Este diário complementa o nosso site pessoal

( VER ETIQUETAS NO FIM DA PÁGINA )

USE O PESQUISADOR DO BLOGUE -

-

OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 26 de abril de 2018

PEQUENOS POEMAS V



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



as noites de inverno
são longas e frias
a menos que se faça amor



***



uma gota de orvalho
na orelha do cão adormecido –
como está velho o meu amigo



***



partir
     para onde
                
                apenas

                   ir dum lugar
                   para outro
                
                voltar
     ir e vir
vir e ir



***



o paraíso à noite
é iluminado
por pirilampos



***



domingo soalheiro
gente que sobe a avenida
gente que desce –

                    quem são
                    donde vêem para onde vão



***



teatro nocturno –

no telhado
gatos brincam ao amor



***



ouve rio
      que arrastas tu
            na tua correnteza

            a beleza
            que sempre muda
            e nunca é a mesma

            ou a morte cruel e amarga
      alheia à dor
e à saudade do amor



***



no compêndio escolar um beija-flor –

à porta do bar
um pinga-amor



***



      noite entrada
            melancias ao luar

                          rapazes 
                          raparigas

            em cestas e braços
         quantas possamos levar



***



uma rua imunda com prédios estereotipados navega ao ritmo do sentido dos veículos

os vivos dirigem-se para o matadouro ao som de um piano desafinado tocado no último dos habitáculos da desesperança



***



um pito
na mesma cadeira
nas mesmas pernas
da esplanada



***



pegada após pegada
no extenso areal
a morte chamava
pelo velho pescador
solitário ao largo
em estreito batel
no mar cavado



***



      uma canção nova
      diz que te amo

            uma canção nova 
            penetra no teu quarto

                    lá fora
                    um cão ladra à toa

            um rouxinol canta
            na senhora da serra

            a cantiga que dorme
            minha alma te doa



***



primeiros dias de outono
na rua fria e deserta
pobres diabos ao abandono



***



ali
na favela

eu
ladrões e

gente séria
sob o mesmo telhado
zincado

com as estrelas a espreitar
pelos buracos



***



no tanque de granito
flutuam rãs
entre os limos



***



a primavera 
sem pressa
caminha nas urgueiras
nos giestais de branca flor
nas pinhas sonâmbulas dos pinhais
dando voz aos chapins
e aos pardais



***



inverno –

chuva torrencial
pássaro sem abrigo
alma sem chapéu



***



decido-me a olhar-te
   já te havia chamado à minha solidão
      o meu desejo é seguir
      seguir sempre
      na viagem do próximo horizonte
   onde reino após reino
  bocas de mulheres 
              me aguardam pacientemente



***



um insecto zumbe –

muitos gestos
para duas mãos



***



   choro e riso
      na casa do lado

        vinho e dor 
           na mesa de azinho

               até quando perdurará
                a ilusão das túlipas tardias



***



uma barca vermelha
                                     no golfo quente
espalha flores de primavera
            por todos os que na profundidade
em descanso sepultados
                     têm seus nomes silenciosos
em algas gravados



***



o vazio é a forma
a forma o vazio

não há contradição ou conflito
na sensação do eterno



***



a névoa dissipava-se lentamente no espelho da casa grande do outeiro        ela dormia indiferente à primavera e às ameixieiras em flor

para quê despertar com o vento azul matinal carregado de orvalho se ninguém vem acariciar o seu corpo quente



***



não posso dizer qual das duas quero tanto quero a uma quanto à outra

o mundo corre depressa para o amante que está longe de todas as flores perfumadas pelo vento



***



na face da minha mão
um grilo –

que ternura



***



áridos campos
vazios

farrapos velhos
imundos

casas entre ervas
e silvados

abrigo de antigos soldados
espectros de paz suspensa

na normandia



***



a gata da dores
      espreita ao canto
                          do adro

      chama-a
                          ela
                              ignora-a

      com cio
    sem dono
    mira a lua



***



um calor insuportável
no hotel –

até os cães suam



***



o amor sempre termina numa noite longa de luar

                  corpos celestes em brasa
                           na despedida
               cobrindo as cinzas do passado



