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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

SERGIO CORAZZINI (1886-1907) - TRISTEZAS DE UM POBRE POETA SENTIMENTAL






I

Porque me chamas poeta?
Eu não sou um poeta.
Sou apenas uma criancinha que chora.
Repara: só tenho lágrimas para oferecer ao Silêncio.

Porque me chamas: poeta?

II

As minhas tristezas são pobres tristezas vulgares.
As minhas alegrias foram simples,
Tão simples, que, se tas conconfessasse, teria vergonha.
Hoje, penso em morrer.

III

Quero morrer, somente porque estou cansado;
Somente porque os grandes anjos
Nos vitrais das catedrais
Me fazem tremer de amor e de angústia;
Somente porque me sinto inerme,
Devassado como um espelho,
Como um pobre espelho melancólico.
Repara que eu não sou um poeta,
Mas uma criança triste que deseja morrer.

IV

Oh, não te maravilhes com a minha tristeza!
Não me perguntes nada;
Não saberei dizer-te senão palavras vãs,
Ó meu Deus, como estas,
Que me nascem de chorar querendo morrer.
As minhas lágrimas terão um ar
De rezarem um rosário de tristeza
Perante a minh´alma sete voltas dolentes,
Mas não serei um poeta;
Serei simplesmente um rapazito doce e pensativo
A quem acontecesse este falar assim tal como canta e como dorme.

V

Comungo silêncio diariamente, como se comunga Jesus,
E os sacerdotes do silêncio são os rumores,
Pois que sem eles não haveria eu pressentido e encontrado o deus.

VI

Esta noite dormi com as mãos cruzadas.
Pareceu-me que sou um rapazinho manso,
Esquecido por todos os homens,
Frágil presa à mercê do que primeiro vier;
E desejei ser vendido,
E ser batido,
E ser obrigado a jejuar,
Para poder pôr-me a chorar sozinho,
Desesperadamente triste,
Num canto obscuro.

VII

Amo a vida símplice das coisas.
Quantas paixões vi desfolharem-se, a pouco e pouco,
Por coisas que nada mereciam!
Mas tu não me compreendes e sorris.
E julgas que estou doente.

VIII

Ai eu estou muito doente!
E morro um pouco todos os dias.
Repara: como as coisas.
Não sou, portanto, um poeta:
Eu sou apenas para que se diga: poeta,
Era preciso viver uma outra vida!
Mas eu não sou, Deus meu, senão morte.
Ámen.

Tradução de Jorge de Sena

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