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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

PORTUGAL E O FUTURO













Antes de analisarmos a situação da Europa – ainda que muito sinteticamente – e em especial de Portugal, cumpre-nos fazer uma triste digressão.
E faço-o porque me sinto antes do mais um Cidadão do Mundo.

Este é um MUNDO GLOBALMENTE IMORAL onde a justiça social é uma verdadeira ficção. Os pobres são cada vez mais pobres e os ricos estão cada vez mais ricos.
Nos países em vias de desenvolvimento enriquecem governantes, comerciantes e industriais desonestos, para além de outros criminosos e parasitas que se aproveitam da conivência das autoridades. Grassam os corruptos e os ladrões de “colarinho branco”, enquanto o povo subnutrido vai morrendo lentamente por via de carências alimentares e dos mais elementares cuidados de saúde. O “desenvolvimento” aproveita a uma minoria de políticos e poderosos, tais suínos em período de invernada.
Com as devidas adaptações, o panorama não é muito diferente nas nações do “Segundo Mundo B”, como ironicamente as apelido e nas quais incluo a nossa pobre pátria.

Tanto embuste nos adereços e adornos, no espavento e esplendor da ostentação, que apenas serve o intuito lastimável de esconder a mesquinhez e hipocrisia de quem quer aparecer aos olhos do mundo como decente e honesto e é fundamentalmente grosseiro e vicioso, corrupto, imoral e manhoso.

Há uma alienação generalizada. Falamos de paz, caridade, humildade e multiplicamos as guerras, a ambição, o desejo de poder e a necessidade de prestígio. Dizemo-nos solidários e vamos aperfeiçoando o armamento enquanto milhões morrem por carência dos bens mais elementares. Dizemo-nos desapegados e reacendemos a luta pelos bens materiais minuto a minuto.
Os políticos com as suas gravatas brilhantes, bolsos repletos de influências e patrimónios usurpados, prometem uma sociedade mais justa sem fome e miséria. As suas coniventes damas envergando roupagens de valor avultado, com exuberantes colares e pulseiras angariam fundos para os desfavorecidos. Tantas lágrimas vertidas, tantas palavras derramadas e gestos de pseudo caridade ensaiados em benefício da autocompaixão.

A pobreza é uma realidade que ninguém parece querer assumir. Até os próprios pobres bastas vezes a escondem, enquanto os dirigentes das nações ensaiam discursos prometedores, usando e abusando da palavra “esperança”, da tal “luz ao fundo do túnel” que ninguém vê, a menos que seja alienado, alucinado ou esteja embriagado.

Pobreza é ter fome. Fome de pão para nos alimentarmos convenientemente e não fome da “sobremesa alheia”, como diria Pessoa.
Pobreza é não ter um tecto que nos abrigue ou um abrigo sem condições por onde tudo pode entrar, seja o frio seja a chuva, seja a dor seja a enfermidade.
Pobreza é ter uma doença e não poder ir ao médico. Pobreza é não poder comprar medicamentos.
Pobreza é não ter emprego e viver de pequenos subsídios, esmolas encarapuçadas de compaixão.
Pobreza é ter medo de perder o pouco que se tem e temer sem nada ficar.
Pobreza é não ir à escola para trabalhar ou porque nem posses se tem para comprar livros. Pobreza é ser-se analfabeto.
Pobreza é a ignorância e o mau exemplo com que o Estado programa os seus “filhos”.
Pobreza é a incapacidade dos que sofrem, física ou psicologicamente, para reagirem às condições adversas que os assolam.
Pobreza é morrer na solidão.
Pobreza é a falta de liberdade e de livre determinação.

Digo-vos:
A CADA 2 SEGUNDOS HÁ UM SER HUMANO QUE MORRE À FOME
E os nossos corações são de pedra
e as nossas barrigas estão fartas
e temos o nosso umbigo
e temos uma falsa verdade
e temos nas palavras a falsidade.

Os países ricos fingem e alardeiam o seu auxílio. As suas ajudas são uma verdadeira gota de água no oceano. Fingem e fingem, porque quando a nossa barriga está cheia, pouco nos importa a barriga dos outros e acreditamo-nos por conveniência em tudo o que nos dizem. Isso faz-nos sentir mais compassivos. E eles sabem bem como é conveniente acreditar... Sabem bem como é acomodado ignorar... Foram ensinados a enganar.
E alguns “missionários da desgraça” mandam-nos morder a língua.

A pobreza não está a diminuir. A pobreza aumenta. A pobreza vai continuar a aumentar.
A triste realidade é que por via da POBREZA morrem todos os dias no mundo milhares de pessoas e 11 milhões de crianças morrem por ano antes dos 5 anos de idade como consequência dos seus efeitos devastadores.

Nos finais do século XX metade da população mundial – cerca de 3 mil milhões de pessoas – vivia numa pobreza quase absoluta e degradante e 1,3 mil milhões não tinha acesso aos cuidados médicos mais básicos.

A população mundial já ultrapassou os 7 mil milhões, com cerca de 98% do aumento a registar-se nas regiões pouco desenvolvidas, panorama que se pode transformar em algo assustador. A pobreza continuará a aumentar, bem como a carência dos mais básicos cuidados de saúde, malgrado as palavras de políticos e altos dirigentes, tão imbuídas de esperança quanto de falsidade e hipocrisia.