***



a igreja
já não tem sino
não tem altar
santos
caixas de esmolas
telhado

uma velhinha
corcunda
reza sentada
em banco improvisado
como se ali estivesse
nosso senhor



***



o perfume varre o ar
percorre a terra húmida –

camélia em flor



***



o pastor assobia
tudo volta ao habitual –

rebanho a ser rebanho



***



um rato passeia-se
      no tecto de madeira

pata aqui pata ali
     sem eira nem beira

mesmo assim
     não me deixa adormecer



***



era a moça mais bela do povoado
tinha asas desejos cabelos doirados
não voava e os cabelos entrançava
porque lhe diziam
que amar era pecado



***



nada há como a primavera florida
a cantar humilde e deslumbrante
no bosque calmo e natural
que vibra submisso
ao simples encanto
de uma única flor colorida



***



pirilampo –

luz a cada pulsação
do meu coração



***



não sei se os teus lábios
nos meus colados
são sonho ou realidade
de quem pensa

se são sonho
que não desperte
se realidade
que o sono me não vença



***



constelações vagueiam

estrelas errantes

o luar penteia a seara

                         na colina prateada
                         reluzem cintilantes
                   os olhos furtivos da raposa



***



  a aldeia da minha infância
  é hoje a mesma aldeia
com mais algumas maisons

         mas já não é a mesma aldeia
por quem o meu coração em sonhos clama



***



flores amarelas
vermelhas
azuis cor de mar

uma rosa
um cravo
uma túlipa

um leito florido
a volúpia de um orgasmo
a agitar o planalto



***



campos secos com
uma silhueta no poente –

alma morta ou doente



***



os grilos
e seu cri-cri

cri-cri cri-cri
ao anoitecer

nas alfaces nas couves
cri-cri

cri-cri cri-cri
até ao amanhecer

nas hortas
aqui e ali



***



                  há vida
                  há terra
                      ar
                     fogo
                       e
                     água
  
          até que a verdadeira vida
       nasça nesta ilusão continuada



***



   esta noite
      sonhei com a imortalidade
   das almas

      com a estranha inutilidade
                        da eternidade
                  exposta à acalmia
             de um mar excelente



***



o sol
   na relva fresca
         e eu
           de costas voltadas
                  para a balança
                                ferruginosa
                                mal aferida
                                asquerosa e infecta
                                da justiça



***



uma cerejeira em flor
tem perfume
e som também



***



garças
        nos campos semeados a verde

ali tão perto
                a ria passa em leito incerto

as nuvens fogem
                      nós em viagem

as garças ficam
                    coladas à paisagem



***



o medo afastara-o das correntes traiçoeiras do golfo navegava num mar interior sem princípio nem fim

as gargalhadas do mundo não o interessavam ele era o seu próprio alimento



***



a vida –

vasto rio
sem ponte


na margem –

caminho sem destino
sem oceano à vista



***



tinha no rosto o orvalho das lágrimas
vertidas na alma geada do vale



***



nem a borboleta
parece querer ficar
neste país da treta



***



rio indómito

corrente gélida
      a beijar as pedras roladas

a luta das águas
      e nem uma truta
              uma truta sequer
   nesta manhã fria de inverno



***



a vida é
hoje
esperança amor
um poema
fantástico
perfumado de jasmim
            flor da alegria

amanhã
quem sabe
poderá ser
ou não
a mais bela
             flor da dor



***



no limoeiro
canta o rouxinol
sem saber para quem



***



a névoa
beija o vale deserto
acaricia o meu corpo
amacia minhas mãos gretadas
pelo suor ácido da saudade
do que em tempos foi
e morto está

                     ele
        a quem agora chamam
              vale das lobas



***



ribeira das aldeias

no verão

descalço os sapatos
descanso os pés

enquanto uma rã salta
para a meia branca

que espanto



***



implacável
o sol
queima as telhas
uma a uma

abrasa
o perfume
dos lírios
ao meio-dia

dá cor
ao corpo
nu
perfeito
junto à sebe



***



hoje o céu 
está tão branco
tão amoroso
parecendo leite
doado por mãe
a pobre filho alheio



