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segunda-feira, 22 de abril de 2013

O TAMANHO DO MEU MEDO





o vento murmura ao céu rosado
repara o castigo que te dou sorte corcunda
em breve serás pisado até à exaustão
como ave migratória colorida em ramalhete
que se detém no muro das estações

fiz tantas viagens
tinha tantas viagens para fazer
bosques selvas ilhas germinam no cérebro

solidão e cansaço

lanço uma âncora bifurcada nas profundezas da alma

uma peónia nasce em terra estranha

insectos de cena tardia repetem-se nas mãos de homens-fósseis
e sem dó
amanhã o mar será uma inutilidade
do tamanho do meu medo





UMA MÃO-CHEIA DE VENTO





a luz do perdão passeia-se com uma mão-cheia de vento
brande armas escuras lágrimas do sino a rebate

volto a casa
uma pequena flor roça suavemente o relvado
curvo-me à sua beleza azul celeste solitária vibração de primavera estéril
beijo-a solenemente

já não existem bandos arroxeados de flores a inspirar sorrisos aos insectos




JOGO DE ILUSÃO





pela fresta da porta rústica vejo o amanhã
que é o mesmo que não ver coisa alguma

ninguém deixa o seu nome inscrito na pedra violenta do tempo

tudo mais não é que jogo da ilusão
dança de destino a brotar pedaços de carne viva
no nascimento sofrimento e morte

prazer e dor
apenas




A VIDA SÃO UMAS FÉRIAS QUE A MORTE NOS DÁ





quando a sombra da morte vier com seu séquito imperial
ostentando negros e sujos estandartes de devastação
fazendo tombar no meu frágil dorso o lodo ancestral
contarei os dias desfiando o rosário da memória
envolta no manto desprezível da vida absurdamente sumida

procurarei nas multidões o anjo do amparo
segurarei sua mão fortemente para que não mais me abandone aos horrores terrenos
enquanto vós falsos amigos
me ireis levar em oscilante ataúde
para o pecaminoso cemitério do burgo

as luzes expiram
agora dorme-se
sono sem sonhos
morte em vida

para que na morte possa então sonhar
com novo mundo nova vida
tudo do tamanho da palavra amor

e a vós falsos e tristes amigos de ocasião
chamados ao derradeiro instante
irei olhar-vos com a brandura de uma partida
sem o azedume de tão curtas férias





AS CINZAS DO VENTO





serei sempre capaz de adivinhar as tuas dores
enquanto teu tal pedra fulva lançada às estrelas
e que no interior das corolas feitas a cores
aguarda que a lapidem até à vinda da morte

vieram de toda a parte sem saber ao que vinham
os seus túmulos terão coroas de flores
garridas a murchar aos olhos das longínquas galáxias
eles o povo que ninguém ouve e todos desprezam

mulheres crianças velhos registados em vórtices
de portos e abrigos bárbaros do atlântico norte
donde voltam na amotinação da crista das vagas
quando o mar suspira de grandeza nos molhes do cais

e eu
no teu interior
flor
ergo-me nas cinzas do vento






LIBERDADE FERIDA DE MORTE





vieram as trevas cobrir as fontes do estio
secaram os rios caudalosos da esperança

ó liberdade ferida de morte
desordem nascente de choro por curar

passara ano e dia e o corpo sombrio
afogava-se na disforme hora da desolação

a porta aberta ao amor exalado por nuvens térreas

o sono primaveril é sempre mais curto
propício ao frémito dos músculos lisos

feliz é o amante que vive com o sono ao lado
penetrando a noite com a espada sacrificial




A PAZ DO ESQUECIMENTO





à minha volta flutua o tempo a sussurrar obscenidades

no outro lado do mundo um ilhéu de sorriso brando
sabor doce de mangueiral na frescura do primeiro beijo
onde habita a paz do esquecimento




quarta-feira, 3 de abril de 2013

RECOLHIMENTO





a noite é um convite ao banquete contemplativo
busco a noite escura de joão da cruz sem que a invente

não consigo fugir de mim nem ir ao encontro dos outros

as ruas desertas arrefecem numa chuva de dedos de areia
os sonhos arrastam-se pelas casas sonolentas provocando a madrugada dos desejos
que entram sem convocação no requiem das estrelas silentes

na pequena moradia do beco o ar rarefaz-se em bocejos
cor pálida e sombria da peste
a infectar a solidão do poema
e o coração sangrante da vida

