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sexta-feira, 27 de maio de 2011

S. JOÃO DA CRUZ - BIOGRAFIA



Filho de Gonzalo de Yepes, tecelão e de Catalina Alvarez, nasceu no dia 24 de Junho de 1542, em Fontiveros, Ávila, Espanha, aquele que se veio a chamar S. João da Cruz.
No ano de 1548, a família muda-se para Medina del Campo, onde João estuda numa escola fundada para pobres.
Entre 1559 e 1563 estudou Humanidades no seio dos Jesuítas. Em 1563, ingressa na Ordem do Carmo, recebendo o nome de Frei João de São Matias. Faz a sua profissão religiosa e entre 1564 e 1568 estuda em Salamanca. No ano de 1567, quando termina os seus estudos teológicos, é ordenado sacerdote e celebra a sua primeira missa.

Desiludido com as poucas virtudes da vida monástica da Ordem dos Carmelitas, procura na Ordem dos Cartuxos a vida de comunhão espiritual que ambicionava.
No ano de 1567 conhece Santa Teresa de Ávila, que o elucida quanto ao seu projecto de reforma da Ordem Carmelita aos padres, donde viriam a surgir os Carmelitas Descalços.
Muito jovem, envolveu-se no projecto da Santa e mudou o seu nome para João da Cruz.

Em 1568, com Frei António de Jesus Heredia, inicia a Reforma.

Em 1568 e 1569 é Mestre de noviços em Duruelo e Mancera. Em 1569 abre-se o Convento de Pastrana e João da Cruz procura nele suavizar na medida do possível, a dureza extrema da sua vida.
Em 1571 é nomeado Reitor do Colégio de Alcalá. E de 1572 a 1577 é Confessor e Vigário na Encarnação, em Ávila.
O seu desejo intenso de regresso ao misticismo dos Padres do Deserto, trouxe-lhe sérios dissabores, tendo inclusivamente sido preso na noite de 3 para 4 de Dezembro de 1577 numa prisão de Toledo durante oito meses. Terá sido no cárcere, que as suas poesias tiveram origem.
Libertado, é nomeado Prior de Calvano e em 1579, Reitor do Colégio de Baeza.
Em 1581, no Capítulo de Alcalá é nomeado terceiro Definidor, Provincial e Prior de Granada, sendo reeleito Prior desta cidade em Maio de 1583.

No ano de 1585, na cidade de Lisboa foi eleito segundo Definidor. No mesmo ano é também nomeado Vigário Provincial de Andaluzia.
Em 1588 no Primeiro Capítulo Geral realizado em Madrid é nomeado Primeiro Definidor Geral, Prior de Segóvia e Terceiro Conselheiro de consulta.
No Capítulo Geral de Madrid de 1591, cessam todos os seus cargos.

Abandona esta vida no dia 14 de Dezembro de 1591, por volta da meia-noite. Tinha então 49 anos.

Em 1618, em Alcalá, as suas obras são pela primeira vez editadas.

Em 1675 é beatificado pelo papa Clemente X e em 1726 é canonizado por Bento XIII.
Em 1926 é declarado Doutor Místico da Igreja por Pio XI.

Numa última consideração, diga-se, que em 1952 é proclamado patrono dos poetas espanhóis.

A partir da sua morte, S. João da Cruz alcançou uma inequívoca autoridade na Mística – tal como foi reconhecido por Pio XI.
A sua mensagem, instiga-nos a descobrir o “tesouro” da cruz, a importância da oração e do silêncio no caminho para o “cume”, e ainda a dádiva do perdão.
Pode dizer-se que com o Santo nasce uma forma revolucionária de ascender e conhecer Deus. Não é por intermédio da razão com todos os seus bem conhecidos artifícios lógicos, mas sim pelo amor, que o vamos conhecer – esse conhecimento não nos fornecerá quaisquer conceitos, mas antes um específico “sentimento de Deus”.



Começámos por editar neste blogue a POESIA COMPLETA do Santo – veja-se no final da página a ETIQUETA correspondente. Consideramos que os principais poemas são os que aparecem nas grandes obras: Cântico Espiritual, Noite Escura e Chama Viva de Amor. Indubitavelmente, S. João da Cruz é um dos maiores, senão o maior poeta espanhol de todos os tempos.

Caso o leitor pretenda estudar a obra do Santo, seguindo a ordem constante das suas Obras Completas, é bem possível que se desmotive ao tomar um primeiro contacto com a Subida do Monte Carmelo.
Como ensina o Padre Gabriel de Santa Maria Madalena – Obras Completas, Edições Carmelo – devemos em primeiro lugar tomar contacto com a sua doutrina através do Cântico Espiritual, sem que seja necessário lê-lo na sua totalidade, podendo uma primeira leitura limitar-se às 12 primeiras estrofes.
Deste modo, tomámos a liberdade de adaptar e resumir as primeiras canções da dita obra, preparando a alma para a leitura da mencionada Subida. Estas, constam de artigo também incluído na ETIQUETA supramencionada.