PORTUGAL, dos países da União Europeia é um dos mais pobres.
Aqui os critérios de pobreza são completamente diferentes dos utilizados para o Terceiro Mundo. Mas a diferença não justifica os riscos e o sofrimento que causa. Um em cada quatro portugueses vive uma situação de pobreza desesperada.
Atente-se, que ainda temos concelhos onde o rendimento é extraordinariamente baixo, como Fornos de Algodres e Pampilhosa da Serra.
E continuará a ser e a pobreza continuará a aumentar.

Em verdade, para além de uma verdadeira pobreza a que já nos referimos supra e que toda a gente vê, existe uma outra, bem dolorosa, que tem vergonha de si mesma. Esta, com a qual todos os dias convivemos – infelizmente também convivemos com a outra –, entristece-nos. E deveria entristecer todos os que com ela convivem e mais não fazem do que olhar para o próprio umbigo.

Pobreza também é comprar carne para o cão, quando cão se não tem e peixe para o gato, quando o único que há no prédio é o da vizinha, que se passeia gordo e anafado.

Pobreza é dizer-se «Bom dia, está tudo assim como assim...» ou «vai-se andando...», quando em casa faltam os bens essenciais, o merceeiro e o talhante já não fiam e os bancos se preparam para penhorar as casas, que ainda estão por pagar e nem os medicamentos se conseguem comprar.

E essa Pobreza que já nos bateu à porta, senta-se às nossas mesas e parece que nenhum governante a quer ver.


Estamos a passar por uma das piores crises que Portugal conheceu.
“E a procissão ainda vai no adro”.
Ou será que ainda nem sequer saiu as portas da igreja?


Trata-se de uma crise económica, política e ética, que já se fazia adivinhar no ano de 1995 e que foi acelerada pela crise mundial de 2008.

A partir de finais da Segunda Guerra Mundial e até 1975 os Estados europeus conheceram anos de oiro – os “30 Gloriosos Anos”.Alguns dos factores:
- Investimentos orientados para a inevitável recuperação da destruição massiva provocada pela Segunda Guerra Mundial;
- Taxas de juro baixas;
- Lucros elevados;
- Mão de obra barata;
- Matérias-primas de baixo custo;
- Exploração em múltiplas vertentes dos impérios coloniais.

A partir de 1975 as circunstâncias alteram-se – v.g. salários mais elevados e taxas de juro em crescendo, com todas as consequências que daí adviriam.Os investidores, ávidos de lucro, encontram na Ásia as condições propícias à valorização do capital, contrariamente ao que ocorria numa Europa em desaceleração. A “industrialização” mudava de residência e Portugal cujo crescimento económico atingiu os seus maiores valores nos anos 60 não estava imune.

E, as perspectivas de futuro estão enegrecidas pela irresponsabilidade e incompetência dos “políticos profissionais” – um político profissional é um profissional, que em regra nada mais sabe fazer, incluindo a própria política...A União Europeia no que toca à produção mundial continuará fatalmente a baixar os seus níveis:
Em
- 2000 – 23%;
- 2020 – 21%;
- 2050 – 12%.
Imagine-se.

Neste quadro, continuaremos a aceitar as mentiras oportunísticas dos políticos, que apenas pretendem resguardar as suas regalias e mordomias? As vantagens decorrentes dos actos eleitorais? As inveracidades conscientes e voluntárias dos programas, dos discursos e dos “beijos” distribuídos indiscriminadamente por feiras e arraiais nas campanhas eleitorais? Políticos que são cada vez mais oriundos das denominadas juventudes partidárias, más escolas da difícil ciência e arte de governar.
Talvez.
Como refere Medina Carreira, o “Partido do Estado” é composto por cerca de 6 milhões de cidadãos. Entre eles, funcionários, aposentados, jubilados, pensionistas, titulares do Fundo de Desemprego, do Rendimento Mínimo de Inserção e pessoas deles dependentes.


Uma economia que mirra e despesas públicas em regime de “engorda intensiva”, a que acresce uma desconfiança generalizada dos mercados quanto à competência dos nossos políticos para implementarem reformas estruturais, que permitam aumentar a competitividade, o emprego e o crescimento da economia está fatalmente votada ao fracasso.
O problema da economia portuguesa é um problema de competitividade e não de cumprimento de políticas de austeridade, consubstanciadas em somas e subtracções, operações aritméticas familiares a meros “cobradores de impostos”.
Tanto bastaria para explicar em termos simplistas a crise e a dificuldade de obtermos financiamentos externos em condições favoráveis.
Comparando a evolução do PIB e da despesa pública corrente primária (despesa sem juros) nas últimas quatro décadas, verificamos sem mais, que a análise atempada dos valores que nos eram fornecidos, quer por organismos estatais quer por instituições nacionais ou internacionais, decretariam a falência técnica do país.

A partir de 1986, depois da nossa integração na CEE, pouco ou nada foi feito para que nos tornássemos mais competitivos.
A Europa industrializada, culta, competitiva e motivada psicologicamente ao enriquecimento exigia-o.
Por outro lado perdemos um conjunto de poderes, como a possibilidade de desvalorizar a moeda.



