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terça-feira, 2 de Fevereiro de 2010

BANDARRA - SAPATEIRO, POETA E PROFETA DA VILA DE TRANCOSO - TROVAS PROFÉTICAS





BANDARRA – SAPATEIRO, POETA E PROFETA DA VILA DE TRANCOSO – TROVAS PROFÉTICAS


Gonçalo Anes, que por Bandarra ficou conhecido, terá nascido por volta do ano de 1500 e falecido em data posterior a 1556.
Os seus restos mortais encontram-se na Igreja de São Pedro, no centro histórico da antiga Vila de Trancoso, distrito da Guarda.

Sapateiro, ou melhor, oficial de sapateiro de calçado de correia – não só consertava, mas também fabricava sapatos – em Trancoso, terra fria da Beira Alta, foi poeta, autor das Trovas, que lhe valeram o título de profeta nacional. Essa Trancoso, que D. João de Castro identificava como uma região das mais impolidas do reino.

Bandarra é o “Nostradamus” português.
A alcunha de Bandarra, talvez tenha tido a sua origem numa vida de vadiagem, de moinante, expressão muito utilizada por aquelas paragens.

Terá lido a Bíblia e as suas profecias agradaram aos judeus, o que lhe causou a perseguição do Santo Ofício, que o acusou de ser judeu e de versejar profecias a favor dos da sua raça.
Aliás, o que melhor se sabe da vida do pobre sapateiro, consta do processo que lhe foi movido pelo dito Santo Ofício da Inquisição e, refere-se ao período que decorreu entre 1538 e 1541. O processo encontra-se na Torre do Tombo e tem o número 7197.
Terá apenas sido submetido ao degradante passeio dos condenados pelos Paços da Ribeira e condenado a uma simples abjuração.

Nos seus versos, deparamo-nos com quatro visões fundamentais:
- o regresso do Encoberto;
- a Restauração de 1640;
- A derrota de Napoleão, e,
- o mito do Quinto Império – que tanto apreço geraram, quer no Padre António Vieira quer em Fernando Pessoa.

O padre António Vieira descreve-o como um homem “idiota e humilde”, mas não lhe nega, antes exalta, os dons de profeta.
Já Pessoa, afirmou, que “o verdadeiro patrono do nosso país é esse sapateiro Bandarra” e ainda que era naquele “sapateiro de Trancoso em cuja alma vivia, ninguém sabe como, o mistério atlântico da alma portuguesa”.

As suas trovas começaram a circular por todo o país em forma de cópias manuscritas, provavelmente a partir de 1537.
A primeira edição impressa, data de 1603.
Bandarra foi lido e conhecido, praticamente em todo o Portugal. Conhecido, idolatrado em vida e após o seu decesso.
No dia da aclamação de D. João IV, sem oposição do Arcebispo e do próprio Santo Ofício, teve o seu retrato num dos altares da Sé, com honras de santo.



As Trovas de Bandarra tiveram uma edição da Imprensa Popular de J. L. de Sousa, no ano de 1866, que foi denominada Nova Edição, por se lhe terem aditado mais algumas trovas até aí nunca dadas à estampa.
É com base nessa edição que editamos um excerto das Trovas de Bandarra – para quem quiser conhecer o seu texto integral, veja-se a da Moderna Editorial Lavores, As Profecias do Bandarra.



Desde criança, que frequentamos a feira de Trancoso; a feira das sextas e a anual de São Bartolomeu, em finais de Agosto, a que os antigos também davam o nome de feira dos capotes, tal a frialdade que já se fazia sentir nessa época do ano. A nossa aldeia, Sobral Pichorro, do concelho de Fornos de Algodres, dista tantos quilómetros da sede do concelho, quanto da Vila de Trancoso – cerca de 15.
E, para nós, Trancoso foi sempre, tenha-o ou não sido, a maior feira da Beira Alta.
Ali encontrámos saudosos homens de venerável idade, de aspecto rude, se se quiser “impolidos”, como os caracterizou D. João de Castro. Impolidos, mas Homens: rectos, nobres, sofridos e duros como convém a um clima agreste, homens de uma só palavra e de parco riso, espécie extinta ou em extinção.
E se alguém tiver dúvidas quanto à nobreza de tais sábios “analfabetos”, lembrem os versos de Sá de Miranda na Carta a El-Rei D. João III:

Homem de um só parecer,
De um só rosto e de uma fé,
De antes quebrar que volver,
Outra coisa pode ser,
Mas da corte homem não é.