Da obra de S. João da Cruz resulta que para atingirmos a união divina, necessitamos de abandonar todos os nossos apegos, numa atitude de total desprendimento de tudo o que Deus não é.
“Quando a alma procura Deus, muito mais a procura o seu Amado a ela.”


O Cântico Espiritual pode ser considerada a mais bela de todas as obras do Santo, não obstante a Subida ao Monte Carmelo possa ser considerada a par com a Noite Escura, a obra fundamental de João da Cruz.
Consta de 40 estrofes e está dividido em três partes, tendo trinta das estrofes do Cântico sido escritas no cárcere em Toledo.
A Chama Viva de Amor é de todas, a mais ardente das obras.


Pela doutrina da Subida do Monte Carmelo, o Santo, intenta demonstrar o modo correcto de subir até ao cume do monte, ou seja, ao mais alto estado de perfeição e que consiste na união da alma com Deus.
Depois de ler ainda que parcialmente o Cântico Espiritual, o leitor já estará em condição de iniciar proveitosamente a leitura da dita Subida.

Em sua admirável obra recorda aos leitores com frequência, o cume daquele montanha e deseja que todos a subam.


É esse também o nosso desejo.


JOSÉ MARIA ALVES
www.homeoesp.org








CÂNTICO ESPIRITUAL - S. JOÃO DA CRUZ



Tal como já deixámos escrito no artigo referente à biografia do Santo – ver ETIQUETA no fim da página, S. JOÃO DA CRUZ – POESIA COMPLETA –, caso o leitor pretenda estudar a obra do Santo, seguindo a ordem constante das suas Obras Completas, é bem possível que se desmotive ao tomar um primeiro contacto com a Subida do Monte Carmelo.
Como ensina o Padre Gabriel de Santa Maria Madalena – Obras Completas, Edições Carmelo – devemos em primeiro lugar tomar contacto com a sua doutrina através do Cântico Espiritual, sem que seja necessário lê-lo na sua totalidade, podendo uma primeira leitura limitar-se às 12 primeiras estrofes.
Deste modo, tomámos a liberdade de adaptar e resumir as primeiras canções da dita obra, preparando a alma para a leitura da mencionada Subida.
Que tal arrojo nos seja desculpado.





CÂNTICO ESPIRITUAL
CANÇÕES ENTRE A ALMA E O ESPOSO


Esposa

1 –
Onde é que tu, Amado,
Te escondeste deixando-me em gemido?
Fugiste como o veado,
Havendo-me ferido;
Clamando eu fui por ti; tinhas partido!

2 –
Pastores que passardes
Lá por entre as malhadas ao Cabeço,
Se porventura achardes
Aquele que estremeço,
Que adoeço, lhe dizei, peno e feneço.

3 –
Buscando meus amores
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei as flores,
Nem temerei as feras
E passarei os fortes e fronteiras.

Pergunta às criaturas

4 –
Ó bosques e espessuras
Plantados pela mão do meu Amado,
Ó prado de verduras,
De flores esmaltado,
Dizei-me, se por vós terá passado?

Resposta das criaturas

5 –
Mil graças derramando
Prestes passou dos soutos pela espessura
E enquanto os ia olhando,
Só com sua figura
Vestidos os deixou de formosura.

Esposa

6 –
Ah! Quem poderá sarar-me?
Acaba de entregar-te sem rodeio;
Não queiras enviar-me
Mensageiro entremeio,
Que não sabem dizer-me o que eu anseio.

7 –
E todos quantos vagam
De Ti me vão mil graças relatando,
Mas todos mais me chagam
E mais me vai matando
Um não sei quê que ficam balbuciando.

8 –
Mas como perseveras,
Ó vida, não vivendo aonde deves,
Matando-te deveras
As setas que recebes
Daquilo que do Amado em ti concebes?

9 –
Porquê, tendo chagado
Meu pobre coração, o não saraste?
Depois de o ter roubado,
Porque assim o deixaste
E não tomas o roubo que roubaste?

10 –
Apaga-me a tristeza,
Que mais ninguém me pode aqui valer;
E veja tua beleza
Que é luz dos olhos meus
E para ela só os quero ter.

11 –
Mostra tua presença
Mate-me a tua vista e formosura;
Olha que esta doença
De amor, já não se cura,
Senão com a presença e com a figura.

