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ARTE

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

O "POLVO" UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO...






Dia 25 de Abril de 1974.
Os carros de combate, velhos carros da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, passeiam-se nas ruas de Lisboa entre a multidão pasmada e aos guinchos, esfuziante como criança tresloucada. Chegara a democracia, esse bicho estranho alheio aos jardins Atlânticos.
Um cravo numa metralhadora.
"O povo unido jamais será vencido" – ouve-se desafinado no berreiro do Terreiro do Paço.

Um colunista brasileiro de seu nome Rubem Alves, afirma peremptório e corajosamente (no seu entender, e no nosso, já que de falta de coragem ninguém o poderá acusar) ser disso mesmo que tem medo, lembrando-nos as palavras de Al Berto no ano de 1992 em Coimbra, perante um auditório de estudantes que inviabilizavam a declamação dos seus poemas, por via de incómodo ruído de fundo:
"Eu não escrevo para idiotas!".
E numa análise curiosamente histórica, o cronista relembra-nos que em tempos idos era o santo nome de Deus invocadamente repetido como fundamento primordial da ordem política. Mas com a aposentação de Deus foi o povo medíocre, volúvel e não confiável que ocupou o Seu lugar.
E Deus sempre soube que o povo não é confiável (pelo menos é o que a Bíblia ensina, e porque o diz verdade deve ser...) e Al Berto sabe que o povo é idiota e eu sei que quanto mais janota mais sendeiro é.

Escreve o dito colunista:
"Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direcções opostas.
Bastou que Moisés se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés furioso quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! O seu coração deleitava-se ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. Amava a prostituição. Pulava de amante em amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou.
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.".
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável.
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo.
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram.
Os cristãos, de comida para os leões, transformaram-se em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges queimados na praça pública.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, alegrando-se com o cheiro de churrasco e os gritos.
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções colectivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados num grupo tornam-se capazes dos actos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de incendiar um índio adormecido e de arremessar uma bomba no meio de uma claque do clube rival.
Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a baixo preço.
Seria maravilhoso que o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da colectividade.
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão.
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens.
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam.
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à colectividade.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás.
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!".

Mas, Rubem, vejamos: pode o "povo" alguma vez estar verdadeiramente unido? E se estiver unido, está-o em torno de quê ou de quem? Se sim, compreendo a tua inquietação; se não, a quem devemos temer? Ao "povo" ou à união de uma minoria governativa, esplendorosa e abastada, cercada por senhores feudais, poderosos, e por lacaios inumanos, um verdadeiro "polvo", que incendeia o coração agreste e brutal do "povo" em direcções absurdas?
O "povo" é uma criatura gigantesca e horrenda com o intestino grosso ligado ao cérebro, donde apenas brotam as ideias de merda que referes. O "povo" é incapaz de se organizar, desconhece a solidariedade e é cobarde.
O "polvo" é uma organização coesa, racional, enganadora e desumana.

É verdade, concordo contigo, amigo.
O "povo" não gosta de musica clássica, o "povo" odeia o silêncio e o autoconhecimento, exorciza a poesia, esconjura os pensadores.
Nunca leu Pessoa de quem apenas sabe chamar-se Fernando sentado lá para os lados do Chiado, pensa que Cesário Verde é uma espécie de arbusto, que Pessanha é uma doença, que o Cesariny joga a defesa esquerdo num clube italiano e o Agostinho da Silva (só por ser Silva) é dono de um supermercado, decerto na Amadora ou na Reboleira, enquanto que o Al Berto deve ser uma espécie de famigerado criminoso e bom amigo do Zé da Tarada.
O "povo" adora futebol, sabe tudo sobre os jogadores, a maioria verdadeiros anormais-gigantes-pés-de-barro, treinadores, tácticas; discute, zanga-se e sente-se importante no emblema asnático do seu clube.
Embebe-se de uma música burlesca, que tamborila incessante e estereotipadamente tal martelo hidráulico, o interior do crânio desfazendo-lhe irremediavelmente os neurónios ou das brejeiras canções de feira e romaria.
O "povo" segue atentamente as novelas e os concursos televisivos. Lê avidamente as revistas cor-de-rosa e sabe de cor as vidas dos que se expõem nessa vida social carnavalesca e de outras vidas alheias, para além de afinar a língua quotidianamente à escala da mesquinhez maior:

