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quarta-feira, 31 de março de 2010

GUILLAUME APOLLINAIRE - BESTIÁRIO




O GATO

Na minha casa desejo ter
Uma mulher que imponha a sua razão
Um gato passeando por entre os livros
E porque sem eles não posso viver
Amigos seja qual for a estação


O POLVO

Lançando a sua tinta para o céu
Sugando o sangue daqueles que ama
E achando-o delicioso – sou eu
Essa besta desumana


O DROMEDÁRIO

Com os seus quatro dromedários
Dom Pedro pôde correr
Os quatro cantos do mundo
Fez o que eu gostaria de fazer
Se tivesse quatro dromedários


AS CARPAS

É tão longa a vossa vida
Nesses viveiros de água fria
Será que a morte se olvida
De vós peixes da melancolia


A CABRA DO TIBETE

Os pêlos dessa cabra Jasão
E aqueles de oiro razão
De tanta dor não são nada
Comparados com os cabelos da minha amada


MEDUSAS

Como vós oh infelizes cabeças
De roxas cabeleiras
Não há coisa que mais me agrade
Do que dançar no meio da tempestade


Tradução de Jorge Sousa Braga

terça-feira, 30 de março de 2010

CASIMIRO DE ABREU (1839-1860) - AMOR E MEDO


Quando eu te vejo e me desvio cauto
Da luz de fogo que te cerca, ó bela,
Contigo dizes, suspirando amores:
- «Meu Deus! Que gelo, que frieza aquela!»

Como te enganas! Meu amor, é chama
Que se alimenta no voraz segredo
E se te fujo é que te adoro louco...
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo...

Tenho medo de mim, de ti, de tudo,
Da luz, da sombra, do silêncio ou vozes
Das folhas secas, do chorar das fontes
Das horas longas a correr velozes.

O véu da noite me atormenta em dores
A luz da aurora me enternece os seios
E ao vento fresco do cair das tardes
Me estremece de cruéis receios.

É que esse vento que na várzea – ao longe,
Do colmo o fumo caprichoso ondeia,
Soprando um dia tornaria incêndio
A chama viva que teu riso ateia!

Ai! Se abrasado crepitasse o cedro,
Cedendo ao raio que a tormenta envia.
Diz: - que seria da plantinha humilde
Que à sombra dela tão feliz crescia?

A labareda que se enrosca ao tronco
Torrara a planta qual queimara o galho
E a pobre nunca reviver pudera.
Chovesse embora paternal orvalho!

Ai! Se te visse no calor da sesta,
A mão tremente no calor das tuas,
Amarrotado o teu vestido branco,
Soltos cabelos nas espáduas nuas...

Ai! Se eu te visse, Madalena pura,
Sobre o veludo reclinada a meio,
Olhos cerrados na volúpia doce,
Os braços frouxos – palpitante o seio!...

Ai! Se eu te visse languidez sublime,
Na face as rosas virginais do pejo,
Trémula a fala, a protestar baixinho...
Vermelha a boca, soluçando um beijo!...

Diz: - que seria da pureza de anjo,
Das vestes alvas, do candor das asas?
Tu te queimaras, a pisar descalça,
Criança louca – sobre um chão de brasas

No fogo vivo eu me abrasara inteiro!
Ébrio e sedento na fugaz vertigem,
Vil, machucara meu dedo impuro
As pobres flores da grinalda virgem!

Vampiro infame, eu sorveria em beijos
Toda a inocência que teu lábio encerra,
E tu serias no lascivo abraço,
Anjo enlodado nos pauis da terra.

Depois... desperta no febril delírio,
- Olhos pisados – como um vão lamento,
Tu te perguntaras: que é da minha coroa?
Eu te diria: desfolhou-a o vento!...

Oh! Não me chames coração de gelo!
Bem vês: traí-me no fatal segredo.
Se de ti fujo é que te adoro e muito!
És bela – eu moço; tens amor, eu – medo!...

IVAN MINATTI (1924) - SILÊNCIO






Silêncio
de salgueiro
sobre um braço de água parada,
silêncio
de nuvens imóveis,
silêncio
de caminhos intransitivos.

Solidão
de relvas de outono,
solidão
de pássaro sobre o pântano,
solidão
de datas insaciáveis.

Dor
de sol ensanguentado,
dor
de luz na penumbra,
dor
do não-vivido.

Tradução de Aleksandar Jovanovic

segunda-feira, 29 de março de 2010

NÂZIK AL-MAL´IKA (1926) - A NOITE PERGUNTA QUEM EU SOU






a noite pergunta quem eu sou.
sou o seu profundo segredo,
inquieto e negro, seu rebelde segredo.
meu ser escondi dentro do silêncio.
meu coração envolvi em conjecturas
para aqui fiquei, pálida, inerte,
a ver os séculos que se interrogam:
quem sou eu?

o vento pergunta: quem sou eu?
sou o seu assombrado sopro, renegada do tempo,
tal como ele, não tenho lugar.
sem fim seguimos caminhando,
eternamente passando e, lá no cume,
encontramos apenas o limite da miséria
e então o vazio.

o tempo interroga-se: quem sou eu?
como ele, sou uma altiva que devora os tempos
e lhes confere vida novamente.
retrato o longínquo passado
como esperança fácil, sedutora,
e volto eu própria a sepultá-lo.
assim posso forjar-me um ontem diferente
e um futuro perplexo.

meu ser pergunta-se: quem sou eu?
como ele caminho, fixa nas trevas
sem nada receber da paz.
e vou sempre perguntando
mas a resposta é ela também uma miragem,
e embora a creia próxima – como sempre –
ao aproximar-se, dissolve-se.
desaparece.
morre.

Tradução de Adalberto Alves

GUILLAUME APOLLINAIRE - MARIZIBILL






Na Rua Alta de Colónia
Ela ia e vinha durante a tarde
Graciosa a todos se oferecia
Depois cansada bebia
Até tarde nas cervejarias de má fama

Ela perdera-se de amores
Por um chulo ruivo e rosa
Era judeu cheirava a alho
Tinha-a tirado vindo da Formosa
Dum bordel de Xangai

Conheço pessoas de todas as cores
Não igualam os seus destinos
Indecisos como folhas mortas
Os seus olhos são fogos mal extintos
Os corações rangem como portas


Tradução de Jorge Sousa Braga

domingo, 28 de março de 2010

GUILLAUME APOLLINAIRE - ZONA




Eis-te finalmente farto deste mundo antigo

Pastora oh Torre Eiffel o rebanho das pontes bale esta manhã

Estás cansado de viver na antiguidade grega e romana

Aqui até os automóveis parecem velhos
Só a religião permanece nova só a religião
Permaneceu simples como os hangares dum campo de aviação

Só tu não és velho na Europa oh Cristianismo
O europeu mais moderno sois vós Papa Pio X
A ti a quem as janelas observam a vergonha te impede
De entrares numa igreja e de te confessares esta manhã
Lês os prospectos os catálogos os cartazes em letras garrafais
Aqui está a poesia esta manhã e para a prosa temos os diários
Os folhetins a vinte e cinco cêntimos cheios de aventuras policiais
Retratos de grandes individualidades títulos vários

Esqueci o nome de uma rua muito bonita por onde passei esta manhã
Nova e limpa era o clarim do sol
Quatro vezes por dia passam aí
De segunda-feira de manhã até sábado à tarde
Os directores os operários e as belas dactilógrafas
De manhã a sirene gemeu três vezes
Um sino furioso ladra ao meio-dia
As inscrições os estandartes e as muralhas
Os anúncios e as placas gritavam como se fossem papagaios
Amo a graça desta rua industrial
Situada em Paris entre a Rua Aumont-Thiéville e a Avenida des Ternes

Eis aqui a nova rua e tu não passas ainda de uma criança
A tua mãe não te veste senão de azul e de branco
És muito piedoso e como o mais antigo dos teus companheiros
René Dalize
Amas sobretudo as pompas da Igreja
São nove horas o gás azulado quase a extinguir-se saís do dormitório às escondidas
Rezais toda a noite na capela do colégio
Enquanto que a eterna e adorável profundeza ametista
Canta para sempre a resplandecente glória de Cristo
É o formoso lírio que todos cultivamos
É o archote de cabelos ruivos que o vento não apaga
É o filho pálido e dourado da mãe dolorosa
É a árvore frondosa de todas as preces
É a dupla potência da honra e da eternidade
É a estrela de seis pontas
É Deus que morre na sexta-feira e ressuscita no domingo
É o Cristo que sobe no céu melhor que os aviadores
Batendo a marca mundial da altura

Pupila Crucificada no olho
A Vigésima pupila dos séculos sabe ao que quer chegar
Transformado em pássaro este século como Jesus se eleva no ar
Os diabos dos abismos erguem a cabeça para vê-lo
Dizem que imita Simão o Mago na Judeia
Gritam se abe voar chamemos-lhe aviador
Os anjos adejam à volta do belo acrobata
Ícaro Enoch Elias Apolónio de Tiana
Flutuam à roda do primeiro aeroplano
Afastam-se por vezes para deixar passar aqueles que transportam a Santa Eucaristia
Esses padres que sobem eternamente elevando a hóstia
O avião pousa por fim sem recolher as asas
Milhões de andorinhas povoam agora o céu
A golpe de asas vêm agora corvos falcões mochos
De África chegam íbis flamingos marabus
Um pássaro chamo Roc cantado por narradores e poetas
Plana levando nas garras o crânio de Adão a primeira cabeça
A águia do fundo do horizonte lançando um longo grito
Chega da América o pequeno colibri
E da China esse comprido e voluptuoso pihi
Que tem uma só asa e voa aos pares
Eis a pomba espírito imaculado
Escoltada pelo pássaro-lira e pelo pavão-real
A fénix essa fogueira que a si mesma se gera
E se oculta toda na cinza ardente
As sereias abandonam os estreitos perigosos

