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ARTE

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sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

RUBAIYAT - OMAR KAYYAM - ODES - 170







Alaúdes
Taças
Jarros
Perfumes
Risos
Olhos amendoados
Profundos

Brinquedos que o tempo
Faz corromper

Austeridade
Trabalho
Meditação
Solidão
Oração
Renúncia

Cinzas que o Tempo espalha
Cinzas
Cinzas


Versão JMA


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FIM – Odes ao Vinho e ao Amor (Rubaiyat)



ODES - 169



Silêncio
Oh minha dor

Deixa que busque mezinha
É preciso viver
É urgente

Porque os mortos
Não rememoram
E eu tanto quero
Tanto desejo
Voltar a ver
A minha Amada


Versão JMA


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ODES - 168



Senhor
Desbarataste a minha alegria
Ergueste uma muralha
De pedra armada
Entre o meu coração
E o da minha bem amada

Os cachos da minha vindima foram degolados

Vou morrer Senhor
Morro com Dor

Mas tu
Cambaleias embriagado


Versão JMA


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ODES - 167



Foi-me dado o golpe esperado
A minha bem amada abandonou-me

Enquanto a possuía
Como era fácil desdenhar o amor
E exaltar o abandono

Enfim
Junto dela
Estava só

Entendes?
Partiu ela
Para que me possa
Refugiar nela


Versão JMA


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ODES - 166



Todos os reinos e riquezas
Por uma taça de vinho generoso
Todos os impérios e suas fortalezas
Por um cálice de vinho novo

Todas as bibliotecas e livros
Toda a sabedoria
Pelo doce aroma do vinho
Por um beijo à sombra de uma tília

Todos os hinos de amor
Pela canção do copo que se esvazia
E por um corpo que se anuncia


Versão JMA


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ODES - 165



Há lamparinas que se apagam
Há esperanças que se iluminam
Aurora

Há lamparinas que se iluminam
Há esperanças que se apagam
Noite


Versão JMA


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ODES - 164



Pobre homem
Pobre infeliz
Nunca saberás nada
E nunca serás capaz
De resolver um que seja
Dos mistérios
Que nos cercam

Já que as religiões
Em uníssono te prometem
Um Paraíso
Faz tu por um nesta terra criar
Porque o delas
Pode ser mentira a esvoaçar


Versão JMA


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ODES - 163



És infeliz
Tu que choras
Que gemes
Que escondes o rosto no leito
E em segredo padeces?

Não penses
Se não pensares na tua dor
Não sofrerás jamais

Se a tua atribulação é forte
Se te faz pensar na morte
Lembra os justos
Que injustamente sofreram
Desde o princípio dos tempos

Escolhe uma mulher
Seios de neve
E faz por a amar
Mas ela
Por seu turno
Que só te ame
Por momentos


Versão JMA


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ODES - 162



Só vês a aparência
Dos seres e das coisas
Não penetras na sua essência

Cônscio da tua ignorância
Recusas renunciar ao amor
Mas Pôncio Pilatos
Recusou-o a Jesus

Deus deu-nos a provar o Amor
E também em certas plantas
Animais e homens
Veneno fatal


Versão JMA


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ODES - 161



Olha para esta fonte
Que brilha e rebrilha no jardim

Imagina
Como eu
Que vês a Fonte das Fontes
E que estás no Paraíso

Procura a tua amiga
Rosto de rosa
Resplandecente e maravilhoso


Versão JMA


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ODES - 160



O Ramadão cessou –
Corpos extenuados
Almas ardidas
Retomai o prazer

Os contadores de histórias
Narram histórias novas

Vendedores ambulantes
De doces e vinho
Mercadores de milagres
Sonhos e ilusões
Arremessam seus pregões
Às multidões

Mas
Eu oiço somente
A Voz da Vida
A da minha bem amada


Versão JMA


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ODES - 159



Deus é Grande –
Este grito o que é
Uma profunda lamentação?

A terra geme prostrada
Cinco vezes por dia
Perante o seu Criador ausente?


Versão JMA


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ODES - 158



Um homem cavalga no horizonte
Afasta-se na bruma da queda do dia

Quem é
Para onde vai?

Irá atravessar bosques encantados
Planícies desertas
Perigosos montados?
Não sei

E eu
Amanhã
Onde estarei?
Sobre a terra
Ou debaixo dela?
Também não sei


Versão JMA


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ODES - 157



Olha à tua volta
Aflições
Desgraças
Desespero
Angústia
Choro
E ranger de dentes

Os nossos melhores amigos morreram

A tristeza é a nossa companheira
Inseparável

Mas
Continua Homem
Abre as mãos
Alcança o que anseias
Faz das tripas coração

Enterra nas profundezas
O cadáver do teu passado


Versão JMA


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ODES - 156



Nunca conseguiremos incendiar o mar
Nunca iremos convencer o homem
Dos perigos e manhas da felicidade

No entanto
Todos sabemos
Que o mais pequeno choque
É letal para o cântaro cheio
E deixa incólume o vazio


Versão JMA


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ODES - 155



Embriagado ou sedente
Apenas me apetece dormir
Dormir profundamente

Não quero saber
O que é o bem
E o que é o mal
Porque o bem
Está para o mal
Como o mal
Está para o bem

Afinal
O que é o bem
O que é o mal?