12 –
Ó fonte cristalina,
Se eu, nesses teus semblantes prateados,
Visse, ó fonte divina,
Os olhos desejados
Que trago nas entranhas esboçados!...

13 –
Aparta-os, Amado,
Que o voo levanto.

Esposo

Volve já, ó pomba
Que o cervo vulnerado
Por sobre o outeiro assoma
Ao ar desse teu voo, e o fresco toma.

Esposa

14 –
Meu Amado, as montanhas,
Os vales solitários, nemorosos,
As insulas estranhas,
Os rios rumorosos
O sibilo dos ares amorosos;

15 –
A noite sossegada
Tocando já com o surgir da aurora,
A música calada,
A solidão sonora,
A ceia que recreia e enamora...

16 –
Caçai-nos as raposas,
Que a nossa vinha já se encontra em flor,
E tantas são as rosas,
Que em pinha as vamos pôr;
No cimo ninguém surja, por favor.

17 –
Detém-te bóreas morto,
Vem austro, que recordas os amores,
Aspira por meu horto,
E corram teus olores
E o Amado pascerá por entre as flores.

18 –
Ó ninfas da Judeia,
Enquanto nos rosais e dentre as flores
O âmbar nos recreia,
Morai nos arredores
Nem cheguem aos umbrais vossos rumores.

19 –
Esconde-te, meu Bem,
E volta a tua face para as montanhas;
Sem o saber ninguém,
E olha para as companhas
Da que por ilhas anda, as mais estranhas.

20 –
A vós, aves ligeiras,
Leões, cervos e gamos saltadores,
Montes, vales, ribeiras,
Águas, ares, ardores,
Mais os medos das noites, veladores.

21 –
Pelas amenas liras
E canto de sereias vos conjuro,
Que cessem vossas iras
E não toqueis no muro,
Para que a Esposa durma mais seguro.

22 –
E já entrou a Esposa
Para dentro do horto ameno desejado
E a seu sabor repousa
O colo reclinado
Sobre os braços dulcíssimos do Amado.

23 –
Sob a árvore de Adão
Ali comigo foste desposada,
Ali te dei a mão
E foste resgatada
Lá onde tua mãe fora violada.

24 –
Nosso leito florido
De covas de leões entrelaçado,
Em púrpura estendido,
De paz edificado,
De mil escudos de oiro coroado...

25 –
Discorrem as donzelas,
Sobre as tuas pegadas, no caminho;
Ao toque das centelhas
E ao temperado vinho,
Dão-te aromas de bálsamo divino.

26 –
Bebi do meu Amado
Na adega interior; quando saía
Por todo aquele prado
Já nada conhecia
E o rebanho deixei que antes seguia.

27 –
Ali me deu seu peito
E ciência me ensinou muito saborosa,
E a Ele, dom perfeito
De mim, Lhe fiz gostosa
E ali lhe prometi ser sua esposa.

28 –
De alma me consagrei
Ao seu serviço e todo o meu haver;
E já não guardo a grei,
Nem tenho outro mister:
Pois já somente amar é meu viver.

29 –
Se pois, no eido entretida
Não mais eu já for vista nem achada,
Direis que estou perdida,
Que andando enamorada
Perdidiça me fiz, e estou lucrada.

30 –
De flores e esmeraldas
Pela frescura das manhãs colhidas
Faremos as grinaldas
Em teu amor floridas
E num cabelo meu entretecidas.

31 –
Aquele só cabelo,
Que em meu colo voar tu advertiste,
Viste em meu colo, e, ao vê-lo,
Preso nele Te viste
E num só dos meus olhos te feriste.

32 –
E quando tu me olhavas,
Sua graça em mim teus olhos imprimiam:
Por isso mais me amavas
E nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em Ti viam.

33 –
Não queiras desprezar-me,
Que se morena cor em mim achaste,
Já bem podes olhar-me,
Depois que Tu me olhaste,
Pois graça e formosura em mim deixaste.

34 –
A cândida pombinha
À arca com o ramo regressou
E já a rolazinha
Ao sócio que esperou
Junto às ribeiras verdes encontrou.

35 –
Em solidão vivia,
Seu ninho em solidão pôs escondido,
Na solidão a guia
A sós o seu Querido,
Também, na solidão, de amor ferido.

36 –
Gozemo-nos , Esposo,
Vamo-nos ver em tua formosura
Ao monte e cerro umbroso
Donde mana a água pura:
Entremos mais adentro na espessura.

37 –
E logo às mais erguidas
Cavernas do rochedo subiremos,
Que estão bem escondidas;
Ali logo entraremos
E o mosto das romãs saborearemos.

38 –
Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E logo me darias,
Ó vida e alegria,
Aquilo que me deste noutro dia:

39 –
Da brisa o aspirar,
Da doce filomela a voz amena,
O souto de encantar,
Pela noite serena,
Com chama que consuma e não dá pena.