Ai aquela que desgraçada... E a puta da minha vizinha que berra como cabra desalmada... E o do segundo direito comprou um carro novo... Ai o azeiteiro que tem a mulher a atacar... Ai a filha da Maria que é uma drogada... Ai aquele que não faz nada... Ai que anda a gamar... Ai a vaca da velha que só dos outros sabe falar e não vê o que lhe vai em casa... Ai a miúda que está a olhos vistos a engordar... Ai que foi enganada... Ai se me saísse o euromilhões... Dava tudo aos pobres e nunca mais me levantava... E aquela mentirosa com um putanheiro em casa a dizer que é engenheira... Ai que o é é mas na cama o dia inteiro... Ai o filho da puta do caloteiro... Ai ai ai que a minha rata não é como a tua; está lavada, ó desgraçada...



Um povinho que se ausenta e se habitua a todas as iniquidades desta sociedade corroída pela traça-corrupção do oportunismo, pela bicha-solitária do egoísmo e pelas lombrigas da inveja, onde já ninguém se acredita na justiça.
“A justiça portuguesa não é apenas cega. É surda, muda, coxa e marreca.
Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso, apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção.”. Não sou eu que o digo, é a Clara Ferreira Alves que o escreve, sendo o dito "povo" na sua perspectiva, um público acrítico, burro e embrutecido.
Um "povo" que se endividou por ter "fome da sobremesa alheia". Para ter um carro com mais cavalos (ou mais ou menos bestas, o que da procriação depende...) do que o dos vizinhos (aqueles pindéricos!...), uma residência (casa é coisa de pobre!) num condomínio de luxo com 4 casas de banho (porque quem muito come, muito o há-de cagar...), 5 plasmas para que cada um veja o seu concurso, novela, e futebol (o futebol não pode faltar; é como o cagar), os filhos cheios de letras da moda da cabeça até aos pés (passando pelo cu, claro está) e de consolas e computadores para os jogos e ver as gajas nuas (não esquecendo o livro das caras, um face-qualquer-coisa tão grato às escapadelas, engates e pares de cornos).
E neste corre-corre do endividamento, como escreveu assisado o advogado Barreiros, "tudo quanto era vedeta deu a cara, sendo actor, as pernas, sendo futebolista, ou o que vocês sabem, sendo o que vocês adivinham, para aconselhar-nos a ir àquele Balcão bancário buscar dinheiro, vendermo-nos ao dinheiro, enforcarmo-nos na figueira infernal do dinheiro. Satanás ria. O Inferno começava na terra.", muito especialmente nos PIGS.

E a Europa vai caindo e o "povo" que come o que não produz, dança.
"E a puta dança", diria o Tony Botto (julgo que se transferiu para o Real Madrid como preceptor...)

Como dizes, Rubem, o povo que amas não é uma realidade, é uma esperança. O povo que amas nunca estará unido em nada que valha verdadeiramente a pena. O perigo não vem do "povo", mas do "polvo".
De qualquer modo o POVO que eu amo não é o "povo", mas o desvalido conjunto dos pobres, dos oprimidos e desiludidos deste planeta. E é o "polvo" que abomino. O outro "povo", o da tua esperança, é-me indiferente.

Mas, o "polvo" unido jamais será vencido. Todos o sabemos sem que o queiramos enfrentar. Como é difícil pegar pelos cornos a realidade...E como eu sinto saudades dos antigos caçadores de polvos...

A puta dança e o Inferno fica, que do Purgatório não há vista. Veio para ficar e não há válida mezinha que o possa exterminar. A tua esperança, amigo Rubem, é uma ilusão olfactiva; merda há-de ser sempre merda e por muito que nos esforcemos nunca será sabão de cheiro.
Mas não te quedes triste, que neste fado o "povo" tem o que merece.