Para mim
Dor e prazer são semelhantes

Quando me sinto feliz
Concedo à felicidade
Modesto lugar
Já que bem sei
Que a dor não tardará
Para irremediavelmente a afastar


Versão JMA


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ODES - 154



Santo homem
Despe essa roupagem
De que tanto te envaideces
E que não tinhas quando nasceste

Veste antes o Manto da Pobreza

Os caminhantes provavelmente
Deixarão de te reverenciar
Mas sentirás no coração
A canção entoada por anjos e arcanjos


Versão JMA


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ODES - 153



Neste mundo
É nosso Destino
Sofrer
Para depois
Em agonia morrer

Não quereis dar à terra
Quanto antes
O vosso corpo miserável
Ele que é a fonte
De todo o padecimento?

E a Alma
Perguntais
Pela qual Deus aguarda
Para o Juízo Final?

Ficai descansados
Que logo vos responderei
Quando for informado
Por alguém que regresse
Da Terra dos Mortos


Versão JMA


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ODES - 152



Para o sábio
A tristeza e alegria
Assemelham-se

O bem e o mal
São semelhantes
E se diferem
Nem mal nem bem
Nem bem nem mal

Tudo o que teve início
Deve findar naturalmente

Meditai pois
Se deveis alegrar-vos com a felicidade
Ou consternar com a infelicidade


Versão JMA


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ODES - 151



Estudei orientado
Por eminentes Mestres
Passo a passo aperfeiçoei-me
E orgulhei-me
Dos meus progressos

Quando lembro
O sábio que fui
Comparo-o à água
Que toma a forma do copo
E ao fumo que o vento leva


Versão JMA


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ODES - 150



Muito aprendi
Outro tanto esqueci

Outrora
Na minha memória
Cada coisa
Saber
Especulação
Tinha o seu lugar

Se algo estava à direita
Não podia ser desviado para a esquerda
E se à esquerda estava
Não poderia ser desviado para a direita

Só atingi a Paz
Quando com desprezo
Tudo repudiei

E acabei por aprender
Que não nos é possível
Afirmar ou negar nada
E que em tudo há uma praga


Versão JMA


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ODES - 149



Senhor
Com mil armadilhas invisíveis
Preparaste os caminhos
Que incautos percorremos
E disseste-nos –
Calamitoso aquele
Que não souber escapar delas

Tu que
Tudo vês
Tudo sabes
Tudo prevês

Nada acontece sem o Teu assentimento
Sou pois o culpado de meus pecados?
Podes ou não assim
Castigar sem remorsos
A minha insurreição?

Não
Digo-te eu


Versão JMA


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ODES - 148



Escondo a minha melancolia
De toda a gente
Com a vergonha da tristeza

As aves feridas também se escondem para morrer

Serve-te de vinho
Bebe
Ouve as minhas graças
E as desgraças ocultas

Quero vinho
Quero rosas
Canções de alaúde
Quero amar

E tu Amada quero
Indiferente ao meu pesar


Versão JMA


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ODES - 147



Quando te vergares ao peso da dor
Quando os teus olhos secarem
Pensa nas verdes plantas que a chuva asperge

Quando te sentires desesperado
No esplendor do dia
E quando desejares
Que uma noite sempiterna caia sobre o mundo
Pensa como uma criança
Pensa nela ao despertar

Ah como é bom amar gratuitamente


Versão JMA


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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

ODES - 146



Serviçais
Não nos alumiem
Os convidados adormeceram

Vejo que estão pálidos de morte

Hirtos estão e de frio gélidos
Reflexo da imagem do sepulcro

Deixai as velas
Não há luz nem amanhecer
Para os mortos


Versão JMA


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ODES - 145



O mundo é um roseiral

Visitas –
As borboletas
E os rouxinóis

Elas oferecem-nos cor
Dúctil movimento
Eles canções

Se não tiver
Rosas
Violetas
Ramos
Folhas
Éden
E farol que me guie
Terei por flores
As estrelas
E por jardim
Teus cabelos soltos
Ao vento Norte


Versão JMA


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ODES - 144



Um pouco mais de vinho
Amada em flor
Um pouco mais para ti

O teu rosto não tem ainda
O brilho das rosas rubi

Um pouco mais de tristeza
Para mim

A minha amada
Sorrir-me-á
E com seu frondoso sorriso
Fará de mim um homem alegre


Versão JMA


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ODES - 143



Que farei hoje?

Irei à taberna
Irei sentar-me no jardim
Lerei algum livro
Beijarei doce mulher?

