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sábado, 7 de agosto de 2010

A (IN)UTILIDADE DA METAFÍSICA IV





Não poderei ser eu uma mera ilusão, um dos “entes” em que se decompõe o sonho do Génio?
Ou eu mesmo sonho, julgando estar acordado? E estou acordado quando sonho?
Tal como Chuang Tse, que sonhou ser uma borboleta, esvoaçando por aqui e por ali, como se em espaço infinito, deliciando-se com a vida, sem saber quem era, isenta do eu, ao acordar verificou que era precisamente Chuang Tse, podemos questionar-nos:
- Sonhou Chuang Tse que era uma borboleta, ou foi a borboleta que sonhou que era Chuang Tse?

Se eu for um dos elementos de sonho do Génio ou de qualquer outra entidade, existirei enquanto realidade própria?
É indício de distinção entre realidade e sonho, o facto deste último nos surgir de modo ilógico, bastas vezes de modo descontinuado e sem sentido? E quem nos diz, que essa aparência incoerente não se constitui como a verdadeira realidade?


Como já anotámos, é pelos sentidos que começamos a percepcionar o mundo.
Mas, não são estes causa de múltiplas ilusões? Ilusões auditivas, olfactivas, visuais, como a corda que ao crepúsculo confundimos com a serpente e nos faz recuar no caminho.
E sendo elementos causais de ilusões, poderão ser merecedores de crédito?

Será que os objectos percebidos pelos sentidos só têm existência enquanto representados no nosso espírito, ou seja, não têm realidade independente da nossa percepção?
Inexistirá a matéria, nada existindo no mundo, para além do espírito e das ideias?
Não obstante, as coisas hão-de existir sempre como ideia no espírito do Génio?
E todo o pensamento, seja daquilo que for, é uma ideia na mente do pensador?
Nesta perspectiva, só as ideias na mente podem ser pensadas e a matéria é contestada, conquanto desunida do espírito de modo intrínseco.
Poderíamos ser levados a pensar que esta corrente filosófica negaria em toda a sua amplitude a existência real dos objectos e dos seres percepcionados. Não nos parece, já que sendo ideias no espírito do Génio, têm a sua realidade determinada por este facto.
De qualquer modo, suponhamos então que não me é permitido duvidar dos meus sentidos – embora lhe reconheça limitações substanciais na distinção possível entre aparência e realidade, já que a maior parte dos objectos da nossa percepção, surge-nos não como “realidade”, mas como “aparência” –, ou melhor dizendo, dos dados por estes obtidos. Sei assim, que a lagoa do cimo da montanha existe, e que não deixa de existir quando uma nuvem espessa a toca com suavidade no seu movimento descendente, fazendo-a desaparecer aos meus olhos. Não obstante, esta lagoa que vejo não é a mesma para mim e para todos os que comigo estão. Surge-nos como consequência da perspectiva – em função do nosso posicionamento nas suas margens –, que por seu turno se alia à reflexão da luz para criar uma determinada imagem ou ideia específica.
Sem que queira precipitar juízos, estou relativamente convicto, ainda que na dúvida, que não devo admitir com imprudência juvenil todos os dados proporcionados pelos sentidos, já que serão porventura eles, que mais frequentemente me poderão apontar o que é verdadeiro e o que é falso – indagação a relegar para momento posterior.

Podemos também ponderar a hipótese da Realidade pertencer a um único ente, ao dito Génio, inexistindo o mundo, na perspectiva de que quando vemos os seres e objectos pelo prisma da multiplicidade são irreais, ou seja, os fenómenos são ilusórios quando considerados como estando separados do Génio e reais quando contemplados na perspectiva da unidade. Assim, só o Génio seria real; o Universo seria irreal e o espírito individual mais não seria do que o Espírito universal. A dualidade seria sempre ilusória.


Nas várias hipóteses especulativas, é bem possível que o Génio – aqui, manifestamente adjectivado como Génio do Mal – me engane, fazendo com que tudo o que por certo se me apresente seja pura ilusão, para sua diversão e entretenimento; a eternidade deve ser um tédio, e fazer “paciências” para todo-o-sempre também cansa.
Ou que um outro tipo de Génio, subalterno de um outro Génio qualquer, tenha também sido dolosamente enganado e em consequência gere inconscientemente todas as situações ilusórias.

Nesta conjuntura, com um Génio todo-poderoso – seja do Mal seja do Bem - nada poderá ser reputado de certo ou errado, mesmo o que comumente designamos como verdades matemáticas.
Um mais um podem não ser dois, mas três e, um triângulo pode ter quatro lados, já que qualquer erro pode ser levado às suas últimas consequências, ou o ente-todo-poderoso o não seria.
Não temos, pois, qualquer critério seguro que nos permita afirmar a existência de algo certo neste mundo. Não temos também critério que nos permita identificar o que está errado ou o que é falso. E, nestes domínios de floresta impenetrável, não é “crendo” que se sabe ou “sabendo” que se crê.
Resta-nos, parece, a certeza de que nada de certo ou errado, de verdadeiro ou falso possa ter existência.


(continua)


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

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