Assim, quando eu me ausentar, para o cimo da montanha, para um mosteiro ou para o meio do mar, por favor,
Deixem-me estar!


sábado, 28 de julho de 2012

VASCO GRAÇA MOURA - BALADA DO BOM CAVAQUISTA





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TOMÁS PINTO BRANDÃO - QUEIXAM-SE TODOS OS DEFUNTOS, QUE HOUVE NA EPIDEMIA QUE PADECEU LISBOA, NO ANO DE 1723

TOMÁS PINTO BRANDÃO - AVISO PARA SOLTEIROS QUE QUISEREM VIVER

SIDÓNIO MURALHA - AS FÉRIAS

RUI CINATTI - OS BADAMECOS

RUY BELO - SONETO SUPERDESENVOLVIDO

RUY BELO - NA PRAIA

RIMBAUD - VIDAS III

RIMBAUD - VAGABUNDOS

RIMBAUD - REALEZA

RIMBAUD - QUE VENHA, QUE VENHA O TEMPO DA APANHA

RIMBAUD - OPERÁRIOS

RIMBAUD - O RELÂMPAGO

RIMBAUD - MÍSTICA

RIMBAUD - MAU SANGUE (EXCERTO)

RIMBAUD - MANHÃ

RIMBAUD - INFÂNCIA III

RIMBAUD - FOME

RIMBAUD - FLORES

RIMBAUD - DEMOCRACIA

RIMBAUD - BOTTOM

RAUL DE CARVALHO - CANÇÃO BURGUESA

PABLO NERUDA - SUCEDEU NESSE MÊS E NESSA PÁTRIA

PABLO NERUDA - SABERÁS QUE NÃO TE AMO E QUE TE AMO

PABLO NERUDA - QUERO QUANDO EU MORRER TUAS MÃOS EM MEUS OLHOS

PABLO NERUDA - POSSO ESCREVER OS VERSOS MAIS TRISTES ESTA NOITE

PABLO NERUDA - POR TI JUNTO AOS JARDINS DE FLORES NOVAS

PABLO NERUDA - PEQUENA ROSA

PABLO NERUDA - PENSEI MORRER, SENTI DE PERTO O FRIO

PABLO NERUDA - PEÇO SILÊNCIO

PABLO NERUDA - PARA QUE TU ME OUÇAS

PABLO NERUDA - PARA MEU CORAÇÃO BASTA TEU PEITO

PABLO NERUDA - O AMOR

PABLO NERUDA - NÃO TE QUERO A NÃO SER PORQUE TE QUERO

PABLO NERUDA - NÃO TE AMO COMO SE FOSSES ROSA DE SAL

PABLO NERUDA - MENINA MORENA E ÁGIL

PABLO NERUDA - EU TE NOMEEI RAINHA

PABLO NERUDA - ERA O MEU CORAÇÃO UMA ASA VIVA E TURVA

PABLO NERUDA - EM MINHA PÁTRIA HÁ UM MONTE

PABLO NERUDA - E FOI NESSA IDADE

PABLO NERUDA - CREPÚSCULO MARINHO

PABLO NERUDA - AMOR, UMA PERGUNTA TE DESTRUIU

PABLO NERUDA - AMIGA, NÃO MORRAS

NICOLAU TOLENTINO - VAI, MÍSERO CAVALO LAZARENTO

NICOLAU TOLENTINO - O COLCHÃO DENTRO DO TOUCADO

NATÁLIA CORREIA - JÁ QUE O COITO, DIZ MORGADO

MIGUEL TORGA - FANTASIA

MENDES DE CARVALHO - CANTIGA DOS AIS

MARQUESA DE ALORNA - SE ME APARTO DE TI, DEUS DE BONDADE

MÁRIO HENRIQUE LEIRIA - FACILIDADE

sexta-feira, 27 de julho de 2012

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO - QUANDO EU MORRER BATAM EM LATAS

