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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

PATRÃO DO ALTO



De barro fora feito Modelado ao crepúsculo quando as grandes neuroses sofrem melhorias e os poemas são escritos em raios violentos de Sol
Cantava-o despreocupado como a rã do charco seco a nadar na superfície do tempo
Nele estava o fim do dia a iniciar a longa contrição da porta inútil para a bem-aventurança Sombras nasciam das proas inanimadas na lembrança do gosto do alto Só é do alto quem respeita e não teme as paredes de água sólidas e os acometimentos dos deuses revoltados
A cobardia é costeira ou palustre
E por desencanto
Navega em águas mansas
Protegidas e abrigadas


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A TRAIÇÃO NUNCA VEM DO MAR




Fim de dia O Sol brilha menos nas coisas mortas à beira-mar que brilham mais Incandescentes debruçam-se nas margens do rio azul Um pássaro descansa no paredão Um veleiro volteia insignificante Há comunicações no canal portuário Silêncio no jardim de azáleas As flores comunicam pelo aroma nascido nas subtis cristas brancas das ondas que se desfazem em lamentação nos limos das amarrações Os homens comunicam pelo canal da mentira Uma mulher vestida de lilás com pétalas nas pálpebras aguarda no som líquido da lira agonizante Virá pergunta-se nos lábios cerrados No horizonte uma vela acesa de vento bonançoso Será ele Não não o é
A traição nunca vem do mar


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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O ENCOBERTO




Erro atrás de erro no caminho da estreita via Retorcida a senda Torta e entontecida Não paro Os passos cambaleantes transportam-me para um outro mundo de multidões exaustas pelos pecados que me atormentam nos nós dos dedos E tu senhor que devias vigiar a macieira dos frutos carnudos e as arestas limar navegas na Barca da Terra Árida mudo de compaixão Estás perto de tanto e longe de tudo Junto a mim bebes das minhas águas comes do meu ázimo e conheces-me desde o princípio dos tempos decepcionantes Vês o meu pranto submerso em remorsos Os insistentes delitos Diabo Porque não arremetes contra a lança do desespero e me soltas os parcos cabelos que não alumiam a noite nem ao dia concedem alegria Mostra-me a tua face ao escurecer para que durma à sombra das estátuas vivas da avenida florescente Não é em vão que te peço e me despeço ao adormecer nas ondas do mar sem fim e do céu cruel Perco-me sem ti De que latitude parti eu que me desconheço Em que longitude sofro eu que me despeço Tudo é deserto areias sem fim Um coração que sofre arrancado brutalmente ao peito ferido Já nada sei A noite aproxima-se e eu sofro E tu meu amigo como me és encoberto


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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

