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domingo, 20 de junho de 2010

CAIS DO SODRÉ

JOSÉ MARIA ALVES









Tarde fria de Inverno
Ramon termina o trabalho
Na garagem Conde Barão

Como há algum tempo
Encontramo-nos vestidos a rigor
A Norton 500
Uma preciosidade
Não permite desalinho
Nem desdém


Julgo que por essa altura
Teria dezassete anos
Com mestres de envergadura


Cais do Sodré
Filadélfia Texas Copenhaga Jamaica
Mais tarde o Atlântico
Famigerados bares
Não havia marinheiro que jejuasse
Não havia náufrago em terra
Que após viagens de longo curso sobre mares de prata
Não tenha sonhado com noites loucas
De orgasmos suados
De sabor a sal e
Com um quarto de pensão rasca
Num sobe-e-desce
No corre-corre de uma nota
Trocada por minutos de prazer


Maiores de 21
Lê-se à entrada
Eu entro sempre
Sou amigo de gerentes
Empregados
Porteiros
Dos clientes
Bartolini
Russo e
Outros de estranhos apelidos
Principalmente do Ramon
Emblemático
Com idade para ser meu pai
Porte de cedro do Líbano
Parecença de artista de animatógrafo
Dos anos sessenta


Para as prostitutas eu era o miúdo
Para os amigos e proxenetas também
Os porteiros olhavam para o lado
E diziam umas vezes sorrindo outras entediados
Entra
A tua já anda por aí com um Cámone
Ou
Tens princesa nova para cantar
Chegou da província
É virgem dos ouvidos
Sarcasmo duma vida em pé
A ver entrar e sair
Subir e descer
Corpos anónimos

Porteiros tapetes-de-putas
Homens sem rosto
Sem história própria
Por tanto viverem as dos outros
Pernas habituadas ao cansaço e à dor
À chuva ao frio ao calor



Do Cais do Sodré
Já não se partia para a Índia
De caravela
Construída na Ribeira das Naus

Do Cais do Sodré
Saíam e saem cacilheiros
Para Cacilhas
Autocarros para toda a cidade
Eléctricos amarelos
Comboios para Cascais
Agora até o metropolitano
Que um dia vai inundar
Palavra de quem sabe

No Cais do Sodré entrava-se
Com uma pita
Num quarto a cheirar a mofo
E saía-se mais leve
Com sono e sem guita


Havia gente que corria
Que se atropelava
Para não perder o barco
Não perder o comboio
Gente exausta
Sem identidade
Autómatos do progresso
Que se empurravam
Por um lugar sentado
No eléctrico
Que subia a Rua do Alecrim
Para o Camões

Bastava um tanso começar a correr
Que tudo o seguia
Rebanho de bacocos
Corriam para não perder a hora
Uns atrás dos outros na esteira do guia
Lanterna-vermelha atrás
A manquejar o coxinho
Já sem ver o condutor
Mas corria saltinho atrás de pulinho

Por vezes um de nós tirado à sorte
Fazia o papel de batedor para diversão do ócio
Do descanso da praça
Correndo sem parar para a estação

Um dia fim de tarde
Um pipi-de-Alcântara estatelou-se
A fronha ensanguentada
Rimos
Enquanto se preocupava com os rasgões
Das calças
E dos cotovelos da jaqueta
Comprada na Rua da Palma
Ou palmada no Estoril
A fronha que se quilhasse
Tinha compostura
A roupa não


Na rua do Arsenal
Bacalhau às postas
Grosso miúdo médio
Inteiro
O cheiro a bacalhau seco
Caras de bacalhau
Cheiro forte
Intenso
Perfumado de séculos

Vendedores de rua
Varinas
Homens descalços
Com caixotes
Às costas
Vendedeiras
Vendedores de bugiarias
Vigaristas
Um verdadeiro reboliço
Para as mãos sensíveis dos carteiristas

Bancas de jornais
Revistas
O material de guerra escondido
Um jornal desportivo
De operários e estivadores


O Engraxa desaparecera
Começou a mostrar o dinheiro que rendeu
O assalto ao Banco da Avenida de Roma
Só engraxava quem queria
Um bufo-carteirista deu à língua
Foi dentro
Nunca mais o vi
Irmãos de profissão
Não mais confiei em ninguém


Nos bares dançava-se
Bebia-se cerveja
E amava-se
Há séculos que marinheiros sedentos
Navegantes de mares cruzados
Longas viagens ao sabor do vento
Vazavam os desejos
Bebiam os sonhos desfeitos

Havia todo o tipo de chulos
Apenas uma meia-dúzia trabalhava
Os outros nada faziam
Tinham as chavalas a render
A partir da tarde encostavam-se
Cigarro no canto da boca
Às paredes do largo
Ou vagueavam de bar em bar
Como marinheiros
Impelidos por bons ventos
No mar

Espreita-me aquela a estibordo
Olha olha Alentejano a bombordo a bombordo
É capital seguro prá reforma
Vê-me a Ana Marada
O Xico da Mouraria levou-a ao tira-picos
Hoje à reforço na mesada

A Esganiçada vem de proa alevantada
Ontem não fez nem um é pra compensar
Ou faz ou o Caga-Milhões cega-a de porrada
Isto está mau não há bronze
O pessoal bota a nota debaixo do sapato
E toca uma gaitada
Sai barato

Ontem à noite houve sova de pau no Texas
Os fuzos com os feijões-verdes
Que estão para embarcar para a Guiné
Esfrangalharam o negócio todo
E o bar ao homem
Eu também estou a berrar
A Marizé pirou-se com um olho negro
Adianta-me uma vintena


Elas davam prazer aos marujos
Alguns de água doce
Os chulos protegiam-nas
E davam-lhes prazer
Tudo tem um preço diziam
Ninguém se vende
Não há nada para vender
Só prestação de serviços
O casamento também é um contrato
E quase nunca é a valer


Prostitutas de todas as idades
Vindas de toda a parte
Novas velhas de meia-idade
Umas limpas outras esquentadas
Nada que uma injecção não curasse
Prostitutas obrigadas
Prostitutas necessitadas
Prostitutas de uma verdade escondida
Prostitutas cansadas
Prostitutas vadias
Calaceiras
Mas confidentes da adversidade alheia
Ouvintes atentas do pagador
Que tantas vezes
Ia apenas em busca de amor
Ou para desabafar mágoas
De casa
Do trabalho
Do filho estropiado
Por uma mina na picada

Prostitutas
Prostitutas sim mas não mercenárias
Prostitutas como já não há


Cais do Sodré de tantas quimeras
Cais do Sodré de alegrias e misérias



Num dos bares
Corpo novo lavado
Chamavam-lhe Cleópatra

Alta
Mais alta do que eu
Tão alta como o Ramon
Esguia
Quadris de sonho
Rosto egípcio
Olhos rasgados
Beleza incomparável
Cabelos negros
Modelados em ondas
Perfeitas e sensuais
Roçando a cintura
E os seios estáticos
A clamar ao anseio
A perpetuar o desejo

Chegara há dias
Não ia assim com qualquer um
Não era eleita
Ela elegia
Às vezes não fazia nenhum

No Cais do Sodré nunca tal se vira

Passava distante pelas mesas
Alguns clientes abordavam-na
Olhava-os de baixo a alto
Uma ou duas palavras
Noutras abordagens
Seguia indiferente
Magnificente e desejada


Na mesa cheia de cervejas
De brejeiros e madraços
Nasce o desafio
Miúdo
Cervejas por um mês
Faz-te à garina
Só vale se for uma borla
Riram-se
Insistiram na festa
Nunca cheiraste nada assim
Já comeste pior e a pagar


Olhei em redor
Mais uma cerveja
Depois vou
Juro
Se levar uma latada
Não serei o primeiro

Riram-se adivinhando festival
Eu sorri às cervejas

Olho-a
Ela ignora-me
Volto a olhar
Ou sim ou sopas dizem
Levanto-me
Espera
Deixa a narta na mesa
Ó esperto
Ou queres mamar à conta
Dos otários
Só tenho dez paus respondo
Deixa-os
Poiso-os contrariado na mesa
Os olhos ora no chão ora na cadeira
E se me voltasse a sentar
Não

Ela está ao balcão
Intimidatória
Bela
Sinto um aperto no estômago
Um sobressalto de alma
Um tiro de obus no coração
Deve ter mais dez anos do que eu
Que mulher

Debruça-se na direcção do barman
Por cima do balcão
A roupa cola-se ao corpo
Meu deus
Que formas que lastro
Não conheço o chulo
Ainda me dá cabo do canastro

Aproximo-me
Espero que saia do balcão
Abordo-a a meio da sala obscurecida
Enevoada pelo fumo
Boa tarde digo
Tarde não noite diz
Isso
Que mal fiz eu a deus penso
A suar do peito

Olha-me demoradamente
Como quem aprecia um objecto
Baixo os olhos
Vem-te sentar miúdo
Respiro fundo de alívio
Ela percebe

Não bebemos nada
Olho-a submisso
Bebemos ou não
Bom aqueles tipos ficaram-me com o dinheiro
Sorriu e o seu sorriso não foi o de uma meretriz
Vejo-a fazer um sinal ao Jóia
O empregado velho

De imediato
Dois copos de cerveja na mesa

Falamos falamos falamos
Ouço-a e a voz é lenta pausada
Dá tranquilidade e paz
Ajeita o vestido tapando os joelhos
Assume o diálogo
Faz-me perguntas e fala dela
Diz que tenho um sorriso triste
Que não sei rir
Lê-me a alma e entende a minha agitação
Tens namorada
Digo que não
Riu numa gargalhada contida
Não devias andar por aqui
Neste antro só há vício não vais aprender nada
Estás a tempo miúdo
Tens dormido com muitas
Encolho os ombros com timidez
Ela sorri benevolente

