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ARTE

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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

RÉPTEIS





Imagino-me na veia por cavar da transluzente noite escura
Sem ninguém que me acolha nas brasas reconfortantes da quietude
Depois
A porta lúgubre de um bar cravejado de seios-rubi e o sorriso das esmeraldas líquidas
Derramadas no balcão pétreo onde as palavras das sensações desgastadas se perdem nas frestas do fumo cinzento exalado por exaustos corpos

O cheiro suado da nudez

Na dependência do desejo vítreo os libertinos amontoam-se pelos cantos perscrutando com os derradeiros olhares da madrugada as presas que de mesa em mesa se arrastam
Répteis da decrepitude ensolarada por membros de fios luminosos
Ali mesmo


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O MEU GRITO





Na gare deslizam incógnitos os passos do homem-azul

No velho banco da Esperança um Sem-abrigo sorve o resto do resto de um cigarro
Enquanto olha indiferente as pernas delgadas da jovem cor-de-rosa

Uma mulher carregada por duas malas adverte as crianças sujas Não se afastem

Os olhos brilhantes de uma menina fitam-me
Abstraída dos passageiros de limpo vestidos por cima da alma de esterco
Corações defecados na viagem da vida

Adivinhará o que penso o que sinto
Da revolta o meu grito?

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DOIS CAVALOS ESQUÁLIDOS





Os campos verdes
Desvirginados por postes de alta tensão –
Que tristeza a deles

Nas extremas
Campos secos
Algumas vacas

Na forte solidão da campina
Campos e animais molhados
Adormecem o silêncio do dia

Oh gelada dor –
Dois cavalos esquálidos
Aguardam a morte

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A LUZ QUENTE DA FÉ





A cada dia cerram-se cortinas de fumo
Acendem-se punhais pontiagudos de mar revolto

O Palácio das Torturas repousa na longa cabeleira do bosque desencantado

Nada havia para além do horizonte sujo e pérfido
Apenas
Um despenhadeiro dorido que se alongava nos herméticos braços do Sol
E que se espreguiçou na Luz quente da Fé

A porta do terraço aberta às orquídeas selvagens
Que não florescem
E fenecem na noite sonolenta
No limite do nosso espaço contíguo à morte

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ROSA-SOPRO





Olho-te da minha janela bordada a heras
Que roçam com seus leves dedos o granito da parede rude
Vejo-te nessa tua nudez material e esplêndida

Rosa-sopro de morno dorso

O sempre e nunca visto
A ponte palpitante dos sexos
Que carrego nos braços azuis e húmidos
Do Estio que a memória já não visita

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AS TRÊS GRAÇAS





Três Graças
Nas noites longas entreguei-vos o meu sémen de mãos abertas ao egoísmo e ao ócio
À desgraça escavada no coração da escuridão

Nas manhãs frias de inverno bordadas por corcéis
Nas tardes débeis quando o mundo ainda estava em flor e a adolescência exilada retornava célere às curiosidades da memória
Envolvi-vos com palavras silentes e desesperadas
Adormeci-vos com a oração gestual da manhã
E penetrei vossos frutos macios até ao esquecimento do meu próprio corpo

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NÃO HÁ MAIS NADA PARA CRIAR...





Já nada há para criar Diz-se que a criação se esgotou nas alamedas sombrias da solidão e nas insónias dos arbustos chamejantes dos jardins devolutos com suas flores vadias a variarem as cores que ninguém vê

Erro de eternos-condicionados

Posso criar palavras cujo significado só eu conheço e depois esqueço
Posso criar um dialecto novo tão incompreensível quanto o Mistério dos Mil-e-um-mistérios
Posso erguer a voz num priapismo incontrolável e sem circunstância final
Posso rolar pedras desconhecidas nas telas e frutos imaculados no papel oleoso dos dias
Posso moldar corpos disformes no mármore antigo de todas as mulheres nuas
Perfume dos antigos pintores

Posso tudo por não possuir nada

Posso criar-me
Homem Novo a criar
Novo Mundo
Num novo Deus
De Novíssima Arte


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CEMITÉRIO NA ALDEIA





Mais um velho
Um mais
Da minha aldeia

Foi hoje a sepultar

O cemitério apinhado de membros desfeitos nas recordações perdidas

As campas graníticas
Descarnadas
Sorvem as lágrimas da saudade

Aqui e ali
Os idiotas que pouco ou nada aprendem com a morte e com o silêncio da morada derradeira
Visitam os túmulos frios da madrugada
Solenemente beijada pelo orvalho sangrento
Deixando nelas o pranto da hipocrisia

Água de pérfidas faces sulcadas pelo remorso
Água que não lava nem alivia o jugo do pecado
Água-de-olhos sujada e em vão derramada

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O CANTO DOS GRILOS





Na noite longa
A Paz imensa
Sossega a alma conturbada

As frases imersas na luz
Sucedem-se no papel opaco
Da consciência nascente

Calam-se as vozes
No terraço da casa ao lado
E faz-se ouvir o doce canto dos grilos

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FESTA NA CIDADE PEQUENA





Festa na cidade pequena -
Para além de vacas e porcos
Os pobres desgraçados

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