e à arte o mundo
Cria, que não a mente.
Assim na placa o externo instante grava
Seu ser, durando nela.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - BEM SEI QUE TUDO É NATURAL




BEM SEI que tudo é natural
Mas ainda tenho coração...
Boa noite e merda!
(Estala meu coração!)
(Merda para a humanidade inteira!)

(...)


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - TODAS AS CARTAS DE AMOR...



TODAS AS cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas,

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
são naturalmente
ridículas.)


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - ANIVERSÁRIO



ANIVERSÁRIO (excerto)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

(...)


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - GAZETILHA


Dos Lloyd Georges da Babilónia
Não reza a história nada.
Dos Briands da Assíria ou do Egipto,
Dos Trotskys de qualquer colónia
Grega ou romana já pasada,
O nome é morto, inda que escrito.

Só o parvo dum poeta, ou um louco
Que fazia filosofia,
Ou um geómetra maduro,
Sobrevive a esse tanto pouco
Que está lá para trás no escuro
E nem a história já historia.

Ó grandes homens do Momento!
Ó grandes glórias a ferver
De quem a obscuridade foge!
Aproveitem sem pensamento!
Tratem da fama e do comer,
Que amanhã é dos loucos de hoje!



JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - NA ÚLTIMA PÁGINA DE UMA ANTOLOGIA NOVA



Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece –
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora... E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poetas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo –
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - TABACARIA



TABACARIA (excerto)

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

(...)

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas.
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(se eu casasse com a filha da minha lavadeira
talvez fosse feliz.)
visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe “Adeus ó Esteves!”, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - LISBON REVISITED


LISBON REVISITED 1923 (EXCERTOS)

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queria-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou só sozinho!
Ah, que maçada querem que eu seja de companhia!

Ó céu azul – o mesmo da minha infância -,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

(...)

Navio, quem quer que seja, não quero ser eu! Afasta-me
A remo ou vela ou máquina, afasta-me de mim!
Vá. Veja eu o abismo abrir-se entre mim e a costa,
O rio entre mim e a margem,
O mar entre mim e o cais,
A morte, a morte, a morte, entre mim e a vida!


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - ODE MARÍTIMA (EXCERTOS)



Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh´alma está com o que vejo menos,
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.

Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.

(...)

Passa, lento vapor, passa e não fiques...
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te dentro do meu coração,
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me...
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha...
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte...,
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh´alma...


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - ODE TRIUNFAL (EXCERTOS)



À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

(...)

ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

(...)

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos – e eu acho isto belo e amo-o! –
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(...)

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eis aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!
Eia! eia! eia!
Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! Eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô! eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!
Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup lá, hupm lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-há! Hê-hô! Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ÁLVARO DE CAMPOS - OLHA DAYSY: QUANDO EU MORRER...



Olha, Daysy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não o sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p´ra York, onde nasceste (dizes...
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri...
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará... Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande...
Raios partam a vida e quem lá ande!...


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FERNANDO PESSOA -ÁLVARO DE CAMPOS - QUANDO OLHO PARA MIM NÃO ME PERCEBO




Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - É TALVEZ O ÚLTIMO DIA DA MINHA VIDA



É TALVEZ o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita, mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.

LAST POEM, ditado pelo poeta no último dia da sua vida.



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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - O PASTOR AMOROSO PERDEU O CAJADO

O pastor amoroso perdeu o cajado,
E as ovelhas tresmalharam-se pela encosta,
E, de tanto pensar, nem tocou a flauta que trouxe para tocar.
Ninguém lhe apareceu ou desapareceu... Nunca mais encontrou o cajado.
Outros, praguejando contra ele, recolheram-lhe as ovelhas.
Ninguém o tinha amado, afinal.
Quando se ergueu da encosta e da verdade falsa, viu tudo:
Os grandes vales cheios dos mesmos vários verdes de sempre,
As grandes montanhas longe, mais reais que qualquer sentimento,
A realidade toda, com o céu e o ar e os campos que existem,
E sentiu que de novo o ar lhe abria, mas com dor, uma liberdade no peito.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - O AMOR É UMA COMPANHIA


O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - HOJE DE MANHÃ SAÍ MUITO CEDO



HOJE de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda muito mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
Assim tem sido sempre a minha vida, e assim quero que possa ser sempre –
Vou onde o vento me leva e então não preciso pensar.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - FALAS DE CIVILIZAÇÃO...



FALAS de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para quê te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - NÃO BASTA ABRIR A JANELA

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.


JOSÉ MARIA ALVES
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terça-feira, 3 de novembro de 2009

FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - VIVE, DIZES, NO PRESENTE






VIVE, dizes, no presente;
Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as coisas que existem, não o tempo em que estão.

O que é o presente?
É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.
É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.
Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu haver.
Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.
Não quero separá-las de elas próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem lugar,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - TU, MÍSTICO, VÊS UMA SIGNIFICAÇÃO EM TODAS AS COISAS







TU, MÍSTICO, vês uma significação em todas as coisas.
Para ti tudo tem um sentido velado.
Há uma coisa oculta em cada coisa que vês.
O que vês, vê-lo sempre para veres outra coisa.

Para mim, graças a ter olhos só para ver,
Eu vejo ausência de significação em todas as coisas;
Vejo-o e amo-me, porque ser uma coisa é não significar nada.
Ser uma coisa é não ser susceptível de interpretação.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - CRIANÇA DESCONHECIDA E SUJA BRINCANDO À MINHA PORTA

Criança desconhecida e suja brincando à minha porta,
Não te pergunto se me trazes um recado dos símbolos.
Acho-te graça por nunca te ter visto antes,
E naturalmente se pudesses estar limpa eras outra criança,
Nem aqui vinhas.
Brinca na poeira, brinca!
Aprecio a tua presença só com os olhos.
Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la,
Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez,
E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar.

O modo como esta criança está suja é diferente do modo como as outras estão sujas.
Brinca! Pegando numa pedra que te cabe na mão,
Sabes que te cabe na mão.
Qual é a filosofia que chega a uma certeza maior?
Nenhuma, e nenhuma pode vir brincar nunca à minha porta.


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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - QUANDO ESTÁ FRIO NO TEMPO DO FRIO...






QUANDO está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das coisas
O natural é o agradável só por ser natural.

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do inverno –
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar –
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o inverno da minha pessoa e da minha vida?
O inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do verão
E o frio da terra no cimo do inverno.

Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do mundo
Que fosse qualquer coisa que não fosse o mundo.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - SE DEPOIS DE EU MORRER, QUISEREM ESCREVER A MINHA BIOGRAFIA






SE DEPOIS de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - SE EU MORRER NOVO



SE EU morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem
Se assim aconteceu, assim está certo.

(...)

se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi coisa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva –
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo
(E nunca a outra coisa),
sentir calor e frio e vento,
e não ir mais longe.

(...)


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - A ESPANTOSA REALIDADE DAS COISAS




A ESPANTOSA realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

(...)

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

(...)

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - O QUE VALE A MINHA VIDA?





O que vale a minha vida? No fim (não sei que fim)
Um diz: ganhei trezentos contos,
Outro diz: tive três mil dias de glória,
Outro diz: estive bem com a minha consciência e isso é bastante...
E eu, se lá aparecerem e me perguntarem o que fiz,
Direi: olhei para as coisas e mais nada.
E por isso trago o Universo dentro da algibeira.
E se Deus me perguntar: e o que viste tu nas coisas?
Respondo: apenas as coisas... Tu não puseste lá mais nada.
E Deus, que apesar de tudo é esperto, fará de mim uma nova espécie de santo.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - METO-ME PARA DENTRO, E FECHO A JANELA





Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas-noites,
E a minha voz contente dá as boas-noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito,
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - DA MAIS ALTA JANELA DA MINHA CASA

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos meus versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - NUM DIA EXCESSIVAMENTE NÍTIDO



Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas ideias.

A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.

Foi isto o que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, a achei.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO PESSOA - ALBERTO CAEIRO - DESTE MODO OU DAQUELE MODO



Deste modo ou daquele modo,
Conforme calha ou não calha,
Podendo às vezes dizer o que penso,
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas,
Vou escrevendo os meus versos sem querer,
Como se escrever não fosse uma coisa feita de gestos,
Como se escrever fosse uma coisa que me acontecesse
Como dar-me o sol de fora.

Procuro dizer o que sinto
Sem pensar em que o sinto.
Procuro encostar as palavras à ideia
E não precisar dum corredor
Do pensamento para as palavras.

Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir.
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar.

Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar as minha emoções verdadeiras,
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro,
Mas um animal humano que a Natureza produziu.

E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer como um homem,
Mas como quem sente a Natureza, e mais nada.
E assim escrevo, ora bem, ora mal,
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso.

Ainda assim, sou alguém.
Sou o Descobridor da Natureza.
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras.
Trago ao Universo um novo Universo
Porque trago ao Universo ele próprio.

Isto sinto e isto escrevo
Perfeitamente sabedor e sem que não veja
Que são cinco horas do amanhecer
E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça
Por cima do muro do horizonte,
Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos
Agarrando o cimo do muro
Do horizonte cheio de montes baixos.


JOSÉ MARIA ALVES
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