O ESTADO SOCIAL

Como eu gostaria de vos poder afirmar que o Estado Social não tem a sua morte anunciada. Mas seria mais um mentiroso neste país de farsas. Talvez ninguém o notasse de tão habituados ao embuste dos políticos que o apregoam, garantem e quando no poder, passam a padecer de amnésia selectiva.

O Estado Social é no fundo o baluarte de combate à pobreza e a protecção dos cidadãos das múltiplas “patologias sociais”.

É defendido com garras postiças pelos partidos daquele hemiciclo bolorento e adormecido. Se deixar de existir ou de ser veementemente prometido, comprometerá o voto dos eleitores do denominado “Partido do Estado”.
Nenhum partido, nenhum candidato assume o que há muito é conhecido: o Estado Social está a caminho da urna em coval demarcado.
Sejamos sérios e realistas, preparando os nossos filhos e netos para a terrível herança que os perseguirá por décadas.
Não, não é um ano, nem dois, nem uma década, são décadas, Senhor Ministro da Economia. Pura aritmética de escola primária.

Com Bismarck em finais do século XIX surge pela primeira vez um verdadeiro sistema de protecção social. Mas foi necessário aguardar algumas décadas, no pós-guerra (Segunda Guerra Mundial), para que em condições favoráveis de industrialização de que já falámos quando nos referimos aos “30 Gloriosos Anos”, surgisse o Estado Social, com modelos extremamente elaborados, principalmente nos países nórdicos.

Esses factores, nomeadamente o crescimento económico, deixaram de existir. Também já o vimos.
Nesta perspectiva, a sua insustentabilidade pode ser facilmente reconhecida, até porque as despesas com pessoal, aposentados, prestações sociais, saúde e educação não são comportáveis por limitados orçamentos.


As despesas fixas do Estado com os seus funcionários e com os titulares de prestações sociais – os tais 6 milhões de que já falámos em momento anterior –, correspondiam a 80% das receitas fiscais no ano de 1995, enquanto em 2010 já absorviam 96%.

Caso se projecte para o ano de 2020, tendo por fundamento os valores económicos de 2000-2010, iríamos deparar-nos com uma conjuntura inexequível. As despesas sociais (Educação, Saúde, Segurança Social e Caixa Geral de Aposentações) consumiriam na íntegra as receitas dos impostos. Hoje existem quatro cidadãos activos para um idoso. Mas em 2050 serão menos de dois activos para um idoso.

O Estado Social agoniza e a mezinha aplicada é meramente paliativa, porque não agimos atempadamente, como o fizeram Estados avisados, como a Finlândia, Suécia, Dinamarca e Holanda.
Nem para seguir os bons exemplos servimos, senhores políticos...



A DÍVIDA PÚBLICA atingiu níveis absolutamente injustificáveis – é a mais pesada dos últimos 150 anos.Entre 1995 e 2008, cresceu de 7 para 97% do PIB (OCDE).

Deparamo-nos com uma gigantesca dívida externa, que apenas teve paralelo em 1892 quando Portugal teve de declarar a sua falência, aquilo que denominamos comumente bancarrota.

Entre o ano 2000 e o ano de 2010 a dívida externa de Portugal passou de 44 mil milhões de euros, o que equivalia a 38% do PIB, para 185 mil milhões, ou seja, 109% do PIB.

Esta dívida com juros incomportáveis irá penalizar os portugueses durante décadas.

Em 30 de Janeiro do corrente ano, os juros bateram todos os recordes (juros do mercado):
a 3 anos – 24,4%;
a 5 anos – 20,376%; e a
10 anos - 15,501%.



O DESEMPREGO em Portugal é alarmante. Dispensa comentários.

Vejamos ainda que sucintamente a sua evolução –
2000 – 3,9%
2004 – 6,7%
2008 – 7,6%
Em Dezembro de 2011 – 13,6% - em cada 3 desempregados 1 tem menos de 25 anos.É a 4.ª taxa mais elevada da Zona Euro, sendo apenas superada pela Espanha, Grécia e Irlanda.
A taxa mais elevada dos últimos 80 anos.

Uma nova emigração. Triste facto para quem já assistiu nos anos 60 de “lágrimas nos olhos” à partida das suas gentes para Terras de França.

E há quem incite os jovens a emigrar.
Nem o Dr. Salazar o fez. E Salazar já não governa, mas o Secretário de Estado ainda está no Governo..., assim como quem manda os professores para Angola – logo para Angola, uma verdadeira Escola de Ética...



A lentidão da JUSTIÇA equivale na maior parte dos casos à sua denegação.
É inoperante e está descredibilizada.
Por si só afasta todos os empresários qualificados e investimentos sérios. Ninguém no seu perfeito estado mental aceita que os seus créditos se arrastem pelos tribunais durante anos, até que um dia, um qualquer dia, venha uma sentença executar o inexecutável por insolvência dos devedores.



A EDUCAÇÃO é uma lástima.
“No ano 2000, éramos um dos países da OCDE com maior percentagem de impreparados na população activa: 80% para Portugal e 82% para a Turquia – apenas 16% para a República Checa.”
“No entanto, na UE Portugal estava no 6.º lugar no que toca às despesas da educação, sendo o menos realizador da UE/15.” (Medina Carreira)
Enfim...