Chegam a três cantando uma melodia sedutora
E todos águia fénix e pihis da China
Confraternizam com a máquina voadora

Agora caminhas por Paris só entre a multidão
Rebanhos de autocarros rolam mugindo a teu lado
A angústia do amor oprime-te a garganta
Como se nunca mais pudesses ser amado
Se vivesses nos tempos antigos entrarias num convento
Tendes vergonha quando vos surpreendeis a rezar
Troças de ti e o teu riso crepita como o fogo do inferno
As chispas do teu riso douram o fundo da tua vida
É um quadro pendurado num museu sombrio
Algumas vezes vais contemplá-lo de perto

Passeias hoje por Paris as mulheres estão ensanguentadas
Era e eu não queria recordá-lo o declínio da beleza

Rodeada de chamas ardentes Nossa Senhora olhou-me em Chartres
Em Montmartre fui inundado pelo sangue do vosso Sagrado Coração
Estou doente de ouvir apenas palavras bem-aventuradas
O amor de que sofro é uma doença vergonhosa
A imagem que te possui fez-te sobreviver na insónia e na angústia
Está sempre perto de ti esta imagem que passa

Eis-te agora nas margens do Mediterrâneo
Debaixo dos limoeiros floridos todo o ano
Passeias-te de barco com os teus amigos
Dois Turbienses um Mentoniano e um Nizardo
Olhamos aterrorizados os polvos das profundezas
E entre as algas nadam os peixes espelhos do Salvador

Estás no jardim de um albergue nos arredores de Praga
Sentes-te feliz há uma rosa sobre a mesa
E em lugar de escreveres o teu conto em prosa
Observas a cetónia que dorme no coração da rosa

Com espanto vês-te desenhado nas ágatas de S. Vito
Estavas triste como a morte nesse dia
Pareces-te com Lázaro enlouquecido pela luz
As agulhas do relógio do bairro judeu rodam ao contrário
E tu retrocedes também lentamente na tua vida
Subindo o Castelo de Hradchim e escutando à tarde
Cantar canções checas nas tabernas

Eis-te em Marselha rodeado de melancias

Estás em Coblence no Hotel do Gigante

Estás em Roma sentado debaixo de uma nespereira

Estás em Amsterdão com uma rapariga que te parece bonita mas é feia
Vai casar-se com um estudante de Leyde
Alugam-se nessa cidade quartos em latim Cubicula Locanda
Lembro-me de ter passado aí três dias e outros tantos em Gouda

Estás em Paris perante o Juiz de Instrução
E como a um criminoso dão-te voz de prisão

Fizeste viagens dolorosas e alegres
Antes de te dares conta da mentira e da idade
O amor fez-te sofrer aos vinte e aos trinta anos
Vivi como um louco e desperdicei o meu tempo
Já não te atreves a olhar as tuas mãos e a todo o momento quereria
soluçar
Sobre ti sobre aquela que amo sobre tudo o que te horrorizou

Olhas com os olhos cheios de lágrimas esses pobres emigrantes
Crêem em Deus rezam as mulheres amamentam os filhos
O seu cheiro enche o átrio da estação de S. Lazare
Têm fé na sua estrela como os reis magos
Esperam ganhar dinheiro na Argentina
E regressarem ao seu país depois de terem feito fortuna
Uma família leva um edredão vermelho como vós levais o coração
É tão irreal como os nossos sonhos esse edredão
Alguns emigrantes quedam-se ali e alojam-se
Em tugúrios da rua Rosier ou da rua de Écouffes
Vi-os muitas vezes de tarde na rua apanhando ar fresco
Deslocam-se raramente como as peças do xadrez
Há sobretudo judeus as suas mulheres usam peruca
Sentam-se exangues no fundo das lojas

Estás de pé ao balcão de um bar de má fama
Por dois soldos tomas um café barato

Eis-te à noite num grande restaurante

Essas mulheres não são más têm preocupações e não obstante
Todas até a mais feia fizeram sofrer o seu amante

Esta é a filha de um polícia de Jersey

As suas mãos que eu nunca tinha visto são duras e gretadas

Sinto uma piedade imensa pelas costuras no seu ventre

Humilho agora a boca ante o riso hediondo de uma puta

Estás só e a manhã vai chegar
Os leiteiros fazem tilintar as vasilhas nas ruas

A noite afasta-se como uma bela mestiça
É Ferdine a falsa ou Léa a solícita

E tu bebes este álcool ardente como a tua vida
A tua vida que tu bebes como aguardente

Caminhas até Auteuil queres chegar a casa a pé
Dormir descansado entre os teus fetiches da Oceania e da Guiné
São Cristos com outras formas e de outras crenças
Os Cristos indefesos das obscuras esperanças

Adeus Adeus

Sol decapitado

Tradução de Jorge Sousa Braga

sábado, 27 de março de 2010

WILLIAM MORRIS (1834-1896) - BASTA O AMOR






Basta o amor: embora o mundo se esteja a esvair
E os bosques sem voz mais que a voz do queixume,
Embora o céu tão escuro não deixe baços olhos descobrir
As giestas e boninas belas a florir em baixo dele,
E os montes se tomem por sombras e negro assombro o mar,
E este dia corra um véu sobre todos os feitos passados,
Nem assim lhe irão tremer as mãos, os pés tropeçar;
O vazio não cansará, nem o medo mudará
Estes lábios e estes olhos do amado e do amante.

Tradução de Helena Barbas

JOHN CEIRIOG HUGHES (1833-1887) - O REGATO DA MONTANHA







Regato da montanha, límpido e claro
Correndo apressado ou murmurando canções de lazer,
Descuidado procuras o caminho do vale.
Oh quem me dera ser eu o regato

Urze da montanha, aberta em flor
Há quanto tempo eu não te vejo?
Enquanto eu cismava no cimo do monte, o tempo fugia
E o vento espargia o cheiro da urze.

Aves da montanha, o vento vos guarda
Pairando nos céus; e em liberdade
De crista em crista vos leva voando.
Oh quem me dera eu ser como as aves!

Filho da montanha eu fui e eu sou!
Longe da terra, canto o meu canto.
Porém o coração na montanha deixei
À beira do regato, ao lado da urze, perto das aves.

Tradução de José Domingos Morais

CHRISTINA ROSSETTI (1830-1894) - REMEMBER





Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
Falar-me no futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afecto que em mim viste,
- Melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

Tradução de Manuel Bandeira

MIHAI EMINESCU (1850-1889) - ATÉ À ESTRELA






Até à estrela que nasceu
Tão longa é a caminhada,
Que anos por milhar correu
A luz aqui chegada.

Talvez há muito se extinguiu
Por essa azul lonjura
E o raio apenas reluziu
Aos olhos nesta altura.

A imagem do astro que morreu
No céu lenta se avista:
Era e não se percebeu,
Hoje não é e é vista.

De igual maneira, nosso ardor
Quando nas trevas finda,
A luz do apagado amor
Nos acompanha ainda.

Tradução de Doina Zugravescu

sexta-feira, 26 de março de 2010

PEDRO KILKERRY (1885-1917) - O VERME E A ESTRELA





Agora sabes que sou verme.
Agora, sei da tua luz.
Se não notei minha epiderme...
é, nunca estrela te supus
mas, se cantar pudesse um verme,
eu cantaria a tua luz!

E eras assim... Por que não deste
um raio, brando, ao teu viver?
Não te lembrava. Azul-celeste
o céu, talvez, não pôde ser...
Mas, ora! Enfim, por que não deste
somente um raio ao teu viver!

Olho, examino-me a epiderme,
olho e não vejo a tua luz!
Vamos que sou, talvez, um verme...
estrela nunca te supus!
Olho, examino-me a epiderme...
Ceguei! Ceguei da tua luz!

GUILLAUME APOLLINAIRE - ORAÇÃO


Quando eu era criança
A minha mãe vestia-me de azul e de branco
Oh Virgem Santa
Ainda me amais
Eu sei
Que vos hei-de amar
Até morrer
E contudo deixei de acreditar
No céu e no inferno
Deixei de acreditar
Mas no fundo sou parecido
Com o marinheiro que se salvou
Por nunca se ter esquecido
De rezar
Cada dia
Uma Avé-Maria

quinta-feira, 25 de março de 2010

MAURICE SCÈVE (1501-1564) - EM TI EU VIVO...




Em ti eu vivo onde estejas ausente:
Em mim me morro, onde esteja presente.
Mui longe estejas, sempre estarás presente:
Tão perto eu esteja, e ainda estou ausente.
E se ultrajada a natureza sente
O meu viver em ti tão mais, que em mim:
O alto poder, que abrindo sem motim,
Infunde a alma em meu corpo impassível,
Prevendo-a já sem uma essência assim,
A ti a estende, como ao seu mais possível.

Tradução de Filipe Jarro



ROBERT BRUNS (1759-1796) - ANDA ALEGRIA NO VENTO






Anda alegria no vento
sempre que vem do sol-pôr:
lá donde vive a serrana
que me enfeitiçou d´amor...
Lá nos montes, pelas fontes,
pelos pinhais, vai sozinha...
A cada momento, o vento
me faz lembrar – Joaninha!

Vejo-as nas florinhas tenras,
que dá graça de as olhar;
ouço-a no trilo das aves
que põe bruxedo no ar:
a papoila que floresce
por entre a messe, ou na vinha,
o rouxinol que gorjeia,
só me dizem – Joaninha!