*

este inverno vai longo
e o recolhimento amorosamente doloroso –
transformá-lo-ei em eternidade

*

o recolhimento é a pedra angular do crescimento espiritual
temos de reinventar o toque do clarim
recriar a alma





VONTADE DE VIVER





para além destas paredes é tudo tão visível tão claro tão sensível
passo através delas para penetrar na praça sórdida onde habitam os pombos da mendicidade
os mortos-vivos fosforescentes em fogo-fátuo da cidade

vivo no ventre dos meus pressentimentos sem razão
e há o terraço sobre o tejo onde me apoio para ver as caravelas do mofo capitaneadas por velhos negreiros pardos
e há esta pressa absurda de fazer coisas
de modelar as ideias ao meu peito sequioso
descobrir novos mundos nas costelas salientes das algibeiras esfarrapadas pelo arcaico grão por germinar

os pombos dormem no meu ser imerso na insónia de frio húmido
acendo uma vela para afugentar a escuridade
candeia de alma desordenada

alguém me diz que se sente só
ele há tanta gente só por essas calçadas encardidas da vida
a solidão não é uma doença é a vereda do insondável calcorreada em noite de lua nova é a chuva que lava os campos da imaginação e desvanece a indignação dos injustiçados
 
mais logo o dia despertará pleno de rostos cansados
mercados abertos aos ventos da agonia e do desprezo orgíaco
um novo dia um novo pão e o mesmo café na esquina do bairro amordaçado
a melancolia do gesto ritual no primeiro cigarro do amanhecer
uma nova viagem

mas sempre sempre
esta vontade imensa de viver
em tempo escasso




DEUS MORTO DEUS NASCIDO





matam-se e inventam-se deuses
filósofos endemoninhados de gargantilha doirada agitadores
da trôpega dialéctica do sem-fim brandem
punhais rombos sobre os cânticos lúgubres da metafísica
na transcendência dos covis bravios do deserto a mirra ungido

fendem com tímido olhar a alma em acanhado festim
rompem todos os sudários no olvido dos raios de sol azul
listrado a vermelho e diamante
sangram nos altares a raposa dos mil divertimentos
em aparente calmaria de fé mágoa pungente

da desgraça ancestral eloquente ciência dos novos abutres
razão coberta de penhascos além-túmulo

cem mil vezes nascido

por cada deus morto os dias de antojo de quem mata o que adora

um amor tão antigo como o espaço sidéreo gorjeia como rouxinol de folhas prateadas
eis que chegam traspassados a fogo os anjos do céu
um novo deus-arqueiro nasce do porvir
miríades de estrelas tombam ensanguentadas no planalto cinzento do trovão
as substâncias primeiras do segredo cósmico cantam novas aleluia
findou a trapaça que venha o tempo do renascimento

deus morto deus nascido




TEMPO DE MAGIA





guardava as conchas azuis cor de mar
na última gaveta da escrivaninha
por vezes
estendia a mão trémula da decrepitude
ao tempo mágico da grandeza do horizonte

a ferida não sarara
um pássaro do paraíso na campina alegre embutida na vidraça
de tudo dava conta




VACA CEGA





esmeralda viva de olhos cheios de sílabas acres

sentara-se de pernas cruzadas na janela cruzada de carvalho
abrindo a alma ao botão das horas lentas

o caminho todos os caminhos se afastam
minha jovem amiga o tempo é de repouso circunstancial

não se apressem para a cerimónia
os sinos tocam
o punho da saudade ondeia na neblina das esquinas de bafio e pó

sem vergonha e de medo proporcional à inutilidade patente da senhora justiça
homens de fato cinzento entram no salão do destino legível

como se aí antro de estátuas cobertas de musgo
olhar de aço em vaca cega
estivesse a salvação de penosa humanidade