UM CONTO DE NATAL






Ti Zé Ferreira assomou à janela do casebre quando o dia começava a clarear. A neve caía em pequenos flocos com suavidade e doçura afagando a terra deslumbrada. Nos seus oitenta e cinco anos bastas vezes passara um Natal nevado com os caminhos intransitáveis.
Do casamento com a Santinha, como carinhosamente chamara à companheira das longas invernias, nasceram três filhos. O mais velho morto na Guiné numa guerra que nunca conseguira entender, o do meio com vida feita em terras de França e a mais nova nas Américas, casada com um filho de emigrantes de Folgosinho.
A Santinha, Madalena de seu nome, abandonara-o há treze anos com uma daquelas malditas doenças em que os médicos mandam as pessoas morrer em casa. Desde aí, o pequeno casal que sempre habitara nunca mais fora o mesmo. A Senhora Morte arrastara consigo as réstias de felicidade que ciosamente guardava na alma envelhecida e já saudosa de amor ausente de um filho que uma mina despedaçara ainda moço.
A televisão alimentada por painéis solares trazia-lhe notícias de um mundo que não conhecia e se recusava a aceitar e compreender. Naquela caixa cheia de imagens apregoava-se paz, justiça, caridade, solidariedade, humildade, enquanto as guerras se multiplicavam, e a corrupção, o compadrio e o aproveitamento próprio eram as regras duma sociedade falida, que se apregoa moralista e justa, mas é imoral degradada e injusta. Sociedade que até parece aplaudir os homens que abusam de criancinhas, os governantes que enriquecem à custa do povo e os que matam gratuitamente em nome de Deus ou de um estúpido nacionalismo.
O vale serpenteado pelo Mondego e ladeado pelas imponentes montanhas, a companhia do Fiel, seu amigo de quatro patas, davam-lhe o alento suficiente para continuar vivo, atenuando-lhe o sofrimento. Triste é o vale que não tem um rio que o atravesse, como triste é o homem que não tem paixões, pensava ele naquela forma simples que é desconhecida aos poetas e filósofos.
A neve continuava a cair, agora com mais intensidade. Estava na hora de acender o lume para quebrar o frio gélido que se entranhava nos ossos através das carnes ressequidas. Os animais estavam acomodados e o Fiel enroscado a um canto olhava-o com uma expressão de meiguice que só o cão do pastor tem, por conhecer a solidão e a paz da natureza sem gente. Ajeitou as mantas da cama velha e sentou-se vagarosamente na cadeira junto à lareira com os olhos postos no fogo. Caiu uma lágrima que deslizou pelo rosto rugoso na lembrança dos ausentes. Mais logo seria noite de Natal, noite vazia como tantas outras, triste e branca como quem se despede da Virgem na Cova da Iria.
As horas foram passando lentamente enquanto pela memória recuava ao passado. Por vezes, o padecimento era mitigado por um eterno agora, quietude sem tempo, realidade de um fogo crepitante envolto em farrapos de neve vindos de um céu que começara a escurecer, estado altamente sensível na sua intemporalidade. O encanto da noite nascente não pertencia a este mundo.
Pôs a panela de ferro ao lume para cozer as batatas e as couves. Escolheu uma posta de bacalhau e encheu um jarro de vinho. Sobre a mesa colocou a toalha bordada pela Santinha e que havia servido para todos os dias festivos. O seu prato lascado, um copo, um garfo e uma colher. Bem na sua frente, o mesmo. A Madalena iria estar ali com os filhos ao redor, saltando, brincando e pedindo um naco de centeio barrado com manteiga e açúcar enquanto lhe puxavam ansiosamente pelas longas saias pretas. Quis chorar mas faltaram-lhe as forças. Os seus olhos haviam secado na última lágrima, tal como seca o ribeiro da montanha no calor do Estio.
Preparava-se para comer quando a porta estremeceu com três pancadas sucessivas. Com aquele tempo ninguém se arriscaria a andar pela Serra, talvez fosse ilusão dos desgastados sentidos. Mas, fora, estava um homem de meia idade, envolto num longo capote, de barbas grisalhas a tocar o peito e olhos dóceis a pedir guarida. Mandou-o entrar, partilhou a ceia em silêncio oferecendo-lhe o lugar que de direito pertencia à falecida. Falaram pouco, há anos que a sua curiosidade se começara a extinguir e o desconhecido também não era homem de muitas falas.
Estranhamente um cálido perfume invadiu o aposento e surgiu uma terna presença, abençoada e penetrante como o clarão do relâmpago no cimo do monte ou na imensidão do oceano.
O homem parecia nada possuir, nem coisas nem ideias. Conforme chegou assim partiu, malgrado a insistência para que se não fizesse ao caminho. De imediato algo de sagrado inundou a casa, o vale, cobriu a encosta e estendeu-se para além da serrania. Era o centro da Criação, imperecível transcendia o espaço-tempo.
Passou a noite sem dormir, com o pensamento parado e distante. De manhã raiou a aurora no céu sem nuvens e era vago o contorno das montanhas cobertas de neve. Havia em si um sentimento de vastidão absoluta, de imensa beleza e amor, de total plenitude. A sua mente no auge da paixão e da sensibilidade experimentava a essência das coisas sem que o pensamento interferisse, numa verdadeira oração de silêncio. Havia uma infinita solidão que não era inerte, mas viva, preenchendo a imensidão do cosmos. Nela estava o principio e o fim de tudo, e a sua visão era infindável, ultrapassava rios e montanhas, a terra, qualquer horizonte imaginável. Era luz pura em inefável êxtase.
O viajante era afinal o Deus-menino, o Deus que existe em todos os homens e que transfigurou o seu coração, que pôde então adormecer na paz e esperança que só os justos e os pobres em espírito conhecem.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

