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segunda-feira, 10 de agosto de 2009

LUÍS DE CAMÕES - 70 - TRANSFORMA-SE O AMADOR NA COUSA AMADA




Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho logo mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim coa alma minha se conforma,

está no pensamento como ideia;
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.



JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 69 - TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO




Tanto de meu estado me acho incerto,
que em vivo ardor tremendo estou de frio;
sem causa, juntamente choro e rio;
o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
da alma um fogo me sai, da vista um rio;
agora espero, agora desconfio,
agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao céu voando,
numa hora acho mil anos, e é de jeito
que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
respondo que não sei; porém suspeito
que só porque vos vi, minha Senhora.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 68 - QUANTA INCERTA ESPERANÇA, QUANTO ENGANO



Quanta incerta esperança, quanto engano!
Quanto viver de falsos pensamentos,
pois todos vão fazer seus fundamentos
só no mesmo em que está seu próprio dano!

Na incerta vida estribam de um humano;
dão crédito a palavras que são ventos;
choram depois as horas e os momentos
que riram com mais gosto em todo o ano.

Não haja em aparências confianças;
entende que o viver é de emprestado;
que o de que vive o mundo são mudanças.

Mudai, pois, o sentido e o cuidado,
somente amando aquelas esperanças
que duram para sempre com o amado.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 67 - VERDADE, AMOR, RAZÃO, MERECIMENTO



Verdade, Amor, Razão, Merecimento,
qualquer alma farão segura e forte;
Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,
têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento
e não sabe a que causa se reporte;
mas sabe que o que é mais que vida e morte,
que não o alcança humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas,
mas são experiências mais provadas,
e por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas
e cousas cridas há sem ser passadas,
mas o melhor de tudo é crer em Cristo.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 66 - CORREM TURVAS AS ÁGUAS DESTE RIO



Correm turvas as águas deste rio
que as do céu e as do monte as enturbaram;
os campos florescidos se secaram;
intratável se fez o vale, e frio.

Passou o verão, passou o ardente estio;
umas cousas por outras se trocaram;
os fementidos Fados já deixaram
do mundo o regimento, ou desvario.

Tem o tempo sua ordem já sabida;
o mundo, não; mas anda tão confuso,
que parece que dele Deus se esquece.

Casos, opiniões, natura e uso
fazem que nos pareça desta vida
que não há nela mais que o que parece.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 65 - QUEM VÊ, SENHORA, CLARO E MANIFESTO



Quem vê, Senhora, claro e manifesto
o lindo ser de vossos olhos belos,
se não perder a vista só em vê-los,
já não paga o que deve a vosso gesto.

Este me parecia preço honesto;
mas eu, por de vantagem merecê-los,
dei mais a vida e alma por querê-los,
donde já me não fica mais de resto.

Assim que a vida e alma e esperança
e tudo quanto tenho, tudo é vosso,
e o proveito disso eu só o levo.

Porque é tamanha bem-aventurança
o dar-vos quanto tenho e quanto posso
que, quanto mais vos pago, mais vos devo.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 64 - BUSQUE AMOR NOVAS ARTES, NOVO ENGENHO





Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê;

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 63 - PENSAMENTOS, QUE AGORA NOVAMENTE




Pensamentos, que agora novamente
cuidados vãos em mim ressuscitais,
dizei-me: ainda não vos contentais
de terdes quem vos tem tão descontente?

Que fantasia é esta, que presente
cada hora ante meus olhos me mostrais?
Com sonhos e com sombras atentais
quem nem por sonhos pode ser contente?

Vejo-vos, pensamentos, alterados
e não quereis, de esquivos, declarar-me
que é isto que vos traz tão enleados?

Não me negueis, se andais para negar-me;
que, se contra mim estais alevantados,
eu vos ajudarei mesmo a matar-me.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 62 - VÓS OUTROS, QUE BUSCAIS REPOUSO CERTO




Vós outros, que buscais repouso certo
na vida, com diversos exercícios;
a quem, vendo do mundo os benefícios,
o regimento seu está encoberto;

dedicai, se quereis, ao desconcerto
novas honras e cegos sacrifícios;
que, por castigo igual de antigos vícios,
quer Deus que andem as cousas por acerto.

Não caiu neste modo de castigo
quem pôs culpa à Fortuna, quem somente
crê que acontecimentos há no mundo.

A grande experiência é grão perigo;
mas o que a Deus é justo e evidente
parece injusto aos homens e profundo.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 61 - COM GRANDES ESPERANÇAS JÁ CANTEI




Com grandes esperanças já cantei,
com que os deuses no Olimpo conquistara;
depois vim a chorar porque cantara
e agora choro já porque chorei.

Se cuido nas passadas que já dei,
custa-me esta lembrança só tão cara
que a dor de ver as mágoas que passara
tenho pela mor mágoa que passei.

Pois logo, se está claro que um tormento
dá causa que outro na alma se acrescente,
já nunca posso ter contentamento.

Mas esta fantasia se me mente?
Oh! ocioso e cego pensamento!
Ainda eu imagino em ser contente?


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 60 - QUE LEVAS CRUEL MORTE?




«Que levas, cruel Morte?» «Um claro dia».
«A que horas o tomaste?» «Amanhecendo».
«Entendes o que levas?» «Não o entendo».
«Pois quem to faz levar?» «Quem o entendia».

«Seu corpo quem o goza?» «A terra fria».
«Como ficou sua luz?» «Anoitecendo».
«Lusitânia que diz?» «Fica dizendo:
Enfim, não mereci Dona Maria».

«Mataste quem a viu?» «Já morto estava».
«Que diz o cru Amor?» «Falar não ousa».
«E quem o faz calar?» «Minha vontade».

«Na corte que ficou?» «Saudade brava».
«Que fica lá que ver?» «Nenhuma cousa;
mas fica que chorar sua beldade».


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 59 - OH, COMO SE ME ALONGA DE ANO EM ANO



Oh, como se me alonga de ano em ano
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta, e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
perde-se-me um remédio que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
se os olhos ergo a ver se inda aparece,
da vista se me perde, e da esperança.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 58 - MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS VONTADES



Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 57 - ALMA GENTIL, QUE À FIRME ETERNIDADE



Alma gentil, que à firme Eternidade
subiste clara e valerosamente,
cá durará de ti perpetuamente
a fama, a glória, o nome e a saudade.

Não sei se é mor espanto em tal idade
deixar de ter valor inveja à gente,
se um peito de diamante ou de serpente
fazeres que se mova a piedade.

Invejosas da tua acho mil sortes,
e a minha mais que todas invejosa,
pois ao teu mal o meu tanto igualaste.

Oh! ditoso morrer! sorte ditosa!
Pois o que não se alcança com mil sortes,
tu com uma só morte o alcançaste!


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 56 - SE A FORTUNA INQUIETA E MAL OLHADA




Se a Fortuna inquieta e mal olhada,
que a justa lei do Céu consigo infama,
a vida quieta, que ela mais desama,
me concedera, honesta e repousada;

pudera ser que a Musa, alevantada
com luz de mais ardente e viva flama,
fizera ao Tejo lá na pátria cama
adormecer co som da lira amada.

Porém, pois o destino trabalhoso,
que me escurece a Musa fraca e lassa,
louvor de tanto preço não sustenta,

a vossa, de louvar-me pouco escassa,
outro sujeito busque valeroso,
tal qual em vós ao mundo se apresenta.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 55 - QUEM FOSSE ACOMPANHANDO JUNTAMENTE




Quem fosse acompanhando juntamente
por esses verdes campos a avezinha
que, depois de perder um bem que tinha,
não sabe mais que cousa é ser contente!

Quem fosse apartando-se da gente,
ela, por companheira e por vizinha,
me ajudasse a chorar a pena minha,
eu a ela o pesar que tanto sente!

Ditosa ave! que ao menos, se a Natura
a seu primeiro bem não dá segundo,
dá-lhe o ser triste a seu contentamento.

Mas triste quem de longe quis ventura,
que, para respirar, lhe falte o vento,
e para tudo, enfim, lhe falte o mundo!


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 54 - NO MUNDO POUCOS ANOS, E CANSADOS



No mundo poucos anos, e cansados,
vivi, cheios de vil miséria dura:
foi-me tão cedo a luz do dia escura,
que não vi cinco lustros acabados.

Corri terras e mares apartados,
buscando à vida algum remédio ou cura;
mas aquilo que, enfim, não quer ventura,
não o alcançam trabalhos arriscados.

Criou-me Portugal na verde e cara
pátria minha Alenquer; mas ar corruto,
que neste meu terreno vaso tinha,

me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates na Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa pátria minha!


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 53 - QUE PODEREI DO MUNDO JÁ QUERER



Que poderei do mundo já querer,
que naquilo em que pus tamanho amor,
não vi senão desgosto e desamor,
e morte, enfim, que mais não pode ser!

Pois vida me não farta de viver,
pois já sei que não mata grande dor,
se cousa há que mágoa dê maior,
eu a verei; que tudo posso ver.

A morte, a meu pesar, me assegurou
de quanto mal me vinha; já perdi
o que perder o medo me ensinou.

Na vida desamor somente vi,
na morte a grande dor que me ficou:
parece que para isto só nasci!


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 52 - QUANDO A SUPREMA DOR MUITO ME APERTA



Quando a suprema dor muito me aperta,
se digo que desejo esquecimento,
é força que se faz ao pensamento,
de que a vontade livre desconcerta.

Assim, de erro tão grave me desperta
a luz do bem regido entendimento,
que mostra ser engano ou fingimento
dizer que em tal descanso mais se acerta.

Porque essa própria imagem, que na mente
me representa o bem de que careço,
faz-mo de um certo modo ser presente.

Ditosa é, logo, a pena que padeço,
pois que da causa dela em mim se sente
um bem que, inda sem ver-vos, reconheço.


JOSÉ MARIA ALVES
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LUÍS DE CAMÕES - 51 - DOCES LEMBRANÇAS DA PASSADA GLÓRIA




Doces lembranças da passada glória,
que me tirou Fortuna roubadora,
deixai-me repousar em paz uma hora,
que comigo ganhais pouca vitória.

Impressa tenho na alma larga história
deste passado bem que nunca fora;
ou fora, e não passara; mas já agora
em mim não pode haver mais que a memória.

Vivo em lembranças, morro de esquecido,
de quem sempre devera ser lembrado,
se lhe lembrara estado tão contente.

Oh, quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
se conhecer soubera o mal presente.


JOSÉ MARIA ALVES
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