Esqueço-me dos companheiros na mesa do fundo
Só eu existo e ela

Uma talvez duas horas
Passadas num ápice
Pergunta-me a frio
Vamos
Finjo não entender
Repete
Vamos miúdo
Gaguejo
Não tenho dinheiro
Não me ofendas vem
Não tenho chulo não tenho ninguém
A quem prestar contas
Vou
Corpo direito como fuso
Sem olhar os apostadores atónitos
Coração a bater alvoraçado


A pensão é perto
Vamos a pé
As escadas são negras e sujas
Sigo-a
Dá-me a mão e estremeço
Vai à frente e paga o quarto adiantado
A matrona indica-nos o ninho
Apontando-o com um molhe de couves
Apertado na mão
Estava a fazer sopa
Tira-me as medidas

O quarto é velho
Não parece ter sido convenientemente limpo
Há um bidé
Um lavatório ao fundo da cama
Duas toalhas minúsculas gastas
A cama está coberta por uma colcha coçada desenhada com flores que foram púrpura e azul-violáceo
Por baixo lençóis amarelados que já devem ter sido usados milhares de vezes
Uma janela pequena dá alguma claridade
Iluminando as sombras da penumbra
Uma mesinha de cabeceira
Um quadro da Nossa Senhora da Conceição
Na parede onde está uma mesinha com pernas desengonçadas
O tabique tem um rombo superficial de meio metro
O chão de madeira não está aplainado ou então está empenado
Tapado parcialmente por dois tapetes que certamente passaram pela guerra do ultramar tal o seu estado


Ouve-se um rumor no quarto ao lado
Um cliente quer o terceiro prato
Ela
Não sei quem
Grita
Paga anormal
Ou há papel ou não há palhaço


Vejo-a tirar os sapatos
Descobrindo metade das pernas
Arredondadas cor de pinho-mel

Sento-me na cama vestido
Ela aproxima-se
Envolve-me com os seus braços longos
Acaricia-me a face os cabelos e beija-me no pescoço junto ao peito
Não estou à vontade
O odor libertado pelo quarto mofento
Mistura-se com os nossos perfumes

Sinto à flor da pele
Um vento suave e doce
Um calafrio como se a morte passasse ao lado
Incógnita e indiferente

Vou alcançando lentamente
Segurança
Alguma serenidade

No amparo das suas carícias
Enlaço-a e beijo-a na boca rosada
As minhas mãos percorrem com suavidade o seu corpo escultural adivinhando uma nudez esplêndida
Nada me lembra ou faz pensar nos dias de amor que por ela desfilaram

Somos apenas nós
Dois que de momento a momento se transformam num

As mãos já me não tremem
Os dedos deslizam no veludo dócil da pele
Paulatinamente como quem embala uma criança
Dispo-a descobrindo-se um corpo alucinante
Os meus lábios percorrem o seu ventre os seios os ombros de marfim cinzelado
As minhas mãos sobem dos joelhos em movimento circular e detêm-se na flor do seu sexo
Talhado por escultor grego

Os corpos unem-se num místico amplexo
Há um leve gemido que se contorce de prazer
Um grito abafado pela almofada bordada de modo imperfeito talvez grosseiro

A matrona bate à porta
Avisa
Vê se te despachas o tempo acabou

Ela levanta-se
Porta entreaberta
Estende-lhe uma nota
Fecha-a definitivamente

Corre para o leito
O quarto transforma-se
Não tem o odor do sexo
Do suor das tardes
E noites mal-amadas
É movimento
É fulgor
É êxtase

No ar
Pairam orgasmos sucessivos
Que bailam no luar da janela
Há gritos
Bramidos
Ruídos surdos
Um só corpo a amar
Um só corpo a bailar
Há odores de flores sivestres
Margaridas
Camomilas
Narcisos
O quarto decorado
A rosmaninho
Salva e alecrim
Há arrebatamento
Há o fim do pensamento
Há um deus que nos incita
A amar
Ao amor
Há uma ânsia de continuar
De amar sem findar
Há a eternidade da inocência
Eternidade que não quer terminar
Um amor com o vento Norte a pairar
Um amor forte e violento como a morte

Olhamo-nos
Suados de cheiro celestial
Mente vazia
De quem nasceu para a Vida
Em horas de místico prazer

Despedimo-nos
Uma lágrima escoa de seus olhos negros
Nasceste para isto miúdo
Nasceste para isto
Sussurra
Suave doce
Amaviosa
Enquanto me acaricia os cabelos em desalinho


Miúdo
Diz

Hoje perdi a virgindade
Sou tua


Sustenho a respiração
Fecho os olhos
Vendo o que não voltarei a ver
Amando ainda por segundos o que jamais voltarei a amar
Quebro o silêncio a tristeza a saudade
E sentindo no peito o dia a clarear digo


Hoje sei o que é Amar
Sou teu



Nunca mais a vi
Nunca quis receber o prémio da aposta


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

MANIFESTO PARA A ETERNIDADE




Manifesto

Um manifesto é uma declaração pública
Como quem traz um caracol na lapela
Ou faz mestrado de palavras cruzadas

Um manifesto é um programa de ideias
Como as que se apregoam nas feiras
Entre mantas camisolas e pijamas

Um manifesto é um novo estilo de pintura
Aplicado nas fachadas das igrejas e monumentos
Por padres e políticos

Um manifesto é uma treta
É um papel sujo de jornal
Que ninguém quer ler

Por isso neste mundo esquálido
Prefere-se sofrer
Tem-se agrado no sofrimento e
AMOR LIBERDADE BELEZA
São para esquecer


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

sábado, 19 de junho de 2010

MIRITO O LOUCO





Mirito nasceu
Nasceu num palheiro
Como Jesus

Paredes de pedra rude
Amontoada
Pedra não aparelhada

Telhado de colmo
Donde se espreitavam as estrelas e sentia a chuva fria
Entrada em dia de borrasca

Na torre da igreja o sino tocava tocava
Mirito nasceu de rosto belo e já trigueiro
Ao som da Avé-Maria

Que Deus o abençoe disse a mãe
Que a Senhora da Fátima seja sua madrinha e lhe faça a cruz na testa para afastar demónios e tentações
Disse a parteira da aldeia Tia Zefa do Moinho
A Zefa da Anunciação

A vizinha Madalena rezou um Padre-nosso
E uma oração calada para ninguém ouvir a não ser Nosso Senhor

Não te esqueças mulher de acender uma vela na Santa Eufêmia
Uma vela do tamanho do rapaz
Tanto faz
Respondeu a parturiente
A vela terá o tamanho da minha bolsa
O que vale é a intenção
E olha que a tua oração não irá cair em cesto roto


Mirito nasceu
Mirito cresceu


Nasceu numa noite de luar
De sombras a afagar a pobreza
E com o sino a tocar a tocar
Prenúncio de tristeza
Anúncio de morte a bailar a bailar

Na escuridão a luz
No altar a cruz
Que Mirito haveria de carregar
Correia a enlaçar
De aldeia em aldeia
Cantando e dançando melodias desconhecidas
Até que um tal ou qualquer Arimateia
O levasse a sepultar em cova funda e anónima
Depois de o encontrar caído na curva da estrada poeirenta e resplandecente de luar

Encontrá-lo-ia
Agonizante sem remédio nem cura
Sem glória
Com a Senhora Morte ao lado


Diria se pudesse
Estou certo Miro diria
Leva-me para o Norte que o calor não suporto
Leva-me para o Norte onde é doce a Morte
Doce e alva de neve pura
Onde perco a memória
De vida malfadada

Continuaria

Eu sou o Mirito leve gentil louco e sem dono
Eu sou o próprio Norte
A Liberdade
A tristeza
E a Força da Natureza
Eu sou tudo o que o homem não é e despreza
Não sou como os demais

Sou Mirito
Servo da terra
Dos céus
Das estrelas
De bonanças e temporais e
Quero ser enterrado em cova funda onde os animais e principalmente os homens não me possam
Nem encontrar
Nem incomodar
Que ressuscitar não quero


Mirito cresceu descalço
Roto
Esfarrapado
Com um sobretudo de alto a baixo rasgado

Sobretudo do Inverno
Sobretudo do Verão
Sobretudo da chacota da garotada da freguesia
Crueldade de rapaziada
Para com o pobre desgraçado que andava andava e se sóbrio se escondia
Em qualquer pinheiral


Mirito não foi à escola
Não aprendeu a ler
A somar
Nem seu nome aprendeu a escrever
Mirito não aprendeu a brincar

Não foi à escola e de nada lhe serviria
Contava até dois e depois
Qualquer número servia
Oito cinco dez quatro
Raramente mencionava o três
Letras não as conhecia
Nem o a e i o u

Falava entaramelado
Mas asneiras falava
Escorreito quando o arremedavam
Essas eram poucos os que as não entendiam
Mas na escola não se ensinavam apenas se aprendiam e quem as já conhecia
Afinal que proveito tirava de horas mortas a inquietar outros garotos

Nunca aprenderia a ler
A contar
Ou escrever
E mesmo que algo aprendesse
Seria necessário querer

Por injustiça assim nasceu
Vagueando ora soturno
Ora alegre feito bobo
Percorrendo
Aldeias
Povos
Quintas
Sendo escorraço de quintaneiros
Pouco falando
Por não querer
Ou não saber que dizer


Mirito cresceu com o vinho e com aquela cabeça tonta que desagrada aos homens e agrada a Deus


Um copo aqui outro além
Por alma de quem lá tem
Vá lá um copo não faz mal é Mirito quem diz
Vá lá por um momento faz Mirito feliz

Vai-te embora rapaz
O vinho ataca-te a moleirinha
Ficas mais estouvado do que és
Bebe um sumo
Um pirolito
Uma gasosa e
Dou-te um quarto de trigo com manteiga da arca