BUSCA





Antes dos seres
Havia o Ser
Antes do Ser
O Não-Ser

E antes do Não-Ser
Os seres
Nascidos do Ser
Nascido do Não-Ser

Único e igual
A si mesmo desde sempre
Mãe da cíclica diversidade
Da unidade filha

Não-Realidade Real
A quem busco
Nesta Noite Escura
Da alma inquieta


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O ESCORRAÇADO



Pela estrada um mendigo
Roto e esfarrapado
A arrastar-se no cajado

A cada porta pede pão
Um tostão
Por amor a Nosso Senhor

As portas calam-se
As janelas fecham-se
E ao desgraçado chamam ladrão

Sem que saibam
Que é Cristo menino
Com fome e frio

O Escorraçado


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DOENÇA DA ALMA




Doenças da alma
Que penetrais na carne
Aliviai os pobres órfãos
De pai e mãe

Que a dor do espírito
Dói no corpo
Um doer
Um tamanho sofrer
Que remédio não tem

E se não morrem
Da dor que padecem
E que no corpo sofrem
Morrem da vida
Que não têm


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QUADRO




Uma pintura é uma personagem que entra em cena
E desliza no corpo do rio a jusante
É tinta
É palavra
É semifusa
Tela pensante
Que diz nos círculos nas linhas nas pinceladas das faixas brancas
Nas cores
Vibrantes
Quentes
Frias
Esmaecidas
Nas jóias incrustadas
Rubis e
Diamantes
As palavras e as emoções
Mais verdadeiras
Dos verdadeiros amantes


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SORRISO




Aquele sorriso no metropolitano
Uma boca rosa a sorrir para si mesma
Um olhar difuso e quente
Um boné de lado a soltar cabelos de oiro
Calça de ganga rasgada
Um desejo desejado
De te beijar
Ainda hoje presente


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A BELEZA É UM NOME



A Beleza é o nome
Que os olhos baços
Contaminados
Pelos labirintos da razão
Dão às coisas
Que lhes agradam


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VOZ HARMÓNICA



Uma voz harmónica
Longínqua
Doce flauta da alma espiritual
A soprar profunda visão


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GINJAL DEVASSADO







Ardem fibras no ginjal
A ginja é uma puta
Todos os dias

Dizia
Arrebatado
O louco da aldeia

E eu garoto
Que o não compreendia
Repetia enquanto a comia
A ginja é uma puta

Hoje sei
Que onde não há guarda e ordem
A ginja é fruta proibida

Que todos comem
Porque quem de noite guarda o que tem
Deixa que lho comam de dia





SUAVIDADE E CARÍCIA




O vento passa
Suavidade e carícia
Na minha face

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SETE HORAS



Sete horas no relógio da torre
O ar enegrece
As lareiras fumegam cantantes

Na almofada branca
Os habitantes da cidade
Tomam o veneno da comunicação
Gritam às línguas de fora dos filhos
E pensam como é bom e saudável
Estarem zangados tristes vivos
Os asnos


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OS MEUS PECADOS




Não cuideis dos meus pecados
Poisados na magnólia –
Desviai os olhos para os vossos cardos


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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

NAS VOLTAS DA INSÓNIA




Procuro a minha alma nas voltas da insónia
O balde não alcança a água do poço sedento
Onde o sol não penetra