Tradução de Luiz Cardim

quarta-feira, 24 de março de 2010

GUILLAUME APOLLINAIRE - SOBRE AS PROFECIAS






Conheci algumas profetisas
Madame Samajour aprendera a deitar as cartas na Oceania
Foi lá que ela teve ocasião de participar
Numa saborosa cena de antropofagia
Embora não conte isso a toda a gente
Nunca se enganava em relação ao futuro

Uma cartomante de Cêret Margarida não sei quê
É igualmente hábil
Mas Madame Deroy é mais inspirada
A mais precisa
Tudo o que ela disse acerca do passado estava certo e tudo o que ela
Me predisse veio a verificar-se
Conheci um homem que lia as sombras mas não deixei que interrogasse a minha
Conheço também um feiticeiro um pintor norueguês chamado
Diriks
Espelho quebrado sal entornado ou um pão que cai
Possam esses deuses salvarem-me sempre
No resto não creio mas olho e escuto
E notai que leio bastante bem a mão
Porque eu não acredito mas olho e se possível escuto

Toda a gente é profeta meu caro André Billy
Mas há tanto tempo que se fez acreditar às pessoas
Que elas não têm futuro ignorantes para sempre
E idiotas de nascença
Porque se escolheu um caminho e a ninguém ocorre
Perguntar-se se conheço o futuro ou não
Não há espírito religioso
Nem nas superstições nem nas profecias
Nem nisso que se chama ocultismo
Há antes de tudo uma maneira de observar a natureza
E de interpretar a natureza
Que é muito legítima

Tradução de Jorge Sousa Braga

segunda-feira, 22 de março de 2010

CESÁRIO VERDE - PROVINCIANAS






I

Olá! Bons dias! Em Março
Que mocetona e que jovem
A terra! Que amor esparso
Corre os trigos, que se movem
Às vagas dum verde garço!

Como amanhece! Que meigas
As horas antes de almoço!
Fartam-se as vacas nas veigas
E um pasto orvalhado e moço
Produz as novas manteigas.

Toda a paisagem se doura;
Tímida ainda, que fresca!
Bela mulher, sim senhora,
Nesta manhã pitoresca,
Primaveril, criadora!

Bom sol! As sebes de encosto
Dão madressilvas cheirosas
Que entontecem como um mosto
Floridas, às espinhosas
Subiu-lhes o sangue ao rosto.

Cresce o relevo dos montes,
Como seios ofegantes;
Murmuram como uma fontes
Os rios que dias antes
Bramiam galgando pontes.

E os campos, milhas e milhas,
Com povos de espaço a espaço,
Fazem-se às mil maravilhas;
Dir-se-ia o mar de sargaço
Glauco, ondulante, com ilhas!

Pois bem. O Inverno deixou-nos.
É certo. E os grãos e as sementes
Que ficam doutros Outonos
Acordam hoje frementes
Depois de uns poucos de sonos.

Mas nem tudo são descantes
Por esses longos caminhos
Entre favais palpitantes
Há solos bravos, maninhos,
Que expulsam seus habitantes!

E nesta quadra de amores
Que emigram os jornaleiros
Ganhões e trabalhadores!
Passam clãs de forasteiros
Nas terras de lavradores.

Tal como existem mercados
Ou feiras, semanalmente
Para comprarmos os gados
Assim há praças de gente
Pelos domingos calados!

Enquanto a ovelha arredonda,
Vão tribos de sete filhos,
Por várzeas que fazem onda,
Para as derregas dos milhos
E molhadelas da monda.

De roda pulam borregos;
Enchem então as cardosas
As moças desses labregos
Com altas botas barrosas
De se atirarem aos regos!

Ei-las que vêm às manadas
Com caras de sofrimento,
Nas grandes marchas forçadas!
Vêm ao trabalho, ao sustento,
Com fouces, sachos, enxadas!

Ai o palheiro das servas
Se o feitor lhe tira as chaves!
Elas chegam às catervas,
Quando acasalam as aves
E se fecundam as ervas!...


II

Ao meio dia na cama,
Branca fidalga o que julga
Das pequenas da sua ama?!
Vivem minadas da pulga
Negras do tempo e da lama.

Não é caso que a comova
Ver suas irmãs de leite,
Quer faça frio, quer chova,
Sem uma mamã que as deite
Na tepidez duma alcova?!


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org


CESÁRIO VERDE - SARDENTA





Tu, nesse corpo completo,
Ó láctea virgem doirada,
Tens o linfático aspecto
Duma camélia melada.


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

CESÁRIO VERDE - NA CIDADE





Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

«Ela aí vem!» disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que o não suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

«Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, reconhecida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org

domingo, 21 de março de 2010

CESÁRIO VERDE - CONTRARIEDADES






Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta à botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redacção, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras excepções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência a amigos ou a artistas,
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingénuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua “coterie”;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos
E apuro-me em lançar originais e exactos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a “réclame”, a intriga, o anúncio, a “blague”,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!


JOSÉ MARIA ALVES
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CESÁRIO VERDE - FRÍGIDA




I

Balzac é meu rival, minha senhora inglesa!
Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
Mas ele eternizou-lhe a singular beleza
E eu turbo-me ao deter seus olhos cor das ondas.


II

Admiro-a. A sua longa e plácida estatura
Expõe a majestade austera dos Invernos.
Não cora no seu todo a tímida candura;
Dançam a paz dos céus e o assombro dos infernos.


III

Eu vejo-a caminhar, fleumática, irritante,
Numa das mãos franzindo um lenço de cambraia!...
Ninguém me prende assim, fúnebre, extravagante,
Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!


IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
Mas nunca a fitarei duma maneira franca;
Traz o esplendor do Dia e a palidez da Noite,
É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!


V

Pudesse-me eu prostrar, num meditado impulso,
Ó gélida mulher bizarramente estranha,
E trémulo depor os lábios no seu pulso,
Entre a macia luva e o punho de bretanha!...


VI

Cintila no seu rosto a lucidez das jóias.
Ao encarar consigo a fantasia pasma;
Pausadamente lembra o silvo das jibóias
E a marcha demorada e muda dum fantasma.


VII

Metálica visão que Charles Baudelaire
Sonhou e pressentiu nos seus delírios mornos,
Permita que eu lhe adule a distinção que fere,
As curvas de magreza e o lustre dos adornos!


VIII

Deslize como um astro, um astro que declina;
Tão descansada e firme é que me desvaria,
E tem a lentidão duma corveta fina
Que nobremente vá num mar de calmaria.


IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
E, ao, persegui-la, penso acompanhar de longe
O sossegado espectro angélico da Morte!


X

O seu vagar oculta uma elasticidade
Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
E a sua glacial impassibilidade
Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.


XI

Porém, não arderei aos seus contactos frios,
E não me enroscará nos serpentinos braços:
Receio suportar febrões e calafrios;
Adoro no seu corpo os movimentos lassos.


XII

E se uma vez me abrisse o colo transparente,
E me osculasse, enfim, flexível e submisso,
Eu julgaria ouvir alguém, agudamente,
Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!


JOSÉ MARIA ALVES
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sábado, 20 de março de 2010

CESÁRIO VERDE - MERIDIONAL - CABELOS






Ó vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos,
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de ter cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de Verão,
DE flácido espaldar onde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.


Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.


JOSÉ MARIA ALVES
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CESÁRIO VERDE - NOITES GÉLIDAS - MERINA






Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de Inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.


JOSÉ MARIA ALVES
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sexta-feira, 19 de março de 2010

CESÁRIO VERDE - HUMILHAÇÕES





(De todo o coração – a Silva Pinto)

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quase Job,
Aceito os seus desdéns, seus ódios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principais teatros,
Todas as noites, ignorado e só.

Lá cansa-me o ranger da seda, a orquestra, o gás;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E enquanto vão passando as cortesãs e os brilhos,
Eu analiso as peças no cartaz.

Na representação dum drama de Feuillet,
Eu aguardava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e vã que me deslumbra
Saltou soberba o estribo do “coupé”.

Como ela marcha! Lembra um magnetizador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguês, me não entendas,
Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Porque não podia abandoná-la em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a ideia
De vê-la aproximar, sentado na plateia,
De tê-la num binóculo mordaz!

Eu ocultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
- Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
E ouviam-se cá fora as ovações.

Que desvanecimento! A pérola do Tom!
As outras ao pé dela imitam de bonecas;
Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
Nos grandes espectáculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
Vi-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropelar.
Era um municipal sobre um cavalo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
Cresci com raiva contra o militar.

De súbito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôs-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
- Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?...



JOSÉ MARIA ALVES
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CESÁRIO VERDE - RESPONSO







I

Num castelo deserto e solitário,
Toda de preto, às horas silenciosas,
Envolve-se nas pregas dum sudário
E chora como as grandes criminosas.

Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas
Em que ela esconde as lágrimas singelas.


II

E loura como as doces escocesas,
Duma beleza ideal, quase indecisa;
Circunda-se de luto e de tristezas
E excede a melancólica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados
E havia de escutar-lhe os seus pecados.


III

Alta noite, os planetas argentados
Deslizam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas águas mansíssimas do lago

Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna,
E faria que a noite fosse eterna.


IV

E os abutres e os corvos fazem giros
De roda das ameias e dos pegos,
E nas salas ressoam uns suspiros
Dolentes como as súplicas dos cegos.

Fosse eu aquelas aves de pillhagem
E cercara-lhe a fronte, em homenagem.


V

E ela vaga nas praias rumorosas,
Triste como as rainhas destronadas,
A contemplar as gôndolas airosas,
Que passam, “a giorno” iluminadas.

Pudesse eu ser o rude gondoleiro
E ali é que fizera o meu cruzeiro.


VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
Murmurando palavras aflitivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquelas árvores frondosas
E prendera-lhe as roupas vaporosas.


VII

Ou domina, a rezar, no pavimento
Da capela onde outrora se ouviu missa,
A música dulcíssima do vento
E o sussurro do mar, que se espreguiça.

Pudesse eu ser o mar e os meus desejos
Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.


VIII

E às horas do crepúsculo saudosas,
Nos parques com tapetes cultivados,
Quando ela passa curvam-se amorosas
As estátuas dos seus antepassados.