***



primeiro dia de neve –

na serra
vergam os pinheiros
enquanto eu salto
alegremente



***



branca é a manhã
resguardada das discórdias

hora de julgar
os mistérios



***



partiste

amiga
amada
flor da criação

um lenço
a dizer adeus
uma mão
a chorar
olhos rasos
de sangue fresco

partiste

voltarás

eu fico
eu aguardo

tu foste a primeira
serás a derradeira



***



será que o meu corpo existe

no teu esquecimento de mim
poderá ele existir



***



vieste visitar-me
esplêndida

eu
abandonado ao mar

mare nostrum
para orquestra e piano

a ti te
nomeio rainha
de aquém e além oceano



***



céu e terra –
                
            a terra aqui defronte
               seca transparente
           ilha límpida do universo

                      e o céu
           lágrima de selvagem fogo
                     diamante
                  dentro de mim



***



o corpo dela
branco e sereno
de marfim
jaz em profunda sepultura

a seu lado
sentado na pedra fria
em magoado apertamento
aguardo o fim do tempo



***



como é estranho
este vale de flores
cercado pela miséria

como é estranho
o universo
em guerra permanente

como é estranho
o absurdo

como sou absurdo
e estranho



***



olha para a aparência
das coisas em mutação
e pacificado
penetra a sua essência

                      na ausência de conflito
                             germina a paz



***



a cigarra canta inebriada

ouço-a cantar na colina submersa por ténue névoa

           chama-me à vida
                
chama-a também
                         os meus versos
                         a ela que não vem



***



nas noites quentes
os grilos nascem
na horta do pátio



***



todos os homens são mortais pó na argila do solo queimado
que se dane
todos o sabem menos os mortos



***



sem pressa
o velho sobe ao telhado
com as calças descosidas no rabo



***



   bebamos a vida
      em cálice doirado

   a tua boca de canto
      no canto da minha boca

   nossas bocas rubras
      juntas

   delícia e encanto
      de vozes surdas



***



pampilhosa 
                outrora
                a esperança interminável
                da mudança

                hoje
                por segundos
                a mesma casa rosa
                e a partida
                no silvar da máquina do tempo



***



   os teus olhos ferem
      verdes implacáveis serenos
         e quando mentem matam
   o coração azul despedaçado
   pelo verde-traição



*** 



azrael veio
azrael sem hesitação
levou-a ao abismo

cesta cheia de políticos



***



nuvens no cume da serra
pousadas nos arvoredos baixos
nas fragas nos penedos
flagelados pela neve

passo pelo seu coração
já vejo céu e sol
e voo leve
no seu dorso
em assento de cristais de gelo



***



no quarto
o inverno
faz-me companhia



***



a manhã estava triste      as paredes pintadas dos casebres mergulhavam numa melancolia mortal       não se via gente       o sino tocou e o seu som congelou na copa do carvalho prateada como a cabeça do ancião sentado imóvel no banco de pedra do adro do deserto



***



cama doirada
um corpo branco

                       crisântemo
                       em corpo de mulher 
                       reencarnado



***



fogo de artifício
                     no mar

à vela
        por clarões iluminado
                                     espreito o luar



***



canta o galo
morre o galo

ao nascer da manhã
que fica

para outros dias
para outro amanhã



***



os ventos amainam
os verdes campos serenam
ficam as serras
de urzes e giestais floridas
quando de amores
por ti perdido
sobre mim teus olhos
se demoram



***



hoje
à minha volta
não há nada
que não seja novo
e inocente –

dia fantástico



***



hoje lua cheia
no moinho
e eu sozinho



***



nas algibeiras nada tinha       não tinha casa família ou bens      vivia o ócio da pobreza 
mesmo assim no cimo do rochedo donde se avistavam as naus que partiam para o novo mundo a angústia do nada por ele clamou