Daí o enganava o taberneiro intentando besuntar o pão com margarina da lata suja ou com molho velho das iscas a saber a ranço


Quero vinho o resto come-o tu
E Mirito crescia enquanto o sobretudo encolhia


Os rapazes vinham dos campos
Alguns tocados à paulada da lavra por acabar

Jogavam à bola no terreiro

Mirito passava seguia sem saber para onde
Olhando saudosamente para trás
Saudades sem saber de quê
Saudades porquê

Os rapazes brincavam com as raparigas
Dizendo-lhe coisas de que todos se riam
Mirito sorria por ver rir mas não percebia

Diziam-lhe
Cresce tonto depois se verá

Alguns namoravam um beijo às escondidas
Mirito sentia e sem saber como se fazia ficava triste
Uma tristeza natural acompanhada da ligeira brisa do pinhal ao lado do cemitério
Onde ensaiava com jeitos e trejeitos os beijos da moçada

Imaginava uma bela moça
Como vira num jornal da Venda
E que lhe valera um pontapé no traseiro
Por olhar coisas de gente normal

Até a formiga-tonta já tem catarro disseram

Mas a bela loira de cabelos longos
Não lhe saía da cabeça
Afinal só olhara para uma fotografia suja de vinho amarrotada de um jornal que parecia tão antigo como ele
Ele que dava tudo para ter aquela fotografia
Como seria feliz namorando-a com os olhos todas a noites no seu leito de palha
Seria abençoado se a pudesse beijar ainda que papel

Essa loira de quem se via um pedacinho dos seios estava-lhe na memória
Enchia-lhe a mente inocente
Não saberia o que fazer
Talvez mexer de mansinho na carne luzidia
Talvez um beijo na face rosada
Ou na boca de dentes brancos

O restante desconhecia
Apenas sabia o que nas partes baixas sentia e por instinto tão bem lhe sabia

Melhor lhe agradaria de outra maneira
Dizia-se em segredo na Venda ao domingo
Que por ter bom ouvido ouvia e ninguém lhe dizia
Ela havia de o ensinar
Quem sabe se hoje à noitinha
E por acaso
Aparecesse na curva deserta da estrada

E sonhava sonhava o pobre louco
Que nem à escola fora
A bola jogara
Na ribeira pescara
Nem nunca amara


E Mirito crescia enquanto o sobretudo encolhia


Pobre Miro pobre louco
Coitadito


A sua cabeça já rodopiava como carrossel
Da feira de S. Bartolomeu

E via
Via coisas estranhas que o assustavam por momentos e rapidamente esquecia
Coisas do diabo
Coisas assanhadas
Arrepiadas
Que o possuíam e arrastavam pelos caminhos tortuosos
Na direcção de uma malga de vinho


Ó meu Mirito sofres tu e sofro eu


À noite
No palheiro
Via demónios
Uns sentados
Outros dependurados nas vigas de madeira velha e empenada

Das frechas do granito amontoado
Soltavam-se espectros luminosos em riso rugido

Demónios
Diabos
Fantasmas
Aparições
Diziam em voz rouca
Em gemido tremelicante
Miro tu és doido varrido
Bêbado
Vai-te vai-te
Vai-te não durmas
Não te deixaremos dormir
Vê vês
Vê a mulher loira de longos cabelos entrançados
É feiticeira
A mais bela de todas
De todas as aldeias que conheces
Vai-te enfeitiçar
Vai-te encantar
Serás um sapo e os rapazes irão pôr-te a fumar a fumar a fumar
Até rebentar

Foge Mirito
Foge
Foge para as sombras da noite
Deixa-os na tua corte
Que fiquem com o curral
Que nem teu é

Que durmam na tua palha
Nos panos velhos cor de carreiro poeirento


Carago filhos de uma grande cabra
Que me não larga
Raios os partisse
Almas de trinta diabos
Tanto bento
Tanta bruxa
Tanto filho do demo
Tudo para me causar tormento

E Mirito noite dentro
Quilómetro a quilómetro
Ia da Mata ao Sobral
Do Sobral ao ribeiro
Do ribeiro à Aldeia-Nova
Sem demora e tento
Até raiar o primeiro raio de sol
Até ao Sol nascente

Quando o Sol nascia o canto dos pássaros abafava o vozeiro dos diabos com figura de gente

Catano uma coisa assim calai-vos deixai-me não vos quero ouvir almas do demónio

Miro desesperava
Miro gritava
Carago inde-vos


A venda abria e Miro à porta da taverna
Olhava mudo o taberneiro estremunhado
Que já sabia ao que vinha
Que já lhe conhecia o vício

Um copo por Deus para matar os demónios
Um copo por Nossa-Senhora
Um copo para suster a agitação
Cinco tostões para matar a sede
Tostão a tostão para matar o Demo

Pelas alminhas que com Jesus lá tem
Pelas que no velório aguardam o Purgatório
Com Barrabás e o outro ladrão

Vai-te daqui agoirento
Vai-te vai-te
Que a Satanás encarniçado
Nem vinho nem pão
Pede-o a Judas que é teu irmão

Um copo pelo seu descanso
Por alminha de sua mãe

Pela mãe pela mãe agora sim tocara-lhe no coração
Toma alma-do-diabo
Bebe

Mirito bebia um dois ou três e ia sem direcção sem destino sem querer


Pobre Mirito pobre louco sem-tostão
Miro pobre-louco a quem as bruxas não deixavam nem adormecer


Em pequeno passava à minha porta
Ele já homem
Eu rapazito

Tomava da gaveta alguns tostões
Tia Cândida via e fingia não ver
Fazia a vontade ao filho-sobrinho
Que queria ser padre
E tanto amava
Pobres
Loucos
Velhos
Doentes
Animais

ZéIa que vais fazer perguntava
Nada de mais
Vou ver o Mirito que me chama do caminho e logo interrompia as orações ou fechava o Livro de Horas

Dois três copos de vinho

Mirito cantava agradecido sabendo que aquela porta lhe estava sempre aberta
Enquanto eu ingénuo o olhava embasbacado na sua dança estrada fora braços abertos a rodopiar voz rouca a soletrar língua estrangeira

Adeus Mirito
Amanhã passa por aí
Eu peço à Tia
E Mirito sorria
E eu não sabia que sua alegria
E minha felicidade
Nada valia ao agravar a doença de que padecia

Adeus Mirito
Pobre louco
Até amanhã
Até outro dia
À falta de capão
Cebola e pão
À falta de um tostão
Volta volta que te darei
Do vinho da Tia
Palavra
Tiro-o da adega
Às escondidas
Ninguém vai ver
Ninguém vai saber


O sino toca para a missa
Ou é para o terço
Já não estou certo

Eu cresço

Mirito mais velho
O sino tange uma morte

Eu estou no Sul
Mirito no Norte

O sino toca a rebate
Arde a encosta Poente do vale

O incêndio belo ameaçador
Já lavra no monte

Eu estudo para doutor
Mirito cada vez mais doente

O sino toca a Avé-Maria
Eu já não rezo

Mirito o Tonto não dança
Eu já não vou à igreja

Mirito com dificuldade anda
O sino toca toca sem cessar
E aquele pobre diabo está-me na alma
Na saudade que o vento frio da Serra traz
Para as paredes negras da cidade

Saudade que rói e dói


Mirito pobre louco
Eu também sofro



Noite de Inverno
Temporal
Miro já não tem as mesmas forças
Nessa altura eu vivo num jardim de betão com uma nesga de céu acorrentado à liberdade
Miro está cansado eu tenho depressão
O sobretudo cada vez mais rasgado deixa passar frio chuva neve à roupa mais interior do esfarrapado
O vento bramia
Vergava ramos de velhas árvores
Retorcia as novas há pouco plantadas
O vento gemia
Nas sombras dos olivais
Nos espectros das nuvens baixas
Fazendo rodopiar as folhas caídas

Uma chuva fina e fria
Que se entranhava na miséria
Molhava-lhe a alma

Miro continuava
Miro caminhava
Tinham-lhe dito
Não te metas ao caminho
Mirito não os ouvia
Vou para a Mata
Vou dormir

Caminhava contra o vento
Que rodopiava

Começou a nevar

Já não havia demónios diabos
Almas de outro mundo
Eram anjos alvos a bailar ao som do vento
Sinos a tocar Avé-Marias
Anjos que sorriam e o afagavam num leve arremesso

A neve caía caía em desconhecida melodia
Melodia que nenhum Bach comporia
E vestia-o de branco puro

Miro parecia uma pomba no escuro
Um dominicano em êxtase de alegria

Mirito pobre louco sorria e ria
Dançando ao vento e à neve
Com anjos e querubins de verdade
E Jesus menino que assistia enternecido a ver
Tanto Amor e Liberdade

Chegado à curva dos sonhos
Da loira encantada
Miro cansado
Deixa-se tombar no valado
Exausto a dormir
A sonhar a sonhar com o Amor
Que sempre lhe fora negado


Os anjos entenderam
Jesus concordou
Melhor seria fazê-lo ascender
Mirito faria o Céu feliz
Haveria festa e alegria
Uma imensa Felicidade
Bondade e Inocência
De homem que sempre fora petiz

Avé-Maria
Avé-Maria


Miro pobre louco meu bom amigo


Casmirito morreu no Inverno
Mirito subiu ao Céu entre anjos e arcanjos
Miro abandonou o inferno


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

RECORDAÇÃO




Na curva da estrada
Apesar do cansaço
Algo me impele a estancar

Há sombras vivas
Que repousam no asfalto
Árvores retorcidas
Que já deram o seu fruto
Vinhedos esquecidos

O Sol brilha através dos ramos dos pinheiros bravos
Um lavrador come a merenda à sombra de uma fraga
A mulher prepara estacas
O semeador descansa e bebe
O vinho com a frescura da água da mina
Ao seu lado
Pão de centeio
Queijo
Um naco de presunto velho