Fosse eu também granito e a minha vida
Era vê-la a chorar arrependida.


IX

No palácio isolado como um monge,
Erram as velhas almas dos precitos,
E nas noites de Inverno ouvem-se ao longe
Os lamentos dos náufragos aflitos.

Pudesse eu também ter uma procela
E as lentas agonias ao pé dela!


X

E às lajes, no silêncio dos mosteiros,
Ela conta o seu drama negregado,
E o vasto carmesim dos reposteiros
Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquelas mil tapeçarias
Nossas mortalhas quentes e sombrias.


XI

E assim passa, chorando, as noites belas,
Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
E a reflectir nas góticas janelas
As estrelas dos céus desconhecidos.

Pudesse eu ir sonhar também contigo
E ter as mesmas pedras no jazigo!


XII

Mergulha-se em angústias lacrimosas
Nos ermos dum castelo abandonado,
E as próximas florestas tenebrosas
Repercutem um choro amargurado.

Uníssemos, nós dois, as nossas covas,
Ó doce castelã das minhas trovas!


JOSÉ MARIA ALVES
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quarta-feira, 17 de março de 2010

CESÁRIO VERDE - DESLUMBRAMENTOS






Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...
E é, na graça distinta do seu porte,
Como a moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,
Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,
Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo dum regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas!


JOSÉ MARIA ALVES
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CESÁRIO VERDE (1855-1886) - ANTOLOGIA POÉTICA - INTRODUÇÃO





Neste nosso sítio, desfilam centenas de poetas portugueses, de língua portuguesa e estrangeiros.
Alguns mais apreciados que outros, alguns mais conhecidos, outros menos.

De entre os poetas portugueses editei antologias de Luís Vaz de Camões, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoaes, António Botto e Fernando Pessoa.
Se muitas faltas podemos cometer, olvidando nomes grandes da arte poética, um nunca poderia ser esquecido: Cesário Verde considerado como o maior poeta português de finais do século XIX.

Cesário verde nasceu a 25 de Fevereiro de 1855, na cidade de Lisboa.
Com dezoito anos publicou em jornais da época os seus primeiros poemas.

Frequentou o Curso de Letras onde veio a conhecer Silva Pinto, um verdadeiro amigo, que escreveria:
“Encontrámo-nos e ficámos amigos – para a vida e para a morte. para a vida e para a morte.”

Foi este seu excelente amigo que compilou o denominado “Livro de Cesário Verde”, publicado em 1887, com 22 poemas dos 40 conhecidos do poeta.

Cesário Verde faleceu com 31 anos, no dia 19 de Julho de 1886.


Neste blogue, já estão editados alguns poemas, nomeadamente a obra-prima de Cesário: “O Sentimento de Um Ocidental” – ver ETIQUETAS no fim da página.


JOSÉ MARIA ALVES
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quarta-feira, 10 de março de 2010

SINÉSIO (370-430) - A DANÇA EM DEUS






Deixa sem tardar, ao subires aos céus,
À terra o que é terra.
Em breve te juntarás ao Pai,
E, deus, dançarás em Deus.

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

FRANCISCO DE QUEVEDO (1580-1645) - REPREENDE OS GLUTÕES E BÊBADOS



Repreende os glutões e bêbados que com os seus excessos aceleram a doença e a velhice

Que os anos sobre ti voem tão leves,
pedes a Deus; e que o rosto as pegadas
deles não sinta, e às grenhas bem penteadas

Isto lhes pede, e bêbado bebes
as vindimas em taças coroadas;
e pra teu ventre todas as manadas
que Apúlia pasta são bocados leves.
Pedes a Deus quanto a ti te quitas;
tua doença, tua velhice tragas
e estar isento delas solicitas.
Mas em rugosa pele dívidas pagas
das grandes bebedeiras que vomitas,
e na saúde que, comilão, estragas.

Tradução de José Bento

segunda-feira, 8 de março de 2010

HART CRANE (1899-1932) - NO TÚMULO DE MELVILLE



Muitas das ondas, do largo desta escarpa
os dados de ossos dos afogados que ele vira mandam-lhe
embaixadas. Os números quando os notava
caíam na praia poeirenta e se volviam obscuros.

E restos de naufrágios passavam sem soar de sinos,
o cálice do que é bondoso na morte restituindo
um capítulo disperso, hieróglifo lívido,
a chaga ominosa em corredores de conchas.

E então no circuito calmo de uma vasta curva,
encantado o chicotear e conformada a malícia,
gelados olhos havia que levantavam altares;
e silentes respostas se esgueiravam de astro a astro.

Bússolas, quadrantes, sextantes já não forçam
mais marés. Alta nos azuis declives
a monodia ao marinheiro não despertará.
Esta sombra fabulosa só o mar aguarda.

Tradução de Jorge de Sena


JACQUES PRÉVERT (1900-1977) - BAIRRO LIVRE



Meti o bivaque na gaiola
e saí com um pássaro na cabeça
Então não se faz continência
perguntou o comandante
Não
não se faz continência
respondeu o pássaro
Ah bom
desculpe julgava que se fazia a continência
disse o comandante
Ora essa toda a gente se pode enganar
disse o pássaro.

Tradução de Eugénio de Andrade

MARIE LUISE KASCHNITZ (1901-1974) - ESCREVENDO





Escrevendo quis eu
Salvar a minha alma.
Tentei fazer versos
Não consegui.
Tentei contar histórias
Não consegui.
Não se pode escrever
Para salvar a alma.
A rendida parte à deriva e canta.

Tradução de Paulo Quintela

ANTÓNIO DE SOUSA (1898-1981) - MAR INCERTO



Que triste o som acorda à minha voz!
Como é pálida a luz do meu espelho
e a desse rio azul que não tem foz:
o tempo, em que me vou fazendo velho.

Dias loucos da infância, onde estais vós?
E a alegria – esse cântico vermelho
do sangue virgem que não tem avós?
Como se chama a sombra em que ajoelho?

Arfa, cansado, no meu peito, um mar:
o mar remoto da remota Ilha
onde as sereias cantam ao luar.

A esteira dos navios, as gaivotas
gritam no céu, e o céu, lânguido, brilha
sem ecos de vitórias ou derrotas.

DANTE GABRIEL ROSSETTI (1828-1882) - SONETO IX - HORAS ALADAS





Cada hora até ao nosso encontro é como um pássaro
Que esvoaça desde longe o seu caminho lento sobre
A copa adejante da minha alma – a canção dele
É mais trilada ainda entre folhas fundamente agitadas;

Mas na hora do nosso encontro, uma palavra clara
É a única nota que canta na própria fala do Amor;
E tu sabes, amor, que o doce tom sofre ofensa, -
Com a luta dos nossos beijos que mal se ouvem.

E como será essa hora quando, por fim, por causa dela
Nenhuma asa voe até mim, nem canção possa fluir?
Quando, errando pela minha vida desfolhada, veja

As penas ensanguentadas espalhadas no pântano,
E pense como, longe de mim, se com olhos iguais
Olhará ela por entre o ramo sem sons os céus sem asas?

Tradução de Helena Barbas

ROBERT DESNOS (1900-1945) - ASSIM COMO A MÃO...






Assim como a mão no instante da morte e do naufrágio se ergue como os raios do pôr do sol, assim de toda a parte jorra o teu olhar.
Já não é tempo, já não é talvez tempo de me ver,
Mas a folha que cai e a roda que gira dir-te-ão que nada é perpétuo sobre a terra,
Salvo o amor,
E disso me quero convencer.
Dos navios de salvamento pintados com avermelhadas cores,
Das trovoadas que fogem,
Uma valsa antiga que arrastam o tempo e o vento durante os longos espaços do céu.
Paisagens.
Eu, não quero outras senão o abraço a que aspiro,
E que morra o canto do galo.
Como a mão que no instante da morte se crispa, o meu coração se aperta.
Nunca chorei desde que te conheço.
Amo demais o meu amor para chorar.
Chorarás sobre a minha campa,
Ou eu sobre a tua.
Não será tarde de mais.
E mentirei. Direi que foste minha amante
Ou na verdade tudo é tão inútil,
Tu e eu, morreremos em breve.

Tradução de Filipe Jarro

VELIMIR KHLÉBNIKOV (1855-1922) - TEMPOS-JUNCOS






Tempos-juncos
Na margem do lago
Onde as pedras são tempo,
Onde o tempo é de pedra.
No lago da margem,
Tempos, juncos,
Na margem do lago,
Santos, juntos.

Tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman

NÍKOS KAVVADÍAS (1910-1975) - O PILOTO NAGEL


Nagel Harbor, um piloto norueguês de Colombo,
depois de pôr em suas rotas certas os navios
que zarpavam para portos ignotos e distantes,
descia para o barco, rosto grave, pensativo,
as duas mãos rudes cruzadas adiante do peito,
e, com o seu velho cachimbo de barro fumegando,
a falar consigo mesmo nalguma língua nórdica,
ia-se embora enquanto as naus sumiam no horizonte.

Nagel Harbor, ex-capitão da marinha mercante,
depois de ter corrido o mundo inteiro, certo dia
cansou-se e resolveu ficar de piloto em Colombo.
Mas lembrava-se sempre do seu país tão distante
e das ilhas que estão cheias de vozes, as Lofoten.
Um dia, de repente, morreu dentro do seu barco
de piloto, ao escoltar o navio-tanque «Fjord Folden»
que partia, fumegando, para as ilhas Lofoten...

Tradução de José Paulo Paes

domingo, 7 de março de 2010

BUSHIDO





Não tenho país.
Não conheço nações.
Nada no mundo me faz vergar
Sejam deuses ou barões.

O Céu, a Terra e o Mar
Que ninguém constrói
São minha casa sólida
A cabana que ninguém destrói.

A rectidão é o meu poder.
Não tenho poder divino
Nem dominação -
A honra é o meu divino poder
A honestidade o meu poder divino
Que nem tempo nem traça corrói.