Um pássaro voando
Cruza os céus
Donde vem
Quem é
Para onde vai?
Tão pequeno
E grácil
Já o não vejo

Oh embriaguez de ave
No azul subtil
Oh arrependimento do homem
Na sombra fresca de um templo


Versão JMA


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ODES - 142



No vasto prado verde
A sombra desta árvore
Parece-se com uma ilha

Caminhante
Pára Não te afastes
Não prossigas
Fica onde estás

Entre o caminho que segues
E esta sombra que roda
Com lentidão
Talvez haja
Um abismo intransponível


Versão JMA


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ODES - 141



Pouco mais precisas
De entender ou saber
Que tudo é mistério
A criação do Universo
E a tua
O destino do Universo
E o teu

Sorri aos mistérios
Como quem sorri a um perigo
Cuja perigosidade desconheces

Nada irás saber
Quando franqueares
Os Portais da Morte

Paz aos homens
De boa e má vontade
No escuro silêncio
Do obscuro Além


Versão JMA


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ODES - 140



Mais uma aurora

Dia após dia
Invento um novo
Brilho no mundo
E como lamento
Como me angustio
Por não poder
Agradecer ao seu Criador

Mas tantas são as rosas
Que me contentam
E tantos os lábios
Que me consolam
Quando aos meus se unem

Deixa o teu alaúde
Bem amada
Os pássaros já cantam
Vamos amar

Versão JMA


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ODES - 139



Ó estulto
Que sábio te julgas
Desassossegado
Entre o infinito do passado
E o infinito do futuro

Queres criar
Um limite entre estes dois infinitos
Por aí te ficando?

Sendeiro

Escolhe uma árvore
Senta-te à sua sombra
Com um jarro de vinho
Bebe com a tua amada
Até que te esqueças
Da tua fraqueza e impotência


Versão JMA


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ODES - 138



Que espírito gracioso
É o do vinho cor de rubi

Oleiros modelai
Para esta gentil alma
Cântaros dos mais macios

Cinzeladores de taças
Modelai-as com subtileza

Esta alma deleitosa
Quer imergir no azul do seu cristal


Versão JMA


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ODES - 137



Dizes que o vinho
É o melhor dos bálsamos?

Trazei-me todo o que houver
Neste mundo

O meu coração está em ferida
Desgostoso e dilacerado

Tragam-me todo o vinho do mundo
E o coração que se fique com suas feridas


Versão JMA


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ODES - 136



Percorria eu
A fábrica deserta
De um oleiro
Onde havia
Mais de mil cântaros

Falavam baixo

Um disse –
Façam silêncio
Concedei a este visitante
A evocação
Dos oleiros e comerciantes
Que outrora éramos


Versão JMA


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ODES - 135



Se estou perdido de bêbado
Nem sonhas como sou feliz

Se admiro o rosto rosado
Da minha Amada
Sou feliz

Se sonho que não existo
Como sou feliz
Porque a morte é Nada
E no Nada não há sofrimento
Nem o tormento do Inferno


Versão JMA


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ODES - 134



Estou cansado
Exausto de interrogar
Os homens
Os livros

Quis consultar o cântaro

Poisei nos seus lábios os meus
E murmurei –
Para onde irei quando morrer?
Ele
Cheio de vinho forte
Respondeu-me –
Bebe na minha boca
Sacia-te à vontade
Nunca voltarás da Morte


Versão JMA


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ODES - 133



Aurora
Felicidade Pureza
Um enorme rubi
Brilha em cada taça

Toma estes dois ramos
De sândalo

Transforma um em alaúde
E queima o outro
Com os teus lábios
Para que nos perfume
Enquanto nos amamos


Versão JMA


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ODES - 132



Decide-te
Não contemples mais o Céu

Rodeia-te de belas e aprazíveis donzelas
E acaricia-as com suavidade e amor

De que duvidas?
Ainda desejas orar a Deus?

Muito antes de ti
Outros homens lhe dirigiram
Fervorosas orações mantras
Ave-marias credos petições

Já partiram para o Reino da Morte
E ninguém sabe se Deus
De longe ou perto
Na sua contrição os viu ou ouviu


Versão JMA


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ODES - 131



A auréola que rodeia
Esta frágil rosa
É um sinal do seu aroma
Ou a débil defesa
Que na bruma desfeita
Deus lhe deu?

Os cabelos sobre o teu rosto
Bem amada
Serão a noite que teu olhar
Há-de dissipar?

Acorda desse sono bem amada
O Sol abrilhanta as nossas taças
Bebamos
Amemos
Que um corpo luminoso
É mais belo que a escuridão


Versão JMA


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ODES - 130



Ouve-me leitor
Se este mundo
Mais não é do que ilusão
Por que desesperas
Por que motivo te afliges
E desiludes?

Por que pensas noite e dia
Na tua infelicidade e na tua dor?

Abandona a tua alma
À fantasia das horas
O teu Destino já está escrito
Não há para ele apagador
E ninguém para o apagar
Porque Deus sonha
E se não sonha dorme


Versão JMA


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ODES - 129



Como é débil o homem
Fatal e implacável o seu Destino
Como é dissimulado e insincero

Juramentos
Juramentos falsos
Juramentos que não cumprimos
Indiferentes à vergonha e à desonra
Frieza da mentira
Na Terra da Hipocrisia

Até eu
Por vezes
Vivo na insensatez
Destempero e desacerto

Mas tenho por escusa
A de estar ébrio de Amor


Versão JMA


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ODES - 128



Fecha o teu Corão
Bíblia ou Guitá
Pensa com atrevimento
E encara sem temor
O Céu e a Terra

Ao pobre que passa
Doa metade dos teus bens

Perdoa a todos
Os que culpados são

Não amargures ninguém
E esconde-te quando
Quiseres sorrir


Versão JMA


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ODES - 127



O vinho proporciona
Aos sábios
Uma embriaguez semelhante
À dos Eleitos

Oferta-nos a juventude
Que perdemos
Dá-nos o que pedimos
E o que almejamos

Queima-nos
Como uma enxurrada de fogo
Mas também pode converter
A nossa tristeza
Em água pura e fresca


