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ARTE

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sábado, 23 de novembro de 2013

CIDADE SUJA




a cidade está suja     o fumo cai na nudez das estátuas
trabalhadores estéreis     homúnculos sem cabeça 
braços de vidro acotovelam-se como ratos cariados nos esgotos putrefactos     sepulcros da vida vagueiam alheados nas ruas pavimentadas a patético suor

há um fogo aceso em cada corpo fedente

as igrejas parcimoniosas estão dissimuladas a sacrossantos ícones
apenas umas máquinas japonesas de fazer imagens distorcidas escorraçam os pombos enfermos e as prostitutas do entardecer 
as frontarias desérticas lembram o cristo antigo nas chagas das pedras amarelecidas de nicotina

sórdida mudez clama por parceria 
ninguém desce ao inferno sozinho 
há sempre um anjo por companhia

as saias curtas os calções rasgados da moda provocatória os olhares impotentes da senilidade poisados nos seios quase descobertos 
finos odores de corpos prostituídos

o coração das fachadas descompassado
as almas dos templos ausentes     pedras que carpem a grosseria dos tempos

no rio uma brisa húmida arrefece o batel     a cidade asperge ilusória beleza quando a luz das lâmpadas amarelas alastra às águas sombrias oprimidas pela enchente

o cacilheiro ilumina-se
lá dentro os últimos operários do sono

alguém abre a bolsa-do-fel num cunhal pombalino aos pés de um cabaré 
acena a um táxi     o motorista ignora-o
um outro pedaço de lixo aguarda o alvorecer num vão de escadas alagado de quimeras

o cais deserto
último trem para cascais





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