Há pequenas flores amarelas e ervas nas suas paredes
Gotas de orvalho teimam em percorrer a corda agora tensa

O perfume da erva molhada invade o meu cérebro
Dando notícias da alegria primaveril de prados e jardins

Da minha alma
Nada

Adormeço na superfície espelhada a escuridão


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PARA SEMPRE




Estamos sós
Tu nos teus próprios olhos brilhantes
Com as estrelas que cintilam ao anoitecer

Eu
Alguns metros distante
Sangue fervente nas veias
Queimadas pelas arestas da solidão

Se juntássemos os corpos

Mas como te hei-de dizer
Que palavras podem exprimir o sentir
A sensação que nasce do instinto vital
No sossego da mente

Se juntássemos os corpos
Os braços frementes
Os lábios rubros
A clamar por amor urgente
Não seríamos dois a sós
Seríamos Um para sempre


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O PARTIDO DOS DEFUNTOS




Morreram numa manhã
Com cães vadios a oscilar
Suspensos nas emoções

Um secretário manda-nos emigrar
Um ministro para as Áfricas ladroar
Um cardeal amargar e calar

Um funeral passa cinicamente na praça
Atrás o velho general palhaço agasalhado
Escolhe um atalho nunca dantes navegado

O prefeito urina-se numa esquina
Pingando-se do joelho
Até ao artelho

Às armas valentes
Grita o diácono inexperiente
Que presbítero não há

Cada um que faça
O que quiser
Deus está aposentado

Levanta-se o finado
Que há pouco morrera
Rabinho a dar a dar

E junta-se veloz ao outro
Bailador que ia a sepultar
Rabinho para baixo cabeça no ar

Sete espadas afiadas
Que estão para vos matar
Gente de pouco vigor

Gritam ambos enfurecidos
Com as queixadas caídas
E as bocas a salivar

Que este povo usa saias
A vitória é dos falecidos
E a morte dos vivos


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DESMOTIVAÇÃO



Esmagam-nos a vontade
Dilaceram-nos a persistência

Discursos dependurados em bandeiras
Poses calcadas no areão do rio poluído por calçadeiras metálicas
Estudados perfis de ásperas desilusões

Não há estrelas na melancolia da abóbada
Nem felicidade na estrada do céu
Peixe doirado a habitar os dedos da cidade

Milhões de anos-luz corrosivos e opacos
Em forma de bicicleta
Demarcam a invisibilidade do plausível
E no espaço-veludo rosa-choque
Morre-nos a esperança luminosa
Da boca nascida


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SOMBRA DA VIDA



Nos painéis laterais brilha a luz do círio
Por toda a parte a sombra da Vida
Mais real que todo o viver

Um lírio solitário agita-se na jarra de cristal
Movimento de leito vazio

Um coração aguarda em pé
Olhar afogado no desejo
De todos os segundos
Frescos
Intermináveis
Angústia suada de dia quente de Verão


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GOTÍCULAS DE ARCO-ÍRIS




Já não se viam os convidados da ceia
A casa deserta acolhia
Os rumores dos antepassados

Pelas janelas cruas entravam livres e despertos os sentimentos das trepadeiras

Um cisne mergulhava no Lago de Cristal

A estátua nua escorria gotículas de arco-íris
No Vazio


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A CARTILHA DO SONO




O céu brilha na parede desmaiada do pobre casebre

Olho em frente

Um cão brinca com um globo de cristal
Exaustivamente profético

O mestre da escola
De porta em porta fendida
Ergue-se na escrivaninha do desjejum
A comprimir na mão esquerda
A Cartilha do Sono e da Ausência


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ESMOLADOS MISTÉRIOS



Não há nada que neste mundo já não conheça
Nenhuma gruta escorada por ossos do acaso
Nenhuma ponte sobre o infinito
Nenhuma noite com os olhos rasos de lágrimas trémulas
Nenhum domingo em fúria dentro de um outro dia qualquer
Esmolados mistérios