LUÍS DE CAMÕES - PERDIGÃO PERDEU A PENA

LUÍS DE CAMÕES - NÃO SEI SE ME ENGANA HELENA

JOSÉ GOMES FERREIRA - CAFÉ

JOSÉ FANHA - HISTÓRIA DE UM PORTUGUÊS QUALQUER

JOSÉ CORREIA TAVARES - FAZ DAS TRIPLAS CORAÇÃO

JOSÉ AFONSO - A ACUPUNCTURA EM ODEMIRA

JOÃO DE DEUS - CARECA

GREGÓRIO DE MATOS - QUEIXA-SE O POETA

GOMES LEAL - O CANIBAL

FERNANDO PESSOA - AI QUE PRAZER

EUGÉNIO DE CASTRO - EPÍGRAFE

CRISTOVAM PAVIA - LITANIA DA RUA DOS FANQUEIROS

CESÁRIO VERDE - NAQUELE PIC-NIC DE BURGUESAS

BOCAGE - MAGRO, DE OLHOS AZUIS, DE CARÃO MORENO

BOCAGE - DE CERÚLEO GABÃO

AUGUSTO GIL - QUADRAS

AUGUSTO GIL - EPIGRAMA CÓMCO À PERFÍDIA

ARY DOS SANTOS - PAVANA PARA UMA BURGUESA DEFUNTA

ARY DOS SANTOS - A BRUXA

ANTÓNIO NOBRE - E A VIDA FOI, E É ASSIM, E NÃO MELHORA

ANTÓNIO LOBO ANTUNES - TODOS OS HOMENS SÃO MARICAS QUANDO ESTÃO COM GRIPE

ANTÓNIO GEDEÃO - POEMA DA AUTO-ESTRADA

ANTÓNIO BOTTO - CANÇÃO

ANTERO DE QUENTAL - À VIRGEM SANTÍSSIMA

ANA HATHERLY - RILKEANA - IV

ANA HATHERLY - RILKEANA - III

ANA HATHERLY - RILKEANA - II

ANA HATHERLY - RILKEANA - I

ALVARENGA PEIXOTO - AO MUNDO ESCONDE O SOL SEUS RESPLENDORES

ALEXANDRE O'NEILL - ZIBALDONE

ALEXANDRE O'NEILL - VENEZA AOS GATOS

ALEXANDRE O'NEILL - UM CARNAVAL

ALEXANDRE O'NEILL - SONETO

ALEXANDRE O'NEILL - QUE VERGONHA, RAPAZES

ALEXANDRE O'NEILL - PORTUGAL

ALEXANDRE O'NEILL - OS AMANTES DE NOVEMBRO

ALEXANDRE O'NEILL - O PEQUENO CORCUNDA

ALEXANDRE O'NEILL - O MORTO

ALEXANDRE O'NEILL - NO REINO DO PACHECO

ALEXANDRE O'NEILL - INVENTÁRIO

ALEXANDRE O'NEILL - FALA

ALEXANDRE O'NEILL - CÃO

ALEXANDRE O'NEILL - BOM E EXPRESSIVO

ALEXANDRE O'NEILL - AUTO-RETRATO

ALEXANDRE O'NEILL - APROVEITANDO UMA ABERTA

ALEXANDRE O'NEIILL - ANA BRITES, BALADA TÃO AO GOSTO POPULAR PORTUGUÊS

ALEXANDRE O'NEILL - AMIGOS PENSADOS, ÀRTUR

ALEXANDRE O'NEILL - A QUEIXADA

ALEXANDRE O'NEILL - A MEU FAVOR

ABADE DE JAZENTE - OH MAL HAJA DA FRANÇA A HABILIDADE

ABADE DE JAZENTE - DÉCIMA

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O NASCIMENTO DE VÉNUS

Botticelli





O teu corpo maduro
Emerge das águas turquesa
Ó Deusa

Na concha das minhas mãos ávidas
Surge em esplendor o marfim das tuas formas
Concha por outra concha tocada

Sopram os ventos de Oeste
Alento cálido do amor absoluto
Da carne que no espírito se move

Enquanto a Deusa das Estações
Te intenta ocultar
Em manto a tulipas bordado

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DOCE NEGRITUDE

Fabrice Robin


Doces olhos
Doce negritude
A tua pele é uma túnica de pedra escura
O teu corpo pináculo de catedral
Teus seios o portal do desejo vivo e quente
Tua boca gerada da matéria mais pura
É o alimento que verto no sal do meu ventre
Em ti penso
E eternamente me contento
Num presente que não é tempo
Doce negritude

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NINFAS NA NOITE

Luís Ricardo Falero





Acordo só

Meio da noite

Ilumino o quarto de pedra
A gruta que habito
E vejo vossa imagem suspensa

Há um ruído de fundo no aquecimento incerto deste fim de primavera

Não faço escolhas
Quero-vos às duas
Como milhafre que sobrevoa campo de girassóis num ostensivo fim de tarde

Mergulho na minha alma
Ora rude ora sensível
E sem pensar
Tendo por testemunha o granito amarelo bujardado
Tiro-me o véu do pundonor
Arrebato-vos dos céus e dos seus deuses de palha

Deito-vos mansamente no meu estrado de carvalho velho
Onde sonhos sonolentos se arrastam pelas auroras erécteis
E amamo-nos os três
Até que exauridos adormecemos sorrindo como crianças roçadas pela Fortuna
Num crepúsculo à beira-rio
Pombas brancas lado a lado com o sémen derramado