CÉU LÍMPIDO DE INVERNO





o inverno corre rijo pelas encostas da serra açoitando
o que a ferros esteve
  
peregrino das purpúreas rosas de gelo
nascendo incólume dos anos de deploração
 
cânticos melancólicos soltam as faces frescas e sombreadas da vida
cobrem nuvens e rochedos de velado luar
a singrar vagas de bruma em barca encantada
no céu agora límpido




RIBEIRA





o muro alçava-se sobre aqueles dois corpos deitados
num morro de luz azulada nas asas
debaixo do salgueiro choroso dormitava uma melodia rebelde

longe um trabalhador segurava uma enxada cariada pela terra enxuta
com os olhos verdes de ódio escavava a terra cilíndrica que fora de seus avós

da árvore dobrada nascera o sangue inocente das crianças
e o silencioso sorriso das moças virgens
que roçava o leito cremoso da água limosa da ribeira

arpejo de suave perfume arrebatado ao vento solitário
na serenidade crepuscular da alma temperada





A SALVAÇÃO - FAZER AMOR PARA SEMPRE





o leito profanado pelo frio está sereno posso dizê-lo
com a mesma energia que a cerejeira prenhe dissipa na primavera o fruto pelos tordos
mau grado o jugo terreno de que os deuses alucinados e febris se apartam ao sol-posto
a cidade nasce para o inferno do prazer
estremece no ódio do passado na raiva do presente e no  terror do futuro
acendem-se as primeiras das últimas luzes
o espanto dos olhos roídos pelo enfado alonga-se nas casas de passe o passe
pergunta-me o fiscal do metropolitano praticamente vazio a penetrar os ossos da terra procuro-o
deve andar por aí como tudo e como todos
afinal só quero chegar a casa recostar-me ler um velho poema de um poeta maldito
quando ainda faltam tantas milhas cravejadas de espinhos rosados
a salvação –
fazer amor para sempre





NUNCA VI TANTO FILHO DA PUTA NA PUTA DA MINHA VIDA





não me acredito ao que assisto
só pode ser um daqueles sonhos a quem os cisnes negros chamam pesadelos  e nos quais estúpidos
poetas bucólicos inventam castos pastores
inocentes assexuados sem incidente masturbatório

já dei para este peditório
evidentemente contrariado como se cumprisse pena de degredo de parcos momentos de bonança

pela rua calcetada ao brilho das nuas ramificações da água de aluamento caminham pobres famintos abrindo e encerrando mecanicamente os tampos dos vidrões
reciclam os alimentos imundos da burguesia rocambolesca
cada vez mais há quem se venda por uns trapos fora de moda
vendem-se de dia nos esconsos anónimos no desvão dos bosquetes ou nos casinhotos amontoados para aleitarem os filhos
depois de lavadas volta tudo ao normal com comida fresca e desodorizada à mesa

porca miséria a da mentira chavasca
da queda a pique da verticalidade no recanto mais recôndito dos jardins suspensos

e a eles
vejo-os nos jantares em casa de minha mãe vejo-os e ouço-os por momentos na caixa mágica das ilusões e das trapaças
tenho nojo uma náusea esverdeada abundante um arrepio mortal a trespassar covardemente os fios cristalinos da dignidade do coração e
lembro bocage nesta hora tardia da cidade infecta e pestilenta que dorme nos passos quase sempre solitários do frio apetite em busca das luzes dos candeeiros indiferentes
vida filha da puta
nas ruelas e becos aumentam as putas
filhas da vida
e eu pasmo
por nunca ter visto tanto filho da puta na puta da minha vida




UM MUNDO NOVO





como quero que deus seja verdade
cavaleiro cintilante da esperança febril 
adormeço com um banco vulgar a meu lado
sentar-se-á junto do meu pobre corpo?