Versão JMA


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ODES - 126



O vinho novo
Tem a cor das rosas
Oh como é belo

Talvez não seja sangue das vinhas
Mas de rosas inebriantes

Talvez esta taça
Não seja cor de cristal
Mas azul de céu e mar

A noite permanece
Na pálpebra do dia


Versão JMA


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ODES - 125



A esplêndida solidão
Das estrelas

A solidão magnífica
Das flores

E das árvores também
Só a irás alcançar

Quando te apartares dos homens
Quando te afastares das mulheres

Não procurando refúgio em ninguém
Sem que te debruces sobre qualquer dor

E de qualquer convívio te desvies
Num Amor indiscriminado


Versão JMA


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ODES - 124



O orvalho de manhã
Poisa
Sobre as túlipas
Jacintos
Violetas
E outras flores

O Sol sorridente
Alivia-as desse fardo brilhante

De manhã ao acordar
Pesa-me no peito o coração
Mas basta-me o teu olhar
Para o libertar


Versão JMA


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ODES - 123



O vinho é alforria
De dúvidas e cuidados
De medos e fados
Indecisão e embaraço

É o mágico mãos de rubi
Que te irá transportar
Momento a momento
À Terra do Esquecimento


Versão JMA


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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

ODES - 122



Bebo vinho
Como a raiz
Do salgueiro
Bebe a água
Do idílico ribeiro

Só Deus é Deus
E Ele tudo vê
Só há um Deus
Ele tudo sabe
Tudo prevê
Não é o que está escrito?

Quando me criou não sabia
Que eu beberia vinho
E pelos caminhos da estúrdia
Com outros boémios vaguearia?

Se não bebesse nem amasse
A ciência de Deus seria um fracasso

Poderá Ele castigar o que assim criou?
Poderá castigar-me a mim
Que a Ele devo o que sou?


Versão JMA


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ODES - 121



Das estrelas caem
Pétalas de ouro
E vão caindo
Enfim
Por aqui por ali
Mas não caem
No meu jardim

Se o Céu alastra as suas flores na Terra
Também eu encho de vinho cor de rubi
A minha taça negra como a noite


Versão JMA


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ODES - 120



Podes mergulhar na noite que nos envolve
Podes ir até aos seus limites Em vão

Adão e Eva
Tão amargo deve ter sido
Vosso primeiro beijo
Para que nos tenham gerado
Tão desesperados


Versão JMA


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ODES - 119



O Amor
Esse forte sentimento
Doce e inebriante
Como o vinho
Essa emoção
Pacífica ou violenta
Quando não arrasa e devasta
O coração do amante
Não é Amor

As brasas da lareira
Darão o calor
De uma fogueira?

Noite e dia
Em sonho ou vigília
Em toda a sua vida
O amante contorce-se
De prazer e dor


Versão JMA


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ODES - 118



Sultão
O teu Destino
Estava escrito nas constelações
Onde em estrelas
Brilha o nome do rei Khosru

Desde o alvorecer dos tempos
Que o teu cavalo de áureos cascos
Corre entre os astros

Quando passas
Uma miríade de estrelas
Esconde-te dos nossos olhos
Espantados


Versão JMA


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ODES - 117



Esta noite
Ou amanhã
Poderei já não existir
Tempo terminado
Nesta terra a afundar

Chegou o momento
De pedir vinho
E uma mulher para amar

Com quem te comparas
Com um tesoiro
Com um cântaro de oiro?

Julgas tu desajuizado que os ladrões
Irão violentar a tua cova
Para furtar um defunto?


Versão JMA


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ODES - 116



Dizia uma rosa –
Sou a maravilha do mundo
Será possível
Que um perfumista
Me faça sofrer?

Cantava um rouxinol –
Um dia de felicidade
Anuncia um ano de lágrimas


Versão JMA


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ODES - 115



A abóbada celeste
Sob a qual vagueamos
Em passo incerto
É uma lanterna mágica
Acesa por uma estrela

O mundo a tela
Onde passam as nossas imagens


Versão JMA


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ODES - 114



Olha
Ouve
Uma rosa tremula
No sopro da brisa
O rouxinol canta-lhe
Uma breve canção

Uma nuvem adormeceu
No céu azul sobre o mar
Vamos beber
Vamos amar
Vamos navegar nas ondas
Do prazer

Sem lembrar que não tardará
Uma rajada a desfolhar a rosa
A levar o tépido canto do rouxinol
E a nuvem e sua sombra
A despertar o Sol


Versão JMA


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ODES - 113




Na taberna da minha aldeia
Pedi a um velho sábio
Notícias dos que já partiram

Tio Zé Gabriel respondeu –
Só nos levam a dianteira
É tudo o que sei

Tio António Velhaco ouviu e disse –
Eu sei um pouco mais
Quem morreu fodeu-se
E não mais voltará
Bebe o teu vinho

Bebe
E esquece


Versão JMA


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ODES - 112



Senhor
Senhor diz-me
Deste-me olhos
Para que a beleza
Dos seres
Das mulheres
Me deslumbre

Concedeste-me o dom da felicidade
Queres que eu abdique sem mais
Do prazer das maravilhas do mundo?