Não tenho poderes mágicos
E a minha força interior
É minha magia e império.

Não sei se tenho vida ou morte;
A eternidade é a minha vida
A eternidade é a minha morte.

A coragem é o meu corpo
Os meus olhos relâmpago
A sensibilidade meus ouvidos
Meus membros a agilidade.

Não tenho regras
Não tenho códigos
Nem anacrónicas normas –
Protejo-me a mim mesmo
E essa é a minha regra e arte.

Não sei o que é o destino.
De cada momento faço o meu acaso
E de cada ocasião se fracasso
Faço a minha força.

Não tenho princípios
Não remonto aos primórdios;
De cada condição ou acidente
Faço um princípio
De cada adaptação ao momento
Faço um exórdio.

Não tenho táctica.
O vazio e o cheio
São a minha estratégia.

Não tenho dons.
O meu espírito vigilante
É o único dom
Na noite brilhante.

Não tenho amigos
Para além da minha mente.
Não tenho inimigos
Para além da imprudência.

Minha armadura
É a benevolência
E que ninguém me lamente
A impenetrável rectidão.

A sabedoria é o meu castelo de sete ameias
O meu sabre o vácuo das universais teias.


Versão JMA

THOMAS WYATT (1503-1542) - COM NEGRO OLVIDO POR CARREGAMENTO







Com negro olvido por carregamento
minha galé, em noites de invernia,
voga entre escolhos; cruelmente a guia
o Amor, - o meu senhor e meu tormento!

Cada remo é um triste pensamento:
que a Morte, em transes tais, nos alivia;
sem cessar rasga a vela a ventania
dos meus suspiros – proceloso alento.

Aguaceiros de lágrimas cruéis
na cordagem fizeram farto dano...
Ah estrela enganosa que perdeis
meu coração, com tanto desengano!

Afogada a Razão, e sem conforto,
eu desespero já de ir a bom porto.

Tradução de Luiz Cardim

LI I (748-827) - CANÇÃO DO SUL






Jovem ainda casei-me com um comerciante de Chu Tang
Dia após dia espero o seu regresso
Se soubesse quão regulares são as marés
tinha casado com um barqueiro.

Tradução de Jorge de Sousa Braga

SERAFINO D´AQUILA (1466-1500) - ESTRAMBOTE





Que fazes, Morte? Minhas cinzas deixas?
Pois que é perdido em dor todo o meu bem,
Depressa chega, e faz cessar as queixas
Dess´alma aflita que a meu peito vem.
Que se não a expulsas do já frio peito
Sempre à fortuna viverei sujeito.

Tradução de Jorge de Sena

PERE QUART (1899-1986) - O GANHO





Nada perdeu,
Pois nada possuía,
Quem chegava inválido e despido.
Mas ganhou pouco a pouco, depressa,
o melhor de saudades, preguiça acobardada,
e uma medida rasa de incertezas
onde a ilusão com tédio vai procurar migalhas.

Tradução de José Bento

KOM MYÔGUN (século VIII) - NA MORTE DO GRANDE CONSELHEIRO





Quando tão pouco da vida lhe restava já,
perguntou: «O trevo estará ainda florido?»
- Ai, meu amo e senhor!

Tradução de Stephen Reckert

GWILYM BERW (1854-1926) - DOIS MARINHEIROS NAUFRAGADOS



Deram à costa na nossa praia
Tristes despojos no esquife das ondas.
Só o Senhor conhece os seus nomes
E um dia virá para consigo os levar.

Tradução de José Domingos de Morais

HORÁCIO (século I a.C.) - ARTE POÉTICA (excerto)





Se um pintor à cabeça humana unisse
pescoço de cavalo e de diversas
penas vestisse o corpo organizado
de membros de animais de toda a espécie,
de sorte que mulher de belo aspecto
em torpe e negro peixe rematasse,
vós, chamados a ver esta pintura,
o riso sofreríeis? Pois convosco
assentai, ó Pisões, que a um quadro destes
será mui semelhante aquele livro
no qual ideias vãs se representam
(quais os sonhos do enfermo), de tal modo,
que nem pés, nem cabeça a uma só forma
convenha. De fingir ampla licença
ao poeta e pintor sempre foi dada.
Assim é; e entre nós tal liberdade
pedimos mutuamente, e concedemos;
mas não há-de ser tanta, que se ajunte
agreste com suave, e queira unir-se
ave a serpente, cordeirinho a tigre.

Tradução de Cândido Lusitano

WANG WEI (701-761) - PASSEIO NOS ARREDORES DE LIANGZHOU





Apenas três casas perdidas na charneca,
nenhuma aldeia em redor.
No templo ouve-se música,
uma flauta, um tambor, preces ao deus dos campos.
Oferendas de vinho sobre cães de palha,
fumo de incenso sobre bonecos de pau.
A sacerdotisa dança, rodopia no ar,
vai sujar as meias de seda.

Tradução de António Graça de Abreu

sábado, 6 de março de 2010

ARCHIBALD MACLEISH (1892-1982) - ARS POETICA






Um poema deve ser palpável, silencioso,
como um fruto redondo.

Mudo
como os velhos medalhões ao toque dos dedos.

Silente
como o gasto peitoril de uma janela em que cresceu o musgo.

Um poema deve ser calado
como o voo dos pássaros.

Como a lua que sobe,
um poema deve ser imóvel
no tempo,

deixando, memória por memória, o pensamento,
como a lua detrás das folhas de inverno;

deixando-o como, ramo a ramo, a lua solta
as árvores emaranhadas na noite.

Um poema deve ser imóvel
no tempo
como a lua que sobe.

Um poema deve ser igual a:
não a verdade.

Para toda a história da dor,
uma porta franqueada e uma folha de ácer.

Para o amor,
as gramíneas inclinadas e duas luzes sobre o mar.

Um poema deve ser,
e não significar.

Tradução de Péricles Eugénio da Silva Ramos

PEDRO OOM - AS VIRTUDES DIALOGAIS







Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo
este tempo
a que chamamos
nosso.


JOSÉ MARIA ALVES
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WILLEM KLOOS (1859-1938) - EU LAMENTO AS FLORES







Eu lamento as flores em botão quebradas
Que uma manhã mortas no apogeu achou,
Lamento os amores que deram em nadas
E o meu coração que ninguém abrigou:

Chegaste, partiste – como eu o sabia...
Tive a ideia exacta, não abri a boca:
À eterna inércia duma dor sombria
Regressei, vencida essa fase louca.

Tal uma avezinha no calmo relento
De súbito acorda porque o céu clareou,
E entra em chilreios, julgando «isto é dia»,

Mas, inda os olhitos não bem descerrou,
Já de novo é escuro, e vem um lamento
Passar marulhando entre a ramaria.

Tradução de Fernando Venâncio


BALTASAR DE ALCÁZAR (1530-1606) - EPIGRAMA





Avisando alguém Inês
para deixar o marido,
que anda entre putas metido,
ela disse dessa vez:

«Bem que eu veja claramente
o mal que faz ao deixar-me,
não irei dele aforrar-me
mas desforrar-me, contente.»

Tradução de José Bento

MÁRIO CESARINY - O PRESTIDIGITADOR ORGANIZA UM ESPECTÁCULO






Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida

há um sol esplendente nas coisas


JOSÉ MARIA ALVES
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MANUEL ANTÓNIO PINA (1943) - SAUDADE DA PROSA





Poesia, saudade da prosa;
escrevia «tu», escrevia «rosa»;
mas nada me pertencia,

nem o mundo lá fora
nem a memória,
o que ignorava ou o que sabia.

E se regressava
pelo mesmo caminho
não encontrava

senão palavras
e lugares vazios:
símbolos, metáforas,

o rio não era o rio
nem corria e a própria morte
era um problema de estilo.

Onde é que eu já lera
o que sentia, até a
minha alheia melancolia?

PEDRO OOM - POEMA






Tua boca
é um dia estreito
cheio de moscas

De noite
tem a cor azul-verde
dum veneno
como o mar.


JOSÉ MARIA ALVES
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HORIGUCHI DAIGAKU (1892-1981) - REDE






Rede estendida por uma aranha
E nela uma borboleta embalada.

Sepultada na sua auréola dourada
Morre.
Como essa borboleta
Eu, subindo à rede do teu amor
Embalado, iria para a morte.
Embalado.

Tradução de José Alberto Oliveira

PEDRO OOM - IDADE SEM RAZÃO







Os animais
cuja vivência
são as visitas
que todos temos feito
a girafa
ou o crocodilo
bastam
para romper
a fascinação
idade cartesiana
tanto do direito
como
do avesso


JOSÉ MARIA ALVES
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HUGH MACDIARMID (1892-1978) - A PEQUENA ROSA BRANCA






A Rosa do mundo não é para mim.
Para mim quero apenas a pequena rosa branca da Escócia
De cheiro agreste e doce – e que destroça o coração.