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DEUSA





Deusa que mulher nasces
Em oração de Amor te peço

Não me abandones jamais
Que sem teu cabelo doirado

Sem a beleza do teu rosto
E a nudez dos teu seios

Não vivo e morro nesta dor
De pobre mortal enjeitado

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MULHER ETÉREA

Amano




Foges-me animal celeste
A mim A mim que já não sei nem posso voar

Tenho as asas mortas e geladas

O meu lugar é em terra ou no mar
Nas asas-barbatanas dos anos percorridos pelo cansaço
Como peixe cego que embate no batel atracado na lama gordurosa da laguna
Ou como coche que carrega gente do Nada para a cidade colonial do Tudo
Onde as pernas se abrem e entesouram num ritual obscurecido pelos anos ferventes
E os seios redondos encastrados se erguem clamando justiça ao despotismo arroxeado da união fácil da estrada chuvosa da vida

Ou como quem por mal ver
Já não distingue nem sabe
Se és matéria ou etérea

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A MULHER DOS MEUS SENTIDOS

Bruno Steinbach




Mulher desenhada pelo sabre do Tempo
No azul do oculto amor divinizado

Mulher morna à rajada de vento frio

Erguida como néctar em taça
Esguia deusa da noite oculta
Luzidia como ninfa da trapaça

Mulher humedecida pelo afago
De minha mão dolente
No teu sexo denso

Tua palma macia
Envolve o meu ceptro
Erecto

E os teus mamilos tensos
Arvorados ao deslumbre
São os faróis da luz táctil dos meus sentidos

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SEREIAS

Charles Edward





Pedras de fogo em explosão narcísica
Sustentam a brisa que vosso corpo colhe

O céu brame encarcerado
Na abóbada de musical claridade

O mar desfaz-se em escuma
Sémen que a areia feérica recolhe

E eu da falésia sofro e calo
Por não vos poder amar

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LEDA E O CISNE

François Boucher




Pudera eu transformar-me em Cisne Branco
E seria Zeus
O Deus sedutor de todas as Rainhas da Terra
Jorrando eternamente o meu amor
Em vossas soberbas delícias

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IMORTALIDADE

Vee Speers




Na mortal floresta da eternidade
Apenas teu breve sorriso
Teu corpo perfumado e sem uso
Consumação ausente do presente
Perdura num céu de capitéis estático

Corpo majestático
Sexo morto que jaz
Nos membros amputados
Cotos da frialdade

Sangue coagulado do Rio do Inverno para sempre gelo no Vale dos Reis Decapitados
Esboço de sorriso da solidão do desejo naturalmente aniquilado
Nos espelhos côncavos da Paz Imortal

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SÚPLICA

André de Dienes




Entre todas te alevantas
Braços ermos abertos ao céu
Tragicamente erguidos aos deuses

Gemendo as noites que a fome açoita no desembarque dos náufragos de praias ebúrneas e desertas
Entre tantas
Que esquivas te foram por pesados braços de bronze impuro sem chama

E imploras
Que te nasça o amor
Dos vivos orgasmos
Que tão cruelmente te são negados


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DE AMO A SERVO

Emmanuel Villanis - Escrava à venda



Do teu corpo
Quero o vinho
E o pão

Da tua alma
O sopro dócil
Do amor

A ti te compro
Estupro cinza
Da dor

Agora teu amo
A ti te liberto
Do passado e do presente

A ti te quero
Desejo e desespero
Se te apeteço

E peço agora servo
O milagre da transformação
Do amor em arroubo

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

SÁTIRO E NINFA

Alexandre Canabanel




Sátiro que te escondes
No odor do pinho e da oliveira
Que ostentas o membro erecto
E na luxúria do sexo descoberto
Nunca hás-de amar esse espírito natural
Que faz viver os entes mais perfeitos
De lagos rios bosques e mar

Aparta-te meio-homem meio-animal
Entrega-me esse corpo belo
A quem mais não queres do que mal