Impossível Senhor
Tão impossível como virar uma taça
Sem derramar o seu vinho
Ou tocar uma donzela
Sem colher o seu amor


Versão JMA


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ODES - 111



Tens medo do amanhã
Sabes porventura
O que é te pode ocorrer?

Sê audaz
Para que o azar
Não justifique os teus temores
E essa tua agonia
Que aumenta a cada dia

Liberta-te de tudo
Não te comprometas com nada
Não indagues nos livros
Nem questiones outros
Que como tu
Nadam nas águas da ignorância

O âmago do Destino é insondável
E indecifrável


Versão JMA


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ODES - 110



Há um momento
Em que a brisa da manhã
Abre as rosas
E lhes sussurra
Que as violetas
Já despiram
As suas roupas

Só é conveniente que viva
Aquele que se compraz
Na visão do sono de esbelta mulher
Alcança a sua taça
Esvazia-a
E a lança fora


Versão JMA


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ODES - 109



Antes de saber como acariciar
Um rosto amoroso como rosas
Quantos espinhos não terás de arrancar
Da tua própria carne perfurada

Olha
Esse pente
Era um pedaço de madeira

Quando a talharam
Grande foi a sua dor

Mas
Hoje
Afaga os cabelos
Brilhantes e perfumados
De uma adolescente


Versão JMA


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ODES - 108



Na terra matizada
Caminha alguém
Que não é infiel
Nem muçulmano
Nem rico nem pobre

Não invoca Deus
Não quer saber das suas leis

Não crê na Verdade
Nem nunca afirma nada

Na terra matizada
Quem é este homem
Triste e corajoso?


Versão JMA


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ODES - 107



Quando era novo
Na igreja sentado
Não rezava qualquer oração
Mas voltava com o coração
Repleto de Esperança

Agora
Velho e cansado
Quando me sento numa delas
Procuro a sombra
Que me deixa adormecer


Versão JMA


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ODES - 106



O calor do vinho
É libertação
O calor do Amor
Arroubo interior

Libertação do passado e do futuro

Encantado pela luz
Quebra os grilhões
Caminha ama e bebe
A Liberdade


Versão JMA


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ODES - 105



Os sábios nunca te irão ensinar seja o que for
Mas as carícias dos amaviosos cílios de mulher
Irão transportar-te para o Reino da Felicidade

Os teus dias estão severamente contados
Em pouco tempo o teu corpo será dado à terra

Bebe vinho
E afastado
Procura nele
O afago
Que te não é doado


Versão JMA


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ODES - 104



A abóbada celeste
É como um cálice voltado
Em que se agitam
Debalde os sábios

Que o teu amor
Pela tua amada
Seja igual ou parecido
Ao que o cântaro
Sente pela taça

Lábio com lábio
Boca com boca
Trocam o seu sangue
Em puro êxtase


Versão JMA


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ODES - 103



Esta é a única verdade –
Somos os peões
De partida de xadrez
Por Deus jogada

Move-nos
Em frente
Para trás
Para os lados
Detém-nos
Faz-nos avançar
Recuar
E depois
Quando o quer
Vai-nos atirando
Um a um
Peças sem préstimo
Para fora do tabuleiro
Para o Jogo do Nada


Versão JMA


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ODES - 102



Quando eu perecer
Comigo hão-de morrer
As rosas
Os ciprestes
Os lábios vermelhos
E o vinho perfumado

Nem mais uma aurora
Nem crepúsculo
Dores alegrias
Sofrimento

O mundo deixará de existir

O mundo só é real
E só pode ser vivido
Como efeito do pensamento
De limitado cérebro nascido


Versão JMA


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ODES - 101



Onde estás tu meu amigo
Das noites errantes
Das boémias cantantes?

Onde estão os nossos amigos
Tê-los-á abatido a Morte
Na sua vida sem sorte?

Onde estão agora?
Pareço ainda ouvir
As suas alegres canções

Estarão mortos
Ou ébrios de tanto
Ter vivido?


Versão JMA


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ODES - 100



Pouco sei ou me importa saber
Mentira Verdade
Bondade Maldade
Mas
Procuro sempre
Um vinho de qualidade
Numa cama em desalinho

Os meus cabelos embranquecem
Meus ossos enrijecem
Tenho sessenta anos

Ser feliz
Hoje ou nunca

Amanhã
Talvez já não tenha forças
Talvez seja tarde
Com a alma vendida ao Diabo


Versão JMA


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ODES - 99



Quando a Sombra da Morte
Aluir sobre mim
E os meus dias
Pelos dedos de uma mão contados
Chamar-vos-ei
Amigos meus

Levar-me-eis deitado

Quando o corpo que vivo foi
Se transformar em pó do deserto
Ireis moldar um cântaro
Que enchereis de vinho

Talvez então oh mistério
Me vejais ressuscitar
E seja o herdeiro
Dono de um novo
E mais justo Império


Versão JMA


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ODES - 98



Se soubesses
Como pouco me afectam
Os quatro elementos
E as cinco faculdades
Ah se o soubesses

Diz-se que alguns filósofos gregos
Conseguiam colocar cem problemas
Aos seus auditores

Que me interessa
Que importância tem?
É-me indiferente
O problema dessa gente

Serve vinho
Sim vinho
Toca o alaúde
E que as suas notas
Evoquem a brisa
Que como a vida foge

Ah serve o vinho
Beija-me
Dá-me o teu carinho


Versão JMA


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ODES - 97



Noite escura
Espectros fulgentes
Silêncio
A folhagem estática
Num ramo incandescente
Como o meu pensamento

De uma rosa
Exemplo que julgas
Ser do teu esplendor
Cai uma pétala

Onde estarás tu
Neste momento
Tu que me brindaste
Com o cálice de cristal
E lábios purpurinos
Pelos quais suspiro?