Foi deles, que, na nossa curiosidade juvenil, bem notada por quem olhos tinha para as pequenas manifestações da Vida, ouvimos pela primeira vez a história do Bandarra, e algumas das suas quadras, ajaezadas em função das circunstâncias e das memórias dos cantadores, nas tendas feitas taberna, em frente de um copo de vinho puro, duma febra assada em fogo reconfortante e de um quarto de alvo trigo.

Bem Hajam, Homens da Beira.









BANDARRA – DEDICATÓRIA DAS TROVAS A D. JOÃO DE PORTUGAL, BISPO DA GUARDA


Ilustríssimo Senhor,
De virtudes mui perfeito,
Vós deveis de ser eleito
De todas as Leis dador.

Deus vos deu tanto primor,
Que não se acha em vossa marca
Mais subido Patriarca,
De nobre Gente Pastor.

Determinei de escrever
A minha sapataria:
Por ser Vossa Senhoria
O que sai de meu coser.

Que me quero entremeter
Nesta obra, que ofereço
Porque saibam o que conheço,
E quanto mais posso fazer.

Sairá de meu coser
Tanta obra de lavores,
Que folguem muitos Senhores
De a calçar, e trazer.

E quero entremeter
Laços em obra grosseira.
Quem tiver boa maneira
Folgará muito de a ver.

Coso com linho assedado,
Encerado a cada ponto;
Coso miúdo sem conto,
Que assim o quer o calçado.

Se vier algum avisado
Requerer algumas solas,
Eu as corto sem bitolas,
E logo vai sobressolado.

Também sou oficial:
Às vezes coso com vira,
E sei bem como se tira
O ganho do cabedal.

Se vier algum zombar,
Fazer-me qualquer pergunta,
Dir-lhe-ei como se ajunta
A agulha com o dedal.

Minha obra é mui segura
Porque a mais é de correia.
Se a alguém parecer feia,
Não entende de costura.

Eu faço obra de dura,
E não ando pela rama.
Conheço bem a courama
Que convém à criatura.

Sei medir e sei talhar,
Sem que vos assim pareça:
Tudo tenho na cabeça,
Se o eu quiser usar.

E quem o quiser grosar,
Olhe bem a minha obra:
Achará que inda me sobra
Dous cabos pera ajuntar.

Sempre ando ocupado
Por fazer minha obra boa.
Se eu vivera em Lisboa
Eu fora mais estimado.

Contente sou, e pagado
De lançar um só remendo.
Inda que estém remoendo
Não me toquem no calçado.








TROVAS





BANDARRA – SENTE AS MALDADES DO MUNDO E PARTICULARMENTE AS DE PORTUGAL


1

Como nas Alcaçarias
Andam os couros às voltas,
Assim vejo grandes revoltas
Agora nas Clerezias.


2

Porque usam de Simonias
E adoram os dinheiros,
As Igrejas, pardieiros,
Os corporais por mais vias.


3

O sumagre com a cal
Faz os couros ser mociços.
Ah! quantos há maus noviços
Nessa Ordem Episcopal.


4

Porque vai de mal a mal,
Sem ordem nem regimento,
Quebrantam o mandamento,
Cumprem o mais venial.


5

Também sou oficial,
Sei um pouco de cortiça.
Não vejo fazer justiça
A todo o mundo em geral.


6

Que agora a cada qual
Sem letras fazem Doutores,
Vejo muitos julgadores,
Que não sabem bem, nem mal.


7

Borzeguins pera calçar
Hão-de ser de cordovães.
Notários, Tabeliães
Tem o tento em apanhar.


8

Vê-los-eis a porfiar
Sobre um pobre ceitil,
E rapar-vos por um mil
Se vo-los podem rapar.


9

Também sei algo brunir
Quaisquer laços de lavores:
Bacharéis, Procuradores,
Aí vai o perseguir.


10

E quando lhe vão pedir
Conselho os demandões,
Como lhe faltam tostões,
Não os querem mais ouvir.


11

Há-de ser bem assentada
A obra dos chapins largos.
A linhagem dos Fidalgos
Por dinheiro é trocada.


12

Vejo tanta misturada
Sem haver chefe que mande.
Como q´reis que a cura ande,
Se a ferida está danada?


13

Tenho uma gentil sovela
Com que coso mui direito.
Se a mulher não desse jeito
Não olhariam pera ela.


