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ARTE

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sábado, 19 de maio de 2018

PEQUENOS POEMAS XI



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



I

feri a idade dos mortos
desperto sempre tarde
junto ao mar a casa está sempre mais fria
- a idade faz o frio mais frio –

II

a chuva teima em não vir
provavelmente tem as suas preocupações próprias que não as nossas
as nuvens altas prenunciam a continuação de tempo seco

III

estou possuído pelo ócio de rimbaud
os novos que trabalhem
- verlaine devia ter-lho dito –

IV

tosse e um suspiro nas escadas
raramente vejo a vizinha do lado
ouço-a tossir quanto baste
e isso basta-me porque sei que está viva
- os mortos não tossem ou tossem –

V

preciso do ar da montanha
adio a hora da partida
na aldeia há um enorme canteiro de mortos que visito regularmente
onde as estrelas brilham sobre o pó a carne os ossos e vermes
mesmo assim é um lugar aprazível com alguns ciprestes e ervas daninhas junto aos muros

VI

antes de anoitecer dois ou três de nós
- já somos tão poucos –
brindamos a tudo como se cada coisa contenha em si todo o prodígio da vida
juntos declaramos a alegria perene do momento
amanhã ou depois voltaremos a encontrar-nos para mais um funeral
- no outono a morte visita as aldeias da freguesia semanalmente –



***



as giestas inundaram os campos de tristeza

deitado na erva húmida
a visão dos campos outrora cultivados



***



a alegria é irmã da dor –
os homens não são todos iguais
a dor dói em cada um de modo tão desigual
que o que nuns é dor noutros amor



***



um anjo no vazio
o espelho do salão não reflecte os objectos supérfluos
falo-lhe desta infecta solidão
continuarei a errar pelos corredores e pelos quartos vazios
pensando a vida e a morte
as duras faces da velhice e o medo de morrer só
sem ninguém a quem confiar a minha mão deformada
só o sonho poderá salvar a minha alma
onde tu anjo amigo serás o condutor da carruagem desbravando o nevoeiro na direcção do nada



***



os velhos morreram a trabalhar de sol a sol
com pesadas sacholas
surribaram vinhas
cavaram lameiros
desbravaram terras áridas no coração da serra
a fome nunca os abandonou
os senhores da terra libertaram-nos com a morte



*** 



precisamos de tumular a história
derruir as estátuas dos parques por florir
para que as crianças sejam crianças
e a ingenuidade volte a florescer



***



poucos são os que sabem viver a agonia dos dias

adormecidos na terra que os moldou
clamam angustiados pelo prazer
e intentam pagar qualquer preço pela verdade

mas a verdade é uma casa deserta sem portas nem janelas
é o abismo gelado que nenhum explorador conseguirá alcançar

ébrios agonizam na incerteza do caminho e
sentados na praia mística
cegam à visão do mar que traz na espuma das ondas a certeza de que tudo há-de findar



***



não quero olhar para trás
                        apenas
                seguir o meu caminho
                com os passos novos
                      da inocência



***



um longo adeus ao rumo sem margens
às cores das lágrimas do martírio

o desterrado sobe ao cadafalso
a madeira vibra num movimento rítmico de dor

a vida continua na praça do mercado

                 chovem risos e sarcasmos 
                    sobre o pobre coitado
          que do mundo teve ordem de despejo



*** 



sonhei com uma outra vida

                 só agora me apercebo
               da minha total inutilidade –
                       um puro nada



***



a mesa de pão e vinho

regressa hoje o presságio da formosura e do milagre do amor

      por uns instantes
            sem fronteiras sem grilhões 
                  cada homem ocupa o seu lugar

      estão velhos para sonhar
      mas na noite vasta entras pela porta dos fundos
      bela como o voo do milhafre nas ravinas da serra
      como hálito de deus a aquecer as carnes frias

                olham-te demoradamente
     como quem deseja o fogo no alto do inverno
     e a neve dos corações transformou-se em lume eterno



***



                  a cada dia que passa
       apodreço sentado nos meus versos
                 enquanto a aguardo



***



uma noite inteira
a meditar na morte

para onde irei no fim

para ti ou para o nada
se tu és nada e o nada tu
se eu nada era sou ou serei
em mim ou em ti

nunca o saberei em vida



***



este outono trouxe-me uma gripe incomodativa –
quando estamos sós a doença é mais incomodativa do que quando alguém cuida de nós



***



as luzes da aldeia
apagam-se –
sigo as pegadas da lua
sem destino



***



deixa que escureça o quarto
não há sol que me aqueça 

o ofício de amar tem-se tornado insuportável

o desejo surge agora no seu lado sombrio

pouco me importa a liberdade do mundo
só a morte me poderá salvar



***



escolhi ficar sozinho
animal oculto nas suas chagas
mesmo que os olhos ceguem e os ouvidos nada oiçam para além de zunidos
adormeço e acordo sem ódio ou amor



***



voltar ao passado remoto
onde vibram as ideias dos filósofos mortos
da metafísica e da sua vanidade



***



o riso estridente
de um louco
acordou toda a aldeia

sabedoria de um pobre homem
que nada quer
nada sabe
nada tem



***



           percorrem-me o corpo crucificado
                    os mortos que amei
          triste circulação de sangue coalhado



***



pensamentos brancos dos crepúsculos
escondem-se nos contrafortes virais das profundidades

     pela mão da noite percorro a estrada deserta
                      à espera do sono
                           e do sonho



***



rio das palavras

     sorrio ao papel que cego continua a aguardar
                  os símbolos decrépitos
                     que poucos irão ler



***



I

cansaço

os animais seguem o trilho obstinado das esquinas dos subúrbios
a voz murmura nos lábios dos deuses mortos

II

o sol
        flor que queima
enfeitiçou os que da morte são cúmplices

III

        o mistério das primaveras mantém-se impávido
                                                         vulnerável
                                                         impávido
                                                         assombrado
lágrimas dia após dia
                                  sal e sangue

IV

na torre do castelo em ruínas a bandeira branca
             rasgada
                        fantasmagórica
a brisa perfeita
                     estamos perto do fim
jornada a completar na quietude das águas

V

                     não és imortal
                                         eterno ou infinito
os mortos dormem de pé como os velhos marinheiros de outrora nas longas travessias acometidas pela peste

VI

                    o mar rebenta no costado de bombordo
                   cai neve no convés
o paraíso à distância de cem mil milhas náuticas
na ressurreição do meu corpo
                   é o que está escrito
                        o que foi dito

VII

o terceiro turno aproxima-se num carro celular
purifico-me
                como na infância
     os longos passeios das noites de verão
o fluxo dos beijos adocicados alinham-se na estante de carvalho lado a lado com os livros de páginas amarelecidas
              corroídos pelo bicho-dos-tempos
                          como eu
                          como nós



***



o coração pulsa desordenadamente

além um homem        um número
apenas um número
caminha lentamente na direcção do bloco de notas
por entre pinheiros e carvalhos que murmuram algo entre si
a erva fresca inflama-se à sua passagem

queimou todos os seus desejos
enterrou na terra virgem todos os projectos e ambições
para poder sobreviver



***



são estes os primeiros versos que te escrevo
            tenho tanto para te dizer –
         o verso mais puro é o silêncio



***



anoitece

não há nada que aqueça a mão com que escrevo
                nem a poesia dos eleitos
- mas quem são os eleitos –

precipito-me na insensatez da carne e no alvoroço do espírito

com uma rosa apertada entre os dedos aguardo que a carruagem raivosa do passado te conduza à minha presença

tenho frio

continuo a escrever
as palavras mordem o papel quadriculado
e por minutos regresso à vida



***



a humanidade naufraga

é visível o movimento alienado dos corpos que se debatem nas ondas
a nau destruída arrasta-os para os abismos
o mar há-de comer-lhes as vísceras e os ossos
afogando os pensamentos atrozes petrificados de sal e sangue negro



***



a memória em cinzas

olho o mundo com a naturalidade de uma criança

esmago as lembranças dos corpos que amei

aquilo que apelidava de belo desvanece-se

tranquilo abandono-me ao infinito azul



***



               do céu cai uma mensagem
                   em asas indignadas –  
             já não há quem ame o amor



***



I

peço respostas

suspenso no vento que acaricia as nuvens
que se oferecem imóveis
                                    vejo o futuro

irá brotar das pétalas brancas
e dos espinhos do roseiral

II

hoje não há nenhuma forma suprema de consciência
nem qualquer harmonia no abraço dado pelo céu à terra
            não há resposta para a agonia

III

moribundo tiram-lhe as medidas
                              dois metros
a construção do corpo de madeira            modelo exclusivo da pequena carpintaria revelada pela colina ensolarada

         os gemidos inundam o casario próximo

continua a ser o mesmo homem
mas as chagas transformaram-no num monstro
que a família repudia
esquecendo o tempo da apanha e do suor arremessado às terras doentias
             um agonizante imprestável

