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ARTE

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sábado, 24 de março de 2018

PEQUENOS POEMAS I



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



escassos cinco minutos
dia cinco
quinto mês
nono ano 

sede de infinito



***



poeta do instante
do momento
do tempo sem tempo

do vazio absoluto

mas 
doem-me as pernas

e luto



***



sexta-feira santa

que frio –

o frio do sangue de cristo



***



vim do nada sem querer nada

vou para o nada sem saber nada

quero tudo
quero tudo de nada



***



árvore derrubada        não chores        eu sei
sei 
que o machado de ferro
que te sangra o peito

tem o cabo de tua carne feito



***



chuva de verão – 
alegria dos cachos pendentes 

tristeza de meu coração indiferente
na vindima dos sentimentos transversais 



***



a pomba branca poisou no muro –
olhou-me
sorriu
e partiu



***



oh um louva-a-deus – 
se o meu louvor
fosse como o teu



***



pinheiros altos que gritam

vozes aflitivas

nas labaredas que se agitam



***



sonho de verão 
num dia gelado 
mãos velhas por aquecer



***



a luz cruel do luar
trazia consigo a tristeza
da sepultura aberta
para aquele homem
que chegara ao termo
de quanto amor
um jovem podia dar



***



sete vezes caí                sete vezes me levantei

errei fazendo bem          acertei fazendo mal

e à oitava me quedei
nem bem nem mal



***



a flor repousa na soleira da porta
onde a montanha começa
e as crianças são reveladas



***



cheguei 
por vereda obscura

regressarei a não-sei-onde              e
o preço da jornada
não sei nem saberei



***



o amor 
começa sempre
com as primeiras chuvas
e morre nas folhas mortas
do coração  outonal



***



um insulto recusado
retorna ao doador
como flecha ao atirador



***



porque guardas tu
os meus espinhos
ouriço-cacheiro



***



é bela a sombra –
aponta sempre
o trilho da luz



***



sozinho no quarto                  a lareira acesa 
lá fora um frio glacial

eu e
a dança das labaredas
em flor

música celta –
lá fora um vento gelado



***



um homem com gripe
e uma carpideira – 

não vislumbro diferença



***



água pura
da levada – 

lava-me a alma



***



   aquela mulher chora sem chorar
      grita sem gritar e pede a deus a morte 
por favor

onde está seu filho morto
não está com ela nem comigo

o menino que deus lhe deu
seu filho        sua dor        meu camarada e amigo
jaz desfeito no ultramar



***



que restará de mim
para além de minúsculas partículas
dispersas sobre o solo violado



***



o gato espreita a toca impávido tal estátua

guarda o rato que demora 

para quem espera tudo tem o seu tempo



***



apesar de viver querer

se antes de mim morreres

pergunta à senhora morte

se podes transportar contigo

um velho amigo



***



ouve-me pirilampo de clarão verde – 
a tua luz
de eterno viajante
basta para me alumiar a noite
e pôr a alma incandescente



***



toupeira-cega dos túneis
alheia ao mal dos homens –
quem me dera ser como tu



***



o coração iluminou-se

abriram-se os portais da origem

secaram as lágrimas
na mente virgem



***



vejo-te na noite         ouço-te a voz
a tua sombra     traz consigo a alma
      que a medo insisto amar



***



alma que se consome nas delícias do amor
carne rasgada pela vibração dos sentidos –
                alma sem pecado



***



frio lá fora

leve película de neve cobre o jardim e afaga o pelo do crestelo

no recolhimento da vidraça cresço por dentro tal erva da calçada queimada pela geada



***



só é feliz quem em si tem a paciência

a paciência sem esforço das noites de invernia

paciência para tudo
paciência para nada



***



do lado de lá das portadas 
   os meus sonhos desfeitos
      desfilam em cortejo fúnebre

      que me importa a sua morte
   que já não sonhe
eu que apenas vivo



***



   uma voz harmónica
longínqua

   doce flauta da alma sensual
a soprar profunda visão
espiritual



***



 um veleiro oceânico
  vejo e revejo as fotografias
   é o meu     eu sei     vai ser
    com ele farei naufragar o terror