40 –
Ninguém isto alcançava
E nem Aminadab aparecia
E o cerco sossegava
E à vista descendia,
Das claras águas, a cavalaria.





INTRODUÇÃO

1. – As canções iniciam-se no momento em que a alma começa a servir a Deus até que atinja o último estado de perfeição, que é o matrimónio espiritual.
Nesta obra, S. João da Cruz ocupa-se das três vias de exercício espiritual até que se alcance tal estado:
- a via purgativa;
- a via iluminativa; e
- a unitiva.

2. – As canções iniciais dirigem-se aos principiantes da via purgativa.
Seguem-se as dos iniciados – os aproveitados, na terminologia do Santo –, que respeitam à via iluminativa, onde ocorre o desposório matrimonial.
Depois, as da via unitiva, onde a alma já alcançou um verdadeiro estado de perfeição e se realiza no matrimónio espiritual.
As últimas canções são as do estado beatífico.



COMEÇA A DECLARAÇÃO DAS CANÇÕES DE AMOR ENTRE A ESPOSA E O ESPOSO (JESUS CRISTO)


1. - ANOTAÇÃO

A alma começa a entender claramente qual o seu objectivo neste mundo.
Percebe que a vida é breve, estreita a senda que conduz à vida eterna e que apenas o justo se salva. Que as coisas do mundo mais não são do que perigosas ilusões, que o tempo é incerto e que tudo acaba. A perdição fácil e difícil a salvação. Que desperdiçou a maior parte da sua vida com futilidades, desejos e inquietações, afastando-se de Deus que dela se esconde. Aí, começa a invocar o seu Amado dizendo:



CANÇÃO I

Onde é que tu, Amado,
Te escondeste deixando-me em gemido?
Fugiste como o veado
Havendo-me ferido;
Clamando eu fui por ti: tinhas partido!

2. – DECLARAÇÃO
Nesta primeira canção, a alma enamorada de Deus, queixa-se da sua ausência, o que obsta à união que tanto anseia, e assim diz:

Onde é que tu, Amado
Te escondeste...?

3. – Pede a alma a Deus que lhe mostre ou a encaminhe para o lugar onde se esconde.
Deus é verdadeiramente um Deus escondido (Isaías). Por outro lado a grande dúvida da sua presença manifesta-se nas palavras de Job – se a nós vier não o veremos, e se se for não o entenderemos.

4. – Perante tal incerteza, a alma pede encarecidamente a Deus a clara presença e visão da sua essência.

6. – Para que não vagueie em sendas infrutíferas, a alma terá de reconhecer que Deus está escondido no seu íntimo ser. Assim, querendo-o encontrar, convirá abandonar todas as coisas segundo a afeição e vontade, entrando em recolhimento dentro de si mesma.
Santo Agostinho afirmou que não encontrava Deus fora de si, porque mal o buscava; buscava-o fora quando Ele estava dentro.
Daqui decorre que Deus está escondido na alma.

7. – O Reino de Deus está dentro de nós (Lucas) e nós somos o templo desse Deus (S. Paulo).
Ele está em nós do mesmo modo que nós não podemos estar sem Ele.

8. – Grande é o contentamento da alma quando entende que Deus nunca dela se ausenta, esteja ou não no estado de graça.
Deseja Deus e adora-o na tua alma, porque se o fizeres fora de ti perder-te-ás.
Mas, nunca olvides que embora estando dentro de ti, está escondido.

9. – Se Deus está dentro de nós, como é que o não vemos?
Ele está escondido e para o encontrar havemos também de entrar escondidos no seu esconderijo.
Diz o Santo, que para o podermos encontrar devemos esquecer todas as nossas coisas, afastando-nos de tudo, inclusivamente das criaturas, escondendo-nos no nosso retiro interior do espírito, fechando a porta atrás de nós, abandonando a nossa vontade e recitando as nossas orações em segredo.

10. – Disse Isaías à alma, “anda, entra em teus retiros, cerra tuas portas sobre ti e esconde-te um pouco por um momento”.
A alma “cerra as portas” a todas as suas potências e a todas as criaturas, escondendo-se por este momento da vida temporal quem quiser atingir a união.
Desta forma, veremos Deus.

11. – A fé são os pés com que a alma se dirige a Deus e o Amor é o guia que a encaminha.

12. – Deus é inacessível e escondido, e por mais que te pareça que o tens e o sentes e o entendes, sempre o hás-de ter por escondido e o hás-de servir escondido, escondidamente.

deixando-me em gemido?