Tradução de Sara Soares de Oliveira

MÁRIO CESARINY - EU EM 1951 APANHANDO UMA BEATA






eu em 1951 apanhando (discretamente) uma beata (valiosa)
num café da baixa por ser incapaz coitados deles
de escrever os meus versos sem realizar de facto
neles, e à volta sua, a minha própria unidade
- fumar, quere-se dizer

esta, que não é brilhante, é que ninguém esperava
ver num livro de versos. Pois é verdade. Denota
a minha essencial falta de higiene (não de tabaco)
e uma ausência de escrúpulo (não de dinheiro) notável

o Armando, que escreve à minha frente
o seu dele poema, fuma também.
fumamos como perdidos escrevemos perdidamente
e nenhuma posição no mundo (me parece) é mais alta
mais espantosa e violenta incompatível e reconfortável
do que esta de nada dar pelo tabaco dos outros
(excepto coisas como vergonha, naturalmente,
e mortalhas)

(que se saiba) é esta a primeira vez
que um poeta escreve tão baixo (ao nível das piriscas dos outros)
aqui, e em parte mais nenhuma, é que cintila o tal condicionalismo
de que há tanto se fala e se dispõe
discretamente (como quem as apanha)
sirva tudo de lição aos presentes e futuros
nas taménidas (várias) da poesia local.
Antes andar por aí relativamente farto
antes para tabaco que para cesariny
(mário) de vasconcelos


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO ALVES DOS SANTOS - ODE





Levantar um homem dum túmulo desprezado;
deixá-lo à minha imagem
tocar no ventre das estátuas
justificando para sempre a queda mitológica das cidades.
Procurar coisa tão pouca
como a minha invenção deserta e ágil
num cigarro de acaso a própria manhã
que entre os dedos levo à minha boca.
Deixar que doa uma gota do meu sangue
e correr
correr
até que os pulsos me rebentem;
tiritar de silêncio
ter raízes que ultrapassem os regaços das mães
fazer de novo a morte no seio das montanhas abertas
e beijar na própria epiderme
a nossa lucidez amatória de universo.


JOSÉ MARIA ALVES
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sexta-feira, 5 de março de 2010

CÂNTICO DOS CÂNTICOS IV - BELEZA DA AMADA





Ah! Como és bela! Como estás linda!

Teus olhos são pombas que o véu esconde.
O teu cabelo é rebanho
Que do monte desce;
Teus dentes ovelhas tosquiadas
Que geraram gémeos;
Todas tiveram filhos.
Os teus lábios são fita escarlate
E tua fala encanta e inebria;
Tuas faces metade de romã
Que o véu cala.
Teu pescoço, a Torre de David
Para troféus erguida:
Dela mil escudos pendem,
Broquéis dos heróis.
Os teus dois seios
Filhotes gémeos de gazela
Apascentados no meio dos lírios
Antes que surja a alva
E as sombras se desvaneçam.

Quero partir para o monte da mirra
E para a colina do incenso.
Bela, toda bela és tu, minha amada,
E defeito em ti não há.
Vem do Líbano, esposa.
Vem do Líbano, vem, acerca-te.
Desce do cume de Amaná,
Do cume de Senir e de Hermon,
Do covil dos leões
Do esconderijo dos leopardos.

Por ti foi meu coração roubado;
Minha irmã, minha noiva.
Furtaste-o com o teu olhar,
Com uma só conta do teu colar.

Como são doces tuas carícias,
Irmã e noiva!
Melhores que vinho,
Melhores que todos os odores
E o aroma dos teus perfumes.
Os teus lábios exsudam doçura,
Há leite e mel sob a tua língua
E o odor das tuas vestes
É bálsamo do Líbano.

Tu és um horto fechado,
Minha irmã, minha esposa,
Um jardim calado, uma fonte selada.
Os teus rebentos
São pomar de romãzeiras
Com frutos de delícia,
Com alfenas e nardos,
Nardo e açafrão,
Cálamo e canela,
Árvores de incenso,
Mirra e aloés,
Bálsamos escolhidos.
És fonte de jardim,
Nascente de água viva
Que jorra do Líbano.


Levanta-te, vá, levanta-te vento Norte;
Vem, vem vento do Sul;
Vem soprar no meu jardim.
Que os seus perfumes se espalhem
Para que o meu Amado entre no seu jardim
E coma de seus frutos.

Versão JMA

EDITH SODERGRAND (1892-1923) - NÃO HÁ NINGUÉM QUE TENHA TEMPO





Não há ninguém no mundo que tenha tempo
ninguém a não ser Deus.
E por isso todas as flores caminham para Ele
e a última das formigas.
O miosótis pede-Lhe um mais alto brilho
nos seus olhos azuis
e a formiga pede-Lhe uma força maior
para assim agarrar a palha.
E as abelhas pedem-Lhe uma canção mais triunfal
entre as púrpuras rosas.

E Deus está presente em tudo.
Sem esperar a anciã encontrou o seu gato junto ao poço
e o gato a sua dona.
Grande foi a alegria de ambos
e maior ainda quando Deus os deixou juntos
e lhes desejou esta maravilhosa amizade
que durou catorze anos.

E entretanto um pisco-ferreiro voou da sorveira junto ao poço
feliz por Deus não o ter deixado cair nas garras do caçador.
Mas um pequeno verme viu em negro sonho
a foice da lua cortar seu corpo em dois:
um não era nada,
o outro todas as coisas e o próprio Deus.

Tradução de José Agostinho Baptista

PIERRE DE RONSARD (1524-1585) - A CUPIDO



O dia leva a noite,
E a noite escura
Leva o dia luzente
Em sombra obscura.

O Outono segue o Verão,
E os vendavais
Cessam findos que estão
Os temporais.

Mas a febre de amor
Que me tortura
Mantém o seu vigor,
E assim perdura.

Deus, para mim lançaste
A tua seta,
Porque não a apontaste
A outra meta?

Persegue os desleixados,
Deles abusa;
Não eu, nem os amados
Pela Musa.

Ai, liberta-me então
Desta megera
Que mais ri, se aflição
Vê que me gera.

Devolve a claridade
Ao meu negrume,
E nesta triste idade
Repõe o lume.

Amor dá um sustento
Ao meu pensar:
Impede com melhor vento
Meu naufragar.

Pois quanto mais eu choro
Mais me rejeita,
E quanto mais a imploro
Menos me aceita.

Nem minha cor febril
De amor em vão
Levou a tão hostil
À compaixão.

Nem a viola tocar
Ao seu portão,
Nem as noites passar
No duro chão.

Menos cruel é a sorte
Da água revolta
Que por ela, se forte
O vento a solta.

Arma-se de beleza
E assim pensa
Ver da sua crueza
A recompensa.

Sê firme uma só vez,
E dela inflama
O coração talvez
Com essa chama,

Que uma irmã acendeu
Muito indiscreta,
E de ardor corroeu
Rainha em Creta.

Tradução de Filipe Jarro

LUÍS DE MONTALVOR (1891-1947) - INFANTE



Dá-me o sol a minha fronte. Doloridos
e chagados meus pés descalços vão fugindo...
- Memórias dos meus doidos passos incontidos!
- Ó meu rumor do mundo em pétalas abrindo!

Ó corças que correis pela tarde desferindo
o balido ligeiro que alonga os ouvidos...
- Tarde de écloga e mel silvestre reluzindo...
- Minhas vinhas de vinhos de oiro não bebidos...

Desfolham-se ilusões e vão-se sem apegos...
Murchou a flor dos meus desejos com que pude
a vida transformar em ócios e sossegos...

Que lucrei, eu, Senhor! com horas execráveis
dum sonho que perdeu meu corpo de virtude?
- o pródigo que fui dos erros inefáveis!

CÂNTICO DOS CÂNTICOS III - SONHOS DE AMOR





No meu leito ambarino,
Do crepúsculo à aurora
Busquei por quem meu
Coração clama
E minh´alma chama.
Procurei-o em vão,
Com mãos agitadas
E saudosas;
Busquei-o e não o encontrei.

Levanto-me e pela cidade andarei
Sem rumo nem norte.

Por praças e ruas procurei
Aquele que meu coração ama
E por quem meu corpo ofereço
Á morte.
Não o encontrei!
Mas, aos guardas da ronda
Questionei:
«Vistes vós, aquele que amo?»

Deles me apartei
E logo meu Senhor vi,
Altivo e forte,
Muralha de meu coração,
Levada e leito da minha alma.
Abrangi-o com meus braços
E dele não me arredarei
Até que entre em casa de minha mãe,
No quarto onde fui gerada.

Conjuro-vos, mulheres de Jerusalém,
Pelas corças e gazelas que há no monte:
Não desperteis e
Não perturbeis
Meu amor
Até que Ele o queira.

O que é que do deserto sobe
Como coluna de fumo
Exalando aromas
De incenso e mirra
E todos os perfumes
De todos os mercadores de aromas?
Eis a sua liteira com varais de oiro!
Liteira de Salomão, eis os que a levam!
Sessenta guerreiros de Israel
A escoltam cingidos de espada;
Olhos de lince
Prontos para o combate
Sem que da noite medo tenham.

Um dossel Salomão para si fez
Com madeiras do Líbano:
De prata os seus pilares
E de ouro o encosto;
Assento de púrpura onde vem
E o interior
De amor incrustado
Pelas mulheres de Jerusalém.

Saí, vinde mulheres de Sião,
Admirai Salomão com o diadema
Com que sua mãe o coroou
No dia em que casou
No dia em
Que seu coração festejou.

Versão JMA

CÂNTICO DOS CÂNTICOS II - VEM O AMADO





Como lírio que viceja entre cardos
É minha amada entre as virgens.


Tal como a macieira de flor branca
Entre as árvores da floresta cerrada
É o meu Amado entre os esbeltos.
Como anseio deliciar-me com sua sombra,
Como seu fruto é doce ao meu paladar.
Que me leve para a sala da boda
E a sua bandeira do Amor se erga perante mim.
Sustentem-me com doces de passas,
Fortaleçam-me com maçãs
Porque de amor desfaleço.

A sua mão esquerda apoia minha cabeça
E a direita me abraça.
Conjuro-vos, mulheres de Jerusalém,
Pelas corças e gazelas que há no monte:
Não desperteis e
Não perturbeis
Meu amor
Até que Ele o queira.