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DANÇA CELESTIAL

Gunter Blum




Corpos há
Que em alma pura moldados
Transcendem o tempo-espaço

Assim queria eu o teu
Universo-orgasmo infinito
Abraço de nuvem absoluto

A vaguear nesse instante
De eterno prazer
Por Deus tocado

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O NASCIMENTO DO DESEJO

Eugene-Emmannuel Amaury Duval






Há um corpo
Que nasce
Em cada sementeira

E cresce
Seara lustrosa
Ao sol do meio-dia

Na fantasia da mente
No sonho mais florido
Na tela branca do artista

E vigoroso
Como fruto
Das hastes da videira

Ansioso e desejoso
Como quem procura
O que ninguém encontra

Veemente implora
Que no seu tempo
Pelo amor seja colhido


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A NAOMI CAMPBELL

Richard Avedon




A fama das tuas formas
Aneladas ao mundo
Escondem nesse olhar
Expressiva melancolia
Duramente repetida no dia-a-dia
E aquele tédio assustador
De quem por tudo ter atingido
Bela e apetecida
Se sente vazia

Taedium vitae
Taedium vitae

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PARTIDA

Igor Amelkovich






Voltas-me as costas
Como a outros voltaste

Afinal não sou diferente
Sou apenas mais um amante

Com aquele jeito especial de amar
Que instante a instante

Constrói orgasmos sucessivos
Disseminados pelas noites de luar

Eretismo alvo e prateado
Que quando findo

Te faz esquecer em breve momento
O corpo e alma que tos deu

E agora geme e pranteia a indiferença
Do corpo que pensava seu


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MULHER HERCÚLEA

André Brito




Lá fora
Os grilos tacteiam
As pedras frias

Aves nocturnas
Piam ao luar
Adormecido nas nuvens

E tu
Mulher hercúlea
Dormes na minha solidão

Que sonha uma face
Um sorriso subtil
Que não tens

Um ilusório
E triste
Nada que me mata

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A MARILYN MONROE

Bert Stern


De que serve a beleza
O rumor do mais belo corpo nos mais almejados ninhos
O brilho dos espelhos iluminados
Os afidalgados amantes
Quando Tanatos
Fere Eros de morte


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A NONA PORTA

Picasso




Na fera efusão do prazer
Expansão que o tempo à adaga mata

Não tem o corpo porta
Que ao delírio se encerre


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O INFERNO DO PRAZER





Contigo desci ao Inferno dos Prazeres

Reneguei o Amor
As carícias
O falso sussurro do ouvido prisioneiro

Resta-me o teu cheiro de doce suor
A violência o ardor
A violeta aberta e orvalhada ao sol do esgotamento

A água que em golfadas das virilhas te corre
O grito o gemido o plangor
De um júbilo tão intenso que é quase dor

Porque aquilo de que se diz tão bom
Tem uma intensidade um vigor
Que dói no coração do próprio amor

Esse orgasmo exaustivo em inolvidável fulgor


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A MIGUEL ANGELO

Miguel Angelo - David




A corpo que se quer perfeito
Por mão de homem esculpido

Por complexo
Por opção de sexo

De certo e sabido
Algo de notável lhe há-de faltar

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SOIS TANTAS





Sois tantas
E tão belas
Corpos-desejo

Qual escolher?
A razão escolhe
O desejo não

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QUANDO AS TUAS COXAS SE ABREM





Quando as tuas coxas se abrem
Ainda que levemente
Como quem quer deixar passar a brisa da manhã no corpo a espreguiçar o desalinho
Surge uma neblina prateada no abismo da minha alma
Desejo de navegante desmandado
De mar violeta da volúpia enamorado


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MONGE ERRANTE DE LEITO EM LEITO

Ben Long





Juntos descemos os degraus doirados
E nas negras pedras do fogo de seda
Das pontas carminadas da vigília extinta
Adormecemos exaustos

E agora
Tu
Nua
A uma almofada agarrada
Olhos negros
Cerrados
A aferrolhar a noite
Nos grilhões do dia azul

Eu
Suado
No velho soalho
De novo um desterrado
Olhar vago e distante
Com teu sexo exposto ao lado

E parto sem partir
O corpo no quarto a alma no horizonte
Monge errante de leito em leito
Peito rasgado e sanguinolento
Pulsátil como o vulcão de um monte
Do teu veneno sempre sedento

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terça-feira, 10 de julho de 2012

