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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

ANTÓNIO PATRÍCIO (1878-1930) - PEDIDO À MORTE





Ouve um pedido: vens seroar?...
Faze um recado, vai á procura
(só tu a podes ir encontrar)

da que na terra, que ela fez pura,
fia saudades, vive a fiar,
como na vida, sonho e doçura...

Sê boa, ó Morte: vai num instante
dizer à alma de minha Mãe
que a oiço ainda: que cante, cante,

essa cantiga, com voz de além,
em que se fala, lindo descante,
duma fontinha que há em Belém...

Ela pedia, de mãos erguidas,
que as dores que houvesse no meu destino
Deus lhas mandasse, bem mais ardidas!...

E em paga fossem prò seu menino
as horas servas enternecidas
vestindo-o todo de linho fino...

Quando me lembro, se tu soubesses,
que as minhas horas iam voando
com asas feitas das suas preces...

Oiço a voz dela, dum timbre brando,
(Eu queria, ó Morte, que lho dissesses)
refém de sempre, sempre ecoando...

E as mãos, de veias tão azuladas,
tinham carícias, tinham meiguices,
que nem em sonhos nos dão as fadas...

Nos desesperos, nas criancices,
como elas vinham, apiedadas,
sarar tristezas, calmar doidices...

Quando me lembro, todo me humilho;
a pura glória da minha vida
foi (e é sempre) ser o seu filho.

Ainda de longe me dá guarida,
e o olhar supremo, de estranho brilho,
não foi, não era, de despedida...

Vai tu dizer-lho: dize só isto...
A sua alma deve andar perto
da alma clara de Jesus Cristo...

Como eu a beijo neste deserto,
como eu a oiço, como eu existo
no amor dela, que é puro e certo...

Tu vais, ó Morte, num instantinho,
que as tuas asas no céu velado
(como as saudades) abrem caminho...

Bendita sejas por o recado;
e que ela sinta no teu carinho
que o meu lhe reza todo ajoelhado.

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