14

Em que seja uma donzela
Nobre, casta e oradora,
Ela é a causadora
Do que acontecer por ela.


15

Sei também mui bem coser
Uns borzeguins cordoveses;
Todos os trajos franceses
Quem quer os quer já trazer.


16

Os que não tem que comer
Fazem trajos mui prezados,
Ficam pobres, lazarados
Por outros enriquecer.





SONHO PRIMEIRO



17

Vejo, vejo, direi, vejo,
Agora que estou sonhando,
Semente d´El-Rei Fernando
Fazer um grande despejo.


18

E seguir com grão desejo,
E deixar a sua vinha,
E dizer esta casa é minha,
Agora que cá me sejo.


19

Acerca dos Grecianos
Corrê-los-ão os Latinos;
Serão contrários os signos
A todos os Arrianos.


20

Também os Venezianos
Com as riquezas que tem,
Virá o Rei de Salém,
Julgá-los-á por mundanos.


21

Já os lobos são ajuntados
D´alcateia na montanha.
Os gados tem degolados,
E muitos alobegados,
Fazendo grande façanha.


22

O Pastor-mor se assanha:
Já ajunta seus ovelheiros,
E esperta sua companha,
Com muita força e manha
Correrá os pegureiros.


23

Depois já de apercebidos
E as montanhas salteadas
Por homens muito sabidos,
E pastores mui escolhidos,
Que sabem bem as pisadas.


24

Armar-lhe-ão nas passadas
Trampas, cepos de azeiros,
Atalaias nas estradas,
E bestas nas ameijoadas
Com tiros muito ligeiros.


25

Virá o Grande Pastor,
Que se erguerá primeiro,
E Fernando tangedor,
E Pedro bom bailador,
E João bom ovelheiro.


26

E depois um Estrangeiro,
E Rodoão que esquecia,
E o nobre pastor Garcia,
E André mui verdadeiro:
Entrarão com alegria.


(...)


44

João, o bom Ovelheiro,
Sempre foi nobre Pastor,
Não se conte derradeiro,
Pois é igual ao primeiro,
Este baile com Leonor.


45

Sempre foi bom guardador
Do gado que lhe entregaram,
Mui grande acometedor,
E mui grande corredor
Dos lobos, que o acossaram.


(...)


54

Os bailos são acabados,
Senhor, vamos a jantar,
Que dos trabalhos passados
Muitos há aqui desmaiados,
Que convém de repousar.


55

Se algo lhe quereis dar,
Sobre mesa lhe daremos,
Onde bem pode mandar,
E o seu gado bem pastar,
Que assim por bem o temos.


(...)


68

Forte nome é Portugal,
Um nome tão excelente,
É rei do cabo poente,
Sobre todos principal.
Não se acha vosso igual
Rei de tal merecimento.
Não se acha, segun sento,
Do Poente ao Oriental.


69

Portugal é nome inteiro,
Nome de macho, se queres:
Os outros Reinos mulheres,
Como ferro sem azeiro.
E senão olha primeiro,
Portugal tem a fronteira,
Todos mudam a carreira
Com medo do seu rafeiro.


70

Portugal tem a bandeira
Com cinco Quinas no meio,
E segundo vejo, e creio,
Este é a cabeceira,
E porá sua cimeira,
Que em calvário lhe foi dada,
E será Rei de manada
Que vem de longa carreira.


71

Este Rei tem tal nobreza
Qual eu nunca vi em Rei.
Este guarda bem a lei
Da justiça e da grandeza.
Senhoreia Sua Alteza
Todos os portos, e viagens,
Porque é Rei das passagens
Do Mar, e sua riqueza.


72

Este Rei tão excelente,
De quem tomei minha teima,
Não é de casta Goleima,
Mas de reis primo e parente.
Vem de mui alta semente
De todos quatro costados,
Todos Reis de primo grados
De Levante até ao Poente.


(...)


75

Já o Leão é experto
Mui alerto.
Já acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O porco, e é mui certo.
Fugirá para o deserto,
Do Leão, e seu bramido,
Demonstra que vai ferido
Desse bom Rei Encoberto.


(...)


87

Já o tempo desejado
É chegado,
Segundo o firmal assenta:
Já se cerram os quarenta,
Que se ementa,
Por um Doutor já passado
O Rei novo é alevantado,
Já dá brado;
Já assoma a sua bandeira
Contra a Grifa parideira
La gomeira
Que tais prados tem gostado


88

Saia, saia esse Infante
bem andante,
O seu nome é D. João
Tire, e leve o pendão,
E o guião
Poderoso e triunfante.
Vir-lhe-ão novas num instante
Daquelas terras prezadas,
As quais estão declaradas
E afirmadas
pelo Rei dali em diante.


