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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UM CONTO DE NATAL






Ti Zé Ferreira assomou à janela do casebre quando o dia começava a clarear. A neve caía em pequenos flocos com suavidade e doçura afagando a terra deslumbrada. Nos seus oitenta e cinco anos bastas vezes passara um Natal nevado com os caminhos intransitáveis.
Do casamento com a Santinha, como carinhosamente chamara à companheira das longas invernias, nasceram três filhos. O mais velho morto na Guiné numa guerra que nunca conseguira entender, o do meio com vida feita em terras de França e a mais nova nas Américas, casada com um filho de emigrantes de Folgosinho.
A Santinha, Madalena de seu nome, abandonara-o há treze anos com uma daquelas malditas doenças em que os médicos mandam as pessoas morrer em casa. Desde aí, o pequeno casal que sempre habitara nunca mais fora o mesmo. A Senhora Morte arrastara consigo as réstias de felicidade que ciosamente guardava na alma envelhecida e já saudosa de amor ausente de um filho que uma mina despedaçara ainda moço.
A televisão alimentada por painéis solares trazia-lhe notícias de um mundo que não conhecia e se recusava a aceitar e compreender. Naquela caixa cheia de imagens apregoava-se paz, justiça, caridade, solidariedade, humildade, enquanto as guerras se multiplicavam, e a corrupção, o compadrio e o aproveitamento próprio eram as regras duma sociedade falida, que se apregoa moralista e justa, mas é imoral degradada e injusta. Sociedade que até parece aplaudir os homens que abusam de criancinhas, os governantes que enriquecem à custa do povo e os que matam gratuitamente em nome de Deus ou de um estúpido nacionalismo.
O vale serpenteado pelo Mondego e ladeado pelas imponentes montanhas, a companhia do Fiel, seu amigo de quatro patas, davam-lhe o alento suficiente para continuar vivo, atenuando-lhe o sofrimento. Triste é o vale que não tem um rio que o atravesse, como triste é o homem que não tem paixões, pensava ele naquela forma simples que é desconhecida aos poetas e filósofos.
A neve continuava a cair, agora com mais intensidade. Estava na hora de acender o lume para quebrar o frio gélido que se entranhava nos ossos através das carnes ressequidas. Os animais estavam acomodados e o Fiel enroscado a um canto olhava-o com uma expressão de meiguice que só o cão do pastor tem, por conhecer a solidão e a paz da natureza sem gente. Ajeitou as mantas da cama velha e sentou-se vagarosamente na cadeira junto à lareira com os olhos postos no fogo. Caiu uma lágrima que deslizou pelo rosto rugoso na lembrança dos ausentes. Mais logo seria noite de Natal, noite vazia como tantas outras, triste e branca como quem se despede da Virgem na Cova da Iria.
As horas foram passando lentamente enquanto pela memória recuava ao passado. Por vezes, o padecimento era mitigado por um eterno agora, quietude sem tempo, realidade de um fogo crepitante envolto em farrapos de neve vindos de um céu que começara a escurecer, estado altamente sensível na sua intemporalidade. O encanto da noite nascente não pertencia a este mundo.
Pôs a panela de ferro ao lume para cozer as batatas e as couves. Escolheu uma posta de bacalhau e encheu um jarro de vinho. Sobre a mesa colocou a toalha bordada pela Santinha e que havia servido para todos os dias festivos. O seu prato lascado, um copo, um garfo e uma colher. Bem na sua frente, o mesmo. A Madalena iria estar ali com os filhos ao redor, saltando, brincando e pedindo um naco de centeio barrado com manteiga e açúcar enquanto lhe puxavam ansiosamente pelas longas saias pretas. Quis chorar mas faltaram-lhe as forças. Os seus olhos haviam secado na última lágrima, tal como seca o ribeiro da montanha no calor do Estio.
Preparava-se para comer quando a porta estremeceu com três pancadas sucessivas. Com aquele tempo ninguém se arriscaria a andar pela Serra, talvez fosse ilusão dos desgastados sentidos. Mas, fora, estava um homem de meia idade, envolto num longo capote, de barbas grisalhas a tocar o peito e olhos dóceis a pedir guarida. Mandou-o entrar, partilhou a ceia em silêncio oferecendo-lhe o lugar que de direito pertencia à falecida. Falaram pouco, há anos que a sua curiosidade se começara a extinguir e o desconhecido também não era homem de muitas falas.
Estranhamente um cálido perfume invadiu o aposento e surgiu uma terna presença, abençoada e penetrante como o clarão do relâmpago no cimo do monte ou na imensidão do oceano.
O homem parecia nada possuir, nem coisas nem ideias. Conforme chegou assim partiu, malgrado a insistência para que se não fizesse ao caminho. De imediato algo de sagrado inundou a casa, o vale, cobriu a encosta e estendeu-se para além da serrania. Era o centro da Criação, imperecível transcendia o espaço-tempo.
Passou a noite sem dormir, com o pensamento parado e distante. De manhã raiou a aurora no céu sem nuvens e era vago o contorno das montanhas cobertas de neve. Havia em si um sentimento de vastidão absoluta, de imensa beleza e amor, de total plenitude. A sua mente no auge da paixão e da sensibilidade experimentava a essência das coisas sem que o pensamento interferisse, numa verdadeira oração de silêncio. Havia uma infinita solidão que não era inerte, mas viva, preenchendo a imensidão do cosmos. Nela estava o principio e o fim de tudo, e a sua visão era infindável, ultrapassava rios e montanhas, a terra, qualquer horizonte imaginável. Era luz pura em inefável êxtase.
O viajante era afinal o Deus-menino, o Deus que existe em todos os homens e que transfigurou o seu coração, que pôde então adormecer na paz e esperança que só os justos e os pobres em espírito conhecem.



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