IV

deus nosso senhor o leve      dizem

até já o cheiro é mau      penso

ainda o vejo com a burra carregada de lenha
e de mantimento
para toda aquela gente ingrata

V

isso já lá vai

que interessa o que ele sofre ou sofreu
para alimentar aquelas bocas
sórdidas e peçonhentas

a dor não é a que ele sofre
mas a que aos outros faz sofrer

           quanto mais depressa melhor
              não lhes serve para nada
                  
                     putas de merda



***



nos templos sozinhos
corpos pesados sem alma
sorvem a música
tocada por um organista cego
e entoam cânticos estridentes

            vigilante o padre espera
               o fim da lengalenga



***



invento o meu infinito e
o eterno profundo por entre as folhagens salpicadas de luz



***



há flores nos prados        há raparigas nas flores
os meus pensamentos suicidam-se
morrem do parto as dores

o pó do caminho mil vezes andarilhado
faz gritar o vento
e ergue a esperança dos astros empedernidos



***



os deuses estão irados
todos os seus passos foram dados em falso

os rios passam
e os pobres sofridos escrevem poemas de amor

nos quartos erectos sem luz
o ar está contaminado por sentimentos envenenados

anjos e arcanjos batem violentamente com a porta
sem que para trás olhem

o destino do homem é a ausência divina



***



a varanda ferruginosa com o verde da hera
lembra os passos temíveis do velho desembargador

      morreu como ilitch morreu
            gemendo            gritando
                  pedindo uma vara para matar a morte



***



terão as coisas algum mistério            secretismo
     e eu não serei um mistério
     uma espécie de sacramento salvador que a si mesmo se não salva
talvez os mistérios sejam apenas impossíveis            ilusão das palavras que se exaltam para que possamos fechar definitivamente o ciclo animal das teologias e filosofias
                     sejam lá o que forem
        continuaremos a trata-los como mistérios
              e a abrir e a fechar livros inúteis



***



sento-me junto à estátua do afonso costa –

             da cidade restam as luzes
           e este sentimento de revolta
  que só os verdadeiros revolucionários têm



***



andrajosos percorremos a noite tenebrosa do medo
dizemos que somos irmãos
amigos de eterna amizade
mas a cada passo
a cada medo
sem redentor
a cada obstáculo
descobrimos insepultos 
que somos inimigos



***



o empedrado da ruela enche-se de pétalas rosadas como
a tua face fresca estampada num sorriso de marfim

saio para te ver        oiço o teu riso       vejo o teu corpo imperfeito
  és a virgem que está para além da minha tristeza
              o espírito que me apazigua a alma
         e que não me incendeia qualquer desejo



***



a casa deserta sente-se só
a luz penetra pelas frestas das portadas
e não encontra alma onde repouse



***



I

quando voltar para a terra dos infiéis
poderemos encontrar-nos
nas palavras que são os nossos corpos e que
parecerão mais ásperas
tornando-se suspeitas

II

no quarto escurecido pelos reposteiros opacos
veremos o pátio onde a madressilva cresce nos corações das pedras
enquanto os outros dormem nós contaremos histórias inventadas e num imenso suspiro
iremos despojar-nos de tudo
até do pequeno diamante que guardas entre os seios erectos
respiraremos a uma só voz e caminharemos nos mesmos passos na direcção do horizonte

III

haverá granizo e neve nos campos
os nossos braços agitar-se-ão como num labirinto

não renuncio à tua carne
não        não posso renunciar ao que não me é permitido
falta-me o calor do vinho a percorrer montes sombreados por ilusórios laranjais

IV

lembras-te da nossa infância
vida que vivia a vida
não havia morte na vida nem haveria

agora o mundo flui para a decadência terrífica dos infernos incriados
para o nada dos dez mil demónios
para a casa dos horrores concebida em pecado mortal

      pobres adão e eva como deveis ter sofrido



***



orai para que a chuva venha
disse o patriarca dos sacerdotes
atoleimado            nunca há-de conhecer deus



***



uma gota de água contém todos os oceanos do mundo
uma baioneta banhada de sangue inocente alberga a natureza humana      os sentimentos e emoções dos demónios terrestres

raça de víboras numa pátria de famigerados cangaceiros

escuto os gritos horrendos das crianças outrora cruéis

       o mundo é propriedade de carniceiros que
                       com as suas garras
            despedaçam o riso dos inocentes
            e projectam um novo holocausto



***


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