Nenhuma rosa
Se desfolha junto
De quem acaricias
Com teu cântaro

E sei que ninguém
Te pode entregar a felicidade amarga
Com que eu te embriagava


Versão JMA


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ODES - 96



Não te esqueças
Colhe todos os frutos
Que as tuas mãos
Alcancem

Vai a todas as festas
Banquetes e romarias
Escolhe as taças maiores
E as mais belas mulheres

Deus não se importa
Com teus vícios e virtudes
Como atinges o prazer
E com o que fazes do teu corpo
Deus tem mais que fazer


Versão JMA


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ODES - 95



A ninguém pedi a vida
Não pedi para viver

Esforço-me por aceitar
Sem gozo nem cólera
Tudo o que a vida
Tem para me ofertar

Partirei sem questionar
Sobre tão estranha condenação
Que com outros me faz partilhar
Este Mundo Cão


Versão JMA


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ODES - 94



A Lua do Ramadão já brilha
Amanhã o Sol iluminará
Uma cidade silenciosa e hirta

Vinhos a dormir nos cântaros
Nas garrafas nas taças
E jovens donzelas
Nas sombras das florestas


Versão JMA


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ODES - 93



Ouve este segredo duradouro –
Quando o primeiro alvor
Alumiou o mundo em trevas
Adão era uma criatura sofrida
Sentado em venenosas ervas
Que almejava pela noite
E clamava pela morte


Versão JMA


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ODES - 92



Ao poder do rei Ki-Kaus
Às riquezas da região de Korasán
Prefiro um cântaro de vinho
E mulheres para beijar
E no silêncio dos bosques amar
Perdidamente um corpo ao luar
Numa esteira de linho

Admiro o amante que geme de felicidade
De dor e por amor
Desprezo o cínico que boqueja uma prece


Versão JMA


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ODES - 91



Evidência e dúvida

Erro e verdade

Palavras vazias como bolhas de ar
A boiar no Tanque dos Nenúfares

Com as cores do arco-íris
A cintilar
Ou turva
Como nuvem a pairar
Em dia de chuva
Bolha que é alegoria da vida


Versão JMA


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ODES - 90



Pergunto-me –
Afinal o que é meu
O que tenho incerto
Ou possuo incontroverso?

Pergunto-me –
O que restará de mim
Depois da passagem
Para o Reino dos Mortos?

A vida é um incêndio
Que devasta a floresta imensa
Em escassos minutos

Chamas vermelhas
Cinzas que o vento espalha
E dispersa -
Tal é a existência humana
E a minha essência
Cinzas Cinzas


Versão JMA


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ODES - 89



A Paz neste mundo?
Loucura Vaidade

Eterno descanso?
Demência também

Depois de morto
Um sonho breve

Ressurgirás na erva
Frágil e indefesa
Que todos calcam

Ou na flor que no Estio
O Sol irá queimar


Versão JMA


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ODES - 88



Embriaga-te meu irmão
Com todos os perfumes
De vinhos novos e velhos
De todas as mulheres
De músicas
De cores
Das flores

Não faltes em afagos
Agasalho e blandícias
Às tuas amadas

Olha que a vida é breve
Feita de pontes sem margens
E que não tardarás
A afundar-te na terra
Como a água dos poços e das fontes


Versão JMA


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ODES - 87



Há muito
Há anos
Que a minha juventude
É no Reino da Morte jacente

Primavera da minha vida
Perdida
Onde se perderam
Primaveras idas

Oh adolescência
Que passaste
Sem que eu
Me apercebesse
Tal como
Dia após dia
Se amolece a brandura
Da Primavera

Versão JMA


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ODES - 86



Senta-te comigo na margem deste ribeiro
Esbelta adolescente de rosto trigueiro

Olho-te
Com os olhos do futuro
Que o estar sozinho me concede

E penso
Com melancolia
O cântaro e o cálice
Pleno de vinho
Que serás um dia


Versão JMA


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ODES - 85



Amigo
Não faças projectos
Não pesques em lagos secos

Tens a certeza de poder colher
Os frutos do que agora plantaste
De terminar a frase que começaste?

Amanhã talvez possamos estar
Tão longe desta choupana
Tão distantes desta caravana
Que se afasta afasta sem cessar
Como os que já abalaram
Há milhares de anos
E que ninguém recorda
Ou comemora


Versão JMA


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ODES - 84



A aurora alagou de rosas
A abóbada celeste

No ar diáfano e puro
Perde-se a canção do último rouxinol

O aroma do vinho é mais leve
Generoso

E pensar
Que neste momento
Em cada parcela do mundo
Há aluados ensimesmados
Que sonham com a glória
Honras e reputação

Oh como são macios os teus cabelos
Doirada a tua aura
E perfumado teu hálito
Minha bem amada


Versão JMA


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ODES - 83



Meditas
Em que meditas?

