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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A (IN)UTILIDADE DA METAFÍSICA III






Apesar da solidão da noite estou inquieto e a angústia existencial não me abandona. A minha vontade não está suficientemente determinada a encetar quaisquer especulações. O cérebro está mais interessado na quietude, na ausência de pensamento, que a música de Vivaldi e Bach inspira ou propicia. Tal, parece bastar para demonstrar cabalmente a minha existência e a sua real relação com tudo o que me envolve. – Bastará?
Por outro lado, procuro destruir todos os meus condicionamentos para que a investigação seja “inocente” e possa atingir a verdade. Mas, por muito esforço que empregue, nunca os conseguirei exterminar na sua totalidade, tendo que conviver com as limitações que daí irão decorrer. O mesmo se diga relativamente ao que julgo certo ou errado, verdadeiro ou falso. A tentativa de só qualificar como certo o indubitavelmente certo e nada por errado, padece dos mesmos limites naturais de que padece o empreendimento improdutivo gerado com o intuito de aniquilar os condicionamentos.
Conseguirei exterminar parte das minhas impressões residuais alojadas na memória, de modo a que as que restem não sejam suficientes para causarem a ruína das minhas especulações? – Tenho dúvidas.
Com estes pensamentos, com este cepticismo que parece aconselhar a suspensão das divagações a que nos propomos, não estaremos desde já a preconizar o naufrágio de embarcação pouco sólida contra os rochedos inabaláveis da barra? Não estaremos a trilhar vereda inútil de rumo quase-determinado, que assim qualificamos por não estar definido com exactidão? – Talvez.
Não prognosticamos já, por as termos reflectido no passado, as deduções finais, viciando todo o procedimento especulativo? – Possivelmente.

A noite é longa e sento-me agora ao computador, fumando um cigarro de maço que anuncia a morte prematura dos fumadores. Os dedos percorrem o teclado, que quebra o silêncio da noite com breves e leves sons de percussão. Massajo de quando em vez a perna esquerda, maltratada por longas horas ao leme de veleiros. Volto à música, que quebra o silêncio de breu entrado pela porta do terraço que espreita o Tejo. Os meus ouvidos comprazem-se com a Sinfonia dos Brinquedos, que evoca a minha infância e todas as sensações do vale de minha paixão: o cheiro dos pinheirais, da terra molhada de Outono, das plantas aquáticas a vogar arrastadas no ribeiro pela força da corrente, a visão dos lameiros de milhão doirado pelo sol, da água a saltar de pedra em pedra sob o olhar atento dos rebanhos em movimento, os cantares das aves e o leve sussurrar do vento nos salgueiros, bem como a alegria da festa da aldeia acompanhada da música de um acordeão e dos pífaros adquiridos às quitandeiras e soprados ao acaso pela criançada em acompanhamento dissonante. O telefone toca. Alguém me fala. Ouço a voz dela, falo e ouço a minha própria voz. Não me apetece falar; estou no fim de um resfriado que me afectou o ouvido direito, fazendo com que parte da minha voz fique retida no interior do crânio. É um incómodo, suportável, mas desagradável. Volto ao computador. Quando me limito a narrar o momento, o agora, sinto que os meus músculos se distendem e a sucessão de pensamentos perde a turbulência da dúvida. Há um afrouxamento da tensão física e psicológica, restando uma leveza dulcificada, sensação de plenitude gerada pela quase ausência do pensamento.
Tudo parece indicar que tanto eu quanto o resto do mundo existe. O senso comum atesta-o. Mas, existirei eu? E os outros? E o próprio mundo?

Foi pelos sentidos e não pela razão, que terei percepcionado o mundo e a minha existência nas suas múltiplas manifestações. Os sentidos precedem a razão e por via dessa constatação, terei de afirmar não apenas com elevado grau de convicção, mas com uma certeza inatacável, de que o conhecimento de mim mesmo e de tudo o que me rodeia, por intermédio das sensações que me são proporcionadas é efectivamente verdadeiro? – Talvez sim, talvez não.

Por enquanto, não sei o que é verdadeiro ou falso. Também não sei se o virei alguma vez a saber. Até ao momento identifiquei pensamentos e sensações, que estribados no senso comum atestam ainda que dubitativamente, quer a minha existência quer a do mundo que me rodeia com todos os seus elementos estruturais, não obstante tal asseveração empírica não implique o reconhecimento exacto e certo da minha existência e da do mundo.
Mas, pior estaremos quando nos debruçarmos sobre a existência e essência de Deus – a quem a partir daqui apelidaremos de Génio –, da alma, da imortalidade e, da criação do cosmos, por em nada o senso comum acorrer em nosso auxilio.


(continua)


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

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