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POUCO LHE BASTAVA




Por pouco se agradava

Raios quentes da tarde

Crepúsculo

Silêncio das noites nos brincos de pedras vermelhas

Um longo gemido de prazer

E uma estrela para adormecer


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DEUSA DOS DEUSES PERTENÇA




Partira
A Dama desconhecida de longas tranças
Sem trocar palavras ou olhares com ninguém

Corpo de deusa dos deuses pertença

Ficou-nos a sua imagem áurea
De pele prateada ao vento
E olhar distante

O que nos é demais
Ou já é bastante


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TERÇO



Todos os dias
Reza minha mãe o terço

Maria a ouve
Decerto
No seu coração em flor

É uma Santa
Escutando
O que outra Santa
Com fé e amor
Lhe está rezando


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PESCADOR DE CORAÇÕES



No jardim devassado
O pescador

Num banco de pedra
Amor de amar

A barca corre com o tempo
Leme de rugas a marulhar

O pescador de corações
Morre
Lentamente
Nas redes do mar


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NO CORAÇÃO DO DEMÓNIO



Uma pedra sem nome na árvore que se despe

Bebe-se sofregamente vinho adocicado

É antigo o meu anseio

Contigo
Na cidade portuária
Onde os turistas fazem amor às escondidas
No calar da noite

Há ossos esmagados
Medos encerrados em pulmões comprimidos
Sexos vandalizados
Seios apertados contra os cabelos do vento

O preço da paz pago com trinta moedas

E eu
Para aqui engolfado
No coração
Do Demónio


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É PARA TI




É para ti que guardo a minha solidão
Quando voltares
Hás-de sentir o vigor do meu abraço


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domingo, 18 de dezembro de 2011

INVERNO MÃOS DE MULHER




Inverno
Homem réplica do Tempo
Incerto
Como as chuvas
Resgatadas por fortes ventos
Das terras altas

Um nevão amacia a pele cardada da ampulheta duplamente cónica

Os pastores tremem
Estremecem as almas húmidas
Com pasto a nascer
Nos corações gastos

Rios saem do leito
Espreguiçando-se

As ribeiras voam
Nas pedras circulares

Cai a névoa bonançosa
As nuvens demoram-se nos cumes

Escarpas graníticas acariciadas
Mãos de mulher
A afagar
A dureza do viver
A quem só resta amar


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O PINHEIRO DO MEU JARDIM





O pinheiro do meu jardim
Impiedosamente serrado

Onde está a sua sombra
Onde estão suas pinhas
O seu odor?

E tu
Meu amigo
Em que lugar foste abandonado
Ao sofrimento
À dor
Da morte eminente?

Aquela casa
A minha
O meu jardim
É um cemitério
Onde vossas almas
Vigiam

Será aí o meu eremitério final?


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OS ANOS NÃO PERDOAM



Poucos eram os anos
Os anos são sempre poucos
Mas passam mais depressa
Que os próprios anos

As tuas carnes apodreciam no bule de seis asas

Uma borboleta esvoaça nas veias

Ansiosa a dona do cão preso ao automóvel comprado no embuste da flor murcha
Arrancou
Arrastando um cedro vermelho

Erro apocalíptico do comerciante de ilusões retido nas embalagens do tempo
Validade já expirada

Uma humana cria dormia exausta de tanto dormir
O cão latia atarefado de tanto latir
A dona desesperava pelo tempo perdido
Sem amante sem marido

E os anos não perdoam


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FRACA GENTE



Sois tão fracos
A morte espreita-vos pelos colarinhos
Aconchegados às virilhas mortas

Pensais que a vida é um carro ornado a pedrarias no cortejo dos salgueiros descalços

Meditais no conteúdo das vossas bolsas
E de vossos vizinhos do lado
Nas vossas mulheres-bicicleta

Deixai-me também aprender a andar
Em três rodas
Donde não retirais nem dais prazer

Lambei os ecrãs de vossos televisores
Chupa misto de três sabores
Reis da bastardia
Maçónicos de alvenaria areada

