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ARTE

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quarta-feira, 11 de abril de 2018

DESCONSTRUÇÃO IV



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –


***



mundo estranho onde vingam os demónios enriquecem os ladrões com colarinhos brancos engomados patrões e outros diabos sem que sejam castigados
quis ser como eles enganei furtei corações os de minha raça maltratei assim pensei receber a recompensa aos ladrões destinada num mundo virado ao avesso
mas como a ti luís vaz de camões deus me castigou de tanta maldade e num mundo tão mal ordenado também para mim anda concertado

mas sigo o meu caminho      atropelam-me vossos braços pensamentos fantasias e invenções vossas crenças hábitos abraços mãos e memória
querem que beba de vosso vinho que caia nos vossos tentáculos que me prenda às vossas cadeias que convosco construa a história
a vida para vós é um castelo de cartas soprado pelos ventos
vida de bens projectos mesquinhos ambições e tabernáculos      desejos insalubres doentios amarelentos
tudo se transforma num elo em frágil vontade do momento
império que vedes e não vejo      vã esperança de tempo ido preso às mais vis grilhetas 
imbecis e resignados      burros de carga
corruptos sem palavra      pantomineiros
invejosos      compadres do oiro e do dinheiro
ladrões      abúlicos 
sevandijas      mentirosos
sendeiros      tristes bestas de nora
matilha de escandalosos      ratoneiros
sois vós sem vereda sem vergonha e sem verdade vermes da peçonha e da iniquidade que vos quereis ídolos da humanidade
            não      não é esse o meu caminho
            não      não bebo do vosso vinho
não respondo a perguntas não me justifico não presto contas a alguém não confesso minhas faltas vou volto parto e fico comigo não vai nem fica ninguém
não sou de parte alguma sou daqui e de todo o lado não tenho nacionalidade nenhuma sou cidadão do mundo que percorro andando
o meu caminho é meu eu sou o meu trilho nasci para morrer caminhando
as horas passam      eu envelheço
os meus cabelos são brancos
os tempos felizes da infância não voltam
ora me levanto ora desfaleço
tenho sangue e lágrimas nos flancos
não me acredito em deus em anjos no demo
passo a passo desbravo cardos e silvados palavras gestos e actos
durmo num catre só meu      a nada nem ninguém temo
meu coração a espinhos lavro
recolho no meu ventre desvalidos e violentados
afogo na barra bandidos e beatos
sigo meu caminho mar dentro
                 navego altivo e sozinho
tendes o vosso caminho florido por perfídias vós os quarenta ladrões que vez à vez ides à missa tendes ilusões rezais o terço ides às procissões viveis das vestimentas das aparências da toleima e da burrice da hipocrisia da impostura do cinismo e avidez
tendes partidos clubes gurus televisões canastrões por ídolos telenovelas concursos e discursos políticos ladrões manhosos cães raivosos e uma bandeira suja de sangue dos famintos e inocentes
sois covardes sonâmbulos e astutos viperinos sabujos vermes do poente
tendes filhos      fraca semente
futuro negro que a si próprio se desmente
sigam-no vocês nessa planície onde o traçaram na imundície
             sigam-no vós gente demente 
eu sou apenas eu      não vos pertenço não comungo do vosso pão não vivo da vossa vida tudo o que vos pertence me aborrece de vós não quero nada que me estorve a passada
sigo o meu caminho de mão dada comigo
sofrido     sozinho 
               o meu caminho é meu
               o meu caminho sou eu   
não me estorvem não digam nada deixem-me passar que nesta estrada vossos passos não cabem e nela é meu lugar
              não quero o vosso caminho
                não bebo do vosso vinho
                  vou volto parto e fico
                       comigo não vai
                     nem fica ninguém

sentia-se que a humanidade acabava
na estrada aérea da galáxia entristecida pela solidão cósmica uma estrela outra e uma outra
labaredas cortantes no superficialmente profundo
folhas vermelhas escorriam sémen dos condenados pela exaustão impróprio para consumo vespertino
a residir nas nuvens amarelas espalhadas no solo degradado um corpo deitado numa rede de ferro a apodrecer ao som de um violino longínquo
ah paganini para que mordeste tu todas as cordas até que restasse apenas uma
um desesperado abria os portões pútridos da prisão racionada
- o racionamento é um mal inerente ao tempo em abundância -
aos delinquentes do sexo pálido e fatigado agora castrados e de salto alto voz fina de menina

era tarde      o sol descia sobre o poço seco da lezíria animalesca
um homem doente gemia paria blasfémias na sombra azul da amendoeira enquanto o mundo adormecia e se preparava para morrer
o medo da noite nos santos corpos imóveis imolados em honras fúnebres
nasce o medo      sangrento      negro a soprar nas frestas do pensamento destroçado ruborizado de vilania e de suores manchado até que o sol de novo brilhe na almofada da erva verdejante do nascente donde jorram os dias

este mundo é antigo
curta vida de olheiras escurecidas pela tristeza do amanhecer
o amor confundido com vultos de mulheres e com o prazer bebido ao alvorar
soldados vendedores músicos de punhos cerrados morrem nas tabernas enfeitiçados pelo nada
                 uma palavra um gesto
                   um sonho tingido
                  das vidas passadas
o mundo está aí com todas as suas manifestações pueris
os prédios elevam-se lado a lado como gaiolas de aves depenadas ou latas de peixe cru
                    tudo fora do prazo
os empregos
- quem inventou o trabalho deveria ser definitivamente interditado –
os transportes a fome as mortes nos seus floridos carros funerários        
mulheres homens crianças velhos nas ruas
   antenas nos telhados      
                  roupa estendida nos terraços
   corações ao alto
missas padres crimes e beatos soldados árvores doentes no centro das cidades        
sem-abrigo e alojado
                   gente que vegeta e corre pelas orlas do esterco gente que se estatela nas sarjetas da palavra imunda e doente
tudo visível e palpável como a porta da adega sem cadeado ou do velho palheiro de furtivos amores