***



de ti venho

para ti vou

és tu que eu sou



***



terá sido esta a última neve de primavera

a neve assemelha-se ao amor        fria e suave – 

quando aquecerei meu coração



***



o dia parece não ter fim –

se todos fossem assim
seria mais feliz



***



a árvore fustigada
por ventos leste 
temíveis e violentos
na montanha agreste – 
sobreviverá



***



a loucura é vantagem
de quem não sabe o que sabe
nem sabe que não conhece
o que conhece e sabe



***



sabe-me a mundo o rumor da água da ribeira
contínua                 a saltar de alma em alma

tão verdadeira                                   tão real

     que de assim a ver julgo ver a terra inteira



***



corro atrás do vento –
de quando em vez agarro-o
de vez em quando cavalgo-o



***



milhares de vivos passam carregando afazeres
todos sabem que vão morrer amanhã ou depois

quantos o sentem



***



persistimos deitados ao lado do sonho

o sol vai nascer como sempre
e não estaremos no mar para o colher



***



a vontade e a paciência
o longe que é perto
e a paz que se alcança na escuridão



***



o vento passa –

suavidade e carícia
na minha face oculta



***



o som da flauta
parece longínquo –

tal é o infinito



***



     a ribeira da minha aldeia seca no verão 

sinto a água corrente          vejo-a brilhar ao sol

pura ilusão de quem ver quer o que não pode ter



***



na sombra da noite
      um grande-pavão nocturno –

            a criança diz que é um morcego



*** 



as árvores despem-se
na fúria do desejo

oculto pássaro sombrio
a sobrevoar o rio claro

que cansado corre
para negras vagas



***



ontem choveu

hoje o sol doira o outono

de novo em viajem
enquanto meu amigo
se quedou suplicante
num latir rouco
de saudade declarada



***



não cuideis dos meus pecados
poisados na magnólia –

desviai os olhos para os vossos cardos



***



as cerejas amadurecem –
  
cada uma pende da cerejeira
pelo seu próprio pé



***



ó meu deus                               é demais
tudo o que é demais                  sobra

como ponderaste tu
a dor que derramaste
no mundo



***



espectros
na paz da noite –

a vida sossega



***



      como quero que deus seja verdade

         cavaleiro cintilante da esperança febril 

            adormeço com um banco vulgar a meu lado

                sentar-se-á ele junto do meu pobre corpo



***



não te possuo quando te quero ter

nem depois de te ter tido

ou enquanto em vão te tenho

tenho-te quando te não quero
ou pouco me importa ter-te



***



canta cigarra canta –
teu cantar
é a essência
a justa medida
do amar



***



d´aquilo não digo sim nem não 
nada afirmo ou contradigo

não me atenho à aparência
respondo com o silêncio
e um dedo
apontando o caminho

sem realidade e existência



***



de que serve a beleza        o rumor do mais belo corpo nos mais almejados ninhos o brilho dos espelhos iluminados os afidalgados amantes
quando tanatos
fere eros de morte



***



uma espada quebrada nas mãos inseguras do destino
agita-se

folha verde a murchar na berma do caminho
rasgado ao ventre do outono



***



um cigarro
e o seu fumo –

a mente ausente



***



sol nascente                    não há chegada

nem no poente há partida

apenas eterna estada num mundo de vime



***



   dois idosos dormem
        embalados pelos rodados do trem – 

                  criação da morte



***



deusa que mulher nasces em oração de amor te peço

não me abandones jamais que sem teu cabelo doirado

sem a beleza do teu rosto e a nudez dos teu seios

não vivo e morro nesta dor
de pobre mortal enjeitado



***



a solidão
desafia-me
a estar só
só em mim
arrebatado
assim



***



uma nuvem negra no céu –

a sua água é tão pura
como a de outra qualquer



***


o cansaço da partida      da chegada 
as viagens são longas e extenuantes –

interminável é a viagem interior



***



formiga preta do bosque
não te aventures na vinha

obreira de dura carga
tua rainha te aguarda



***



oh um camaleão imóvel
está a mudar de cor –

primeiro-ministro



***



duas árvores no horizonte
tão iguais
tão diferentes
tão árvores
tão .......