Amanhã é dia de adultério
Nas vossas camas bordadas
Enquanto brincais aos gestores


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A PARANÓIA DA VIDA




Nos passos do assombro
Arquitectam-se muros
Nos lilases que sonham

A Terra vê-a deambular
Na artéria de uma só direcção
No sem-sentido das horas vadias

Num quarto andar
Um pincel movimenta-se
Contraponto mágico
De azul descorado
Anémico

As luzes apagam a vida
Eroticamente

Resta-lhes a festa do sexo
Da lua de sexta-feira
A descer o Chiado

24 de Julho
O Rio
A sorver o empedrado
Tóxico
Como aqueles dois polícias
Com medo dos ladrões
(os polícias só servem para chatear garotos e multar condutores)

Uma última pincelada
O quadro desfaz-se em partículas atómicas
Destelhadas
Ilógicas

Paranóia
Que a vida não vê
E é


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ASTROLÁBIO DO DESTINO



Os paus ardem na lareira do ventre

A desordem instala-se no navio embriagado a sorver cardumes de peixe miúdo na cave da catedral em ruínas

Obsoleta como o velho diácono purulento

Ossos de náufragos buscam na página de um atlas os seus complementares

Há um odor a razão na maré a vazar
E o capitão encontra o astrolábio na ponte derretida pelas correntes
Dos antigos arneses
Acorrentados ao Destino


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A HISTÓRIA DE UMA GALINHA VOADORA




A tua história é a história triste de uma galinha voadora de asas curtas como os seixos da praia sem bandeira

Rolado nas escarpas
Um Castelo de Areia

Galinha que voa nos subterrâneos
Da fuga anil imperial

Morcego churro
A voejar num copo de cristal
A cacarejar
Anormal

O galo pia ao pintassilgo verde

E a galinha silencia
O galo pia pia pia
O morcego no voo não se fia
Como mortal
A quem o ar falta
Na mesa vazia


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ÁRVORE CENTENÁRIA







Aquela árvore centenária ramos a espreitar o terraço evitado
Dormita
Eu durmo com ela

No prédio em frente discute-se o rasgão dos calções amarelos
Que será o dia de amanhã despido de amarelo vivo
Ou de azul nado-morto?
Provavelmente
Uma lagosta cozida viva
Em caixa circular
Dentes de gula cravados
No enxugadouro de celerado paladar

Criados Laços torcidos Fatiotas pretas Camisas brancas enxovalhadas na surdina do amanhecer lacrimoso
Palavras rentes das malfeitorias desaparecidas pela prescrição
E das acusações de favor

Delitos em pelota
Que já ninguém nota

Uma criança chora
Um órfão vê fotografias
A árvore acorda
Com o zurzir da sirene
Da fábrica que na colina
Se obriga por decreto
A embutir colares-cristais-de-gelo
Nas colunas sociais


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UMA NOITE PARA AMAR



Uma noite para amar
Uma cruz nas costas cegas do calendário

As vacas sacodem as moscas enquanto fazem sexo no pasto encarniçado a amarelecer nos gestos brancos
Malhados
Da penetração

Sexo fazer só para vitelos poderem nascer
Fora disso
Fornicar é tentação do Diabo
O que as vacas tão bem sabem
Sem recurso ao planeamento familiar

Corpos rasgados na noite
Nas capelas construídas em pontes
Elefantes de marfim

O amor veste-se de negro
Persistente
Sem idade
No limite das nossas próprias mãos

O guarda-nocturno oculta-se no muro anão
Coca-mãozinhas
E conta
Uma a uma
As mulheres que entram
Na armação de vime
Da escravatura diurna


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O GRITO DAS CHAMAS



Pinheiros altos gritam
Vozes aflitivas
Das labaredas que se agitam


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IDE À MERDA OLIGOFRÉNICOS




Que querem?
Que vos ame doidamente num berço de prata e vos escreva versos doentes?