13. – Chama-lhe Amado, porquanto Deus acode com maior presteza à alma que o ama. E a alma pode em verdade chamar-lhe Amado, quando está apenas com Ele, não estando apegada a nada que não seja Ele.
Não o estando totalmente, deverá perseverar na oração, porque de Deus nada se alcança que não seja por intermédio do amor.

14. – A ausência do Amado causa um contínuo gemido ao amante. Este, nada amando fora dele, nenhum alívio recebe e a vida torna-se bastas vezes insuportável.

Fugiste como o veado

15. – Nos cantares, a Esposa (Alma) compara o Esposo ao veado, por ser algo estranho e solitário e por ter a virtualidade de se esconder e aparecer, tal como nas visitas que faz às almas e nas ausências que as faz sentir após as visitas, para as submeter a regime de provação e ensinar.

Havendo-me ferido

16. – O desejo ardente de ver o Amado faz com que aumente a paixão quando a alma o vê abandoná-la sem que nem muito nem pouco se deixe compreender.

17. – As feridas de amor são provocadas por toques escondidos de amor, e que ao modo de dardos de fogo ferem e trespassam a alma, abrasando-a em fogo e chama de amor.

18. – A alma por amor reduz-se a nada, nada sabendo senão amar, e julgando intolerável o rigor que o Amor usa para com ele. Não porque a tenha ferido, mas porque a deixou penando e muito sofrendo.

19. – Por isso, diz a alma: deixando-me assim ferida, morrendo com feridas de amor por ti, te escondeste com a ligeireza de um veado.
Esta dor aumenta nela a ânsia de ver Deus.

Clamando eu fui por ti: tinhas partido!

20. – Nas feridas de amor a cura só pode ser realizada por quem feriu. Daí, clamar a alma pelo Amado.

21. – A Esposa ficou ferida por não ter encontrado Deus e vai penando na sua ausência, já que a Ele se havia entregue e não encontrou a esperada correspondência amorosa.

22. – Este pesar e sentimento de ausência de Deus costuma ser tão grande nos que se vão aproximando do estado de perfeição, que se o Senhor lhes não acudisse, acabariam por morrer.



CANÇÃO II

Pastores que passardes
Lá por entre as malhadas ao Cabeço,
Se porventura achardes
Aquele que estremeço,
Que adoeço, lhe dizei, peno e feneço.

1. – DECLARAÇÃO
Nesta canção a alma com algum desespero procura aproveitar-se de mediadores para que dêem conhecimento ao seu Amado de sua dor e sofrimento. Assim lhes diz:

Pastores que passardes

2. – A alma chama pastores aos seus desejos, afectos e gemidos, dado que a apascentam de bens espirituais. No entanto, só os afectos e desejos que nascem do verdadeiro amor chegam a Deus.

Lá por entre as malhadas ao Cabeço,

3. – As malhadas são os coros de anjos, pelos quais de coro em coro vão os nossos gemidos e orações a Deus.

Se porventura achardes

4. – Com isto quer o Santo dizer: se por minha boa sorte e ventura chegardes à sua presença, de forma a que Ele vos possa ver e ouvir.
Atente-se que Deus acode às nossas súplicas não em função dos nossos desejos, mas em tempo oportuno.

Aquele que estremeço

5. – É aquele a quem a alma quer mais do que tudo.

Que adoeço, lhe dizei, peno e feneço.

6. – A alma apresenta três necessidades: doença, pena e morte. E padece de três maneiras segundo as suas três potências: entendimento, vontade e memória.
Acerca do entendimento diz que adoece, porque não vê Deus – saúde da alma.
Acerca da vontade diz que pena porque não vê Deus – deleite da vontade.
E acerca da memória diz que fenece, porque recordando a falta de entendimento e dos deleites da vontade, teme perdê-lo o que se consubstancia na sua morte.

7. – Estas três necessidades e penas estão fundadas nas três virtudes teologais: fé, caridade e esperança, respeitando o entendimento à primeira, a vontade à segunda e por último, a memória à terceira.



CANÇÃO III

Buscando meus amores
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei as flores
Nem temerei as feras
E passarei os fortes e as fronteiras

1. – DECLARAÇÃO
A alma apercebe-se de que para encontrar o Amado não lhe bastam gemidos, orações ou ajuda de terceiros, como ficou exposto nas canções anteriores.

Buscando meus amores

2. – A alma convence-se de que para atingir Deus tem de se esforçar para além da simples oração e da intercessão de outrem

3. – Terá de sair do reduto da sua própria vontade e do seu próprio gosto.

Irei por esses montes e ribeiros

4. – Dirigirá o seu esforço para as virtudes, exercitando a vida contemplativa, mortificar-se-á e não abandonará nunca os exercícios espirituais.
Entende que o caminho por onde se busca Deus é o de praticar em Deus o bem e mortificar em si o mal.