Na SAÚDE, já no ano de 2000, a detentora da respectiva pasta, que com uma honestidade pouco usual declarou que estávamos perante uma verdadeira “vergonha”.

Com todas as restrições aos exames complementares de diagnóstico, aumento de taxas, encerramento de serviços, desmotivação e impreparação do pessoal médico e auxiliar, preços dos medicamentos, julgamos que ao invés de franchisings de pastéis de nata e frangos assados, teremos de optar pelos Funerais a Preço Económico e pelos Crematórios Populares, estes últimos justificados pela necessidade de não onerar as autarquias com os custos decorrentes do inevitável aumento dos cemitérios...



Analisemos ainda que sumariamente o tão discutido CRESCIMENTO ECONÓMICO


Taxas de crescimento médio anual:
1960-1970 – 7,5%
1970-1980 – 4,5%
1980-1990 – 3,2%
1990-2000 – 2,7%
2000-2010 – 0,68%

Temos no presente o índice mais baixo de crescimento económico dos últimos 100 anos.

Não fomos e parece que não seremos capazes de nos próximos tempos promover o crescimento económico, enquanto as despesas públicas diminuem à custa de perversas medidas de austeridade.



CRISE DE VALORES

Uma corrupção generalizada amparada pelo reino político, num apartamento deliberado de desígnios sérios para a atacar com a eficiência necessária.
A corrupção, o compadrio e o aproveitamento próprio são as regras desta sociedade falida, que se apregoa moralista e justa, mas é imoral, degradada e injusta. Aplaudem-se delinquentes na praça pública, exaltam-se corruptos e assassinos, a quem se prestam homenagens vigorosas. É de todo normal, louvável e em última instância justificável, que chefes de estado de países ditos democráticos e desenvolvidos, recebam com pompa e circunstância, outros altos dirigentes, verdadeiros homicidas e ladrões enriquecidos à custa da miséria, da fome e ausência de todos os cuidados primários das populações que governam, usufruindo ainda frequentemente dos dividendos por eles ilegitimamente obtidos em festas, comemorações e recepções repugnantes. E ninguém tem a coragem de os tratar pelo seu verdadeiro nome: criminosos da humanidade. E não se diga que tais actos se justificam pela obtenção de mais-valias financeiras ou de incontornáveis exigências de deficiente crescimento económico. Nenhum homem de bem recebe em sua "casa" ou visita dirigentes políticos de Estados desumanamente totalitários, onde se pratica uma "novíssima escravatura" ou existe uma apropriação delituosa da riqueza pela classe dominante, enquanto a população morre pela fome e pela doença.
A tudo isto acresce uma comunicação social de fundo cor de rosa onde proliferam concursos abomináveis, novelas e futebol, endeusando temporariamente protagonistas de barro grosseiro e oco.



O FACTOR EMOCIONAL – Motivação e Confiança
Os economistas têm de aprender a lidar com uma nova variável nas suas equações e demais cálculos.
Denomino-a FACTOR EMOCIONAL. Apresenta duas faces complementares, demasiadamente importantes para que sejam olvidadas em sede de crescimento económico, aqui analisado no seu sentido mais lato:
- MOTIVAÇÃO; e,
- CONFIANÇA.

Este factor emocional enforma e é enformado por alguns dos que temos vindo a enunciar.
A resposta de cada um de nós a um determinado estímulo é determinada pelo carácter, personalidade e pelo meio envolvente. A resposta de um povo é o somatório corrigido por novas variáveis, das respostas individuais.
As respostas aos estímulos exteriores desfavoráveis dos diferentes povos são diversas qualitativa e quantitativamente. As do povo japonês, alemão, finlandês, italiano, grego ou português são obviamente distintas.
Se bem atentarmos, a produtividade depende muito deste factor.


MOTIVAÇÃO E CONFIANÇA
O povo português está depauperado. Descrente nos políticos e nas suas instituições, nos magistrados e na justiça, nas autoridades e na segurança, nos médicos e na saúde, nos professores e no ensino.
Os maus e alguns hediondos exemplos de políticos, ex-políticos, poderosos e seus lacaios, assevera-lhes que quem não herdou ou roubou, se de justo trabalho viver nunca há-de enriquecer.
É sua forte convicção de que jamais irão ter quaisquer oportunidades e que o pão ganho a custo de suor será comido por quem nada faz ou de expedientes vive.
Poderá ser produtivo quem fome e frio passa? Quem não tem o suficiente para sustentar a sua família? Quem se abstém de adquirir medicamentos essenciais? Quem não tem acesso a uma saúde eficiente? Quem é injustiçado? Quem assiste ao desmoronar dos mais básicos valores éticos de uma sociedade? Quem consome uma comunicação social oportunista, volúvel e fungível? Quem só vê negrume no horizonte?

Um povo deprimido, endividado e empobrecido, sem reacção, sem confiança nos políticos e nos agentes económicos.
Há uma desconfiança generalizada perante uma “fome de dinheiro” onde tudo vale – honrem-se as excepções.Os compromissos não são cumpridos. Palavra e honra são em regra conceitos sem conteúdo. As burlas avolumam-se.
Os próprios empresários, melancólicos, desinteressados e sem esperança, não confiam no Estado, nos trabalhadores.
Os trabalhadores não confiam nos empresários.
Ninguém confia em ninguém.