festa na aldeia        
a banda desafinada encharcada em cerveja 
povo que ri dos outros e de si
      povo vegetante     
      labregos em círculo como nos filmes
estou exausto
alguns minutos bastam-me      cerro os olhos tapo os ouvidos com as mãos mortificadas afasto-me da trágica cena
                   sozinho
o meu reino por um almude de vinho

chuva torrencial de paus de vedação
             cai negrume na estação das mudanças
um pai natal dependurado por fios de aranha tecidos move-se
             marioneta desaurida 
              numa velha janela 
                   do que foi 
                um armazém 
          de locomotivas a vapor
dois trabalhadores com riscas de frio nos fatos de trabalho olham impávidos o alumínio da partida
a chaminé tortuosa de tijolo roído perscruta as carruagens-cadáver nos esqueletos dos carris mortos
melancolia das gentes-mala-de-viagem
é pois assim      a vida apita
silva                 assobia
e a fome passa desavisada na linha dois
na dois              sim

não nos podemos acreditar neste país sem dicção zig-zag de conquistadores operários de clubes de proxenetas 
as gravatas líricas enrodilhadas no baixo-ventre de espíritos imundos mercadoria-sombra do mundo cintilante da ganância
palmas e ambição no tapete da filigrana que os lenhadores não podem pisar
uma nova caravana de camelos entra no deserto à gandaia das marés pela porta principal do hemiciclo
               são bento da porta aberta 
                  a tudo o que é ladrão
país de escombros
para além das estrelas grão de areia no mundo o latido de nortada de monstros horríveis no tempo que esmorece no cárcere do coração que entristece no choro da casa oca
ergueu-se a bandeira da democracia na madrugada hasteada por débeis recrutas vindos de terras de ninguém
canhões ao sul apontados ao paço e obuses envolviam o cristo sem vida a mirar o rio
caíram poderosos caíram no fundo do lago onde por burguesia mágica nasceram abolicionistas aos milhares novos predadores de carne fresca retalhada em invasões antigas a limpar o ranho nas mangas dos súbditos das pobres vielas
risos de criança abrem-se nas sombras das árvores recordando as vigílias de fé torturante da idade das pedras ruivas sem nome
pertencem a uma instituição onde os orçamentos são gastos em pó negro montes de areia uivantes clamam por corações sedentos de rosas e frutos sinistros na luz de lanterna sombria
                              espoliados

                       afinal quem é ladrão
                     dirigentes governantes
                    que estão fora de grades
                    ou os que estão na prisão

uma voz betumada sobressai esganiçada
cana rachada nas gengivas em sangue escuro e agravado por aderências asquerosas seculares
           e a voz absorvia os sorrisos inocentes
folhas caem no pântano em tróia
cadmo à pressa se vestiu no sono profundo
oh pára de falar dessas mãos de vento com quem conviveremos chegada a hora
as plantas altas de seda verde corroem os nenúfares dos cumes desertificados na manhã orgulhosa de bico pontiagudo
os espíritos planam nas vias estranhas dos resgates das determinações lamacentas e inefáveis
          e nós estamos aqui a reinventar a vida 
                       afáveis como vermes

presa a agonia os pombos voam 
                              nas sentenças 
                         se reconhece o poder
                            dos usurpadores
com a morte diante deles à beira da última embriaguez
as cabras apascentam-se nos cérebros transparentes
o cabelo em desalinho da caminhada à porta da estalagem 
              o cocheiro do inferno impassível sereno indiferente    
              seria a sua última viagem do dia maculado por torturas animalescas 
                         estava frio 
                                         mas não tremia 
habituado que estava ao calor equatorial e aos gelos do árctico levá-la-ia uma estridente facada no coração desferida por cliente ocasional demente como todos nós
no fundo da terra nas trevas negras das profundezas os vermes já clamam por ti
chamam-te até à terceira concepção
tu vaca de basan que negaste ao pobre animal injustiçado a vingança do que é justo
na tua iniquidade amaldiçoada sejas até à terceira geração

operários descem a rua de santa justa alheios aos comentários das páginas cheias de garatujas negras desconhecendo que são lixo internacional

sinto-me a chegar ao fim na impaciência das árvores ondulantes
na margem do rio um pobre mulher lava a febre dos filhos de ricos em culto gestual tão ancestral como a sufocação dos escravos náufragos de abominável caravela 
                       morte maldita
só os pobres têm alucinações tormentosas de amores ao rubro
os ricos      esses      com prudência 
têm visões mediúnicas inspiradas durante as exalações donde comandam as cordas gastas do relógio da indigência  
selvagens modernos que condenam os irmãos a morrer famélicos 
as cidades alimentadas de seiva ornamental amamentam manadas oblíquas e transviadas de seres ausentes fumegantes seminus a esmiuçar o pântano da avidez
os selvagens modernos não são como os de antigamente são canibais castrados a arrostar a pior das prostituições no ego massacrado por falsas rebeliões
                  muralhas do tempo
as crianças são cruéis
algumas são monstros de rostos pálidos perfeitos angelicais ruínas bárbaras de bosquetes encantados por duendes e semideuses
crescem no movimento dos milhafres imersas no êxtase fatídico de palácios submersos 
aquela isola-se aquela canta aquela outra discursa agonizante
estiradas no lamaçal construtoras de mundos de carvão e papel fosforescente galgam caminhos eivados de tempestades e pedras preciosas em vigília permanente
adormecem no pesado sono do infortúnio vagabundeando de sonho em sonho e acordam na fraqueza das cidades moribundas onde roídas são por vermes lacustres da ambição
sem remorso sem redenção
as mulheres desfilam nos desejos recalcados sujos de impureza palpável das poluções nocturnas do último eléctrico para a baixa inundado de esperma viperino
a câmara dos comuns espuma pelas ventanas opacas o misterioso anestésico da abjecção esventrada
os homens caminhavam pesadamente para os campos descarnados
do nascer ao pôr-do-sol erguiam pesadas enxadas sulcando a terra mãe impiedosamente
chegada a noite adormeciam aconchegados por um caldo quente
tudo conformado ao poder e força dos braços tisnados até a miserável refeição
na televisão ainda a preto e branco intrigas e ardis políticos mentiras e jogos de poder justificação deplorável da fome do cavador
             e eles não querem saber 
                   dói-lhes o corpo
                 apenas adormecer 
                com a fome de hoje
                    amanhã se verá 
               o que tiver de ser será