Nem colherei as flores

5. – Não colherá as flores que encontrar no caminho para Deus.
Não porá o seu coração na riqueza e bens que o mundo lhe oferece, não admitirá os contentamentos e deleites da carne, nem deverá ater-se aos gostos e consolos do espírito.

Nem temerei as feras
E passarei os fortes e fronteiras.

6. – Mencionam-se aqui os três inimigos da alma: mundo (feras), demónio (fortes) e carne (fronteiras).

10. – À alma convém no seu percurso, não colher as flores, ânimo para não temer as feras e forças para passar por fortes e fronteiras, indo pelos montes e ribeiras da virtude.



CANÇÃO IV

Ó bosques e espessuras
Plantados pela mão do meu Amado,
Ó prado de verduras,
De flores esmaltado,
Dizei-me, se por vós terá passado?

1. – DECLARAÇÃO
Depois de entender o modo como deve começar o caminho, não se detendo em deleites e gozos e das forças necessárias para vencer as tentações e dificuldades, no que consiste o exercício do conhecimento próprio, a alma, nesta canção, trilha a vereda do conhecimento das criaturas indo ao conhecimento do Amado, que as criou.
Depois do exercício de conhecimento próprio, o conhecimento das criaturas é o primeiro na ordem do percurso espiritual que aspira a Deus.

Ó bosques e espessuras

2. – O Santo chama bosques aos quatro elementos, terra, água, fogo e ar, e espessuras à imensidão das criaturas.

Plantados pela mão do meu Amado,

3. – Não obstante Deus faça muitas coisas por mão alheia, como pela dos Anjos e dos homens, a criação é obra totalmente sua.

Ó prado de verduras,

4. – Aqui, refere-se ao céu, cujas coisas, tais como planetas e estrelas, não fenecem nem murcham com o tempo.

De flores esmaltado.

6. – O prado de verduras está também de flores esmaltado, entendendo por flores os anjos e as almas santas.

(...)




JOSÉ MARIA ALVES
www.homeoesp.org





sábado, 15 de novembro de 2008

SÃO JOÃO DA CRUZ - POESIA COMPLETA


PARA VIR A GOSTAR DE TUDO

Para vir a gostar tudo,
Não queiras ter gosto em nada.
Para vir a saber tudo,
Não queiras saber algo em nada.
Para vir a possuir tudo,
Não queiras possuir algo em nada.

Para vir ao que não gostas,
Hás-de ir por onde não gostas.
Para vir ao que não sabes,
Hás-de ir por onde não sabes,
Para vir a possuir o que não possuis,
Hás-de ir por onde não possuis.
Para vir ao que não és,
Hás-de ir por onde não és.

Quando reparas em algo,
Deixas de arrojar-te ao todo.
Para vir de todo ao todo,
Hás-de deixar-te de todo em tudo.
E quando o venhas de todo a ter,
Hás-de tê-lo sem nada querer.

Nesta desnudez acha o espírito o seu descanso
Porque não cobiçando nada,
Nada o afadiga para cima e nada o oprime
para baixo porque está no centro
da sua humildade.



CANÇÕES DA ALMA

Em uma noite escura
Com ânsias em amores inflamada,
Ó ditosa ventura!
Sai sem ser notada,
Estando já minha casa sossegada.

Às escuras, segura,
Pela secreta escada disfarçada,
Ó ditosa ventura!
Em trevas e em celada,
Estando já minha casa sossegada.

Nessa noite ditosa,
Em segredo, porque ninguém me via,
Nem via eu qualquer cousa,
Sem outra luz nem guia
Excepto a que no coração ardia.

Mas esta me guiava
Mais certeira do que a luz do meio-dia,
Aonde me esperava
Quem eu para mim sabia,
Em parte onde ninguém morar parecia.

Ó noite que guiaste,
Ó noite amável mais do que a alvorada:
Ó noite que juntaste
Amado com amada,
A amada no Amado transformada!

Em meu peito florido
Que só para ele inteiro se guardava,
Ficou adormecido,
E eu o acariciava
E o abanar dos cedros refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
No colo me tocava,
E os sentidos suspensos me deixava.

Fiquei-me e esqueci-me,
O rosto reclinado sobre o Amado,
Cessou tudo e rendi-me,
Deixando meu cuidado
Em meio de açucenas olvidado.



CÂNTICO ESPIRITUAL
CANÇÕES ENTRE A ALMA E O ESPOSO


Esposa

Onde é que tu, Amado,
Te escondeste deixando-me em gemido?
Fugiste como o veado,
Havendo-me ferido;
Clamando eu fui por ti; tinhas partido!