Os cães uivam lá fora
Gente ordinária faz amor como os cães
Cheiram e lambem os seus próprios testículos
Carnívoros Eróticos Alucinados
Fadistas
E contorcionistas
Património da humanidade venal

Que querem que vos diga?
Que sois os eleitos os mais-que-tudo o tesoiro da civilização que por todos os poros cinzentos vomita o fedor da morte que ladra furiosa às plácidas túlipas?

Há gente em pedaços a olhar cores dilaceradas do prédio com as janelas quebradas a surpreender a velha prostituta e a exorcizar os esqueletos dos fantasmas góticos

Que quereis?

Um novo reino masturbatório viola a herança das mil e uma noites designada por um trouxa que não renunciou
À frase singular
Profissional e politicamente marcante

Ide à merda oligofrénicos
Disse o meu coração contrariado pelos remorsos da alma


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MAR DE DOR




O Mar da Dor não tem vento o vento do mar azul a dobrar cabos e alcantis verdes

Nas noites intermináveis das escadas em derribamento
Dos pântanos que escorrem para as valetas das marés
Fazíamos um barco de papel com velas de era-uma-vez

Havia carros de bombeiros com os rostos encobertos por momentos de silêncio
Havia bocas a rolar na água encostada aos mortos
Cegos pela memória

Meia-noite
O relógio toca no mármore nu
Limpo
Na poeira iluminada por fios de luz da cidade prisioneira das badaladas comprimidas

E o resto da existência
A medo
De joelhos
Em penitência
Atormentada por flechas de luz insuportável
Dói
Na insónia do teu ombro ausente


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TÃO .......




Duas árvores no horizonte
Tão iguais
Tão diferentes
Tão árvores
Tão .......


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terça-feira, 13 de dezembro de 2011

ANJOS AZUIS





Há corpos que deslizam nos pátios de pedra
Anjos azuis volantes
Nas asas do símbolo em labaredas
Amores de redentor a definhar

Morte que encarcera o coração da brisa fumegante
Descompassado Histriónico Leviano

Aguardo

Pelas idades sobrenaturais dos esquifes metálicos
Das cavernas superficiais
Nas bocas transparentes
De vidro transluzente

Ausência
Ausentes
Da vida
Do viver

Correm os astros ínfimos históricos
Na direcção dos resguardos e bolsos
Sangue a tremer na escuridão lazarenta
Dos poços por explorar
Pelas mãos de ouro
Do prestidigitador

Barcos azulados
Nascem todos os dias
Rio abaixo Rio acima


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sábado, 10 de dezembro de 2011

A MORTE DA FOLIA




A solidão
Quente no Inverno
Fria no verão

Passa o corso

As raparigas despidas
Botões amargos
Reluzentes umbigos

Sorrisos

O povo grita
Salta
Ri

Toca a gaita
Maria
Amanhã já não é dia

De tanta alegria
Morre a folia


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PELOS CAFÉS



Antigamente
Escrevia-se pelos cafés

Versos saíam ao ritmo das encomendas
Das pilecas e das manadas

As mesas eram damas
As cadeiras corpos nus
E os cinzeiros corações latentes de braços em cruz


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SEIOS E DESEJOS




Seios de Navegantes
Corpos firmes
Na crista das ondas

O luar
Desce sobre o mar

A proa corta o silêncio
E além fica terra

Grilhões da liberdade
Acorrentados à verdade
À mentira e à saudade

E o desejo
Lá está
Já o vejo
Do topo do mastro


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A VIDA É DOENÇA...



A vida é doença
De que nenhum vivo se livra

A morte sossego
Que ao morto não deleita

Vida e morte a ninguém aproveita
A menos que tolo se seja


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PALAVRAS VENENOSAS




Palavras de arsénico
Dissolvidas cautelosamente
Num café frio

O poema
Um vaso cheio
Que se oferece
Ao poeta somente

Quem entende
Quem o compreende
E porque é que se escreve?