CONCLUSÃO


Não há luz ao fundo do túnel. Aos portugueses vão ser impostos cada vez mais sacrifícios, mais austeridade que não sabemos quando irá findar, nomeadamente em consequência:
- De juros incomportáveis por via da dívida externa, contraída em estado de desespero, que como já dissemos continuam a bater recordes;
- De um elevado número de funcionários do Poder Central, Local e dos custos globais das empresas públicas e municipais;
- Do envelhecimento da população, com a inevitável liberação de capitais para as pensões e prestações sociais;
- Das obrigações a médio e a longo prazo das Parcerias Público-Privadas;
- Da incapacidade para atrair investimentos, seja pela falta de qualificação da mão de obra seja pelo seu custo não ser competitivo com os países asiáticos e até com os do Leste europeu;
- Da insuficiência das exportações, fruto de uma competitividade inadequada;
- Da falta de motivação dos empresários e dos próprios trabalhadores, tendo inclusivamente em conta o peso dos impostos que sobre eles incide, o que se reflecte entre outros, na produtividade e na perda do poder de compra;
- De um aumento galopante do desemprego;
- De uma justiça e saúde em crescente descrédito;
- Da impreparação da população activa para o desempenho das suas profissões, como consequência de um ensino deficitário, decadente e vergonhoso;
- Da quebra de todos os valores com a disseminação da corrupção, compadrio, aproveitamento próprio e clientelismo político;
- Do inevitável aumento da criminalidade;
- Do efeito espiral e bola de neve de todos estes factores.
ESTAMOS NUM BECO SEM SAÍDA
E não se diga que estamos a ser pessimistas.



- O Governo de Portugal, terá de fazer opções, que não se restrinjam a meras medidas de austeridade de curto prazo, ineficazes e sem repercussão no necessário crescimento económico. Austeridade por austeridade não é remédio; é veneno letal.
Julgamos que também já não poderá contar com novas descobertas, vivendo “encostado” a África, Índia, Japão, Brasil e CEE, como a história o comprova.
Terá de melhorar a produtividade e o investimento, aumentando entre outros, a quota de mercado das exportações, como vem sendo preconizado há bem mais de uma década por alguns economistas e analistas sérios das Finanças Públicas. Terá de gerar emprego.
Terá de melhorar a qualificação dos portugueses.
Na Declaração de 30 de Janeiro do corrente ano da Cimeira da UE refere-se o crescimento e o emprego. Acordámos tarde Senhores ministros...

Mas fundamentalmente, o governo, qualquer governo, tem de explicar aos portugueses o real estado das finanças públicas e a previsível extensão da crise.
Os eleitores têm de ganhar consciência das dificuldades que terão de enfrentar no futuro, que não é de curto prazo.
Com os elementos de que dispomos, a que acresce um Factor Emocional negativo (uma incómoda “invenção” nossa), teremos pela frente 3 décadas de recuperação, pesada factura de Duas Décadas de Oiro Falso.
É óbvio, que muitos há que bem pior do que nós estão – por isso, começámos este artigo com uma breve descrição do estado da pobreza no mundo –, o que não nos deve servir de consolo, já que o nosso desenvolvimento e o desenvolvimento integrado da UE poderia minimizar o sofrimento dos que nada têm.

Os responsáveis políticos têm duas opções:
- Enfrentar a realidade, advertindo e preparando os seus eleitores com verdade; ou
- Continuarem a comportar-se como senhores feudais, pequenos deuses caseiros, tiranos enxertados numa pseudo-democracia iludindo os seus servos da gleba do século XXI.



E como diria o Poeta,

Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que às vezes fico pensando
Que a burrice é uma ciência!












terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CRIANÇA PELE E OSSO



Criança pura com fome
Criança linda suja e rota
A quem a morte espreita
E a vida sem pudor repele

Criança pele e osso
Criança de olhos tristes
Que ao mundo sem
Querer ou pedir veio

Criança do mundo
Criança minha
Não tenhas medo
Só tu não morres sozinha

É também Jesus menino
Que morre em tua alma
Branca límpida pequenina


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VIOLAÇÃO



Estava nua naquele bosque sombrio
Ave imersa nos carvalhos negrais de luz coada

Um sabre percorria o húmus

Passos de soldado na bruma aquecida
Olharam-na indiferentes

O sangue palpitava nos destroços
Um generoso abeto tapou-lhe o sexo

Os cabelos entrançados ganharam raízes na profundidade virginal
E os seios retalhados amamentavam filhotes órfãos de chacais

Corpo violado a renascer


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NÃO TENHO NOTÍCIAS TUAS



Depósito velho e gasto inundado de estrelas do anoitecer
O trem avança vagarosamente em painéis de azulejos azul-pálido

Ruínas de casas onde o amor dormiu em camas de ferro e colchões de palha
No sono das crianças embaladas pelo ritmo seco das molas desgastadas

As telhas roçam as silvas das paredes

Não tenho notícias tuas

Ramos de árvores quebram com o peso do gelo em coração petrificado
Branco como o teu corpo
Para sempre ausente


