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ARTE

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

VONTADE DE VIVER





para além destas paredes é tudo tão visível tão claro tão sensível
passo através delas para penetrar na praça sórdida onde habitam os pombos da mendicidade
os mortos-vivos fosforescentes em fogo-fátuo da cidade

vivo no ventre dos meus pressentimentos sem razão
e há o terraço sobre o tejo onde me apoio para ver as caravelas do mofo capitaneadas por velhos negreiros pardos
e há esta pressa absurda de fazer coisas
de modelar as ideias ao meu peito sequioso
descobrir novos mundos nas costelas salientes das algibeiras esfarrapadas pelo arcaico grão por germinar

os pombos dormem no meu ser imerso na insónia de frio húmido
acendo uma vela para afugentar a escuridade
candeia de alma desordenada

alguém me diz que se sente só
ele há tanta gente só por essas calçadas encardidas da vida
a solidão não é uma doença é a vereda do insondável calcorreada em noite de lua nova é a chuva que lava os campos da imaginação e desvanece a indignação dos injustiçados
 
mais logo o dia despertará pleno de rostos cansados
mercados abertos aos ventos da agonia e do desprezo orgíaco
um novo dia um novo pão e o mesmo café na esquina do bairro amordaçado
a melancolia do gesto ritual no primeiro cigarro do amanhecer
uma nova viagem

mas sempre sempre
esta vontade imensa de viver
em tempo escasso




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