*

vou sonhar com um mundo novo –
ó deus de misericórdia
cumprirei tua obra inacabada





segunda-feira, 1 de abril de 2013

ARTEIRA SANTIMÓNIA





virgens semelhantes a deusas
por essas encruzilhadas de campos tenros e mares de primavera deixais
o rasto do prazer no aroma adocicado das flores campestres

filhas das águas e dos céus brandos fazeis a sementeira do amor na beleza das formas
como trepadeiras doentes dos níveos bosques
confundindo a fera que por misericórdia habita este lugar sombrio
conformado à vossa arteira santimónia




SUICÍDIO DE AMOR





sentada na sombra de uma velha oliveira cristã brincava
com o fio de orvalho refulgente
nas mãos brancas amparava-se o anjo do tempo perdido em meia vida por viver

com a sua fé na translúcida imortalidade das pedras e dos amores tumulados na eira deserta
iria encontrar-se com o seu amante
não pousando jamais em vida os pés na terra ingrata




SEU NOME SIMPLESMENTE TRISTEZA





a poeira cegara-o
um livro manchado com borra de café do orgulho ferido
atravessou a manhã submersa em quimeras e ajustes de contas

as casas dispersaram-se ao sol radiante de telhas alheias

recebeu cartas de fumo tormento e lume
perdeu de vista o mundo alheara-se
do rumo traçado num aeroplano feito de folha de caderno de escuma

o destino cumpre-se na sonda celeste do interior perfumado
de cada flor de cada lâmina verde-opaco verde-borro
execrável secreção terminal do quotidiano 

era o seu gemido de lágrimas silenciosas dor a aderir
à pele vermelha por dentro a brotar angústia pelos poros geados por fora
seu nome simplesmente tristeza





PASSAGEIROS DA NOITE





os anjos da clareira dormitam taciturnos sem que os sonhos os caustiquem
os anjos não sonham com édenes nem abominações e aos seus quartos não têm os amantes acesso

em nossos corpos não há tédio quando a nudez reflecte o anseio
nem no sangue vivo que rebrilha de inocência pecaminosa se acendem as luzes da cidade alagada por sémen putrefacto

lâmpadas que se incendeiam nas ruelas desvirginadas pela concupiscência da aurora
desfloradas pelos ébrios passageiros da noite

o último metropolitano apaga-se

o nevoeiro pousa delicado nas verdes varandas estéreis
corpos em velas vacilantes fanfarras dos portais da escuridão
pés feridos na respiração cortante imersa em azul azedume

num leito de mar te penetro




FOGOS-FÁTUOS





nas galerias do coração vagueiam línguas de fogo colorido
amanhã não a terei nos meus braços

as barcas passam furtivas em noite de lua cheia inundando de azul ciano
o luar de carícias rosa adormecidas pela brisa quente do beijo suado
prolongado é o arrebatamento do pássaro equatorial ventre de insónia silenciosa

a água está tépida como sangue de verme esmagado nos sepulcros abertos
da civilização burlesca da baixa pombalina
movem-se corpos por entre corpos frígidos opacos indiferentes
à beleza da alma circular e das linhas ondeadas das fêmeas ciosas

neste país não se ama
pobres bestas-de-carga





NAVIO TUMBEIRO





no ermo árido o vento desentoca os ossos furibundos

contentes as folhas de árvore em turbilhão embrionário

nas pedras negras uma flor sonolenta desperta do fingimento da escravidão sôfrega de mágoa
o navio tumbeiro prossegue no grande mar oceano  

um grito ecoa
troco metade da minha existência pela pele de um ofídio 
pus dos recantos inóspitos da humanidade
e a outra metade pelo olhar meigo de uma pomba
pela luz da mais pequena estrela de cristal

olhos lacrimantes onde se inflamam alvoradas selváticas
hora da palavra transmudada em gládio




