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sábado, 7 de agosto de 2010

A (IN)UTILIDADE DA METAFÍSICA V






Fim de tarde. Continuo a pensar, mas faço-o com alguma ligeireza. No meu espírito – e será que este espírito é meu? – instalou-se a dúvida que já não é metódica, a dúvida truculenta de cérebro atormentado.
Os pensamentos sucedem-se, amontoam-se, precipitam-se. Há angústia, ansiedade, algum desespero e dúvida, aqui e além aclarada por efémeras iluminações.

Se é o nosso Génio que me engana, me ilude, não existirei enquanto vítima de ilusão?
Por muito iludido que seja, poderei ser um nada, já que penso ser algo, mesmo não sabendo o quê e contra vontade do dito Génio?
A questão, na sua essência, é a de que eu não sou na hipótese suposta, um “ser” sujeito a ilusões, mas uma ilusão, um efeito que procura reproduzir com fidelidade a impressão de realidade; não uma realidade sujeita a ilusões que tendem a satisfazer a omnipotência prazenteira do Génio. E, se este tudo pode, não necessita para atingir os seus objectivos incognoscíveis de uma realidade estranha à sua criação.
Mas, eu posso dizer:
Eu não sei quem sou, mas sou e assim existo;
Eu sou um ente que pensa, que faz deduções, que julga distinguir o bem do mal, que faz afirmações e negações, que rejeita e aceita, que imagina, que se ilude a si mesmo e aos outros, que sente, que sofre psicológica e fisicamente.
Não sei quem sou, mas existo porque penso, porque duvido.
Deste modo, parece ser essencialmente pelo espírito que nos é dado o conhecimento. Poderá assim afirmar-se que apenas o que nos é exterior pode – ou deve – ser ilusão, não se incluindo nesta categoria o pensamento, mesmo que a razão esteja sujeita a erros? Não nos parece. O resultado de tal especulação diminuiria substancialmente os poderes do Génio, demitindo-o da fracção mais consequente da sua obra: a criação do indíviduo-ilusão, ente complexo no domínio bio-psico-social-ilusório. E não é enganado, seja por quem for, que poderei afirmar que serei sempre uma qualquer coisa, desde que pense sê-lo. Eu sou – hipoteticamente – uma ilusão que pensa, uma ilusão que duvida, uma ilusão que sofre, que se angustia e deprime, uma ilusão sobre a qual recaem inúmeros males. Eu sou uma ilusão e logo existo, pode ser verdade, mas caso seja uma ilusão que existe enquanto ilusão-pensamento.
Por outro lado, não seria menos verdadeiro – provavelmente até mais certo - do que o “penso, logo existo”, o “sinto, logo existo”.


(continua)


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

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