Eis a voz de meu Amado!
Eis que meu Amado chega!
Corre montes,
Salta colinas.
É como um gamo ou filhote de gazela.
Eis que espera atrás do muro,
Olha pelas janelas
E pelas frinchas espreita.
Eis o meu Amado!
Que me fala:


Levanta-te amada!
Anda, vem comigo!
Ó bela entre as belas!
O Inverno já findou,
A chuva parou.
Nascem flores
No tempo das canções
E a voz da rola
Ouve-se pela terra.
Tempo de amor.
Da figueira brotam figos,
Das vinhas floridas vem
Um perfume arrebatador .
Levanta-te amada!
Anda, vem, estende-me a mão,
Anda, vem comigo
Bela amada!
Liberta-me desta dor.
Pomba das fendas da fraga,
Do ápice dos penhascos,
Deixa que contemple teu rosto,
Permite que tua voz oiça.
Tua voz é doce como mel
E teu rosto encantador.

Que as raposas nos acossem,
As raposas que as vinhas devastam,
Nossas vinhas floridas,
Nossas terras ornadas.


Meu Amado é para mim.
Eu para meu Amado.
Ele é o pastor que entre lírios caminha
Até que o dia desponte
E as sombras mirrem.
Volta, Amado, tu tal gamo,
Tu filhote de gazela,
Volta,
Pelas quebradas dos montes,
Pelas veredas das serras.

Versão JMA

quinta-feira, 4 de março de 2010

CÂNTICO DOS CÂNTICOS I - DIÁLOGO APAIXONADO




Que o Amante me beije com os melhores beijos de seus lábios!
Melhores são tuas carícias que o vinho,
Ao olfacto, provocante é teu perfume
E tua fama odor que se alastra.
Por isso, todas as virgens te amam.
Arrasta-me contigo.
Vamos, corramos!
Que o rei me faça entrar em seus aposentos.
Contigo haverá folia e alegria;
Uma taça de vinho puro
Nada será quando teus amores
Celebrarmos.
Não é sem razão que elas por ti clamam.
E como te chamam!

Sou morena, sou formosa,
Mulheres de Jerusalém,
Como tenda sumptuosa de Quedar,
Como tecido de Salomão.
Não estranhes que trigueira eu seja:
O sol queimou-me.
Os filhos de minha mãe
Comigo se indignaram,
A guardar as suas vinhas me obrigaram
E a minha não guardei,
Da minha não cuidei.
Lança-me um aviso, tu,
Sim tu,
Avisa-me porque és avisado:
Onde apascentas teu rebanho?
Onde o resguardas ao meio-dia?
Que eu não vagueie escondida
Atrás dos rebanhos de teus companheiros.


Se o não sabes
Ó mais bela entre as mulheres,
Sai na esteira do rebanho
E apascenta tuas cabras
Junto das cabanas dos pastores.

A ti te comparo amiga,
A égua entre os carros do Faraó.
São esplêndidas tuas faces
Entre os brincos pendentes,
Belo é teu pescoço
Com preciosos colares.
Para ti arrecadaremos ouro
Com incrustações de prata.


Enquanto o rei estiver no seu leito
Meu nardo dará seu perfume.
Meu Amado é para mim bolsa de mirra
Que em meus seios repousa;
Ele é um cacho de alfena
De flor branca e baga preta.


Ah! Como és bela!
Lindos são teus olhos de pomba!


Ah, meu Amado, como és belo!
E doce nosso leito,
Ameno e verdejante!
A nossa casa por vigas tem cedros
E por tecto ciprestes.


Versão de José Maria Alves

segunda-feira, 1 de março de 2010

MÁRIO CESARINY - POEMA



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


JOSÉ MARIA ALVES
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MÁRIO CESARINY - DE PROFUNDIS AMAMUS



Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros

Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso


JOSÉ MARIA ALVES
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MÁRIO CESARINY - EXERCÍCIO ESPIRITUAL





É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem

É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para Sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora


JOSÉ MARIA ALVES
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MÁRIO CESARINY (1923-2006) - HOJE, DIA DE TODOS OS DEMÓNIOS






Deste poeta, veja-se ainda no blogue o seguinte poema:
- YOU ARE WELCOME TO ELSINORE.
(utilize o pesquisador do blogue no canto superior esquerdo ou ETIQUETAS » O MOVIMENTO SURREALISTA DE LISBOA, no fim da página)


hoje, dia de todos os demónios
irei ao cemitério onde repousa Sá-Carneiro
a gente às vezes esquece a dor dos outros
o trabalho dos outros o coval
dos outros

ora este foi dos tais a quem não deram passaporte
de forma que embarcou clandestino
não tinha política tinha física
mas nem assim o passaram
e quando a coisa estava a ir a mais
tzzt... uma poção de estricnina
deu-lhe a moleza foi dormir

preferiu umas dores parece que no lado esquerdo da alma
uns disparates com as pernas na hora apaziguadora.
herói à sua maneira recusou-se
a beber o pátrio mijo
deu a mão ao Antero, foi-se, e pronto,
desembarcou como tinha embarcado

Sem Jeito Para o Negócio


JOSÉ MARIA ALVES
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MÁRIO HENRIQUE LEIRIA - ORIGEM DOS SONHOS ESQUECIDOS


Entre a bicicleta e a laranja
vai a distância de uma camisa branca

Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância de um relógio solar

Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado

Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante

Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras

Qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente

Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu

Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo


JOSÉ MARIA ALVES
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MÁRIO HENRIQUE LEIRIA (1923-1980) - O AMOR NÃO SOMOS NÓS QUE O TEMOS






o amor não somos nós que o temos
é-nos dado
muito antes de termos nascido
talvez verdadeiro autêntico
como o encontro do mar e da luz

depois muito depois
quando os teus braços os teus seios
chegaram até mim
já estavam perdidos
já não existiam
o meu rosto deformado atroz
já não te podia olhar
mas os meus olhos esses sim
ainda te viam como antes
como tu eras quando não existias
só os meus olhos
só os meus olhos
as mãos essas sem dedos
esfoladas esfaceladas
de tanto esperar
nunca te encontraram
e na grande planície do medo
ficavas tu que não existias
o meu corpo belo perdido
sem rosto muito pálido
partiu então
entre a nuvem e a sombra
maravilha de verdade
mas perdido na praia do sonho
embalado nas algas
com muitos animais marinhos no sexo
com um rasto de luas
que sempre sempre
o acompanharão

apenas duas gotas de sangue
pequenas rutilantes

os meus olhos meus olhos
sempre os meus olhos


JOSÉ MARIA ALVES
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MARCELINO VESPEIRA - RIR COM RISO





Rir com riso
rir sem riso
riso do riso
rir de tudo
riso do nada
rir por todos
riso de medo
rir sem medo
rir ainda com medo
riso de perder o medo
rir para ter medo
riso do medo de rir
riso sem o medo do riso
rir do riso com medo
riso do rir de medo
rir e morrer
riso de morte
morte do riso


JOSÉ MARIA ALVES
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MARCELINO VESPEIRA - HOJE






O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cansaço de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar


JOSÉ MARIA ALVES
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MARCELINO VESPEIRA (1925-2002) - MANEQUIM VISADO





Ter fomes polidas
de desejos vadios
e mapas sensatos
de aventuras falidas

E ter um sorriso morno
de manequim visado...


JOSÉ MARIA ALVES
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HENRIQUE RISQUES PEREIRA (1903-2003) - UM GATO PARTIU À AVENTURA (excerto)







(...)

Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encantada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;

(...)

O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos Sonhos.


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO LEMOS - DE QUANTAS FACAS SE FAZ O AMOR





De quantas facas se faz o amor
de quantas pedras se faz o vício
de quantos homens se faz o medo
de quantas noites se faz a morte
de quantas vidas se faz uma criança
de quantas ternuras se faz o tédio
de quantas horas
será feita a esperança que guardo
com sons de corpo arrastado
de quantas grutas será feita
esta humilde nas veias
que me acordam
de quantos poros será feito o mistério
de quantos gritos será feita uma religião
de quantos ossos será feita
a maldade
de quantos crimes será feita
esta lua que mal começou
e já me deixou no hábito de apurar
os sentidos


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO LEMOS (1926) - NÃO HÁ TEMPO






Não há tempo
há horas
Não há um relógio

hábitos que
me habitam

O poema dói
o ponteiro corta
a hora queima
a morte simula

respira
para não me distrair


JOSÉ MARIA ALVES
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FERNANDO ALVES DOS SANTOS (1928-1992) - DOIS POEMAS DA TRANQUILIDADE





I

Deve haver uma maneira tranquila
uma tranquilidade
uma certeza.
Deve haver uma febre
uma febre que seja, quando menos,
que nos dê olhos para ler tudo.
Depois dizem que há uma salvação...

Da minha infância
não guardo agora senão o chão que piso
e esse não chega.
Talvez a minha face
o meu vulto
a sombra
possam servir de algo.
Mas não.

Assim sem alegria
arrefecido, antigo
como posso comover-me
arder exausto
ou beijar o ar
o ar simplesmente
enleado!



II

Porque não posso senão trazer esta humildade
como posso dar-me ou pedir-me
se me pedem e me dão
dizendo fazê-lo por uma esperança.
Mas eu vejo
o que a morte me tem sido para que veja
e não respondo ao que imagino
porque sei que só posso desejar o que desejo.


JOSÉ MARIA ALVES
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CARLOS EURICO DA COSTA (1928-1998) - NA CIDADE DE PALAGUIN






Na cidade de Palaguin
o dinheiro corrente era olhos de crianças.
Em todas as ruas havia um bordel
e uma multidão de prostitutas
frequentava aos grupos casas de chá.
havia dramas e histórias de era uma vez
havia hospitais repletos:
o pus escorria da porta para as valetas.
Havia janelas nunca abertas
e prisões descomunais sem portas.
havia gente de bem a vagabundear
com a barba crescida.
Havia cães enormes e famélicos
a devorar mortos insepultos e voantes.
Havia três agências funerárias
em todos os locais de turismo da cidade.
Havia gente a beber sofregamente
a água dos esgotos e das poças.
Havia um corpo de bombeiros
que lançava nas chamas gasolina.