COMBATE





hinos de atribulação açoitam os ares

trago comigo o meu endereço
eu não sou deste mundo

o mais mítico de todos os homens
aquele que devaneia na imobilidade da carne
encontrar-me-á na sórdida imundície da existência

juntos combateremos na direcção da morte
até que o pélago transborde de agiotas
onzeneiros bifrontes filhos-candongueiros de um povo propício e idiota por destinação
 
haveremos de reunir ainda que tardiamente todo o meu sangue até que tudo fique límpido e amavioso
como espelho ao sol doloridamente nascente
em vítreo luzeiro resplendente




A ÚLTIMA ERECÇÃO DO ENFORCADO - TRISTES LUSITANOS





corre veloz a sombra do miúdo enfezado
na gare os rostos cinzentos dos passageiros trocam olhares assinalados pelo agastamento

um sino dobra a morte de um enforcado
enquanto pequenas gotas reluzentes olham pensativas o chão de mármore

já se afunda na terra vermelha o corpo do réprobo
fecha-se o ádito do sorriso em compasso de cegueira
em verdade vos digo pequenos grifos caseiros
com a última erecção do enforcado veio a fome oscilar em armada de barcos de papel

tristes lusitanos






O AMOR FICA PARA AMANHÃ





duas velas iluminam as sombras vivas do êxtase
dois corpos servidos numa única bandeja

na madrugada da rua um automóvel gane
um cachorro buzinou três vezes
o som suado dos corpos nus ainda não cessou enquanto
a manhã se instala doirada no cadeirão bordado a horizonte tropical

sonho com os alísios da volta de mar
tal caravela redonda de um novo amor

vou chegar tarde o banho fica para amanhã
o amor também




AMEM





vai distante o fulgor da mocidade
perde-se de vista a graça da juventude no longínquo pétreo
no caminho perdido da cidade submersa

as árvores envelhecem e paralisam de terror os prados
o mundo transformou-se numa máquina de polir sangue
as almas são sombras perversas nas mãos das crianças

cântico silencioso no negócio da cristandade
onde sem pudor nem piedade se usa o nome de jesus

amem




NA CASA AMARELA DO LAGO





revolta-se o mar quando o vento nasce no fim do outono

na casa amarela do lago ela penteia os seus longos cabelos

cedo cantam as cotovias no cipreste solitário

no quarto a mão escassa não se abre à cintilação das pétalas rosadas
quando a neve começa a cair à beira-mar

amor morto derramado no regato da montanha
estio voluptuoso das tardes quentes da carne
porquê aguardar por um tempo que nos foge?




QUANDO PARTES O DESTINO TORNA-SE INTOLERÁVEL





a fronte que sangra sobre o castigo do pecado esgota pérfidas lamúrias
obscurece a nuvem ardilosa que esculpida se desdobra em lento voo

no meio do grande oceano nasceu uma ilha
desenhada na memória das fantasias dementes de incríveis descobridores e dos seus imprecisos portulanos
que em busca da fama e de sinistra imortalidade
escavam nas faces engelhas doentias

a beleza só brilha depois do fogo-de-artifício ter purificado as formas
ou na separação que à noite enfloresce nas almas das rosas bravas

o vento em fúria atesta ao mundo odiento
que os loucos dias da infância não hão-de terminar jamais
enovelados no cordão matinal de orvalho

luz que me alumia durante o dia
carícia que adere à pele tempestuosa do escurecer

quando partes o destino torna-se detestável




PASSAR PELA VIDA SEM DEIXAR RASTRO





a pontuação é importante tão importante como as abafadas núpcias florestais de tempos idos
desisto dizem neste emaranhado descomposto inútil e eu digo tudo o que é fácil
cai-nos nas mãos como o vento circulante que sopra nas nossas costas vergadas à mentira dos feitos históricos
e a folhagem que morre nas árvores a bolsar restos de outono bravio para mais
cruzar as palavras é como cruzar as pernas ao frio do inverno
façam então o favor de não ler o que me diverte concordo com a vossa preguiça
e com a nossa idiotice sagrada salobra sopa da solidariedade assim
nunca ireis saber de mim o que eu não sei benéfica vantagem de passar por esta vida sem deixar rastro