a dor de cabeça que me não abandona paira no ar e esmaga os pensamentos com seus braços férreos
as visões permanecem em ziguezague contínuo
          turbilhões de imagens novas 
          o sossego nu do corpo 
          na cobertura de guarda 
          ao rio hoje mascarado 
          de cinzento 
          contrasta com a 
          quase insuportável 
          pressão da besta na nuca 
          não suporto o riso dos idiotas 
          a esperteza macabra dos trapaceiros 
          a mentira dos burlões 
          os tostões dos charlatões 
          a estrangular os simples
o planeta estanca estala fende-se pelo meio corrompido e coroado de demónios dói este cansaço e esta dor a quem se não decida pelo veneno em taça de prata o inferno salta festivo em toda a parte abominável com crostas ósseas virulentas um homem-de-sete-cabeças percorre as ruas subterrâneas da cidade queimada a enxofre de rastos os seus iguais imploram nas preces falsas e submersas o perdão de terem nascido pecaminosos
         eles causa negra e directa da misantropia  

às vezes em dias mais cinzentos que o próprio cinzento detesto este mundo
                mas nem sempre
quando o detesto não penso em suicidar-me penso que deveria ser só para mim e que quando eu morrer não deve continuar

pobreza envergonhada
no bairro dos subúrbios envelhecido pelo ócio pelo tédio pelo sem-sentido dos passeios vulgares irregularmente calcetados nas noites de inverno sordidamente ornadas por insónias num mar de chamas e pela cólera das famílias famintas

balboa é a terra à beira do último dos precipícios do universo      há que saltar para o vazio dando continuidade aos passos inacabados e começar os que nunca foram dados      balboa é um marco de fogo na escuridão da noite terrífica a candeia que ilumina o cego a vara que penetra a fera o medo transmudado em coragem é a determinação absoluta que afecta a dúvida e a quietude      balboa é a única acção na senda da vida e da morte

milho seco entre canaviais      cavalos esqueléticos pastam restos de verão
à beira do rio águas paradas de verde-sujo alimentam árvores sobrepostas em crescimento selvagem      um imenso silvado invade uma courela
uma casa destelhada é o centro dos escombros
                a mão pérfida do homem
                       ceifou a beleza 
                   natural da paisagem

naquele tempo
havia o café da praça      aí se juntavam os pensadores e poetas da vila ribeirinha
discutia-se o universo na cabeça de um alfinete um universo espantoso a esgueirar-se colossal para a cabeça do pequeno alfinete de costura um universo infinito a nascer desse ponto minúsculo já infinito fantasma quente dos tempos que não nasceram com o big bang
tinham existido tantas explosões quantas o infinito e a eternidade comportam      o mundo era a bola da eterna-criança a rolar alegre vistosa colorida em todo-o-sempre
os filósofos serenos com as mãos pensativas nos dedos expressivos do rosto      emudecidos
os poetas escreveram um hino à eternidade e ao infinito
um hino que ninguém entendeu nem mesmo eles poetas
           hoje já não existe o café da praça
              há a solidão da minha casa 
             e das deambulações poéticas 
              e metafísicas sem combate 

não esqueço aquela que  morria de saudade
pobre velhinha na aldeia deserta
o filho partira e era doutor na capital
casara com filha de ministro era cunhado de cardeal e agora esse pulha tanta vergonha tinha de quem fome passara para que fortuna tivesse
morreu sem que o filho a visse agonizante 

                          na grécia
um cão vai à frente na manifestação      sabe o que quer      por cá nem cão nem gente
                    terra de boi manso

                        estou cansado
pareço ter esgotado todas as minhas possibilidades
             este mundo já me não seduz
prefiro 
         amar
                 amar
até que a fadiga final me consuma com uma rosa branca na mão direita e na esquerda um cravo vermelho
                    a esperança no coração
                           em carne viva
                        até que seja cinza
este mundo desgasta-se                                               
                                                                                          como a corda dum relógio
relógio varrido por borrascas alimentado por fogos-fátuos por combates na planície gelada

relógio atormentado pela saudade do velho soldado
nas trincheiras
relógio de passos pesados lúgubres da idade da fome da melancolia
o relógio
           uma arma
    uma fotografia ao lado
      uma lágrima pesada
plangente
de sangue suada
                        e a dor pontual
                sempre às mesmas horas
                   num relógio avariado
anoitece
a rua está severamente calada
a penumbra de uma árvore estremece a calçada de cujo ventre nascem pequenas flores e ervas de dias contados
serão calcadas ao amanhecer pelos viajantes da alba que habitam as veias rurais da aldeia onde a primavera palpável há muito atravessou o ocaso
na casa de granito da quina do pátio uma voz de criança com um pedacito de pão nas mãos imaculadas
diz-me avó      onde está o avô que já comigo não brinca
ó criança encantadora já cá não está morreu sabes e numa barca ornada a oiro partiu para o céu onde brinca com jesus com sua mãe maria e seu pai josé
volve a criança de loiros caracóis      se assim é deixa-me ir também para o lugar onde está porque aqui na terra já me aborrece brincar com esta gente sisuda e má