Pastores que passardes
Lá por entre as malhadas ao Cabeço,
Se porventura achardes
Aquele que estremeço,
Que adoeço, lhe dizei, peno e feneço.

Buscando meus amores
Irei por esses montes e ribeiras,
Nem colherei as flores,
Nem temerei as feras
E passarei os fortes e fronteiras.

Pergunta às criaturas

Ó bosques e espessuras
Plantados pela mão do meu Amado,
Ó prado de verduras,
De flores esmaltado,
Dizei-me, se por vós terá passado?

Resposta das criaturas

Mil graças derramando
Prestes passou dos soutos pela espessura
E enquanto os ia olhando,
Só com sua figura
Vestidos os deixou de formosura.

Esposa

Ah! Quem poderá sarar-me?
Acaba de entregar-te sem rodeio;
Não queiras enviar-me
Mensageiro entremeio,
Que não sabem dizer-me o que eu anseio.

E todos quantos vagam
De Ti me vão mil graças relatando,
Mas todos mais me chagam
E mais me vai matando
Um não sei quê que ficam balbuciando.

Mas como perseveras,
Ó vida, não vivendo aonde deves,
Matando-te deveras
As setas que recebes
Daquilo que do Amado em ti concebes?

Porquê, tendo chagado
Meu pobre coração, o não saraste?
Depois de o ter roubado,
Porque assim o deixaste
E não tomas o roubo que roubaste?

Apaga-me a tristeza,
Que mais ninguém me pode aqui valer;
E veja tua beleza
Que é luz dos olhos meus
E para ela só os quero ter.

Mostra tua presença
Mate-me a tua vista e formosura;
Olha que esta doença
De amor, já não se cura,
Senão com a presença e com a figura.

Ó fonte cristalina,
Se eu, nesses teus semblantes prateados,
Visse, ó fonte divina,
Os olhos desejados
Que trago nas entranhas esboçados!...

Aparta-os, Amado,
Que o voo levanto.

Esposo

Volve já, ó pomba
Que o cervo vulnerado
Por sobre o outeiro assoma
Ao ar desse teu voo, e o fresco toma.

Esposa

Meu Amado, as montanhas,
Os vales solitários, nemorosos,
As insulas estranhas,
Os rios rumorosos
O sibilo dos ares amorosos;

A noite sossegada
Tocando já com o surgir da aurora,
A música calada,
A solidão sonora,
A ceia que recreia e enamora...

Caçai-nos as raposas,
Que a nossa vinha já se encontra em flor,
E tantas são as rosas,
Que em pinha as vamos pôr;
No cimo ninguém surja, por favor.

Detém-te bóreas morto,
Vem austro, que recordas os amores,
Aspira por meu horto,
E corram teus olores
E o Amado pascerá por entre as flores.

Ó ninfas da Judeia,
Enquanto nos rosais e dentre as flores
O âmbar nos recreia,
Morai nos arredores
Nem cheguem aos umbrais vossos rumores.

Esconde-te, meu Bem,
E volta a tua face para as montanhas;
Sem o saber ninguém,
E olha para as companhas
Da que por ilhas anda, as mais estranhas.

A vós, aves ligeiras,
Leões, cervos e gamos saltadores,
Montes, vales, ribeiras,
Águas, ares, ardores,
Mais os medos das noites, veladores.

Pelas amenas liras
E canto de sereias vos conjuro,
Que cessem vossas iras
E não toqueis no muro,
Para que a Esposa durma mais seguro.

E já entrou a Esposa
Para dentro do horto ameno desejado
E a seu sabor repousa
O colo reclinado
Sobre os braços dulcíssimos do Amado.

Sob a árvore de Adão
Ali comigo foste desposada,
Ali te dei a mão
E foste resgatada
Lá onde tua mãe fora violada.

Nosso leito florido
De covas de leões entrelaçado,
Em púrpura estendido,
De paz edificado,
De mil escudos de oiro coroado...

Discorrem as donzelas,
Sobre as tuas pegadas, no caminho;
Ao toque das centelhas
E ao temperado vinho,
Dão-te aromas de bálsamo divino.

Bebi do meu Amado
Na adega interior; quando saía
Por todo aquele prado
Já nada conhecia
E o rebanho deixei que antes seguia.

Ali me deu seu peito
E ciência me ensinou muito saborosa,
E a Ele, dom perfeito
De mim, Lhe fiz gostosa
E ali lhe prometi ser sua esposa.

De alma me consagrei
Ao seu serviço e todo o meu haver;
E já não guardo a grei,
Nem tenho outro mister:
Pois já somente amar é meu viver.

Se pois, no eido entretida
Não mais eu já for vista nem achada,
Direis que estou perdida,
Que andando enamorada
Perdidiça me fiz, e estou lucrada.