Sorri
O seu sorriso arrasta-me pela memória dos tempos
O seu sorriso é rosa-do-mundo
Vejo-me nos calções azuis cor de céu e na alva branca de domingo
Há missa
Os sinos tocam
Casimiro Casmiro Casmirito Mirito Miro
O meu amigo-louco
Da infância perdida
Miro
O Louco
Do sorriso infinito
Aberto
Livre
Ingénuo
Contagiante
Que ia à igreja só para me ver ler

Sinto saudades
Não sei se da vida
Se da morte
Se do mal
Se do bem
Sinto saudades
E sentir saudades
É ter feridas
Sangrantes
Mas sempre é melhor
Ter saudades
Que não ter nada

Sento-me no muro em pedra circular
Vejo um vulto no chão
Eu que desde criança vejo coisas
Coisas que não devia ver

Foi aqui que Miro veio morrer

Estou cansado de tanta morte


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

MISANTROPO SELECTIVO





Deito-me e adormeço por uma hora

Levanto-me com a mesma sensação de que já pensei tudo o que há para pensar
Não me apetece almoçar
E o cérebro está quieto mas ágil
Na dormência da mente devoluta

Sensação de plenitude e de vazio
Plenitude por ter pensado tudo o que um simples mortal pode ou julga poder pensar
Vazio por não ter atingido objectivo nenhum
É esse o problema do humano
Um cheio-vazio-interminável


Quero partir para o Norte
Estou sempre a querer partir como as aves migratórias
E depois de chegar sei lá onde
A querer voltar
Ao Sul
O Sul tem cor
Tem mulheres quase nuas nos extensos areais
Tem um sorriso aberto como o Cruzeiro do Sul
Tem calor
E tem também uma espécie de amor que o frio gélido da montanha ao borralho desconhece

Quero partir mas não quero
Apetece-me ficar ronronando como um felino indomesticado
Aguardando fêmea no covil
No meio de livros já lidos de doutrinas mil vezes debatidas
De verdades obsoletas a estrebuchar no fundo poeirento das gavetas-da-exactidão
Viajar sem me movimentar pelo céu escuro das sombras nocturnas
Viajar à velocidade da luz por galáxias nunca dantes viajadas

De qualquer modo
Tenho de voltar a pensar o já pensado
Não descansarei enquanto o não fizer
E não vou repousar depois de o ter feito
A menos que exorcize o cérebro dos seus fantasmas
Que destrua os espectros da mente
E os enterre na ala poente da necrópole ornada a cedros


No café envolto pelo fumo abstracto de um cigarro
O mais agradável do dia por ser o primeiro
Ouço preso-forçado a televisão
O tema é futebol
O tema actual é sempre futebol
Quem não sabe futebol é iletrado
Há anos que não se fala de outra coisa como se o Universo fosse um gigantesco estádio onde os deuses consagram a eternidade dando pontapés em planetas e cometas num espaço-tempo de infinitas balizas sem rede

O circo continua continua
O povo aplaude animais domados em jaula invertida
Os artistas falam um português-estrangeiro-imigrante convencidos da sua celebridade
Reconhecida por uma comunicação social burlesca
São ídolos de gente mascarada de felicidade eles que descrevem com os pés e mais raramente com a cabeça oca um país desgraçado e inábil
Tão mal representado por bandos de sendeiros que pastam nos relvados

Os artistas são os melhores aliados das ineptas sanguessugas-políticas
São gigantes-pés-de-barro-grosseiro a escoar náusea
Argumento de medidas impopulares

Fala-se das suas vidas como se tivessem algo de exemplar para nos transmitir e capitanear
São ídolos da decrepitude e da degenerescência

Odeio a comunicação social que os ceva e ao povo cega


E o Manifesto
Sou um Misantropo selectivo
Quem sabe mais tarde


JOSÉ MARIA ALVES
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LOUVA-A-DEUS




Um Louva-a-deus
No meu terraço virado para o Tejo um Louva-a-deus
Há anos que os não vejo na cidade
Se é que alguma vez os vi pelo burgo

Duvido mas não me detenho na dúvida
Olho-o com carinho Como é delicado
Frágil afável gentil


Ó Louva-a-deus
Se o meu louvor
Fosse como o teu


Fica e vive comigo
Fica e acompanha-me nesta jornada

Não me deixes só

Adeus Adeus


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

PORTUGAL É UMA COLÓNIA BRASILEIRA






O dia está acinzentado
Sem estar abafado

No quiosque junto ao meu prédio uma velha entediada queixa-se do Verão
Terei de passar as férias nesta solidão
Respondo sem pensar
Isso não é Verão e sigo o meu caminho na direcção de uma bola de Berlim e de um café curto

Noto que os seus olhos me seguem sem saber porquê Seguem os meus passos e sua sombra
Julgo que pensa
Boa vida tão novo e sem nada para fazer
Ou lê ou finge ler com o livro debaixo do braço
Quem lhe dera uma reforma para passar os dias a fazer ponto de cruz e arraiolos exercitando a morte


Na esplanada há uma espécie de tristeza amargurada
Uma morte viva melancólica estúpida fastidiosa e triste
A tristeza do tédio opaco de vagos pensamentos sem rumo ou destino
De pequeno veleiro engolfado nas águas letais da barra

Penso e pergunto-me porque existo
Reparando como quem não repara
Na existência de duas lésbicas na mesa ao lado e de um homem sem cabeça com um jornal desportivo a servir de pára-sol na mais afastada
Há sempre alguém com um jornal desportivo a servir de cabeça
Há sempre alguém que discute a asnática política desportiva
Há sempre alguém que vive como bola de borracha pontapeada por mancos acanhados

O homem levanta-se e eu sinto-me serenar como quem está para urinar há horas e não encontra lugar
Sinto-me aliviado
Tenho agora espaço
Preciso de espaço para me questionar se o meu Verão não será um quiosque com horas certas de abertura e encerramento fumado por um Marlboro
Ou um jardim em que as rosas florescem no Inverno e a geada queima os crisântemos no Estio ardente

Uma das lésbicas assoa-se limpando-se do passado
Passa lentamente com os dedos pelas narinas removendo pequenos filamentos de incompreensíveis sentimentos de culpa
A outra está imóvel sorvendo o fumo de longo e fino cigarro olhos postos nos automóveis de luxo que passam na praça
Parece procurar presa
É o macho julgo
Mas que tenho eu de julgar
Apenas factos
Quedemo-nos pelos factos
Os seus olhos penetram fixamente os mesmos objectos em que os meus se demoram
Mulheres
Mulheres belas e elegantes
Somos ambos predadores
Indiferentes um ao outro
Apesar de ambos sermos lésbicas

Jovens-mulheres desfilam seminuas mirando-se nos vidros das lojas que servem de espelho
A maioria brasileiras
Compenetradas no seu encanto
Algumas andam dançando e pelo canto do olho admiram o seu jeito peculiar de andar
O seu modo especial provocante de bamboleio
Pernas altas baixas médias magras gordas redondas
Pernas para todos os sabores
Pernas para todos os odores
Eu olho-as a lésbica também


O Verão seria diferente se me apaixonasse
As lésbicas casar-se-iam
Eu igualmente
Sem boda Odeio festas
As lésbicas levantam-se ainda não almoçaram
Levanto-me e mudo de mesa
Volto a sentar-me


Lá dentro uma jovem almoça com roupa de ginásio e saco de desporto caído ao lado
Pequena
Magra
Graciosa
De olhos penetrantes
Distantes
Não mostra interesse em nada que a rodeia
Pede o serviço ao atencioso empregado brasileiro sem se dignar olhá-lo
Olho-a mansamente entre o espaço de duas colunas irregulares de fumo
Lembra-me uma namorada antiga na sua frágil beleza
A mesma de uma flor exposta ao rigor do tempo ou de uma erva da calçada com displicência acalcanhada


Sentam-se duas brasileiras
Uma talvez não seja
Quase que a não ouço falar
A outra fala sem cessar
Menopausa precoce
Mesmo querendo não a ouvir
Sou cativo da voz
Penetrante
Irritante


As brasileiras invadiram-nos estão em todo o lado
Portugal é uma colónia brasileira
Para gosto de uns e desgosto doutras


Projecto viver no Brasil partir para a Terra-Mãe Já escolhi Itacaré ou uma praia deserta no Norte onde possa erguer velas ao vento e bolinar largo junto à costa de sereias intocadas de ventres cor de bronze e seios hirtos apontando o horizonte
Navegar no Amazonas sorver o odor da selva escutar o louco canto das aves brilhantes com uma amada a bordo estirada nua no convés a meio-navio envolta no cordame de seda
Uma nativa escura e bela que ame por amar inebriada ao sol e afagos a quem possa agasalhar no meu peito nas noites húmidas e fartas de estrelas cadentes enquanto o leme solitário manobra em faina segura levando-nos de mansinho com a proa a cortar águas para Terra-de-Ninguém
Sonho mas que mal faz sonhar senão o mal do próprio sonho


Uma mãe entra com a filha ao colo
Qual delas a mais bela
Aprecio-a sem a desejar
É de uma beleza intocável
Pura
Maternal
Deixai-a estar enlevada
Deixai-a repousar nas carícias embevecidas que com o olhar dispensa à criança
É mãe o que lhe basta


A brasileira papagueia enquanto a amiga de óculos escuros para não ouvir simula que presta atenção
Gesticula ri alto meneia-se
Faz reiki pratica yoga assevera que encontrou a paz
Tem sensações no corpo nalguns órgãos como se estivessem a ser miraculosamente limpos durante as sessões
Agora tem as energias equilibradas e bolsos mais asseados
Mas age como quem em emboscada fatal de guerrilha está debaixo de fogo cerrado
As mãos tremem-lhe e há um ou dois pequenos tiques evidentes que a traem

Temos de viver o dia-a-dia amar a vida os outros e ter forças
Diz
E ter energia a que vem de nós das nossas acções e a que nos canalizam
Deve estar a referir-se ao terapeuta-canalizador penso
Ela que eléctrica vertiginosa tem uma tomada mal ligada à terra e um fusível inoperante ao excesso de tensões
E julga ser um braço-de-deus
Deus deve ser uma centopeia penso e sorrio disfarçando o sorriso na página do livro aberto

Alguém uma amiga da Baía deitou-lhe as cartas
Apenas certezas
No passado não errou
No presente acertou
No futuro vaticinado abstractamente
Tudo cursará o melhor leito
Será rica feliz amada e finar-se-á bem tarde
A boba encartada

Convida a amiga para jogar golfe com a equipagem do falecido
Será viúva divorciada ou mal-amada
Instiga-a a aprender
O problema diz está no taco as bolas são todas iguais
O mais importante do equipamento são os sapatos


Preciso de descansar os ouvidos
Volto para casa
E no silêncio da solidão não penso nada


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

DEUS NÃO SABE LER E A ALMA NÃO ESPECULA





Desejo com ardência escrever um Manifesto para a humanidade

Um Manifesto para a Eternidade

Num Manifesto escreve-se
Escreve-se para que poucos leiam e
Poucos sintam enquanto
Nenhuns praticam
Redige-se nas areias límpidas da beira-mar
Em tempo de marés vivas

Nem na gandaia um sem-abrigo olhará as suas letras a formar palavras indecifráveis
Nem um letrado filósofo da beira-mar se dignará prestar-lhe atenção
Nem os cães que passeiam seus donos junto à rebentação das magníficas ondas irão sentir seu odor ilusório


Um Manifesto escritura-se
De preferência num papel velho
Digno
Com cheiro a catedral
E fisionomia de monumento nacional
Protegido por leis obsoletas
Saudosamente anacrónico
Um Manifesto é sempre extemporâneo
Como navio calafetado no fundo dos mares
Ou vela acesa num qualquer meio-dia de Primavera

Tem-se esperança num Manifesto
Como mãe que aguarda o nascimento de um filho
Ou a sua chegada da guerra

Um manifesto é um nado-morto
Um corpo num ataúde
Numa urna de chumbo
Carregado além-mar
Crivado de fragmentos
E marcas de dor oculta
Sangrada por estilhaços de vida sem significado


Apenas conheço três palavras
Que podem mudar o mundo
Apenas três palavras cheias e não ocas
Porque as ocas são apenas palavras
E as palavras não são as coisas
Nem sentimentos nem emoções
As ocas são o reflexo da humanidade
No espelho poeirento sujo e deformado
Do cérebro do tempo

Apenas conheço três palavras
Capazes de abranger o Universo
AMOR LIBERDADE BELEZA

Se algum dia as atingir em sua verdadeira essência já não mais serei eu
Serei Um-Com-Deus
E quando for Um-Com-Deus não perderei tempo a escrever

Deus não sabe ler
E a Alma não especula


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/


sexta-feira, 18 de junho de 2010

PENSAR OU NÃO PENSAR EIS A QUESTÃO





Já pensei quase tudo o que há para pensar
Parece-me
Apesar do que parece
Nem sempre
Ser o que parece

Poderei ou não estar errado
Como tudo
Numa vida inconsistente
Na impermanência dos dias consumidos
Como quem consome sem saborear um cigarro
De fumo invisível
Ou viaja junto ao mar encapelado e apenas espreita a estrada suja de asfalto

Afinal o pensamento não é ilimitado
E a imaginação é o erro do desesperado


Pensei o já pensado
Em caminho poeirento
Por muitos trilhado
Em jornada com rasto de sangue vivo

O pensamento é dor acutilante pressiva
É a enxovia torturante da inocência
Da candidez e da castidade


Pensei o que muitos outros pensaram
Mas ninguém sabe que o pensaram
Por terem guardado esses pensamentos numa gaveta sem fundo
Na torre subterrânea dos desejos inconscientes
Nas masmorras abissais das entranhas sórdidas
No espaço insignificante de seus bolsos rotos

Pensei e penso que não vale a pena escrever
Que não me irão ler
Que não irão ter paciência
Livros há-os em demasia
Como riqueza e pobreza

Neste mundo tudo é demais
Por excesso ou insuficiência


No entanto
A questão de Deus
O Deus verdadeiro que não o dos homens
Continua a ser a minha questão central
Quando eu
Eu mesmo
Deveria ser por ora o objecto de minhas inquietações


Quem sou
Donde venho
Para onde vou

Se sou ou não
Se vim ou não vim
Se vou ou não vou

Se Ele é
Se eu sou Ele
Ou Ele sou eu

Se existimos
Ou não existimos
Por ludibriados sermos

Se tudo é ilusão
O sonho realidade
A realidade sonho e

No desvario do engano
Se embromado estou
Porque padeço atroz

E porque algo permanece
Em vez do nada
Do vazio pacificador

E se nada existisse que voz se levantaria a questionar que corpo ou mente sentiria dor


Também a questão da alma
Merece especulação
E se quem conhece a Alma
Conhece Deus
Fico-me com um único mistério
O da Alma-Deus ou o de Deus-Alma

Tanto faz
Se o que penso só serve
Para alimentar a confusão
E o que escrevo
Não passa de incoerência
Ou de pura ilusão
De quem pensa ser e não é

Melhor seria
Exterminar o desassossego

Melhor seria não pensar


JOSÉ MARIA ALVES
http://www.homeoesp.org/

quarta-feira, 2 de junho de 2010

CÂNTICO DOS CÂNTICOS









I – DIÁLOGO APAIXONADO


Ela

Que o Amante me beije
Com os mais adocicados
Beijos de seus lábios

Melhores são tuas carícias que o vinho

Ao olfacto
Estimulante é teu perfume
E tua fama aroma que se difunde

Todas as virgens te amam

Arrasta-me contigo
Vamos vamos
Corramos

Que o rei me faça entrar em seus aposentos
Contigo haverá folia e alegria

Uma taça de vinho puro
Nada será quando teus amores
Cantarmos
Quando os celebrarmos

Não é sem razão que elas por ti clamam
E como te chamam amado

Mulheres de Jerusalém
Sou morena sou formosa
Como tenda sumptuosa de Quedar
Como tecido de Salomão

Não estranhes que trigueira eu seja
O Sol abrasou-me

Os filhos de minha mãe
Comigo se indignaram
A guardar suas vinhas me coagiram

E a minha não guardei
Da minha não cuidei

Lança-me um aviso
Tu
Sim tu

Avisa-me porque és avisado

Onde apascentas teu rebanho
Onde o resguardas ao meio-dia

Que eu não vagueie escondida
Atrás dos rebanhos de teus companheiros



Ele

Se o não sabes
Ó mais bela entre as mulheres
Sai na esteira do rebanho
E apascenta tuas cabras
Junto das cabanas dos pastores

A ti te comparo amiga
A égua entre os carros do Faraó

São esplêndidas tuas faces
Entre os brincos pendentes
Que meneias alegremente

Belo é teu pescoço
Com preciosos colares
Adornos exuberantes

Para ti arrecadaremos ouro
Com incrustações de prata



Ela

Enquanto o rei estiver no seu leito
Meu nardo dará seu perfume
Meu Amado é para mim bolsa de mirra
Que em meus seios repousa

Ele é um cacho de alfena
De flor branca e baga preta



Ele

Ah Como és bela
Lindos são
Teus olhos de pomba



Ela

Ah meu Amado
Como és belo
E doce nosso leito
Ameno e verdejante

A nossa casa por vigas tem cedros
E por tecto ciprestes








II – VEM O AMADO


Ele

Como lírio
Que viceja entre cardos
É minha Amada
Entre as virgens



Ela

Tal como a macieira
De branca flor
Entre as árvores
Da floresta copada
É meu Amado
Entre airosos
E esbeltos

Como anseio deliciar-me com sua sombra
Como seu fruto é doce ao meu paladar

Que me leve para a sala da boda
E a sua bandeira do Amor
Se erga perante mim

Sustentem-me com doces de passas
Fortaleçam-me com maçãs
Porque de amor desfaleço

A sua mão esquerda
Apoia minha cabeça
A direita me abraça

Conjuro-vos mulheres de Jerusalém
Pelas corças e gazelas que há no monte

Não desperteis e
Não perturbeis
Meu Amor
Até que Ele o queira

Eis a voz de meu Amado

Eis que meu Amado chega

Corre montes
Salta colinas

É como um gamo
Ou filhote de gazela

Eis que espera
Atrás do muro
Olha pelas janelas
E pelas frinchas espreita

Eis o meu Amado
Que me fala



Ele

Levanta-te Amada
Anda
Vem comigo

Ó bela entre as belas
O Inverno já findou
A chuva parou

Nascem flores
No tempo das canções
E a voz da rola
Ouve-se pela terra

Tempo de amor

Da figueira brotam figos
Das vinhas floridas vem
Um perfume arrebatador

Levanta-te Amada
Anda vem estende-me a mão
Anda vem comigo
Bela Amada

Liberta-me desta dor
Pomba das fendas da fraga
Do ápice dos penhascos
Deixa que contemple teu rosto

Permite que tua voz oiça
Tua voz é doce como mel
E teu rosto encantador

Que as raposas nos acossem
As raposas que as vinhas devastam
Nossas vinhas floridas
Nossas terras ornadas



Ela

Meu Amado é para mim
Eu para meu Amado

Ele é o pastor que
Entre lírios caminha
Até que o dia desponte
E as sombras mirrem

Volta Amado
Tu tal gamo
Tu filhote de gazela

Volta
Pelas quebradas dos montes
Pelas veredas das serras







III – SONHOS DE AMOR


Ela

No meu leito ambarino
Do crepúsculo à aurora
Busquei por quem meu
Coração clama
E minh´alma chama

Procurei-o em vão
Com mãos agitadas
E saudosas

Busquei-o e não o encontrei

Levanto-me e pela cidade andarei
Sem rumo nem norte

Por praças e ruas
Procurei
Aquele que
Meu coração ama
E por quem
Meu corpo ofereço
À morte

Não o encontrei

Mas aos guardas da ronda
Da noite negra
Questionei
Vistes vós aquele que amo

Deles me apartei
E logo meu Senhor vi
Altivo
Forte

Muralha de meu coração
Levada e leito
De minha alma

Abrangi-o com meus braços
E dele não me arredarei
Até que entre em casa de minha mãe

No quarto onde fui gerada

Conjuro-vos mulheres de Jerusalém
Pelas corças e gazelas que há no monte

Não desperteis e
Não perturbeis
Meu Amor
Até que Ele o queira

O que é que do deserto sobe
Como coluna de fumo
Exalando aromas
De incenso e mirra
E todos os perfumes
De todos os mercadores de bálsamos

Eis a sua liteira
Com varais de oiro
Liteira de Salomão

Eis os que a levam
Sessenta guerreiros de Israel
A escoltam cingidos de espada

Olhos de lince
Prontos para o combate
Sem que da noite medo tenham

Um dossel Salomão para si fez
Com madeiras do Líbano
De prata os seus pilares
E de ouro o encosto
Assento de púrpura onde vem
E o interior
De amor incrustado
Pelas mulheres de Jerusalém

Saí
Vinde mulheres de Sião
Admirai Salomão com o diadema
Com que sua mãe o coroou
No dia em que casou
No dia em
Que seu coração festejou







IV – BELEZAS DA AMADA


Ele

Ah Como és bela
Como estás linda

Teus olhos são pombas que o véu esconde
O teu cabelo é rebanho
Que do monte desce

Teus dentes ovelhas tosquiadas
Que geraram gémeos
Todas tiveram filhos

Os teus lábios são fita escarlate
E tua fala encanta e inebria

Tuas faces metade de romã
Que o véu cala

Teu pescoço a Torre de David
Para troféus erguida
Dela mil escudos pendem
Broquéis dos heróis

Os teus dois seios
Filhotes gémeos de gazela
Apascentados no meio dos lírios
Antes que surja a alva
E as sombras se desvaneçam

Quero partir para o monte da mirra
E para a colina do incenso

Bela toda bela és tu
Minha Amada

Defeito em ti não há

Vem do Líbano esposa
Vem do Líbano vem acerca-te

Desce do cume de Amaná
Do cume de Senir e de Hermon
Do covil dos leões
Do esconderijo dos leopardos

Por ti foi meu coração roubado
Minha irmã minha noiva

Furtaste-o com o teu olhar
Com uma só conta do teu colar

Como são doces tuas carícias
Irmã e noiva

Melhores que vinho
Melhores que todos os odores
E o aroma dos teus perfumes

Os teus lábios exsudam doçura
Há leite e mel sob a tua língua
E o odor das tuas vestes
É bálsamo do Líbano

Tu és um horto fechado
Minha irmã minha esposa

Tu és um jardim calado
Uma fonte selada

Os teus rebentos
São pomar de romãzeiras
Com frutos de delícia

Com alfenas e nardos
Nardo e açafrão
Cálamo e canela
Árvores de incenso
Mirra e aloés
Bálsamos

És fonte de jardim
Nascente de água viva
Que jorra do Líbano



Ela

Levanta-te vá levanta-te vento Norte
Vem vem vento do Sul
Vem soprar no meu jardim

Que seus perfumes se espalhem
Para que o meu Amado entre no seu jardim
E coma de seus frutos







V – PROCURAR O AMADO


Ele

Entrei em meu jardim
Minha irmã minha esposa
Colhi mirra e bálsamo
De meus favos de mel
Bebi do meu vinho
Bebi do meu leite

Comei companheiros
Bebei camaradas
Bebei embriagai-vos
Ó bem-amados



Ela

Eu dormia
Mas meu coração
Estava desperto

Chamam Chamam
É a voz de meu Amado



Ele

Abre irmã
Abre amiga
Pomba excelente

Tenho a cabeça coberta de orvalho
Meus cabelos escorrem as gotas mais puras da noite



Ela

Já despi a túnica
Voltarei a vesti-la
Lavei meus pés
Voltarei a sujá-los

Meu Amado suas mãos passou pela fresta
Por ele estremecem minhas entranhas

Levantei-me e abri a porta de meus sonhos
Minhas mãos e dedos escorriam mirra
Nos trincos da velha fechadura

Abri a porta ao Amado
E o Amado desaparecera

Fora de mim
Corro atrás de suas palavras

Procuro-o
Não o encontro
Chamo-o
Não me responde

Encontro os guardas
De ronda à cidade
Espancam-me
Ferem-me
Arrancam-me o véu
Com desprezo

Conjuro-vos mulheres de Jerusalém
Se encontrardes meu Amado
Dizei-lhe que de amor desfaleço



Elas

Que é teu Amado
Mais do que um amado
Ó mais bela entre as mulheres
Que é teu Amado
Mais do que amado
Para que assim nos conjures



Ela

Meu Amado alabastrino
E rosado distingue-se
Entre dez mil

Sua cabeça é ouro maciço
Seus cabelos cachos de palmeira
Negros como corvo

Seus olhos são pombas
Nos cachopos das águas
Banhadas em leite
Pousadas na ribeira

Suas faces canteiros de bálsamo
A ver altear plantas perfumadas

Seus lábios lírios
A gotejar mirra
Que se difunde

Seus braços ceptros de ouro
Cravados
De pedras de Társis

Seu ventre
Marfim polido
Crivado de safiras

Suas pernas
Pilares de alabastro
Assentes em ouro fino

A sua aparência é como a do Líbano
Jovem esguio e esbelto como cedro

Sua boca exala doçura

Ouvi
Este é o meu Amado
Este é o meu amigo
Mulheres de Jerusalém







VI – NOVO RETRATO DA AMADA


Elas

Onde foi teu Amado
Ó mais bela entre as mulheres

Onde foi teu Amado
Contigo o buscaremos



Ela

Meu Amado
Desceu ao jardim
Canteiro dos aromas

Apascenta nos jardins
E colhe lírios

Eu sou para o meu Amado
Assim como o meu Amado
É para mim

Ele é o pastor que vagueia entre lírios



Ele

Tu és bela minha Amada
Bela como Tirça
Esplendorosa como Jerusalém
Temível como todas
As coisas grandiosas

Afasta de mim esses teus olhos
Que me enlouquecem

Tua cabeleira é rebanho
De cabras
Que desce de Guilead

Teus dentes rebanho
De ovelhas
Saindo do banho
Depois de tosquiadas
Todas deram gémeos
Todas deram filhos

As tuas faces
Metades de romã
Por detrás do véu

Sessenta são as rainhas
Oitenta as concubinas
E donzelas não há
Quem as conte

Mas ela é única
A minha pomba
A perfeita
A mais perfeita perfeição
A sem pecado nem tentação

É ímpar para sua mãe
Dilecta de quem à luz a deu

As donzelas prestam-lhe louvor
Rainhas e concubinas celebram-na



Elas

Quem é essa
Quem é essa que desponta
Como a aurora
Bela como o Lua
Cintilante como o Sol
Esplendorosa e temível
Como as coisas grandiosas



Ela

Desci ao jardim das nogueiras
Para admirar o vale
Para ver as vides rebentar
E os cachos a abrir

Não conheço a ânsia
Que me arroja
Na carruagem do meu príncipe







VII – A DANÇA DO AMOR


Amigos

Volta-te volta-te Sulamita
Volta-te
Queremos ver-te
Que vemos nós na Sulamita
Quando entre dois coros baila



Ele

Como são harmoniosos
Ó Princesa
Teus pés nas sandálias

Assemelham-se a colares
As curvas dos teus quadris
Obra de exímio artista

Teu umbigo
Taça redonda
Que não escasseie vinho doce

Teu ventre
Monte de trigo
Cercado de lírios

Teus seios
Filhos gémeos
De gazela

Teu pescoço
Torre de marfim

Teus olhos
Piscinas de Hesbon
Às portas de Bat-Rabim

Teu nariz Torre do Líbano
De vigia
Voltada para Damasco

Tua cabeça é altiva
Tal Monte Carmelo
Teus cabelos púrpura
De seus laços têm um rei cativo

Como és bela Amor

Porte de palmeira
Teus seios são seus cachos

Meditei
Subirei à palmeira
Colherei seus frutos
Sejam pois
Teus seios cachos de uvas
E teu hálito perfume de maçãs

A tua boca que do melhor vinho bebe



Ela

Que ele sobre meu Amado escorra
Que lhe molhe os lábios adormecidos

Ao meu Amado pertenço
Ao meu Amado desejo

Anda vem meu Amado
Corramos corramos
Ao campo
Passando a noite abrigados
Pelos altivos cedros

Madruguemos nos vinhedos

Dar-te-ei carícias
Enquanto as mandrágoras
Exalam seu perfume

Todos os frutos
Para ti guardei Amado







VIII – PARÁBOLAS DO AMOR


Ela

Se meu irmão fosses
Amamentado pelos seios de minha mãe
Encontrar-te-ia na rua
E sem censura de ninguém
Haveria de beijar-te
Longamente te beijaria

Quem me dera fosses meu irmão

Levar-te-ia para casa de minha mãe
E tu havias de me ensinar

Dar-te-ia vinho perfumado
Do mosto das romãs

Com a sua mão esquerda
Debaixo de minha cabeça
Enquanto a direita me abraça
Eu vos conjuro mulheres de Jerusalém
Não desperteis
Nem perturbeis
O meu Amor



Elas

Quem é que sobe do deserto
Aconchegada ao seu Amado



Ela

Sob a macieira te avivei
Onde tua mãe sentiu as dores
Que à luz te deram

Grava-me no teu coração
Com um selo sagrado
Grava-me como selo no teu coração
Grava-me como selo em teus braços
Porque
O Amor é forte como a Morte
De novo te digo
Forte como a Morte é o Amor
Implacável tal abismo é a paixão
E seus ardores labaredas divinas

O fogo do Amor é inextinguível



Irmãos

Temos uma irmã pequenina
Ainda sem seios
Que faremos quando dela vierem falar

Se ela for muralha
Nela faremos ameias de prata
Se porta for
Será reforçada com traves de cedro

Não temos de nos preocupar



Ela

Sim
Eu sou muralha
E
Meus seios torres
Por isso
A seus olhos transformei-me
Na que a paz traz



Ele

Salomão tinha uma vinha
Em Baal-Hamon
Confiou-a a guardas
Dando a cada um pelo fruto
Mil moedas de prata

É minha a minha vinha
A minha vinha comigo fica
E para ti Salomão
As mil moedas de prata
E mais duzentas
A quem lhe guarda o fruto

Estás sentada nos jardins
E ouve-se a tua voz
Deixa que te oiça também



Ela

Corre meu Amado
Como gamo ou filhote de gazela
Pelos montes perfumados


Versão de José Maria Alves

CÂNTICO DO AMOR










ainda que fale 
         a língua
                  de homens
                  e a de anjos

             se amor não tiver
             sou como o bronze
                           que soa
             ou o címbalo
                           que ecoa

   ainda que tenha
   o dom da profecia
   e conheça todos os enigmas
   toda a ciência e filosofia

   ainda que toda a minha fé
   mova as mais altas montanhas

            se não tiver amor
                  nada sou

         ainda que distribua
         todos os meus bens
         e o meu corpo
         entregue à fogueira

            se não tiver amor
            de nada me valerá


      o amor é paciência
      o amor é prestante

não é invejoso
nem arrogante
nem orgulhoso

é manso e sonante
divino amante

      nada faz de abusivo
      é gratuito              amor

           amado e amoroso
      água que nasce
      no coração do outro
                      irmão que sofre
                      pobre e oprimido
                      injustiçado e desvalido


não busca 
a sua conveniência
mas a dos que ama
alma que se inflama
no sofrimento amado 
e na perseverança
do bem almejado


      não se agasta
      não se ofende
      nem se ressente

      não exulta 

      perante a injustiça
               mas
      rejubila com a verdade

tudo desculpa
tudo crê
tudo aguarda
tudo suporta


o amor jamais passará

      as profecias o fim terão
      o dom de línguas terminará
      e a ciência inútil será

pois nosso conhecimento é imperfeito
e imperfeitas são nossas profecias
mas quando o que é perfeito vier
o imperfeito por desaparecido se terá


quando criança
falava como criança
pensava como criança

homem
deixei as coisas da criança

agora vemos como num espelho
de modo confuso
depois face a face veremos

agora conhecemos
de forma imperfeita
depois conheceremos como
conhecidos somos

            agora três coisas permanecem
            a fé a esperança e o amor


louvor a ti senhor
que a maior de todas é o amor

louvor a ti senhor
louvado seja o amor
que nos deste


o amor não há-de passar
para que o mundo não seja este


só o amor o pode transformar



S. Paulo
Versão de José Maria Alves




GUILLAUME APOLLINAIRE (1880-1918) - SE ME DEIXASSEM...






Oh tempo oh singular caminho de um ponto a outro
Se me deixassem teria mudado rapidamente
O coração dos homens e em todo o lado haveria
Apenas
Coisas belas

Em lugar de frentes vencidas em lugar de penitência
Em lugar de desespero e de orações haveria em todo o lado
Relicários custódias e cibórios
Resplandecendo no fundo dos sonhos como essas
Divindades primitivas cuja função poética
Está quase acabada

Se me deixassem compraria
Os pássaros cativos para os libertar
Vê-los-ia com alegria sem mácula
Voarem sem fazerem ideia
De uma virtude chamada reconhecimento
Ou gratidão

Tradução de Jorge Sousa Braga

JÚLIO DANTAS (1876-1962) - ENDECHAS






Feliz de quem tem
Saudades dum bem.

Não as posso ter,
Que a saudade vem
De perder um bem,
Não dum mal perder;
Se tudo é sofrer,
Quem saudades tem
Se não teve um bem?

Tê-las cada dia
Tinha por vontade,
Porque a saudade
Faz-nos companhia:
mas como a teria
Se do bem nos vem
E eu não tive um bem!

Na vida mortal,
Se tudo é sofrer
Só poderei ter
Saudades do mal:
Ah, triste, afinal
Quem não tem ninguém,
Nem saudades tem!


GUILHERME DE FARIA (1907-1929) - NOITE ALTA



No silêncio fundo
Desta hora triste
Em que nada existe
Para mim, no mundo,

Vai, doce lembrança
Dum saudoso amor
E morre de dor
E desesperança.

Nenhum bem te quero
Sombra de amargura,
E é a minha ventura
Este desespero.

Quero só viver
Longe da ansiedade
Desta saudade
E tudo esquecer.

E se nada espero,
Não oiças meus ais;
Nenhum bem te quero,
Ah, não voltes mais!

Vai, sombra perdida,
Pois que a minha sorte
Foi sonhar a vida
E acordar na morte.



JOSÉ RÉGIO (1901-1969) - CÂNTICO







Num impudor de estátua ou de vencida,
Coxas abertas, sem defesa..., nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua,
Ela, agora, descansa, adormecida.

De seus mamilos roxo-azuis, em ferida,
Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu sonho, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...,
Enquanto o luar a nimba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.


GUNNAR EKELOF (1903-1968) - FUNDI UMA BALA...





Fundi uma bala para ti
para te atingir no meu próprio coração
É de pedra, talhada por forçados
É de chumbo, temperada no sangue
É de ferro, temperada no mel
É de minério, talhada
em toscas mordeduras
para mais dilacerar
para que sintas enfim
o que quer dizer morte de amor.

Tradução de Vasco Graça Moura

GUILLAUME APOLLINAIRE (1880-1918) - COLHI ESTE RAMO DE URZE






Colhi este ramo de urze
O Outono morreu Recorda como era
Não nos veremos mais sobre a terra
Odor do tempo ramo de urze
Continuo à tua espera

Tradução de Jorge Sousa Braga

NATÉRCIA FREIRE (1920) - E LEVANTAM-SE AS PESSOAS...







E levantam-se as pessoas
Como quem se adormecesse.
Preparam-se para o sono
De uma vigília nas ruas
Nas casas e nos empregos.

E naufragam e sufocam
Nas avenidas do Tempo.
Conversam como quem fecha
Creches gaiolas enterros
- Crianças aves e mortos.

Nos sorrisos e nos risos
Na lucidez dos reflexos
Pensam os tristes dos homens
Ganhar os dias correndo.
Mas são retidos nas sombras.
São amarrados ao vento
São sacudidos em potros
E forcas de entendimento.

Eles que são cabeleiras,
Nas chuvas de outros intentos
Nos rios e nas goteiras.

E levantam-se as pessoas
Como quem fosse viver.

Dá o Sol por sobre o Dia
faz o dia apodrecer.

(Maduro quer dizer Morte
Com toda a sabedoria)

Deitam-se então as pessoas
Para a morte de outro dia.

SAÚL DIAS (1902) - ALI








Ali sofreste. Ali amaste.
Ali é a pedra do teu lar.
Ali é o teu, bem teu lugar.
Ali a pedra onde jogaste
o que o destino te quis dar.

Ali ficou tua pegada
impressa, firme, sobre o chão.
Ninguém a vê sob o montão
de cinza fria e poeirada?
Distingue-a, sim, teu coração.

Podem talvez o vento, a neve,
roubar a flor que tu criaste?
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali sentiste a vida breve.
Ali sorriste. Ali choraste.

LUÍS FILIPE CASTRO MENDES (1950) - APENAS UM SONETO






O delicado desejo que te doura
e nos dura na pele quando anoitece
é contra a nossa vida que se tece
e é no verso que vive e se demora.

Amor que não tivémos nem nos teve
veio-nos chamar agora. De repente
Fez-se névoa a palavra do presente
e luz teu corpo que toquei de leve.

Mas se arde na memória da canção
o corpo que me deste e me fugiste,
o verso é outro modo de traição

por que minto ao que nunca tu mentiste.
E enganamos assim o coração,
disfarçando de mitos o que existe.

RUI KNOPFLI (1932-1997) - TESTAMENTO







Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,

pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

ANTÓNIO FEIJÓ (1859-1917) - RONDÓ A UMA DESCONHECIDA



As tuas cartas vêm tocadas
duma ideal melancolia
não sei quem és, e todavia
beijo essas letras desmaiadas.

Como as violetas perfumadas
que a sombra esconde à luz do dia,
as tuas cartas vêm tocadas
duma ideal melancolia.

Nas minhas horas tresloucadas,
horas de febre e de agonia,
como esperança fugidia,
de mil quimeras iriadas,
as tuas cartas vêm tocadas...


ALBERTO DE LACERDA (1928-2007) - RECORDAÇÃO







O rosto erecto
Dá a impressão de inclinado
Por certa graça esplendente
De nobreza

Rio lindo chama pura
Aparição convergida
pelos astros espantosos
Deixas-me o corpo o teu corpo
E o desenho da tua alma
Nas minhas mãos escultoras
Deixas-me a voz essa voz
Que guarda vozes no fundo
Dos seus véus de maravilha
Deixas-me véus maravilhas
A confiança na vida
E dois lábios esmagados
Insuportáveis felizes

RUY CINATTI (1915-1986) - LINHA DE RUMO






Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campos de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

DAVID MOURÃO FERREIRA (1927-1980) - SONETO DO CATIVO






Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditórias;
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

não há dúvida Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso!