Nos teus antepassados?
Eles que são pó sobre pó

Nas suas virtudes e celebridade?
Deixa que sorria

Toma este cântaro
Vamos beber
Vamos amar
E escutar
O silêncio das galáxias
Em movimento


Versão JMA


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ODES - 82



Dizem-me –
Deixa de beber
Não bebas

Respondo –
Quando bebo
Oiço as rosas
As túlipas
Os jasmins
E também
O que a minha bem amada
Em segredo e para si
Me diz


Versão JMA


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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ODES - 81





No delírio da vida
Só serão felizes
Os que sábios pensam ser
E os que não cuidam
Da sua instrução

Tolos

Curvei-me sobre todos os segredos
Sobre todos os mistérios do Universo
E desanimado
Refugiei-me na solidão
Os cegos invejando


Versão JMA


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ODES - 80



Quando for sepultado
Do meu túmulo exalará
Inebriante aroma a vinho
Forte
Tão forte tão poderoso
Que embebedará
Quem por ali passar

A tranquilidade emanará
Do meu sepulcro perfumado
Impedindo os amantes
De dali se apartarem

Não conseguirão partir
Nem tão pouco afastar


Versão JMA


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ODES - 79



Vinho
Vinho
Que percorra sem cessar
As minhas veias

Vinho
Amor
Vinho
Que me suba
À cabeça

Cálices
Silêncio
Nada
É verdade

Vinho
Cálices
Depressa
Urgente
Que envelheço


Versão JMA


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ODES - 78





Oferece como sacrifício
À alvorada
O vinho do teu cálice
Os beijos dos teus lábios
Túlipas de Primavera

Oferece ao sorriso rasgado
De uma jovem em flor
O vinho com que brindas
Ao Amor

Bebe e olvida
Bebe e ama
Que o punho da Dor
Em breve
Te irá derrubar


Versão JMA


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ODES - 77



Os homens divertem-se
A errar pelo carreiro
Do que pensam ser
O verdadeiro conhecimento

Uns buscam-no
Outros afirmam que o encontraram

Não
Um dia a Voz virá
E bem alto clamará –
Não há caminho
Não há caminho


Versão JMA


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ODES - 76





Tanto se fala de um Criador
Que criou os seres
Todos os entes
Céus terras e mares
Os Homens suas gentes

Para que os criou
Ele o Supremo Senhor
Um primeiro
E logo após dois
Para os destruir depois?

Há os feios e os belos
Os com defeitos e os escorreitos
Os que nascem ricos e os pobres
Os que morrem à fome
À nascença e as crianças
Saudáveis e doentes
Porquê? Porquê?

Não sei nada
Não compreendo nada


Versão JMA


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ODES - 75



Vinho
Único conforto
Alívio bálsamo
Para um coração que sofre
Enfermo

Vinho
Perfumado a almíscar
Vinho
Cor de rosas
A florescer num ermo

Serve-me vinho
Vinho
Destruidor
A arrasar
O inferno ardente
Da minha amargura

Vinho
E o teu alaúde
De cordas de seda
Minha adorada
Minha bem amada


Versão JMA


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ODES - 74



Haverá um dia em que as nossas almas
Irão deixar nossos corpos para trás

Sobre as nossas pobres e inertes cabeças
Alguém colocará um ladrilho
E uma lápide inscrita que dirá –
Aqui jaz
Em eviterna paz
Quem na taberna
Muito bebeu
Amou e sofreu

Depois
As tuas cinzas
Misturadas com as minhas
Serão modeladas
Pelas mãos de um oleiro
Ou de um pedreiro
A construir um Amor Perfeito


Versão JMA


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ODES - 73



Porquê tanta doçura
Tanta ternura
Tantos beijos e promessas
No início do nosso amor?

Porquê tantos carinhos
Afagos e mimos
Tanto deleite e enlevo depois?

Se hoje
Tens por prazer e gozo
Dilacerar-me o coração?
Porquê?


Versão JMA


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ODES - 72



Um pedaço de pão negro
Duro de semanas
Um pouco de água fresca
A sombra de uma árvore
E teus olhos escuros rasgados
Em perfeito corpo implantados

Não há quem eleja
Imperador mais feliz que eu
Nem esfarrapado mendigo
Que mais triste seja


Versão JMA


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ODES - 71



Tu que me atormentas
Ó imagem de uma nova alegria
Vozes de amor encantadoras
Que me atentais

Vejo a minha amada
E só a sua doce voz ouço

Deus há-de perdoar-te
Diz ela suave

Não aceito esse perdão
Não pedi qualquer absolvição


Versão JMA


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ODES - 70



Já sou velho Sim velho
Mas tenho Amor para dar

A minha paixão por ti
Mata-me de Amor e desejo

Não deixo por isso de alagar
O meu cálice de vinho

Tal é o meu sentimento
A intensidade do amar
Que sem piedade o Tempo
Anulou o discernimento
Da minha razão
Fazendo murchar
Sem caridade
A rosa que brilhava
No meu peito


Versão JMA


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ODES - 69



Ouço dizer
Que os amantes do vinho
Serão condenados
Ao ardente Inferno

Verdades não as há
Mas há mentiras
Que são tão evidentes
Que ninguém as pode negar