senhor      traz a adaga
confio-te meu braço e a minha alma para que faças morrer os fantasmas de satanás nas trevas do poder e nos livres deste langor antes que gele e vente ou à flor da pele raiva e ódio adormeçam e por vingar fique esta pobre gente
                       que à fome morre 
                        e à sede desmaia
                  em abandono permanente

corre menino
corre      atrás da bola
                  enganado
sonha agora
                  que quando grande fores
                 não serás famoso jogador
                      mas desempregado

já os operários passam fome
gemem seus filhos choram as mulheres e de honestos em ladrões se transformam
o sangue da revolta escorrerá brilhante aos pés da estátua de três braços dos mandantes amordaçados ao relógio das horas negras do marfim quando a lua em crescente mergulhar no sono a oriente

a multidão era uma aberração quase sempre o é
amontoavam-se nos transportes públicos como quem quer apalpar e ser mutuamente apalpado
gritavam impropérios nos desfiles contestatários da fome invocavam filhos e netos odiavam governantes de expropriações recheados a moedas acumuladas na venda dos mártires
era a revolução do seu próprio e feio umbigo alimentado a cotão imemorial dos seus instintos mais vilipendiosos destruição dos reinados da fraternidade sepultados no esquecimento dos valores em jazigo a céu aberto
a multidão erguia a sua espada romba contra a aberração a sua própria aberração há muito desviada do seu fim natural casada com a cínica fome do ouro e dos dinheiros
          seus deuses primeiros

de braços abertos regressou a minha adolescência cruzando o espaço das casas caiadas com resíduos de vento
      os lábios florescem numa primavera tardia
lembro o peso dos olhos os fragmentos das cabeças envidraçadas o infinito adeus à felicidade jorrada nas sombras do vulcão em forma de quilha
vejo fotografia a fotografia do álbum polido e bordado a flores silvestres guardado nos tições da memória
um murmúrio é esventrado pelas garras da solidão fragmentada
a vida é um nada      um teatro de olhos oblíquos montado na margem de um rio seco
os tempos mudam
o hálito da terra não é o mesmo nem as origens do mar
vão morrendo velhas palavras de honra crimes de sangue vivo que almas lavam
a aldeia tem menos homens para ensinar as crianças em extinção e homens que homens sejam já os não há ou talvez alguns um pouco mais talvez
assim morre a palavra o forte aperto das mãos gretadas com as veias salientes nos braços a servir de testemunho e a dispensar o tabelião

não alcanço o entendimento das sensaborias da frivolidade      o prazer da discórdia a aura negra das salas escarlate dos comensais de grifos tudo arde de invídia na idolatria da substância brutal 
                   paganismo da realidade

lastimam-se como animais acorrentados na mais pútrida das masmorras      no dorso vergado o pesadume de todos os pecados do mundo
oh o vaga-lume da autocompaixão queixume depresso da insatisfação      aziagos do nada no reino do tudo      infortúnio da vontade conveniente apeçonhentam a placidez aquosa dos aclamados cobiçando a concórdia como se o espírito se dissolvesse na matéria anelada
franzina é esta gente

naquele país a música tinha dentes brancos sem culpa ou pecado      sorriso de perfeita harmonia cercado de prodígios
na melodia do sacro recinto pesavam-se corpos sóbrios e untuosos 
    contávamos as estrelas em noites de lua nova
                   terço do sagrado coração
               em cada arvoredo uma canção

nenhum homem experimentaria nesta vida tão dócil prazer      nenhum rei de terras alheias adormeceria plácido à sua sombra      adeus noite passada     cidade onde nasci vielas onde me perdi
uma coroa debruada por larvas no corpo exausto da verdade santificada e aquela ave como lira alienada a cada nota exalada suspirava a vaga essência de alma onde já nada respirava

como é vil e rude o soberano que transforma em oiro as tristezas novas e velhas
midas a fera do lugar nubloso onde se não pode amar a riqueza
um corpo nu chora o sangue dos prazeres da caça
dons angelicais de criaturas aladas embriagadas de solidão
remos quebrados nas margens da carne cinzelada em triste brilho
quando o sol ainda longe vinha
frenética vida presa às narinas dilatadas das ruas desertas

naquele momento fugaz os lavradores detiveram-se suplicantes perscrutando a vontade dos céus
indagavam o infinito daquele imenso lameiro a irromper selvagem do seio da terra-mãe
perturbados     
               alheados ao mundo     
                                         com marcas de fogo nas sacholas que grasniam
pulmões aumentados apontavam a dor do horizonte insaciável
nunca haviam lacrimejado
dos olhos pássaros feneciam nas flores desfeitas

o credor nos umbrais enquanto na colina nascia mais uma primavera
o muro de pedra solta testemunhava os lugares remotos de peregrinações obsoletas
aí folgavam as raparigas em melancólica alegria
lugar onde por gosto cada trabalhador suava e sem pejo mataria quem tão lentamente o matava

sangue do sacrifício
em negro altar nem rei nem nenhum deus para a salvar
as correntes ferruginosas comprimiam-lhe os tendões tratada como se tratam os mais pecaminosos ladrões
que crime cometera tão branda criatura face delicada dedos de ternura crucifixo ao peito apertado 
          ter filho bastardo

país de cinzas convertido à loucura da ganância
exaltação de passado andrajoso jamais apagado dos costados dos negreiros
ovelhas tresmalhadas num mar de oiro falso e especiarias em chaga
os lumes apagam-se nas salamandras da penumbra
um tresloucado percorre a viela cantando glórias e aleluias        
          coágulos de penitências ocultas
os carros dos emigrantes de barrigas lustrosas pavoneiam-se pela aldeia
o povo calado e os governantes a banhos nas praias do malogrado império
            agosto é mês de miséria

há dias que o céu não tem luzes      a aldeia dorme tranquila      os olhos fechados como casebres doridos pela serrania isolados
os pastores foram-se      esses loucos tão simples      homens de deus e criados de senhores      coitados
conheci tantos com as suas flautas celestes e terços baratos encomendados aos peregrinos
as cabras tão doidinhas e as ovelhas deitadas à sombra das oliveiras
sonos de palha em casebres esburacados tendo por soldo um prato de caldo e outro tanto de soro
os cães esfaimados
no inverno sempre molhados
ao domingo confessavam em silêncio os seus pecados      a alguns vi-lhes a escorrer pelo rosto grossas lágrimas enquanto comungavam o corpo do senhor
de tão solitários sabiam que deus via tudo o que faziam e sabia todos os seus pensamentos e que a solidão gratifica os pobres quando os sinos em uníssono dobram a finados

para além destas paredes é tudo tão visível tão claro tão sensível
passo através delas para penetrar na praça sórdida onde habitam os pombos da mendicidade
os mortos-vivos fosforescentes em fogo-fátuo da cidade 
vivo no ventre dos meus pressentimentos sem razão
e há o terraço sobre o tejo onde me apoio para ver as caravelas do mofo capitaneadas por velhos negreiros pardos e há esta pressa absurda de fazer coisas de modelar as ideias ao meu peito sequioso descobrir novos mundos nas costelas salientes das algibeiras esfarrapadas pelo arcaico grão por germinar
os pombos dormem no meu ser imerso na insónia de frio húmido
acendo uma vela para afugentar a escuridade
         candeia de alma desordenada

alguém me diz que se sente só 
ele há tanta gente só por essas calçadas encardidas da vida 
a solidão não é uma doença é a vereda do insondável calcorreada em noite de lua nova é a chuva que lava os campos da imaginação e desvanece a indignação dos injustiçados
  mais logo o dia despertará pleno de rostos cansados
mercados abertos aos ventos da agonia e do desprezo orgíaco
um novo dia um novo pão e o mesmo café na esquina do bairro amordaçado
a melancolia do gesto ritual no primeiro cigarro do amanhecer
               uma nova viagem

                      mas sempre sempre
                 esta vontade imensa de viver
                      em tempo escasso

quando a sombra da morte vier com seu séquito imperial ostentando negros e sujos estandartes de devastação fazendo tombar no meu frágil dorso o lodo ancestral contarei os dias desfiando o rosário da memória envolta no manto desprezível da vida absurdamente sumida
procurarei nas multidões o anjo do amparo
segurarei sua mão fortemente para que não mais me abandone aos horrores terrenos enquanto vós falsos amigos me ireis levar em oscilante ataúde para o pecaminoso cemitério do burgo
                    as luzes expiram
                    agora dorme-se
                   sono sem sonhos
                    morte em vida
para que na morte possa então sonhar com novo mundo nova vida tudo do tamanho da palavra amor
e a vós falsos e tristes amigos de ocasião chamados ao derradeiro instante irei olhar-vos com a brandura de uma partida sem o azedume de tão curtas férias

vale de flores
um dardo negro esvoaça do beirado
de sol a sol encontro o assinalado com a palidez da morte
homens de outrora saudavam o cuco com as suas enxadas tão pesadas como canetas de tinta permanente vermelha a escorrer     
cai uma telha do cortelho
tinha sido um soldado exemplar
cruz de guerra de segunda
agora humilhado a cavar      vigiado pelo feitor de bata preta
          sim senhor prior mas a terra é dura

ignoram-se paraísos
corações esmagados por ídolos de madeira
o peso da minha dor sentado na cadeira de braços triturados
roída por verminosos ratos

e as intrigas
ouve meu filho      e tu meu amigo estelar      vive e deixa viver      rejeita a carcoma
quantas vezes mel 
                      ou é foda ou canelada
conada de palrador 
                      gerado em viveiro
que se erga o pregoeiro no meio dos corpos santos     se os houver que levante as mãos ao céu quem as tiver
cinzeiro de prata efervescente     
                       porteiro da morgue
não há quem lhes toque 
e o umbral da porta
             em dois versos se abrange 
                  o mundo por inteiro

ao amanhecer
a rua estreita com o céu entaipado a chorar o orvalho do rio vazante
há uma janela que se abre um portão estridente
uma lancheira transporta um obreiro com fato de macaco azul pardo dolente e vazio
uma varina
um cabaz de peixe prateado tirado do frio da cave e vendido nos subúrbios como agora pescado
um jovem marceneiro
noite mal dormida no calor de vendedeira abre a porta da oficina contrariado e mal pago
                    e a cidade move-se
                          pestilenta
                     num grito atroz
                   a angústia cravado

atraiçoaram-me
desacertaram quando neste mundo me fizeram nascer

mais errou e pecou
- mesmo que deus tenha sido -
quem quis que minha mãe à luz me desse neste país
crescem riquezas de favor suborno corrupção e há criminosos a sorrir às portas dos tribunais ombro a ombro com seus pares circulares pais de hedionda governação
geração apodrecida por si mesma protegida e recompensada enquanto os justos vivem apedrejados
tenho vergonha
                    de mim
                              por vós
por ser assim pacífico e quieto
                   sim
                        vergonha tenho
    e por vezes o alento de viver me falta 
    num país onde a pobreza é justificada
            pela riqueza encapotada
país definitivamente condenado
            impiedosamente rodeado 
                     de iniquidade
ouvi
estou cansado farto da falta de coragem para com punhal matar um regime pelo esterco aspergido e subjugado farto de cobardes palavras do erro da mentira da hipocrisia onde a palavra honra foi de morte ferida
não sou português
pertenço a um outro mundo      meu o meu mundo
- que cada um tenha o seu se o quiser -
indo para onde o vento galáctico me leve se bem se mal não sei
mas por favor
         para portugal
               não