***



a beleza da neve
no telhado
ofusca o gato



***



passo
como quem não vê
nem olha
à porta da igreja

continuo
em larga passada
em longa caminhada
e para lá das luzes da aldeia
entro na noite estrelada



***



os pinheiros sempre verdes
                   contorcem-se no vendaval

acenam-me com as suas mãos coloridas
                   chamam-me              vem

         para sentir o que sentem
    quando se suporta um temporal



***



choram nuvens
na mais alta penedia
do monte santiago

a dor do céu ensombrado
e de seu filho amado
em lágrimas de sangue divino
no meu regaço jorradas



***



a quem ama 
mariana
ninguém o sabe

amante de amor
não encontra nem lembra

não fora ela assim
esquiva 
altiva 
oscilante
a mim me teria para sempre



***



a lareira acesa
paus em brasa –

lá fora o boneco de neve
derrete



***



a noite
mergulhou
no silêncio
das sombras
vivas



***



solidão –

as sombras descem
ao quarto de hotel



***



era uma aberração estava desviado do seu fim natural 
na multidão multiplicavam-se os bárbaros instintos



***



a primavera findou
sem aviso –

nenhuma flor restou



***



galgo a corrente de maré
                             vagarosamente

ao longe
            na margem
                            mãos que acenam

quem serão

que importa

saudemo-nos



***



tanta conversa fiada
tanta cousa por dizer
deixem o burro falar
que não se consegue conter



***



amanhã
presente à justiça dos homens –

hoje o dia parece não ter fim



***



inverno frio –

raios de sol
descongelam os ossos



***



quando o amor
se transforma em sonho
nada lhe falta
nada há a acrescentar

se do sonho acordo
e o sonho despedaço
por estar desperto
o amor fica incompleto



***



a lua
foi condenada
à solidão

abandonada
só os amantes
lhe estendem a mão



***



de manhã
ao acordar
questionava-se ensonado –

quem sou
donde vim


à noite
ao deitar
perguntava-se cansado –

para onde vou



***



     rosto suave de avelã
     
     corpo a lavar no rio

     doçura da água corrente

      voz do amor ausente
               na lã velha
      mil vezes à mão esfregada
               gestos brandos
     
de quem por ser pobre
não sabe que é amada



***



há noites sem fim
onde as estrelas choram
a solidão

lágrimas cadentes
de quem ama
e amada não será



***



à noite
pela janela
olho a estrada de santiago
no céu estrelado

pasmo
e pergunto-me –
quantas almas prateadas
por ali irão
em deleitosa
procissão



***



casas velhas amontoadas em cal e tintas coloridas desbotadas pelo sol e pela chuva
lá dentro um naco de pão
e a esperança do paraíso



***



quando o amor acaba
esse amor terno e vero
rasga a escuridão do céu
que o mar sangra
e faz sangrar o meu coração



***



eu quero amar
amar suavemente
o amor amar
amar sempre

com todo o meu ser
penetrar a tua carne
chama viva da alma
e ter-te e ter
o teu corpo perfeito
nesta tarde calma
neste amor eleito



***



o vento fala e
a sua voz
é a da saudade
que lhe corre na alma



***



vem brisa
da terra
enfuna as velas

a grande bate
arriba
a genoa faz barriga
caça

proa a cavalo no vento
perco o pensamento
em unidade com o movimento

vento     terra      mar



***



o sino tange
cai a noite
com as suas sombras

penso –
quem me dera ser pobre
viver num casebre
na floresta
lado a lado
com o lobo e com o veado
livre de obrigações
de ladrões
do estado



***



as estrelas apagaram-se
o sol inunda as rosas desfolhadas      os homens levantam-se arrastam-se na estrada vazia e suja tais vermes torturados pelo peso das nuvens a enegrecer 
dor sem sonho 
                   dor sem amor

pergunto-me sonolento –
                 de que lhes serve viver
               para que lhes serve a vida



***



Sem comentários: