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segunda-feira, 30 de maio de 2011

DA NATUREZA DA MORTE



Numa primeira análise, a morte é um facto biológico, fisiológico, que atinge todos os seres vivos que detenham um corpo. A corrupção orgânica, equivale à destruição da existência, daquela existência particular, enquanto tal. Aqui, interessa-nos enquanto questão metafísica.
A morte, surge-nos por vezes como uma consolação: todos morremos, ricos e pobres, poderosos e desvalidos, sacerdotes e ateus, médicos e enfermos. A morte igualiza-nos. Se todos nós não fomos ouvidos para nascer, também não o seremos para morrer.

Platão, que na tradição socrática define a morte como a separação da alma espiritual do corpo, identifica no diálogo Fédon, a investigação filosófica com a purificação da alma e com a preparação para a morte – entendida esta, como a libertação final. Daí, nasceu na filosofia, e em filósofos de nomeada, o facto da morte se constituir como, senão, o problema mais importante da filosofia, pelo menos um dos mais importantes – Platão, Agostinho, Cícero, Schopenhauer, Kierkegaard, Heidegger, para só citar alguns. Schopenhauer, faz inclusivamente depender a filosofia da determinante experiência da morte, quando afirma que sem esta, inexistiria aquela. Schelling pergunta-se se a morte será apenas um nada, ou um nada que destrói o pensamento?

Movimentamo-nos na área do conhecido e a morte termina com este e com o nosso corpo.
A morte é inelutável. Podemos perseverar no seu olvido, submetê-la aos mais redundantes e ardilosos raciocínios, ou ainda acreditar piamente como crianças crescidas na reencarnação ou na ressurreição. Se por um lado nos reduz à incontestável condição de finitude corpórea, por outro, tem-nos dado a esperança de uma continuidade feliz, que é a imortalidade. Seja como for, a nossa acção, quer busquemos refúgio na igreja, quer num qualquer livro – “sagrado” ou não –, ela acompanhar-nos-á por toda a nossa vida. E se nem sequer compreendemos a vida como poderemos compreender a morte?

Não podemos discutir ou fazer acordos com a morte. Poderemos nós adiá-la, induzi-la à concessão de um prazo favorável que nos permita concluir os nossos mesquinhos projectos? Obviamente que não. A inevitabilidade não admite concessões.

Vida e morte caminham de mãos dadas na floresta da existência. Só se vive quando se morre e morre-se para viver. É pela morte que nasce o inteiramente novo e são exterminadas as velharias imprestáveis armazenadas no cérebro.

A vida eterna, será mais do que uma mera existência em cada momento do tempo futuro? Não será antes – como afirmam alguns teólogos – um estado que independe do tempo, onde não há antes, não há depois, e por tal motivo, inexiste qualquer possibilidade de mudança?

Para o iluminado, vida e morte são a mesma face da mesma moeda.
O que os filósofos julgam que espera os homens após a morte, não é o que julgam. A vida nasce da morte e a morte da vida.
A idade deveria conceder-nos o dom da aceitação da morte, o que seria sinónimo de sabedoria. No entanto, concede-nos apenas um medo indestrutível, consequência da nossa ignorância e desprezo pela vida.
Quando se morre, desconhece-se de quem é o ganho: se de quem parte, se de quem fica.

O que está para além da morte é uma incógnita, um mistério metafísico. Sócrates tinha a esperança da existência de algo para além dela, que segundo a tradição e as crenças estabelecidas, seria muito melhor para os bons do que para os maus. Se realmente a morte nos libertasse de tudo, que boa sorte seria para os maus, ao morrerem, verem-se desembaraçados quer do corpo quer do mal e da sua maldade, ao mesmo tempo que da alma – veja-se de Platão, o Fédon.

A morte, esse fenómeno extraordinário, para ser compreendida, tem de o ser com o amor, apenas o amor a pode penetrar. Quando morremos psicologicamente estamos a conviver com a morte e saberemos o que é morrer, quando isso acontecer no plano físico.
Quando morremos para o conteúdo da memória, para o passado, para os nossos pensamentos, em suma, para o “eu”, somos introduzidos na criação e renovação, no mistério da morte, que afinal não é mistério nenhum. A erradicação do pensamento, neste sentido, não é uma fuga à incapacidade de erradicarmos a ideia de morte.
Se de instante a instante morremos para os acontecimentos quotidianos, para o ódio, ciúme e outros estados negativos, para o prazer, desejos apegos, para o sofrimento, para os problemas que nos afligem, para o que contemplamos, estaremos em contacto directo com a morte, essa realidade tão temida.
Com a cessação do pensamento há purificação, alegria, inocência. A morte do velho traz o júbilo do inesperado. Para além da morte está o sempre novo. E para além da morte existe algo. Mas, sois vós que tendes de o descobrir; não eu por vós, nem concílios, igrejas, gurus ou quaisquer santos e videntes.


JOSÉ MARIA ALVES
www.homeoesp.org


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