MÁRIO BEIRÃO (1890-1965) - ENLEVO



Porque esse olhar de sombra e de temor
Se perde em mim, às horas do sol-posto,
Quando é de âmbar translúcido o teu rosto,
E a tua alma desmaia como flor;

Porque essas mãos, ardidas de fervor,
Ampararam minha vida de desgosto,
Pobre que sou, Mulher, eu hei composto
Harmonias de prece em teu louvor!

Dei-te a minha alma para ti nascida,
Meus versos que são mais que a minha vida;
Por Deus, perdoa ao mísero mendigo!

Perdoa a quem, ansioso de outro mundo,
Implore à Morte o sono mais profundo,
Só pela graça de sonhar contigo!

ANTÓNIO RAMOS ROSA (1924) - CABELOS






Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer

ANA MARQUES GASTÃO (1962) - QUANDO PELA NOITE CHEGAS








Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas
e eu partir não quero, porque esta é a noite
que ilumina o dia, canto do silêncio, eco subtil
no discurso do mundo. Quando pela noite chegas
é meu o teu amor, e a morte tarda doce como mel.

EDUARDO PITTA (1949) - GOSTO DA CLARIDADE PENUMBROSA








Gosto da claridade penumbrosa
de adolescentes indecisos.

Gosto deles assim lentos
inaptos, vorazes, sedentos
do labor meticuloso e da
antiquíssima sabedoria de outras mãos.

Anjos devastados, senhores do caos
é para longe que partem.
O primeiro dos vinhos, bebido
da ânfora para a boca, alerta-os –

regressam agora às palavras e
aos gestos de antigamente.

Cumprem-se no jogo.
E ninguém suspeita de nada.

ANTÓNIO PEDRO (1909-1966) - SE HOUVE ENGANO DE OLHOS






Se houve engano de olhos,
Nunca esta alma minha
Se levou dos olhos,
Bem-amada minha.

Olhos de alma, claros
Pela tua graça,
E onde o teu sorriso
Namorado passa.

- Meu sorriso, aberto,
Porque é derradeiro,
Este foi, decerto,
Meu amor primeiro.

ALBERTO DE LACERDA (1928) - POEMA



Por que pairas?
Por que insistes?
Por que pairas se deixaste
que te prendessem terrenas
falsas tranquilidades?
Por que negaste o que eras –
nuvem íntegra, real,
sobre as mentiras do mundo?
Às vezes cantas em tudo.
Mas é tão triste e tão tarde.
Meu amor, por que vieste?
Nunca tivera sabido
como se nasce e se morre
de repente ao mesmo tempo
para sempre, ó arrastada
humana deusa frustrada
água irmã da minha sede
luz de toda a claridade
que só em ti neste mundo
para mim era verdade.

CARLOS QUEIROZ (1907-1949) - AMIZADE






De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar: - «Espera e confia!»
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.


MARIA TERESA HORTA (1937) - REFERÊNCIA



Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

O que chega primeiro
e só parte por vezes
antes de eu perceber
que já tinhas voltado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Aquele que me beija
e me possui
me toma e me deixa
ficando a meu lado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Que sempre me enlouquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado


CALMUCOS (MONGÓLIA) - SINDYRIA







Para ti teci ao luar
Uma túnica de flores amarelas.
Se pudesse acreditar que me deixavas
À tona da água a teria desfolhado.

Para ti teci à sombra das árvores
Uma túnica de musgo do bosque.
Se pudesse acreditar que me deixavas
Aos quatro ventos a teria dispersado!

O vento que rodopia no meio dos abismos
Não pode mover os rochedos de Sindirya
Os rigores dos deuses implacáveis
Não podem mudar o coração que te ama.

A água das chuvas e das cheias
Não podem turvar a nascente de Sindirya.
Os homens e os dias que passam
Não podem fazer murchar o meu amor.

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

AMÁLIA RODRIGUES (1920-1999) - ESTRANHA FORMA DE VIDA






Foi por vontade de Deus
Que eu vivo nesta ansiedade
Que todos os ais são meus
Que é toda minha a saudade
Foi por vontade de Deus

Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vive de vida perdida
Quem lhe daria o condão
Que estranha forma de vida

Coração independente
Coração que não comando
Vives perdido entre a gente
Teimosamente sangrando
Coração independente

Eu não te acompanho mais
Pára deixa de bater
Se não sabes onde vais
Porque teimas em correr
Eu não te acompanho mais

EDUARD BAGRÍTSI (1895-1934) - DESMAIO DE DOÇURA



Desmaio de doçura,
sonho, calma,
De canto inábil,
de moroso tédio.
Amo os galos bordados na toalha
E a fuligem dos ícones austeros.

Quente zunir de moscas,
vão-se os dias
Na devoção submissa da certeza.
Sob o telhado,
a codorniz cicia,
Há um aroma festivo de framboesas.

Mas pesa à noite a penugem de gansos,
O lampião vacila, cansativo,
E na toalha,
o galo ergue o seu canto
Monótono, pescoço distendido.

Senhor, nada perturba este silente
Recanto que me deste e onde me asilas.
Espesso, feito um mel,
em gotas lentas,
Escorre da colher o fio dos dias.

Tradução de Haroldo de Campos

IROQUESES - A ESCURIDÃO






Na escuridão esperamos!
Vinde, vós que escutais,
ajudai-nos na nossa viagem nocturna:
agora nenhum sol brilha,
agora nenhuma estrela reluz.
Vinde, mostrai-nos o caminho:
a noite não é favorável.
A noite está de pálpebras cerradas.
A lua esqueceu-se de nós.
Esperamos na escuridão.

Tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo

CARLOS DE OLIVEIRA (1921-1981) - BILHETE POSTAL







Escrevo-te agasalhando o nosso amor,
que o tempo é este inverno sem disfarce:
Pelos meus olhos fartos de miséria
Mereço bem a luz da tua face.

Mas no meu coração as pobres coisas
choram, a cada lágrima exigida,
a tristeza precisa pra que eu saiba
quanto custa a alegria duma vida!


SAÚL DIAS (1902) - DÁDIVA






A flor que me não deste
e, esquiva, recusaste,
naquela tarde triste,
naquela tarde agreste,
- uma rosa amarela
debruçada na haste –
foi afinal aquela
a flor que me entregaste,
pra sempre me entregaste,
naquela tarde triste,
naquela tarde agreste!...

ESQUIMÓS - QUERO VISITAR UMA MULHER ESTRANGEIRA






Quero visitar uma mulher estrangeira,
quero desvendar os enigmas do homem.
Desato as correias das minhas botas,
procuro no homem e
procuro na mulher.
No rosto das mulheres desfaço as rugas.

Caminhei ao longo dos gelos marinhos,
e as focas sopravam de dentro dos buracos.

Escutei maravilhado o canto do mar
e o gemido claro dos jovens gelos.

E um espírito antigo traz agora o poder
à casa das danças.

Versão de Herberto Helder

SRIMAD BHAGAVATAM - NADA EXISTE SEM MIM





Nada ou seja o que for existe sem mim ou para além de mim.
Os átomos do universo poderão ser contados, mas não tanto as minhas manifestações;
pois para sempre faço criar inúmeros mundos.

Tradução de Manuel João Magalhães

ANTERO DE QUENTAL (1842-1891) - A SULAMITA







Quem anda lá por fora, pela vinha,
Na sombra do luar meio encoberto,
Subtil nos passos e espreitando incerto,
Com brando respirar de criancinha?

Um sonho me acordou... não sei que tinha...
Pareceu-me senti-lo aqui tão perto...
Seja alta noite, seja num deserto,
Quem ama até em sonhos adivinha...

Moças da minha terra, ao meu amado
Correi, dizei-lhe que eu dormia agora,
Mas que pode ir contente e descansado,

Pois se tão cedo adormeci, conforme
É meu costume, olhai, dormia embora,
Porque o meu coração é que não dorme...

EGIPTO ANTIGO - A CASA DA MINHA NAMORADA







A casa da minha namorada é uma barafunda
É o único modo de descrevê-la.
Toda a noite com música e dança até fartar
Cerveja e vinho sempre a correr.

Noto como as melodias se entrelaçam,
E por fim, depois do meu amor insistir
Num pedido para uma colaboração mais activa,
Concluo que a noite valeu a pena,
apesar de tudo.

E amanhã?
A velha canção do costume.

Tradução de Helder Moura Pereira

ONTEM CHOVEU





Ontem choveu
Hoje o sol doira o outono
De novo em viajem
Enquanto meu amigo
Se quedou suplicante
Num latir rouco
De saudade declarada


JOSÉ MARIA ALVES

GONÇALVES CRESPO (1846-1883) - NO MOMENTO DO ADEUS






No momento do adeus sucede que os amantes
Se abraçam, a chorar, com vozes soluçantes.
Força, é força partir; a mão prende-se à mão,
E uma infinda tristeza inunda o coração.

Para nós, meu amor, nessa hora de agonia
Não houve o padecer que as almas excrucia;
Foi grave o nosso adeus e frio, e só agora
É que a Dor nos subjuga, e a Angústia nos devora.

EUGÉNIO DE ANDRADE (1923-2005) - CANÇÃO



Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava
Não é nada, meu amor, foi um pássaro
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão.

NUNO JÚDICE (1949) - PRINCÍPIOS






Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor



QUE RESTARÁ DE MIM...






Que restará de mim
Para além de minúsculas partículas
Espalhadas sobre o solo violado