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AO FRIO



Silêncio
Solidão
Espectros virtuosos tomam assento na luminosidade nocturna do Grande Salão

Um piano
Notas agudas em quente melodia
As graves
Frias
Moldam-se aos intervalos dos pavios que se acendem e apagam

Lá fora um cão doente morre ao frio


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ORGASMOS DE MAR



As águas da lagoa erguem-se em minúsculas ondas

O vento do Sul não traz o teu odor

As pequenas cristas de espuma desfeita são orgasmos de mar
Mas tu não estás presente
Neste silêncio devastador

O meu corpo e a Criação incompleta
Completam-se
Nos lábios da saudade
E nas mãos da dor


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AMANHÃ VIRÁS



O som da flauta arrasta-se no breu da noite
Volteia os arbustos para além das paredes graníticas do quarto
Jardim plácido das últimas brasas da lareira

A mansão está deserta
A seca prolongada cresta os pastos de Inverno

Amanhã virás como abençoada chuva
E alegrarás meu coração sequioso


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A PALAVRA AMOR



O Sol de Inverno brilha na geada
O vento da Montanha Nua faz o frio ser mais frio

À porta da capela dois velhos esfregam as mãos
Tremem acocorados

Ao longe ais de pobre mulher
Lavadeira em tanque de água gelada
Com ganchos a prender o desalinho dos cabelos

Som de violino na Filarmónica
Geme Chora
Corta o ar da janela entreaberta

E pousa no meu leito vazio
Onde escrevi a palavra Amor


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TRAIÇÃO



Um trovão
Pela calada da noite
Um relâmpago
Um tiro de canhão

Artilharia pesada na neve sangrenta

Botas velhas em pés de estilhaços

A traição da tocaia
Da pátria
Da madrasta nação

Pai que é pai
Pai verdadeiro
Mãe que ama
Não fazem de seu filho guerreiro


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O QUE MAIS DÓI



Cresce a escuridão por entre as cortinas de Primavera
Primeiras são as flores do teu quarto

Lá fora um cavalo
Enquanto a noite passa na indolência do incenso queimado

Um encontro fugaz
Um beijo fugidio à sombra do luar
Parca união

O adeus à chuva que tépida escorre dos olhos dos deuses

Não sei o que mais me dói
Se o encontro se a separação


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FEITICEIRA





Um sorriso singelo numa alma sofrida
Em lábios docemente desenhados
Uma dor tão interiormente sentida
Nesses olhos profundos a mel pintados

Um tempo que se julga perdido
Na juventude madura de mulher
Beijos de um tempo já esquecido
Em Amor que se não deixa colher

Mãos brancas esguias delicadas dolentes
Corpo alvo de pureza imaculada nascente
Com brandos e longos cabelos de oiro ornado
A cair em seus seios tal rosário encantado

Se eu ainda soubesse se eu soubesse amar
Nestas velhas mãos de passado distante
E não houvesse tristeza no meu olhar
A ti Feiticeira escolheria para sempre

E com a leveza de uma nuvem
Tocar-te-ia a alma nua
E com a doçura de uma mãe
Levar-te-ia mão dada pela rua

Segredando-te ao ouvido
Que quem muito ama
Nunca mente nem trai
E nem na Morte olvida
O Amor que em vida o atrai


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VALSA



Um crisântemo aceso no candeeiro do quarto

Música nasce da alvenaria branco-marfim

Por fim
Mais uma noite sem moscas
Vagarosamente solitária

Uma valsa de laranja aos gomos
Harmonia dissidente
Da vontade crepitante

Mais logo será dia
A lareira já repousa


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ALVORADA





Alvorada

A Cavalaria nas encostas move-as a trote
Os montes em forma de mulher deslizam para o Vale dos Mortos
Cavalo Branco do planalto deserto

Rufam tambores nas nuvens
O Sol agita as bandeiras
Espadas de sal cortam o odor do vento
Ao sabor das trombetas

Estandartes

A Artilharia assente em cardos e musgo ressequido
Aponta aos céus as peças em leque

Uma dama borda em casa
Uma criança chora no berço


http://www.homeoesp.org/livros_online.html

À MINHA AVÓ





Lembro-me dela
Pequena
Frágil
Magra
Negra de luto
À imagem do mundo
Caminhando sem pisar
O pó dos caminhos

Lembro-me dela
De olhar vivo e profundo
No escarpado e longo pesar

Na face
A beleza do granito
Por deuses esculpido
No corpo
O aroma do pinho
Na voz
A melodia do estorninho
A inebriar o vento
Atento
Da Fraga do Barroco
Num amar lento e seco
A perder de ver
De quem espera a morte em segredo
Para me não fazer doer


http://www.homeoesp.org/livros_online.html


ONDE ESTÁS TU MORTE?