(...)


93

As armas e o pendão,
E o guião
Foram dadas por vitória
Daquele alto Rei da Glória
Por memória
A um Santo Rei varão.
Sucedeu a El-Rei João,
Em possessão
O Calvário por bandeira,
Levá-lo-á por cimeira,
Alimpará a carreira
De toda a terra do Cão.





SONHO SEGUNDO



94

Oh! quem tivera poder
Pera dizer
Os sonhos que o homem sonha!
Mas hei medo. que me ponha
Grão vergonha
De mos não quererem crer.
Vi um grão Leão correr
Sem se deter
levar sua viagem,
Tomar o porco selvagem
Na passagem
Sem nada lho defender.


(...)


100

O Rei novo é escolhido,
E elegido,
Já alevanta a bandeira
Contra a Grifa parideira
Que tais pastos tem comido;
Porque haveis de notar,
E assentar,
Aprazendo ao Rei dos Céus
trará por ambas as leis,
E nestes seis
Vereis cousas de espantar.


(...)


102

Este Rei tem um irmão,
Bom Capitão.
Não se sabe a irmandade?
Todo é nobre, em bondade;
E na verdade
Que sairá com o pendão.


(...)


108

Muitos podem responder
E dizer:
Com que prova o sapateiro
Fazer isto verdadeiro,
Ou como isto pode ser?
Logo quero responder
Sem me deter.
Se lerdes as Profecias
De Daniel e Jeremias
Por Esdras o podeis ver.





SONHO TERCEIRO



109

Oh! quem pudera dizer
Os sonhos que o homem sonha!
mas eu hei grão vergonha
De mos não quererem crer.


(...)


117

Eu por mais me afirmar
E ver se estava acordado,
Vi um velho mui honrado
Que me vinha a perguntar.


118

Dize-me, tu és de Agar,
Ou como falas Cananeu?
Ou és porventura Hebreu
Dos que nós vimos buscar?


119

Tudo o que me perguntais
(Respondi assim dormente)
Senhor, não sou dessa gente
Nem conheço esses tais.


(...)


138

Acho em as Profecias
Que a terra tremerá
E como abóbada soará
Quando faz harmonias.


139

Dizem que nos últimos dias,
Que aquestas cousas serão,
A vinte e quatro acharão
Este dito de Isaías.


(...)


142

Vejo o mundo em perigo,
Vejo gentes contra gentes.
Já a terra não dá sementes,
Senão favacas por trigo.


(...)


158

Tudo quanto aqui se diz,
Olhem bem as Profecias
De Daniel e Jeremias,
Ponderem-nas de raiz.


159

Acharão que nestes dias
Serão grandes novidades,
Novas leis e variedades,
Mil contendas e porfias.









DO TERCEIRO CORPO DE TROVAS DO BANDARRA





1

Em vós que haveis de ser quinto
Depois de morto o segundo,
Minhas Profecias fundo
C´o estas letras que aqui pinto.


(...)


6

Faço trovas muito inteiras,
Versos muito bem medidos,
Que hão-de vir a ser cumpridos
Lá nas eras derradeiras


7

Eu componho, mas não ponho
As letrinhas no papel,
Que o devoto Gabriel
Vai riscando enquanto eu sonho.


8

Vejo, mas não sei se vejo;
O certo é que me cheira,
Que me vem honrar à Beira
Um Grande do pé do Tejo.


(...)


17

Ergue-se a Águia Imperial
Com os seus filhos ao rabo,
E com as unhas no cabo
Faz o ninho em Portugal.


18

Põe um A pernas acima,
Tira-lhe a risca do meio,
E por detrás lha arrima,
Saberás quem te nomeio.


19

Tudo tenho na moleira,
O passado e o futuro.
E quem for homem maduro
Há-de-me dar fé inteira.


20

Vejo sem abrir os olhos
Tanto ao longe como ao perto.
Virá do mundo encoberto
Quem mate da águia os polhos.


21

Lá pera as partes do Norte
vejo como por peneira
Levantar uma poeira
Que nos ameaça a morte.


(...)


36

Em dous sítios me achareis
Por desdita ou por ventura:
Os ossos na sepultura
E a alma nestes papéis.



JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

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