***



a vida que nasce na rosa
palpita

perfume
amor
alegria
dor

ó rosa do dia
glória da noite



***



   resta-me adormecer este corpo
      consumido pela saudade – 

     aguardo por ti no meu sonho



***



primavera                          morro em mim

morre o eu                         renasço noutros

em cada um
                   um pedaço meu



***



sois tantas e tão belas
corpos-desejo

        qual escolher

a razão escolhe
o desejo não



***



moscas voam na cabana de meu amigo
que incómodo para ele –

mais ainda para mim



***



as flores do jardim primorosamente cuidadas
todas as suas vontades realizadas –

perecerão à primeira tormenta



***



onde estás tu ó primavera
por onde andas
tu tempo de flor
tempo de paz
e de amor



***



   abelha negro-brilhante
   abelhão-preto de pata felpuda
   asa castanho purpúrea

abelhão-preto
voa          voa
no meu coração



***



      chuva de primavera

   a taça transborda e a minha vontade
   fraca e lassa não a esvazia

                           não me concede
                           a liberdade do vazio



***



uma gripe
que incómodo

quem me manda pensar nisso

choramingas



***



esta ferida que sangra ninguém o sangue estanca

neste meu ferimento não pode haver lamento

nasço de mim para mim



***



gente ingrata 
e maledicente – 

não é este o meu povo



***



amigo                      as mulheres-da-vida
         já por nós não esperam

foram-se como tudo se vai          e por vezes se vem

as noites são agora mais longas
tu dormes para sempre
a mim custa-me adormecer



***



com que suavidade sobe o papagaio
empurrado pelo vento de modo tão lento
como anjo colorido nas asas das nuvens

criança
deixa-me subir contigo
no sonho do teu olhar



***



amanhã perguntarei por ti ao sol e à lua
aos rios que correm para o mar      às aves que migram

alguém me há-de dar
                                notícias tuas



***



mesmo doente
a falta do corpo
de uma mulher –

que vício
é o amar



***



   festa na cidade pequena
   para além de vacas e porcos
         os pobres desgraçados



***



 a revolução                povo de ignorantes
aclamação                  de governantes

corrupção                     compadrio
hipocrisia                      anarquia

         povo morto em vida



***



o meu velho cão
      ouve o cantar da terra profunda

sabe como quem sente
       que em breve cantará com ela

melodia de lágrimas
      contraponto de nossa melancolia



***



não há verdade oculta –

a única verdade
é não haver verdade nenhuma



***



   corpo nu de cristal
      leve puro e frágil –

  perfeição-sem-sentido 



***



de novo em viagem
a carruagem 81 de sempre
e o mesmo som dos rodados
a trilhar os carris

      tejo e céu cinzentos
      em oração silenciosa



***



mundo belo 
e sofrido –

das mãos do ladrão de rosas
esvai-se a felicidade



***



uma abelha no tanque
debate-se na direcção da margem –

onde aprendeu ela a nadar



***



noites inteiras esquecido de mim

noites sem fim a sofrer o sofrimento alheio

noites que despertam o árido deserto da morte



***



são dores que sinto trémulo e melancólico
sem saber o que faço o que quero
apenas mudar                         ser            
ser como quem vive            viver como quem é
                       
                         amar sem saber
                   morrer como quem nasce



***



a vida –
como a estrela da manhã

contudo – 
a noite



***



                este inverno vai longo
e o recolhimento amorosamente doloroso –

        transformá-lo-ei em eternidade



***



o recolhimento é a pedra angular 
                                     do crescimento espiritual

temos de reinventar o toque do clarim 

                                    recriar a alma



***



amo

como ama o amor

amo por amar

e quando repousar

definitivo

quero repousar no amor



***



não há fogo
que extinga
o que no corpo arde



***



dia de inverno

sol de primavera

nu no terraço

lá dentro

na sombra da paz

o peste dormita

de olhos abertos



***



exijo e não amo            amo como o amor ama

repouso no amor liberto e nascente          amo por amar

nada mais posso dizer
nada mais para te dar



***



ouve escorpião de veneno letal –
                          vai e volta pequeno animal
                          não te rodearei de fogo
                          serei tua fiança

            vai e vive
            vai e volta



***



não foi ele que cerrou o trinco da porta
    fomos nós que cerrámos o portal
dos sentidos