Divertimento de semente a criar raízes de mortal augúrio num tanque de água quente
Lodo e poeira
A esvaziar lentamente
Um antigo recipiente


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TAO TE KING - VII


Só o que para si mesmo não vive
Dura por toda a eternidade

O Santo ao libertar-se de si
Mantém-se e conserva-se
Escolhe o último lugar
E é-lhe atribuído o primeiro


Versão JMA


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TAO TE KING - VI



A fêmea enigmática
É o espírito imortal do vale
Que usado se gasta
E não se esgota

Sua porta
A raiz do Céu e da Terra


Versão JMA


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O CIGARRO



O cigarro

Esta companhia a que falta o orgasmo
Noite e solidão aquosa

Três bancos em linha
Deserto da sala expectante

O escuro passeia-se voluptuoso na negritude da escuridão plena
Uma mão na caneta um dedo na letra
A outra no sexo azedo

Má circulação nas ameias da mente
Tão doente
Ossos de linda graça

Um cigarro morre
Por não ter sido fumado
Lava de vulcão

Um cigarro morre sempre
Insatisfeito e ausente
Como um cão
Que se guarda
E não é usado
Para guardar a gente


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sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

TAO TE KING - V




O Céu e a Terra não têm afeições humanas
O Santo também não
Nem ofícios
E o povo é para ele
Como o cão de palha dos sacrifícios

O Santo evita falar do Tao
Quanto mais dele fala
Menos entende
E pouco ou nada
Compreende

Usa o caminho do meio
Ou meio termo
Para não ser silenciado


Versão JMA


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TAO TE KING - IV




O Tao é vazio
Como um vaso

Se o usares
Não o encherás
Se o aplicares
Não o gastarás

O Tao é inesgotável
Como um abismo sem fim
Nos confins do mundo
Profundo e eterno

Ele é a origem de todos os entes
Subtil
Incontaminado
Perpétuo
Anterior ao Senhor dos Céus
Aos deuses


Versão JMA


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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TAO TE KING - III




Que sábios e homens de mérito
Não sejam exaltados
Que tesouros não sejam valorizados
Que os objectos dos mais apetecidos desejos
Não sejam alardeados
Nem exibidos
Defendendo-se o povo de contendas
Da avidez
Da ambição
Da inveja
E dos tormentos do coração

O Santo governa
Purificando a sua alma
Tornando fraca a vontade
E pela não-acção
É sábio na governação


Versão JMA


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TAO TE KING - II



Quando o belo
É por todos admitido como belo
Surge a feiura

Quando o bem
É reconhecido por todos como bem
Surge o mal

Daí
Nascer o ser do não-ser
E o não-ser do ser

Difícil e fácil complementam-se
O que é longo delimita o que é curto
E o curto o que é longo
Alto e baixo ajustam-se e tocam-se
Voz e som combinam-se
O depois é consequência do antes
E o antes do depois

O Santo pratica a não-acção
Das coisas do mundo não é autor
Ensina pela linguagem suprema
Doutrina pelo silêncio e nada recusa
Seja a quem for

Enquanto todos agem
Ele não se apropria do que realiza
Aprimora-se sem nada buscar
Não retém os seus méritos
Abandona as suas obras
Que por isso permanecem
Para sempre


Versão JMA


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TAO TE KING - I




Não há palavra que exprima
O verdadeiro Caminho
Único e eterno
Que sozinho se compraz

Quem busca o Tao
Não é o Tao que encontra

O nome que é dito
Não é o Nome Eterno
O que é nomeado
É finito
Não é o nome adequado

O que não tem nome
É a origem do Céu e da Terra
Do universo
Quando o tem
É Mãe de todos os entes

Libertos dos desejos
Das paixões
Avistam-se novos horizontes
Abrem-se os portais da mente
E na essência do espiritual
Penetramos profundamente

Pelo não-ser
Seu segredo
Obscuro e obscurecido
É atingido


Versão JMA


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