Se todos os que se embriagam
Se todos os que amam
Vão para o Inferno
O Paraíso está vazio


Versão JMA


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ODES - 68



A vida passa
Veloz
Como uma caravana

Pára de cavalgar
E procura ser feliz

Donzela
Donde te vem essa tristeza?
Bebe um pouco deste vinho
Dá-me de beber
Já se declaram
Os primeiros sinais da noite


Versão JMA


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ODES - 67



Não tenho medo da morte
Mais quero este acontecimento
Inquestionável inelutável
Ao que me impuseram
No dia do meu nascimento

Afinal que é a vida?
Um benefício que não escolhi
E que devolverei com indiferença


Versão JMA


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ODES - 66



Que mistério é esse
Do movimento dos astros
Que giram e giram
No espaço sem fim

Agarra-te com força
À corda da Sabedoria

Cuida-te da vertigem
Que ao teu redor
Abate os teus companheiros


Versão JMA


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ODES - 65



Medíocres
Acanhados
E orgulhosos
Estabelecem
Entre o corpo e a alma
Diferenças que não entendo

Eu só vos posso dizer
Que o vinho faz findar o medo
E nos dá
A tranquilidade perfeita
E que Amar
Nos dá Felicidade
Como consequência
Da ausência do pensamento


Versão JMA


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ODES - 64



Senta-te e bebe
Gozarás de uma felicidade
A que nenhum imperador acedeu
A Paz de Deus

Escuta os alaúdes dos amantes
Que na sua harmonia e melodia
São os exactos salmos de David

Não te entranhes no passado
Não fiques ansioso com o futuro

Que o teu pensamento
Esteja sempre
No eterno presente

Este é o segredo da Paz


Versão JMA


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ODES - 63



Não busques cego a felicidade
A vida é breve como um suspiro

As cinzas de reis voam
No redemoinho vermelho
Que contemplas

O Universo é um sonho
A vida é um sonho


Versão JMA


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ODES - 62



O palácio de Bahram
É agora refúgio de gazelas

Leões deambulam pelos jardins
Onde antes tocavam músicos

Bahram que caçava burros selvagens
Dorme agora num outeiro
Onde pastam burros domésticos


Versão JMA


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ODES - 61



À Felicidade
Só lhe conhecemos o nome
Um rótulo numa jarra opaca

O meu amigo mais velho
É o vinho novo

Acarinha com os olhos
E com os dedos das mãos
Aquilo que falta nos faz
E que nunca nos engana –
A jarra transbordante
Do sangue da vinha


Versão JMA


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ODES - 60



Tombaremos na vereda do Amor

O Destino irá esmagar-nos

Oh bela
Oh donzela
Oh cálice encantado
Agrado dos meus sentidos

Levantai-vos
Dá-me a chama dos teu lábios
Dá-me o teu líquido inviolado
Antes que o fim de tudo
Venha sem ser esperado
E me transforme em poeira


Versão JMA


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ODES - 59



O meu nascimento
Nada trouxe de diferente
Nenhum bem ou mal
Ao mundo de mim indiferente

A minha morte
Não abreviará o seu tempo
Não diminuirá o seu brilho
Nem o seu tamanho

Não há ninguém
Em toda esta multidão
Que me elucide
Por que vim
Para que vim
E porque terei
De partir
Sem que a alguém
O requeira


Versão JMA


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ODES - 58



Retóricos
Filósofos
Sábios silentes
Morreram
E não se entenderam
Sobre a essência
Do ser e do não-ser

Incomoda-te que te chamem ignorante?
Paciência

Continua a saborear
Os melhores vinhos
Os lábios mais belos
Esquece se pecas

Esses sabedores
Que se confortem
Com suas mãos
E com uvas secas


Versão JMA


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ODES - 57



Oh a voz da Sabedoria
Diz-me
Dia após dia
Minuto a minuto –
A vida é tão breve

Não me assemelho às plantas
Que podadas
Voltam a reverdecer

Quando morrer
Nem raízes nem sementes
Me farão reviver


Versão JMA


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ODES - 56



A vida vai-se esgotando

Que resta da cidade de Balk
E de Bagdad?

O mais pequeno dos toques
É letal para a rosa
Que pela manhã desabrocha

Bebe vinho
Ama Abraça paixões
E contempla a Lua

Que tantas civilizações
Viu nascer e morrer


Versão JMA


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ODES - 55



Tu
Cuja face
Obscurece
As rosas do campo

Tu
Cujo rosto
Parece
O de um ídolo chinês

Sabes por mero acaso
Que o teu olhar
A veludo bordado
Transformou o rei da Babilónia
No bispo
Que no jogo de xadrez
Foge da rainha?


Versão JMA


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ODES - 54



Um jardim
Uma jovem esbelta
Um cântaro de vinho
O meu anseio
O meu azedume
Meu Paraíso
E meu Inferno

Mas alguém terá havido
A quem foi dado conhecer
O Céu ou o Inferno?


Versão JMA


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ODES - 53



Age prudente
Caminhante

Arriscado é teu caminho
E afiada a espada do Destino

Evita as amêndoas doces
Da orla das estradas
Têm veneno as danadas


Versão JMA


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