***



   a avó brinca com a neta no quintal

            ela
  que personifica o amor gratuito

         duas vezes mãe



***



não te conheço mas
tenho saudades –

tenho saudades tuas



***



a solidão
tem um perfume
que só os eleitos apreciam



***



      lar sem tecto
            flores ao orvalho – 

      coração flagelado



***



junto ao ribeiro um jovem agno-casto com ramos branco-aveludados

                acaricio-o

inclino-me sobre as flores lilás-pálido de odor adocicado

a água corre num leito de algodão cada vez mais estreito
e o meu desejo desvanece-se              casto

                        puro e casto



***



um novo dia floresce

um amor termina

e uma nova árvore de liberdade
sem raízes ou apegos
em mim cresce



***



 que dor esta
      no coração em lágrimas –

   partiste sem nada dizer



***



o passado
voou hoje
nas asas plúmbeas
do esquecimento



***



      é aparente a união
            é invisível o vazio –

                    sou arrastado pelo vento



***



que sono

não quero nem posso dormir

poderei eu prescindir desta paz



***



só o agora existe

porque é que me incomodam com futilidades

ora
deixai-me estar



***



partiste para o reino da morte

espera

ouço uma criança chorar

uns chegam                     outros partem

               na gare da vida
         não há nada a lamentar



***



o sol procurava-o todos os dias

entre eles um pacto de amor

hoje veio de novo
pontual

nem sua sombra encontrou



***



quem mata o que me mata

quem mata o medo da morte
senão a própria morte



***



descansa peregrino
que o mundo não acaba
nas folhas da azinheira

deixa-te estar
que purpúreas rosas
verás nascer
na sombra onde repousaste



***



uma mão na água gelada
afunda-se e arde

arcaico ramo de tanta idade
a pedir caridade



***



                     tarde de outono – 

             construo o meu castelo
             pedra sobre pedra

                  a serra testemunhará
                  a solidão
                  que o irá habitar



***



por pouco se agradava

raios quentes da tarde

crepúsculo

silêncio das noites nos brincos de pedras vermelhas

um longo gemido de prazer

e uma estrela para adormecer



***



é para ti que guardo a minha solidão

             quando voltares
hás-de sentir o vigor do meu abraço



***



a beleza é o nome
que os olhos baços
contaminados
pelos labirintos da razão
dão às coisas
que lhes agradam



***



um rio que corre sem margens
flores que não florescem –

eis o barqueiro da morte



***



lareira de primavera e o som de bach
         a envolver as chamas

              na tarde fria
            quem me dera

                   ora
                      quem me dera
                             que me fizessem suar



***



na fera efusão do prazer
expansão que o tempo à adaga mata

não tem o corpo porta
que ao delírio se encerre



***



vou sonhar com um mundo novo –

ó deus de misericórdia
cumprirei tua obra inacabada



***



o reino está dentro de nós
imperceptível à alma mortalmente doente –

a infecção nunca é consciente de si mesma



***



deste país o exemplo – 

lerdos seguem lerdos
fedelhos seguem fedelhos



***



ensina-me amigo de longas noites de invernia
a viver o instante

ensina-me amigo a ser como tu nessa tua paz
que sendo tua também é minha



***



lume da lareira –

sua beleza
é luz e som

                a luz da extinção
                e o som crepitante
                de velhos 
                e generosos paus



***



loja da burra –

no silêncio da noite escura
a paz dos céus
no espírito em quietude



***



como é que te posso amar apenas a ti
o meu amor não tem senhor ou administrador
é gratuito e indiscriminado

vinho derramado
sobre a vida



***



a borboleta-pavão
                sai da vinha e
                      voa no candeeiro do jardim –

       voa como se desse a volta ao mundo



***



a sombra persegue-me

de costas para o sol um espinho cravado na carne velha de pus

num qualquer lugar eu intuo sinto e sei
                                                        brilha a luz



***



perdiz e perdigotos
no caminho em procissão
obrigam-me a parar



***



ele tudo é            eu sou ele o tudo em tudo
quem sou eu        quem és tu

              se tu és eu
              e eu sou tu



***



      gostaria que minha última morada
      fosse no cemitério da aldeia
      junto dos homens de outrora

      arrepio-me –

                       não me vão sepultar
                       junto dos de agora



***



                         na estrada deserta

                               um louco

                         vendia verdades



***



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