mártires das revoluções
dos revolucionários de ocasião
os pobres      rebanho de cordeiros assobiado a juntar cabeças como nos cabeços da minha aldeia
                   em triste fado cantados
                 pelos poderosos do capital
                      predadores do suor
                 das misérias democráticas
                    das praias de portugal

corpos que deslizam nos pátios de pedra 
                                    anjos azuis volantes
                 nas asas do símbolo em labaredas
         amores de redentor a definhar
morte que encarcera o coração da brisa fumegante
descompassado histriónico leviano
aguardo pelas idades sobrenaturais dos esquifes metálicos das cavernas superficiais nas bocas transparentes de vidro transluzente
          ausência
                     ausentes
                                  da vida
                                  do viver
correm os astros ínfimos históricos na direcção dos resguardos e bolsos
sangue a tremer na escuridão lazarenta dos poços por explorar pelas mãos de ouro do prestidigitador
                        barcos azulados
                 que nascem todos os dias
                      rio abaixo rio acima
na solidão quente do inverno e fria no verão
      passa o corso
                      as raparigas despidas
                         botões amargos
                       reluzentes umbigos
sorrisos
o povo grita     salta     ri
toca a gaita maria amanhã já não é dia de tanta alegria
         morre a folia

age a natureza pela paciência     como é estável e firme nas suas persuasões
        capciosa
                caprichosa
                       bicho-come-bicho
                      gente-come-gente
               e a deus não lhe dói o dente          
dragões voadores planam nos céus     temente um tenente de cavalaria monta um cavalo desossado por cima dos ossos de nossos antepassados 
os que voejarem para altezas inóspitas e ignotas renegando a prudência perderão a constância capitulando no vale dos mortos     
          ah venezas submersas de malfeitorias     
                      amásias de ancião
o mais penetrante do abismo cavado e negro     profundez da escuridade
enviesados retábulos de infernos ancestrais     
na mão esquerda o purgatório que a direita se afunda na lascívia     
feitoria de são jorge da mina padroeiro das escravas traficadas
                violação em terras de portugal 
lagos     mercado de escravos     leilão de dentes e desdentados
                 cem moedas por uma virgem
sempre fomos negreiros e mendigos     bastardos históricos e delinquentes geográficos
o que haveríamos mais de ser
                       somos o que fomos  
aqui ficam os desacautelados aferrolhados
o símbolo das árvores debruça-se a oriente
uma oliveira na distância veste-se de musgo
a barragem manchada por minúsculas ondas
no canto oposto dos bancos matizados de laranja uma loira debruça os seios nas novas tecnologias
uso papel e caneta tal como os meus sórdidos antepassados
a letra salpicada de borrões      sem linhas ao sabor dos carris envelhecidos
este mundo-novo confunde-me
instantes passados perdem-se na juventude do tempo
pouco falta para que me evitem os que evito
pouco me importa      pouco
desde que o sol aqueça os meus ossos e o silêncio da noite adormeça com suavidade a minha alma errante

esta chuva de verão que inunda os campos secos do coração condensa-se nos ais da porta em frente
é como gente que volta e parte
gente doente e tão triste tão demente sem qualquer ofício humano que a represente
                        gente que repousa 
                   em leito húmido e quente 
                no mesmo hospício de sempre

falar de todas vós é falar da falsa esperança
lamparina baça no caminho sinuoso da partida e da aportada
           de quem nunca quis outra coisa
             chamem-lhe o que quiserem
                       até tonto
              senão ser como o vinho novo
                     ser bebido
                      e pronto

a chuva escorre límpida nos beirados que o sol constrói na cidade
transeuntes atropelam-se
fugitivos da vida com guarida nos subterrâneos iluminados de rostos doentios
o burgo fica deserto nas almas estranguladas das ruas alagadas
conspurcadas pelo fumo dos intermináveis cigarros da angústia
o transporte para um outro mundo tarda
carris enferrujados dos sentidos execráveis
das sensações duvidosas de corpos alheados da emoção cristalina da generosidade
dois homens à porta da barbearia
os seus olhos directos  absortos nos anúncios pecaminosos dum bazar chinês
                     onde tudo se vende
vê-se que não pensam
porque se pensassem não estariam à porta
entrariam
e sentados no recolhimento dos cabelos espalhados pelo chão
meditariam numa existência similar a uma peruca
ligeiramente encaracolada
             a enfeitar a boneca rosa oculta
                       na vitrina chinesa

parto      náusea da partida
feral e ansiosa a chegada
envelheço sem a cidade afrontada a meus pés agora que a desejo esmagar
                verme da repugnância
              lodo imundo a deambular
                       no negrume
luzes desertas flutuam nas linhas brancas do asfalto
áleas tomadas de assalto por aprendizes de curandeiro nas noites doentes com dardos de luar

nós mesmo velhos ainda decidimos querendo no recato de velhos bares bolorentos o esqueleto por depurar do país nocturno a naufragar
sete horas no relógio da torre      o ar enegrece
as lareiras fumegam cantantes

na almofada branca os habitantes da cidade tomam o veneno da comunicação gritam às línguas de fora dos filhos e pensam como é bom e saudável estarem zangados tristes vivos
                                           os asnos