Onde estás tu morte em que recanto te escondes
Trespassa-me de mansinho com a tua vara
Para que possa dormir no sossego do teu regaço
O tempo passa
A tristeza fica
Tu passas e o medo morre
Deixa-me morrer contigo para a vida e para a morte para o bem e para o mal para a dor e para a alegria para o passado e para o futuro para o presente do dia a dia
Onde estás tu morte
A quem concedes a sorte do infinito e da eternidade da beatitude sem fim
Deixa-me morrer contigo
De amor generoso e gratuito
Como quem ceifa o trigo e não colhe o grão
Ou lavra a terra e não semeia pão
Deixa-me morrer contigo
A mim que já morri


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UM SONHO PARA AMAR





Na noite fecunda
Os olhos azuis do mar
Sem lágrimas
Ébrios de Lua Nova
Nascem para o dia ausente

Olhos de Mar na noite escura
Lábios macios de medusa
Um motivo para sonhar
Um sonho para amar


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OUVINDO VIVALDI





Na noite longa ouço Vivaldi Ouço sempre Quase sempre
Mesmo dormindo ouço-o

Ouço-o até que os ouvidos
Me doam
De tanto o ouvir

Que encanto de dor –
Dor de amor


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SER NATURAL





Ser-se natural
Ser natural como a árvore frondosa que no silêncio da tarde deixa que lhe furtem os frutos e abençoa com a sua sombra todos os que a procuram
Como a luz da candeia que ilumina a igreja e o presídio o padre e a prostituta o santo e o ladrão
Ou a chuva que alimenta e faz crescer o pão e as ervas daninhas
Quem me dera que os meus dias fossem passados com a paz de uma flor
Das paredes brancas da casa grande da colina a afagar o Sol e a Lua
Sendo o que sou por sê-lo
Tal como a flor exala o seu perfume sem saber qual o seu odor
E a parede a sua alvura sem saber a sua cor



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O DESFILADEIRO DA MORTE





Alma que se dissipa no deleite do amor
Da carne sulcada pelos sentidos vivos da Dor

Alma de todas as ilusões
De arroubos e visões

Partirás só como o vento forte
Pelo Desfiladeiro da Morte

Sem ontem sem amanhã
Hoje bens prazeres Vã fantasia

E serás com simplicidade
A-Sem-Nada
A-Sem-Dia


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NÃO ENCONTRO SENTIDO





Não encontro sentido ou aroma Não vislumbro horizonte ou rumo Não estou Não ligo Não peço Não digo
Chegou a Primavera terna colorida doce e envolvida
Não vejo
Não cheiro
Não sinto
Não encontro para esta alma atormentada um seguro abrigo
Senhor
A urze estremece ao vento Sul A pedra brilha ao Sol matutino
E eu
Estou só
Na teia que tece e é tecida e que por um momento me embriaga de vinho novo que me seduz espanta reluz
E
Faz recuar
No Caminho


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PANTEÍSMO





Será poesia que escrevo?

Não é poema
Nem canção
São palavras
Soltas

Quando escrevo
Estremeço
Lento
Dócil

E piso suave a flor
Que não vi no chão
Do caminho

Para não magoar o Deus
Que não conheço


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OS MEUS OLHOS NASCERAM PARA TE VER





Os meus olhos nasceram para te ver
As minhas mãos para te tocar
Minha boca para de ti me embeber
Todo o meu corpo para te amar

Se a outras em tempos amei
Em noites desventuradas
A nenhuma me entreguei
E todas foram mal amadas

Se a ti sempre te tivesse amor meu
Pela luz do mundo alumiada
A ninguém daria o que é só teu

Não vivendo nesta culpa dolorida
Nesta pobre alma angustiada
Que por toda a parte é foragida


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OS PRIMEIROS BEIJOS





Festa na aldeia O coreto de solho e barrotes toca desconcertado
Há vinho um bombo à distância e frango assado
Zé Ferreira de cabeça rachada Sangue vivo na camisa
A mulher não o queria a dançar
Agarrado àquela rapariga

Tu também lá estavas
E no telheiro escurecido
Trocámos beijos
Enamorados
Que por serem os primeiros
Nunca serão esquecidos


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REI DE ESPADAS





Liberdade repetida
Pelas bocas fétidas dos abutres nascidos da peçonha imperial

Uma vénia à infelicidade que subestima os seus adversários de raiz
Corre contra o vento vindo do mar
Desfeito em raios que as portas vedam

Clarividente
Possante
Na lentidão do último alento

Famoso com fama comprada a ouro e sangue inocente do arvoredo
Prestigiado com o prestígio granjeado à força de bombardas
Rico em metais de escassos amores
Ladrões de virtude embaçada

As dores dos risos a escarnecer a desgraça do Entrudo Lisonjeiro

O povo inerte
Desconhece nas cartas do destino
Seu triste fado


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ANTES QUE O MUNDO ACABE





Cantigas na eira
De estrelas amealhadas
Pelo vento Norte
Trazei-me aquela jovem
De tenra folhagem
Cabelos de trepadeira
Olhos de amêndoa ao luar
Cerejeira a florir

Trazei-ma na Barca do Amor
Do Rio da Saudade

Sinto-me envelhecer
Quero dormir
Sonhar
Amar
Antes que tudo finde
Me vá
E o mundo acabe


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NO CHOUPAL





Um espírito confuso na soleira da porta passa pelas fendas da trepadeira dos sentidos

O caracol conhece o universo na folha que o esconde e o cão de guarda na corrente que o estrangula

A forca aguarda

A cerca da consciência emudece o choupal
Já é tarde
O Sol pôs-se no baú de cânhamo em filamentos luminosos
E as andorinhas diligentes
Adormecem num doce embalo os filhotes