ILUSÃO

Hu Jun Di


Não sei se existo
Se sou ilusão

Não sei se existes
Se neste mundo vives

Mas quando te penetro
E dessa fonte bebo a água

Na tua concha muda
Acariciada a azul e verde

A humedecer a coluna
Do meu desejo de incenso

Submerso em lençóis de linho rendados
A moldar os mais soberbos dos movimentos

Mesmo que não viva
E se é que não existo

Não te resisto

http://www.homeoesp.org/livros_online.html



NUA MÚLTIPLA

Egon Schiele


Não és uma

És múltipla como o Rio Grande que beija furiosamente o cais ferido pelo movimento eternal das aves nocturnas

Mistério infernal de quem quer que uma seja a que tantas é
Na espreguiçadeira do quotidiano renascido nos gemidos abafados por lustres em chamas

Não és uma
És tantas
E eu quero-te
Uma a uma
No frémito dos beijos molhados a maresia
No amplexo dos corpos desdobráveis em prazeres viciosos
Do júbilo da morte das tardes de névoa obscena

Quero-te
Para que possa tocar
Em cada crepúsculo veneziano
Um dorso quente e diferente
Quero-te em cada dia
Na luz sombria
Ano do Dragão Vermelho
Quero-te ainda que teu olhar
De mim esteja ausente

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NINFAS E SÁTIRO

William Adolphe Bouguerau




Acautelai-vos ninfas das florestas
Que não seja Sátiro vosso amante

Esse que só em parte homem é
E na parte que mais tem
Tem o que David não tem

Rasgando-vos fadas sem asas
Leves delicadas
O que tanto desejo

E me não pode ser negado
Nem estar por besta sujo
Ou por sátiro sujado

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COM A MÃO



Richard Avedon - Naomi Campbell





Com a mão
De palma branca
Dizes que não

Com o corpo
A doirar mestiço
Dizes que sim

Com o rosto
Oculto
Nem sim nem não

Assim como assim
Dizes ao sim que não
E ao não sim

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O PRIMEIRO NU ARTÍSTICO





Na caverna negra dos tempos arde o fogo primordial
Sombras bailam nas rochas firmes como seios intocados

Dos veios subterrâneos corre o sémen do ser
Prazer de sangue novo e quente recolhido no odor dos freixos
Anseios doirados e incriados
Do nada nascidos

A neve gela na floresta virginal
Correm os lobos famintos
Predadores da lascívia animal

O Homem nu nas peles ocres do inverno
Sonha com gazelas e veados
E na alma lisa de pedra por talhar
Desenha o primeiro nu
Sem tela
Sem sais de prata
Nas pedras salpicadas de cores exaustas
Sabendo que amar
Se inicia com um lânguido olhar

Desejo da carne
Do coração primitivo
Tão longínquo à razão

E anela
Truta em pedra lavada pela torrente das sensações inexplicáveis
O corpo nu
Que desde o alvorecer aguarda
O despertar de quem só ama e caça
Num fogo que jamais se apaga

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sexta-feira, 6 de julho de 2012

INOCÊNCIA




Nessa tua inocência
Excelsa criança
Olha-me de olhos rasgados
Por divino arado lavrados

Olha-me nesses olhos amendoados
Cobre os teus seios carne de veludo
Num estudo de perfeição cinzelados
Que Deus tão gentilmente te deu

Olha-me a mim
Que te amo
E não te quero

Não temas
Que pela carne
Não desespero

Olha-me
Não olhes mais ninguém
Porque a olhos assim
Só eu quero
E quero Bem

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À ESPERA DO AMANTE




Um sorriso no próprio riso
Do espelho sujo e mudo

Um tudo que se embroma
Na falta do siso de quem espera
O que sem aviso vem
E por momentos se deleita
Nas formas que ela tem

Espelho que se converte
No que espelhado se não confessa
E confia na mentira pela vida tecida
De quem nela ingrata se perde
E à quimera se converte

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PRIMEIRA FOTOGRAFIA DE NUS FEMININOS







Como vos deve ter sido penoso
Inglório e talvez injurioso

Pontas de dedos com dedos
Braço na cintura

Olhar distante
Uma câmara estranha
Num dia de sol escuro

Cabeça encostada ao ombro
Único que se tem

Sexo exposto
À masturbação furiosa

Às vezes
Por detrás do biombo oculto
Dos palacetes de nobres e burgueses

Triste é o corpo
Melancólica a expressão
De quem se entrega
Sem que o saiba
Por um nada
Por um qualquer trocado
Por um tostão
Às vistas do mundo
Numa primeira imagem mostrada



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