nua naquele bosque sombrio
ave imersa nos carvalhos negrais de luz coada
um sabre percorria o húmus
passos de soldado na bruma aquecida olharam-na indiferentes
              o sangue palpitava nos destroços
            um generoso abeto tapou-lhe o sexo
os cabelos entrançados ganharam raízes na profundidade virginal
e os seios retalhados amamentavam filhotes órfãos de chacais
              corpo violado a renascer

na gare deslizam incógnitos os passos do homem-azul
no velho banco da esperança um sem-abrigo sorve o resto do resto de um cigarro
enquanto olha indiferente as pernas delgadas da jovem cor-de-rosa
uma mulher carregada por duas malas adverte as crianças sujas      não se afastem 

os olhos brilhantes de uma menina fitam-me
abstraída dos passageiros de limpo vestidos por cima da alma de esterco
corações defecados na viagem da vida
             adivinhará o que penso o que sinto
                     da revolta o meu grito

mais um velho      um mais da minha aldeia foi hoje a sepultar
o cemitério apinhado de membros desfeitos nas recordações perdidas
as campas graníticas descarnadas sorvem as lágrimas da saudade
aqui e ali os idiotas que pouco ou nada aprendem com a morte e com o silêncio da morada derradeira visitam os túmulos frios da madrugada solenemente beijada pelo orvalho sangrento deixando nelas o pranto da hipocrisia
    água de pérfidas faces sulcadas pelo remorso
  água que não lava nem alivia o jugo do pecado
    água-de-olhos sujada e em vão derramada
candeia acesa na terra onde fui nascido
aí conheci a honra que é palavra de sangue quente
o rio do sofrimento é um sonho repetidamente sonhado nos antigos lençóis gelados
o sono o túmulo por momentos emprestado na corrente contínua do movimento galáctico
lagos geados esvaem-se em cândidos sorrisos que aves migratórias carregam nos dorsos arrijados
pesados fardos em motim de mareante exausto
o passado mergulha no esplendor magnífico do palácio da aurora e acha-se sem remédio desmandado na corrente esquiva e borbulhante dos dias
       rosa que murcha na paixão do crepúsculo

corre veloz a sombra do miúdo enfezado
na gare os rostos cinzentos dos passageiros trocam olhares assinalados pelo agastamento
um sino dobra a morte de um enforcado
enquanto pequenas gotas reluzentes olham pensativas o chão de mármore já se afunda na terra vermelha o corpo do réprobo
fecha-se o ádito do sorriso em compasso de cegueira
em verdade vos digo pequenos grifos caseiros
com a última erecção do enforcado veio a fome oscilar em armada de barcos de papel
tristes lusitanos

nas praças-fortes os donos dos grémios das igrejas e corporações incineram as ilhas metodicamente obscuras como capitais escondidos no ferro das panelas de três pés
metal fundido 
                  liberdade 
                            igualdade 
                     justiça
              comidas pelo mar
sepulto as memórias com mãos arenosas a cuspirem fogos límpidos cruzados de azul no desar estrídulo da cruz do céu em trevas ao anoitecer
que benéfico é adormecer leve e ousado inocente pacificado sem ser manchado por pecado sem ser bandido governante malvado ou pobre infeliz 
                    sonho de supernova
                      estrela nascente
              a varrer o universo demente
que querem
que vos ame doidamente num berço de prata e vos escreva versos doentes
os cães uivam lá fora
gente ordinária faz amor como cães
cheiram e lambem os seus próprios testículos
carnívoros eróticos alucinados
fadistas
e contorcionistas
património da humanidade venal
que querem que vos diga
que sois os eleitos os mais-que-tudo o tesoiro da civilização que por todos os poros cinzentos vomita o fedor da morte que ladra furiosa às plácidas túlipas
há gente em pedaços a olhar cores dilaceradas do prédio com as janelas quebradas a surpreender a velha prostituta e a exorcizar os esqueletos dos fantasmas góticos
que quereis
um novo reino masturbatório viola a herança das mil e uma noites designada por um trouxa que não renunciou à frase singular profissional e politicamente marcante
                  ide à merda oligofrénicos
                      disse o meu coração 
            contrariado pelos remorsos da alma

cavalo branco
o pântano das noites floridas agita-se nas patas aladas que se debatem desesperadas
um grito e o seu eco na salvação do rosto encoberto
pureza do ocaso 
rectidão suicida dos animais conhecidos neste mundo desabitado de corações
           unhas ferozes do medo
já nada há para criar
diz-se que a criação se esgotou nas alamedas sombrias da solidão e nas insónias dos arbustos chamejantes dos jardins devolutos com as suas flores vadias a variarem as cores que ninguém vê
erro de eternos-condicionados
posso criar palavras cujo significado só eu conheço e depois esqueço
posso criar um dialecto novo tão incompreensível quanto o mistério dos mil-e-um-mistérios
posso erguer a voz num priapismo incontrolável e sem circunstância final
posso rolar pedras desconhecidas nas telas e frutos imaculados no papel oleoso dos dias
posso moldar corpos disformes no mármore antigo de todas as mulheres nuas
perfume dos antigos pintores
       posso tudo por não possuir nada
                 posso recriar-me
       homem novo a criar novo mundo
       num novo deus de novíssima arte

    chuva da noite passada na reclusão de inverno
em profundas raízes floresce o meio-dia das estrelas
                         não durmo
a noite espreguiça-se com os caninos semicerrados deixando a rua enlameada e triste alheia ao ribeiro de águas mornas e pacíficas
o mundo não é o que nos parece e muito menos o que de mãos postas nos promete
no odor dos pinheiros resinados em florestas imensas está o tempo do amor fértil que se esgota
a fronte que sangra sobre o castigo do pecado esgota pérfidas lamúrias 
obscurece a nuvem ardilosa que esculpida se desdobra em lento voo
no meio do grande oceano nasceu uma ilha
desenhada na memória das fantasias dementes de incríveis descobridores e dos seus imprecisos portulanos que em busca da fama e de sinistra imortalidade escavam nas faces engelhas doentias