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NÃO HÁ OLHAR COMO O MEU





Se desta vida parto
Depois de tantos trabalhos
De injustiças e desilusões farto
Cansado de tantos escolhos

E se nada deixo que valha
Lembra-te Amada do amar
Que naquela noite de luar
Fez vibrar o Mar da Palha

Nesse Tejo dos amantes
Que perdidos de amor
Içam as velas dos navegantes
Nas almas em flor

E se eu pela vida esquecido
Te olho dos confins do céu
Acredita que não há olvido
Nem olhar como o meu

Terno
Eterno


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O MELHOR DOS PERFUMES







Não o vislumbrava na noite erma Os cepos de oliveira esvaíam-se na lareira do quarto em ais de ligeiros estalidos
Não o sentia Não o pressentia no ar quente do segredo guardado pela origem de tudo Nem sequer o intuía

A voz dela acalmou as inquietações e ficou por ali a pairar nos reposteiros carmim do seu corpo longínquo Não se lembrava Não o recordava nas faces rosadas da memória

Ah quem esquece um corpo não é digno de o amar

O lume extingue-se paulatinamente
E as cinzas do Sem-nome penetram o aposento perfumando-o


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SONO SEM SONHOS





Há momentos em que adormeço
Embalado pelo movimento do aço
Nas juntas dos carris

Nem o tempo cinzento
Na sua natural e doentia melancolia
Me furta ao acordar
Aquela sensação estranha
E verdadeira

Tão verdadeira e real
De que o Céu é um lugar
Onde se dorme e não sonha

Onde se vive sempre
Como nesse fugaz momento
Em que se acorda
Em que nada se sabe
E tudo se sente


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FUSO HORÁRIO





Um fuso horário na costela flutuante
Espreme a ameixa vazia

O senhorio à porta da igreja
Queixa-se dos fugitivos assombrados
Pelas voltas das palavras elegantes
Vestidas de capim

Cá por mim
Dizia –
Se eu governasse
Acabava-lhes com o pio
E com o corrupio

O mundo ia girando na floreira cerâmica
Gruta submarina a flutuar abissal

Um pássaro verde-esmeralda estampado no bacio metálico da pensão
Quartos em serviço permanente
Enquanto uma moreia faz amor na Casa dos Vidros

Anões e gigantes gratulam as moedas da representação lunar

A primeira dama chora lágrimas de crocodilo no ombro inflexível
Férreo
Do marido disforme no treino dos espelhos

Um enterramento
Sem carpideiras
Por acompanhamento
Um cão
A ladrar aos pneus da carrinha funérea


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ENTERRO FEITO CASO ENCERRADO





Gostaria de saber escrever quadras como aquele doente
Que de tão enfastiado mata o tempo no hospital
Enquanto de branco aquela gente o vai matando

De ser poético Belo figurão e bem falante Palrador
Dizer em lindo discurso Bom ano passa fome Paciência
Bebei água comei pão duro que para nós cama quente e espumante

De ter jeito Aquele jeito especial de enriquecer
À custa do povo demente com a tez a escurecer
E a sorrir dizer-lhe que o trabalho dá saúde e faz a miséria crescer

De mentir como quem fala verdade em falsa jura
E pela verdade mentir e pela mentira asseverar
Que em mundo torto andam direitos os asnos irmãos desta irmandade

Que tudo é assim que assim tudo está bem
Porque Deus o quis e Deus o quer
E que quem não concordar no pecado que tem vive e há-de morrer

Mas
Sem tal engenho

O que eu gostava mesmo de ser por várias razões
Se o quereis saber era ser o Gato-pingado
Que à cova com gosto levaria todos os ladrões
Certificando-me que enterro feito caso encerrado


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LINHA DOIS





Chuva torrencial de paus de vedação
Cai negrume na Estação das Mudanças

Um Pai Natal dependurado por fios de aranha tecidos m
ove-se
Marioneta desaurida numa velha janela do que foi um armazém de locomotivas a vapor

Dois trabalhadores com riscas de frio nos fatos de trabalho olham impávidos o alumínio da partida
A chaminé tortuosa de tijolo roído perscruta as carruagens-cadáver nos esqueletos dos carris mortos
Melancolia das gentes-mala-de-viagem

É pois assim
A vida apita
Silva
Assobia
E a fome passa desavisada na linha dois
Na dois
Sim


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DO ABISMO IMPENETRÁVEL





Da obscura profundidade do Abismo impenetrável
Irradiam ser e não-ser em perpétuo e imperecível movimento

A semente gera o girassol que gira resplandecente na floração
Morto que seja outras sementes em queda virão alumiar o solo

Útil como chuva em tempo de seca prolongada

Decompondo-se
Ele que ofuscou prados e planícies
Já em si não é
Mas noutro a reverdecer tenro e brando no coração da terra fértil
A alegrar as nuvens de algodão doce
Que no céu resvalam indolentes

Tal como nós
Seres viventes
Como todos os entes
Hoje
Amanhã
Sempre presentes
Lã de carneiro que nasce e morre
E nova renasce
Em amável e eternal lameiro


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AGUARDO POR TI NO MEU SONHO







Resta-me adormecer este corpo
Consumido pela saudade –
Aguardo por ti no meu sonho


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