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sexta-feira, 29 de março de 2013

domingo, 24 de março de 2013

A BONECA DE TRAPOS





uma mesa giratória no canto da sala água-marinha
um pássaro de plumas marfim escuta estático a voz de falso tenor do piso inferior

açaimada aos anos percorridos no breu pela velha estatueta de bronze
está a boneca de trapos com o sorriso aberto à brisa que vem do rio

a senhora idosa tão inclinada e absorta
fareja a tiritar o local do crime original
sem a remissão de bula expiatória por discordância com a divindade irada

a grandeza melancólica dos espíritos peregrinos
eternos descobridores da maresia silenciosa e retráctil
assola as horas tão vastas como lendas conspícuas

os vales verdejantes enegreceram
e sobre as cem mil colinas nem uma águia real ousou voar




OS PORTUGUESES E A SUA MANIA DE POUPANÇA





tristeza de pedra trespassa as faces dos vendedores de sonhos

neste reino impera a náusea do embuste gelatinoso 
a cinza das palavras reparte-se pelo jardim do império onde estão os sepulcros dos que não souberam
dizer não
agora mesclados com a acidez dos cães domésticos
presos na mesma trela de argumentos tecidos em grosseira filigrana de líquido seminal estéril

só resta a impunidade das estátuas que se erguem arrogantes

ao lado um chinês os chineses não morrem
estranho é e
bizarro o restaurante dos fundos
vazio de mesas postas com uma santinha oriental na vitrina velha-comedora-de-homens

a sul sentado numa rosa-dos-ventos encarvoada um demente
as nuvens afastam-se criteriosas da latrina
as gentes dispersas cabisbaixas soletram as últimas sílabas da morte ferruginosa a arrostar a erva amarelada

não há cão que nos valha 

ontem o comendador tomou uma bala antes do almoço
os portugueses e a sua mania da poupança




ESTILHAÇOS DE UMA VIGÍLIA





novamente esta vigília esboçada em sombras áureas  no porão da galé
onde os penitentes espectros da noite vogando em escuros trirremes
rondam a lua circular comovidos pelas lágrimas dos indigentes prateados

ah as ilusões em fúria sorvida em pequenos goles de estanho
os estúpidos apegos nadando à superfície das cabeças transparentes
os corpos trespassados por vagas palpitantes de árvores dobadas pela cegueira 
 
há um sossego voraz um silêncio mordente uma luz ardente de música que no coração em chamas ecoa
momento de amotinação a espalhar quietação na planície alvar movimento de asas incapazes de voar

não fora a fraqueza da ralé devorada pelo atrevimento da auto compaixão
reles e verminosa na medula corroída da ousadia
o firmamento desabaria nos crânios esmagados por albatrozes
  
o fogo do amor consome a forragem do passado
o fogo extinto da misericórdia enterra os seus mortos

o relógio da torre há muito que não bate as suas lânguidas horas
e as palavras fluem flamejantes na inutilidade do vácuo
afinal
onde a oração salvadora do náufrago moribundo se veste na sede púrpura da ilusão?

no cais de pedra enegrecido pelo lodo milenar a viúva do tempo carrega longos gemidos e solta ao vento de sueste esguios ais
a vida foi-lhe madrasta arrancou-lhe dos braços parasitados por veias salientes filhos marido e a vontade de viver
nada a convencerá a permanecer entre os vivos

uso as minhas próprias mãos para golpear o medo
as unhas embebidas em veneno rasgam a angústia
dilacerando o sexo modelando o manso coração da alba

pouco falta para que o dia nasça com toda a sua turbulência mesquinha
lá na lonjura o apito funéreo do navio que entra a barra singrando o nevoeiro denso da pele crespa dos últimos amantes
velas desfraldadas de lábios carnudos em tempo de geada

e há um prazer imenso em tudo isto enigma do próprio mistério construído por estilhaços indecifráveis
saber que ninguém me irá ler




AO MÁRIO CESARINY - SEM JEITO PARA O NEGÓCIO






Que importância tem foder ou não foder
Desta daquela destoutra maneira
(os tempos são outros Mário não são como os teus)
Fode quem pode não fode quem quer
Fode com quem quer quem pode e não fode quem não pode
Fode quem consente e quem não consente não fode ou só fode com quem quer e bom proveito lhe faça o encontro da net com quem não conhece e fode às escuras que é o mesmo que foder sem saber o que fode
Fode quem paga se de graça ninguém o pito lhe abona
Fode com toda a gente que paga quem recebe o pagamento e fode quer se importe ou não com foder ou não foder porque mais poder que o foder o tem o dinheiro mesmo que faça doer
Fode a dois quem gosta e quem mais gosta e pode com mais fode
E em grupo já muitos há que fodem e são fodidos e quando se perdem excitados e incautos sentem alheios dedos no cu metidos e as mulheres aos gemidos com desconhecidos
E à pressa fode quem tem ejaculação precoce ou não aprendeu a amar ou cedo tem de ir trabalhar para a outra banda ou para Trajouce
Para que em tão curta vida sejam escassos os desperdícios
Porque no fundo
Bem lá no fundo
(que à superfície não tem graça e é coisa de criança)
Neste mundo Mário
Anda de um modo ou de outro
Mais de língua e dedo
Tudo a foder
Por prazer
Por dever
Por dinheiro e poder
Ou por não ter mais que fazer
Mundo-meio de meio-mundo fode o outro meio que se deixa foder
E diz que fode por amor ou por muito amar
Quando se excita com uma qualquer greta ou pichota
E porque mundo-meio de meio-mundo não fode por o não deixarem foder e para uma rapidinha dinheiro não ter
Acaba por foder sozinho
Triste do pobre
Tadinho que com suas mãos se consola
E neste corropio do fode-fode e do mal-foder não tem lugar
E a muito esforço se alivia
Agora é assim Mário
É tudo falso com um sentido sem-sentido
É tudo vário
E se de onde estás já vejo o teu riso de escárnio
Deixa-me sorrir contigo nesse pódio celestial
Que este mundo está fodido e eu já estou cansado
De tanto cabrão puta bicha azeiteiro
Casas de filhos-família
E de passe-bestial
Com fungível e mesquinha relva para os passos governamentais dos impotentes e uma estúpida planta umbelífera nos fundos a contar moedas-cópula
Fodendo o teu país inteiro (esse país que tão pouco apreciavas e que hoje te repugnaria)
Até um dia destes Mário
Que me vejo já de passagem na mão
Sentado no embarcadouro vazio-ócio
E como tu dirias se por cá andasses
Sem nenhum jeito para o negócio