Na cidade de Palaguin
havia crianças sem braços e desnudas
brincando em parques de pântanos e abismos.
Havia ardinas a anunciar
a falência do jornal que vendiam;
havia cinemas: o preço de entrada
era o sexo dum adolescente
(as mães cortavam o sexo dos filhos
para verem cinema).
Havia um trust bem organizado
para a exploração do homossexualismo.
Havia leiteiros que ao alvorecer
distribuíam sangue quente ao domicílio.
havia pobres a aceitar como esmola
sacos de ouro de trezentos e dois quilos.
E havia ricos pelos passeios
implorando misericórdia e chicotadas.

Na cidade de Palaguin
havia bêbados emborcando ácidos
retorcendo-se em espasmos na valeta.
havia gatos sedentos
a sugar leite nos seios das virgens.
Havia uma banda de música
que dava concertos com metralhadoras;
havia velhas suicidas
que se lançavam das paredes para o meio da multidão.
Havia balneários públicos
com duches de vitríolo – quente e frio
- a população banhava-se frequentes vezes.

Na cidade de Palaguin
havia Havia HAVIA...

Três vezes nove um milhão.


JOSÉ MARIA ALVES
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ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS - UM OLHAR FURTIVO





Um olhar furtivo
por certo sabiamente encaixotado
procura-te por toda a parte
e é África que responde por ti
lá do ponto mais perigoso do labirinto
onde nem o Minotauro vem
aquecer com o seu bafo
o teu tiritar convulsivo.

São as tuas pernas que falam
a tua mão os cabelos
o silêncio desferido contra o Nada.
Tudo o que narra o Apocalipse
os que vêm de longe erguer ainda mais uma vez
a arruinda torre sobre o vulcão activo do nosso desejo
em forma de harpa
na outra margem tangida.

Nas extensas praias da foz
cada bago de areia era uma palavra
a que não sabíamos responder.


JOSÉ MARIA ALVES
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ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS - DESESPERADAS BÁTEGAS




Desesperadas bátegas
encharcam os caminhos
já alagados de lágrimas.

Sobre o mar
abstracto
os espelhos
reiventam o silêncio.

Do sal
fizeram as serras azuis
dançando de roda
esta luz amarela
o cão
e a corda que o prende.


JOSÉ MARIA ALVES
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ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS - EU VI-O OUVI-O






Eu vi-o ouvi-o
a juntar todo o azul
antes de termos a idade de países muito antigos
ao luar.

Um doido pendurado de uma árvore
é um tipo que nunca aprenderá.

Mas eram esses que me mantinham a par de tudo
e não serei eu a acusar a neve
de adormecer sobre nós.

Coisas como as madrugadas
ou a fortaleza invadida pelo tempo
ou a mão cercada por todos os garfos desta cidade
olhadas pelos gatos como simples máscaras
nunca passaram incógnitas
por esta infinita galeria de espelhos.


JOSÉ MARIA ALVES
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ARTUR DO CRUZEIRO SEIXAS (1920) - AS MÃOS ESCREVEM NAS PÁLPEBRAS





As mãos escrevem nas pálpebras
a palavra astro
neste fim de tarde solitário.
A morte é a mais lúbrica das criaturas
e vem e vai
e pendura nas paredes
mil e uma fórmulas secretas
em que são iguais as quantidades de realidade
e do que a ela se opõe.
O vento está visivelmente cansado
arranhou-se num espinheiro
e corre-lhe pelo peito quente
um fio de sangue.
Qualquer coisa como música
advém do seu silêncio
e o olhar é uma ponte nitidíssima
entre duas realidades que não há.


JOSÉ MARIA ALVES
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ANTÓNIO PEDRO (1909-1966) - PROTOPOEMA DA SERRA D´ARGA






Sonhei ou bem alguém me contou
Que um dia
Em San Lourenço da Montaria
Uma rã pediu a Deus para ser grande como um boi
A rã foi
Deus é que rebentou

E ficaram pedras e pedras nos montes à conta da fábula
Ficou aquele ar de coisa sossegada nas ruínas sensíveis
Ficou o desejo que se pega de deixar os dedos pelas arestas das fragas
Ficou a respiração ligeira do alívio do peso de cima
Ficou um admirável vazio azul para crescerem castanheiros
E ficou a capela como um inútil côncavo de virgem
Para dançar à roda o estrapassado e o vira
Na volta do San João d´Arga

Não sei se é bem assim em San Lourenço da Montaria
Sei que isto é mesmo assim em San Lourenço da Montaria
O resto não tem importância
O resto é que tem importância em San Lourenço da Montaria
O resto é a Deolinda
A Deolinda dança a goita é leve
E feia a Deolinda
Dança os amores que não teve
Tem o fôlego do hálito alheio que lhe faltou a amolecer a carne
Seca como a da penedia

O resto é o verde que sangra nos beiços grossos de apetecerem ortigas
O resto são os machos as fêmeas e paisagem é claro
Como não podia deixar de ser
As raízes das árvores à procura de merda na terra ressequida
Os bichos à procura dos bichos para fazerem mais bichos
Ou para comerem outros bichos
Os tira-olhos as moscas as ovelhas de não pintar
E o milho nos intervalos

Todas estas informações são muito mais poema do que parecem
Porque a poesia não está naquilo que se diz
Mas naquilo que fica depois de se dizer
Ora a poesia da Serra d´Arga não tem nada com as palavras
Nem com os montes nem com o lirismo fácil
De toda a poesia que por lá há

A poesia da Serra d´Arga está no desejo de poesia
Que fica depois da gente lá ter ido
Ver dançar a Deolinda
Depois da gente lá ter caçado rãs no rio
Depois da gente ter sacudido as varejeiras dos mendigos
Que também foram à romaria

As varejeiras põem as larvas nos buracos da pele dos mendigos
E da fermentação
Nascem odores azedos padre-nossos e membros mutilados

É assim na Serra d´Arga
Quando canta a Deolinda
E vem gente de longe só para a ouvir cantar

Nesses dias
As larvas vêem-se menos
Pois o trabalho que têm é andar por debaixo das peles
A prepararem-se para voar

Quanto aos mendigos é diferente
A sua maneira de aparecer
Uns nascem já mendigos com aleijões e com as rezas sabidas
Do ventre mendigo materno
Outros é quando chupam o seio sujo das mães
Que apanham aquela voz rouca e as feridas
Outros então é em consequência das moscas e das chagas
Que vão à mendicidade

Não mo contou a Deolinda
Que só conta de amores
E só dança de cores
E só fala de flores
A Deolinda

Mas sabe-se na serra que há uma tribo especial de mendigos
Que para os criar bem
Lhes põem desde pequenos os pés na lama dos pauis
Regando-os com o esterco dos outros

Enquanto ali estão a criar as membranas que valem a pena
Vão os mais velhos ensinando-lhes as orações do agradecimento
Eles aprendem
Ao saberem tudo
Nasce de propósito um enxame de moscas para cada um

Todas as moscas que há no Minho
Se geraram nos mendigos ou para eles
E é por isso que têm as patinhas frias e peganhosas
Quando pousam em nós
E é por isso que aquele zumbido de vaivém
Das moscas da Serra d´Arga
Ainda lembra a mastigação de lamúrias pelas alminhas do Purgatório
Em San Lourenço da Montaria

Este poema não tem nada que ver com os outros poemas
Nem eu quero tirara conclusões como os poetas nos artigos de fundo
Nem eu quero dizer que sofri muito ou gozei
Ou simplesmente achei uma maçada
Ou sim mas não talvez quem dera
Viva Deus-Nosso-Senhor

Este poema é como as moscas e a Deolinda
De San Lourenço da Montaria
E nem sequer lá foi escrito

Foi escrito conscienciosamente na minha secretária
Antes de eu o passar à máquina
Etc., que não tenho tempo para mais explicações

É que eu estava a falar dos mendigos e das moscas
E não disse
Contagiado pelo ar fino de San Lourenço da Montaria
Que tudo é assim em todos os dias do ano
Mas aos sábados e nos dias de romaria
Os mendigos e as moscas deles repartem-se melhor
São sempre mais
E creio de propósito
Ser na sexta-feira à noite
Que as mendigas parem aquela quantidade de mendigozinhos
Com que se apresentam sempre no dia da caridade

Elas parem-nos pelo corpo todo
Pois a carne
De tão amolecida pelos vermes
Não tem exigências especiais
E porque assim acontece
Todos os meninos nascidos deste modo têm aquele ar de coisa mole
Que nunca foi apertada

Os mendigos fazem parte de todas as paisagens verdadeiras
Em San Lourenço da Montaria
Além deles há a bosta dos bois
Os padres
O ar que é lindo
Os pássaros que comem as formigas
Algumas casas às vezes
Os homens e as mulheres

Por isso tudo ali parece ter sido feito de propósito
Exactamente de propósito
Exactamente para estar ali
E é por isso que se tiram as fotografias
Por isso tudo ali é naturalmente
Duma grande crueldade natural
Os meninos apertam os olhos das trutas
Que vêm da água do rio
Para elas estrebucharem com as dores e mostrarem que ainda estão vivas
Os homens beliscam o cu das mulheres para que elas se doam
E percebam assim que lhes agradam
Os animais comem-se uns aos outros
As pessoas comem muito devagar os animais e o pão
E as árvores essas
Sorvem monstruosamente pelas raízes tudo o que podem apanhar

Assim acaba este poema da Serra d´Arga
Onde ontem vim rachar uma árvore e me deu um certo gozo aquilo
Parecia a queda dum regímen
Tudo muito assim mesmo lá em cima
E cá em baixo dois suados à machadada

Ao cair o barulho parecia o duma coisa muito dolorosa
Mas no buraco do sítio da árvore
Na mata de pinheiral
O azul do céu emoldurado ainda era mais bonito
Em San Lourenço da Montaria


JOSÉ MARIA ALVES
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