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ARTE

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

FREDERICO GARCIA LORCA (1898-1936) - ROMANCE SONÂMBULO





Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O navio sobre o mar,
o cavalo na montanha.
Com sombra pela cintura,
ela sonha na varanda,
verde carne, trança verde,
e olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
À luz da lua cigana,
as coisas estão-na fitando
sem ela poder fitá-las.


Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
seguem o peixe de sombra
que anuncia a madrugada.
A figueira esfrega o vento
com a lixa dos seus ramos,
e o monte, gato matreiro,
eriça piteiras bravas.
Mas quem virá? E por onde?
Ela segue na varanda,
verde carne, trança verde,
a sonhar ondas amargas.


Compadre, quero trocar
o potro por sua casa,
os arreios por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho a sangrar
já desde os portos de Cabra.
Ah, se eu pudesse, mocito,
este contrato fechava.
Porém eu já não sou eu,
nem minha é já minha casa.
Compadre, quero morrer
decente na minha cama.
E de aço, se puder ser,
mas com lençóis de bretanha.
Não vês a ferida que tenho
do peito até à garganta?
Trezentas rosas morenas
leva o teu peitilho branco.
Teu sangue ressuma e cheira
em redor da tua faixa.
Porém eu já não sou eu,
nem minha é já minha casa.
Deixai-me subir ao menos
até às altas varandas,
deixai-me subir!, deixai-me,
até às verdes varandas.
Às balaustradas da lua,
aonde rebenta a água.
Já sobem os dois compadres
até às altas varandas
deixando um rasto de sangue.
Deixando um rasto de lágrimas.
Tremulavam nos telhados
faróis de folha de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.


Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramos.
Os dois compadres subiram.
O vento deixa na boca
um raro sabor a fel,
manjerico e hortelã.
Compadre!, diz-me onde está
a tua menina amarga?
Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
fresca, de cabelo negro,
aqui na verde varanda!


Sobre o rosto da cisterna
agitava-se a cigana.
Verde carne, trança verde,
e olhos de fria prata.
Cristais de neve e de lua
a sustêm sobre a água.
Íntima se pôs a noite
como pequenina praça.
Bêbados guarda-civis
estão a sacudir a porta.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramos.
O navio sobre o mar.
O cavalo na montanha.

Tradução de Eugénio de Andrade

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