a beleza só brilha depois do fogo-de-artifício ter purificado as formas 
ou na separação que à noite enfloresce nas almas das rosas bravas

o vento em fúria atesta ao mundo odiento que os loucos dias da infância não hão-de terminar jamais enovelados no cordão matinal de orvalho
luz que me alumia durante o dia
carícia que adere à pele tempestuosa do escurecer
quando partes o destino torna-se detestável e o novo mundo abominável
nas galerias do coração vagueiam línguas de fogo colorido
amanhã não te terei nos meus braços
as barcas passam furtivas em noite de lua cheia inundando de azul ciano as carícias rosadas e adormecidas pela brisa quente do beijo suado
prolongado é o arrebatamento do pássaro equatorial   ventre de insónia silenciosa
a água está tépida como sangue de verme esmagado nos sepulcros abertos da civilização burlesca da baixa pombalina
movem-se corpos por entre corpos frígidos opacos indiferentes à beleza da alma circular e das linhas ondeadas das fêmeas ciosas
            neste país não se ama
            pobres bestas-de-carga 
esmeralda viva de olhos cheios de sílabas acres
sentara-se de pernas cruzadas na janela cruzada de carvalho
abrindo a alma ao botão das horas lentas
o caminho todos os caminhos se afastam
minha jovem amiga o tempo é de repouso circunstancial
não se apressem para a cerimónia      os sinos tocam
o punho da saudade ondeia na neblina das esquinas de bafio e pó
sem vergonha e medo proporcional à inutilidade patente da senhora justiça homens de fato cinzento entram no salão do destino legível como se aí antro de estátuas cobertas de musgo olhar de aço em vaca cega estivesse a salvação de penosa humanidade
porcas tarefas deste mundo
quem abre a janela por uma vez que seja em suave voo lerá todas as paisagens beijará a boca do próprio beijo
neste tempo de escuridão que se cala e adormece no peito ofendido dos oprimidos odiosos são os tronos dos mascarados

a vida é um organismo sem partes     não é cientificamente asinina como a medicina e os jumentos de coleira ao cachaço que deambulam desdenhosos pelos corredores do sofrimento certificam
           os ranhosos nos seus néscios inchaços
nem daqueles jurisconsultos de algibeira rota sendeiros e mulas rançosas sem eira nem beira cuspindo no prato que lhes foi ofertado     
tudo isto me lembra uma puta que puta me chamou   
a vida
saboreia-a quem é aliviado do ódio e do amor dualista 

a pluralidade engole-a sem mastigar
cães famélicos desamparados à sua amargurada desdita
                uns consomem-na 
        outros são por ela consumidos
reproduzem-se os esconjuradores as videntes os mezinheiros e áugures
associação de demónios em país de mau-olhado     povo indouto à beira-mar agricultado

estás longe     não te oiço  
o vento traz nas suas mãos crestadas o sim audível de saudade meramente esboçada
encantamento     ficção do jardim verde de maduros amores
na solidão afectuosa reside a paixão
              não estou a favor nem contra ti
             apenas amorosamente indiferente
                   cada um que vigie por si
há que estar em rematada quietude     mesmo na horda mais abjecta da cidade em chama viva 
indiferente ao ruído dos sexos arvorados penetro a essência do pensamento
daí ocorre algo      não sei     
sinceramente não sei que ser ou coisa provoca este magnífico e indescritível estado de alma
nem sequer é importante      marcante sim é a paz que dele advém
indispensável é que não amotinem a minha pacificação
               preparo-me para a reclusão
não sou deste mundo e se sou não o quero ser
               sou de além civilização

no terraço mágico as estrelas da vigília da noite passada
a brisa inconstante arrefecida pela canção do oceano
os corpos agitam-se para leste ofuscados pelo vinho quente da miragem amornada das luzes estonteantes e irregulares
           sexos inertes de tão exaustos
            geração de fraca penetração
                 impotência de eros
erra na penumbra ondulante do parque dos inocentados
membro dobrado que nunca se achegará ao fundo
são miúdos     fezes do mundo

amigo     meu velho amigo
estamos sós sobre a alma deste mundo
há fanfarras tricolores que derrubam cravos azuis nos peitos das viúvas      
       concertos       
                     órgãos nostálgicos
       espectros que migram da terra da névoa
no soalho acamado um retrato de formosura a servir de poesia 
à melancolia
desce a bondade de seu pedestal
      enfeita-se o ressentimento
                inventam-se mendigos
                         vem amigo
       vem sucumbir nesta tarde perfumada

a cidade está suja     o fumo cai na nudez das estátuas
             trabalhadores estéreis
             homúnculos sem cabeça braços de vidro acotovelam-se como ratos cariados nos esgotos putrefactos
             sepulcros da vida vagueiam alheados nas ruas pavimentadas a patético suor
        há um fogo aceso em cada corpo fedente
as igrejas parcimoniosas estão dissimuladas a sacrossantos ícones
apenas umas máquinas japonesas de fazer imagens distorcidas escorraçam os pombos enfermos e as prostitutas do entardecer 
as frontarias desérticas lembram o cristo antigo nas chagas das pedras amarelecidas de nicotina
            sórdida mudez clama por parceria 
            ninguém desce ao inferno sozinho 
           há sempre um anjo por companhia
as saias curtas os calções rasgados da moda provocatória os olhares impotentes da senilidade poisados nos seios quase descobertos 
         finos odores de corpos prostituídos
      o coração das fachadas descompassado
            as almas dos templos ausentes     
     pedras que carpem a grosseria dos tempos



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