De flores e esmeraldas
Pela frescura das manhãs colhidas
Faremos as grinaldas
Em teu amor floridas
E num cabelo meu entretecidas.

Aquele só cabelo,
Que em meu colo voar tu advertiste,
Viste em meu colo, e, ao vê-lo,
Preso nele Te viste
E num só dos meus olhos te feriste.

E quando tu me olhavas,
Sua graça em mim teus olhos imprimiam:
Por isso mais me amavas
E nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em Ti viam.

Não queiras desprezar-me,
Que se morena cor em mim achaste,
Já bem podes olhar-me,
Depois que Tu me olhaste,
Pois graça e formosura em mim deixaste.

A cândida pombinha
À arca com o ramo regressou
E já a rolazinha
Ao sócio que esperou
Junto às ribeiras verdes encontrou.

Em solidão vivia,
Seu ninho em solidão pôs escondido,
Na solidão a guia
A sós o seu Querido,
Também, na solidão, de amor ferido.

Gozemo-nos , Esposo,
Vamo-nos ver em tua formosura
Ao monte e cerro umbroso
Donde mana a água pura:
Entremos mais adentro na espessura.

E logo às mais erguidas
Cavernas do rochedo subiremos,
Que estão bem escondidas;
Ali logo entraremos
E o mosto das romãs saborearemos.

Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E logo me darias,
Ó vida e alegria,
Aquilo que me deste noutro dia:

Da brisa o aspirar,
Da doce filomela a voz amena,
O souto de encantar,
Pela noite serena,
Com chama que consuma e não dá pena.

Ninguém isto alcançava
E nem Aminadab aparecia
E o cerco sossegava
E à vista descendia,
Das claras águas, a cavalaria.



CANÇÕES QUE FAZ A ALMA NA ÍNTIMA UNIÃO COM DEUS

Ó chama de amor viva!
Que ternamente feres
Da minha alma no centro mais profundo!
Pois já não és esquiva,
Acaba já, se queres;
Rompe a teia de encontro tão jucundo.

Ó cautério suave!
Ó saborosa chaga!
Ó branda mão! Ó toque delicado
Que a vida eterna sabe,
E quanto deve paga!
Matando, morte em vida tens trocado.

Ó lâmpadas brilhantes!
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
Escuro e cego, dantes,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto ao seu Querido!

Que manso e que amoroso
Acordas em meu seio
Onde tu só secretamente moras:
Nesse aspirar gozoso
De bem e glória cheio
Quão delicadamente me enamoras!



COPLAS DA ALMA QUE PENA POR NÃO VER A DEUS

Vivo sem viver em mim
E de tal maneira espero
Que morro porque não morro



Em mim eu não vivo já,
E sem deus viver não posso;
Pois sem ele e sem mim quedo,
Este viver que será?
Mil mortes se me fará,
Pois minha mesma vida espero,
Morrendo porque não morro.

Esta vida que aqui vivo
É privação de viver;
E assim, é contínuo morrer
Até que viva contigo.
Ouve, meu Deus, o que digo,
Que esta vida não a quero
Pois morro porque não morro.

Ausente estando eu de ti,
Que vida poderei ter
Senão morte padecer
A maior que jamais vi?
Pena e dó tenho de mim,
Pois se assim eu persevero,
Morrerei porque não morro.

O peixe que da água sai
Nenhum alívio carece
Que na morte que padece,
Alfim a morte lhe vale.
Que morte haverá que se iguale
Ao meu viver lastimoso
Pois se mais vivo, mais morro?

Quando penso aliviar-me
Vendo-te no Sacramento,
Faz-se em mim mais sentimento
De não poder-te gozar;
Tudo é para mais penar,
Por não ver-te como quero,
E morro porque não morro.

Se me deleito, Senhor,
Com a esperança de ver-te,
Vendo que posso perder-te
Redobra-se em mim a dor;
Vivendo em tanto temor
E esperando como espero,
Morro sim, porque não morro.

Livra-me já desta morte,
Meu Deus, entrega-me a vida;
Não ma tenhas impedida
Por este laço tão forte;
Olha que peno por ver-te,
O meu mal é tão inteiro,
Que morro porque não morro.

Chorarei já minha morte
Lamentarei minha vida,
Enquanto presa e retida
Por meus pecados está.
Oh! Meu Deus! Quando será
Que eu possa dizer deveras:
Vivo já porque não morro?



CANTAR DA ALMA QUE GOZA POR CONHECER A DEUS PELA FÉ

Que bem sei eu a fonte que mana e corre mesmo de noite.

Aquela eterna fonte está escondida,
Mas eu bem sei onde tem a sua guarida,
Mesmo de noite.

Sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda a origem dela vem,
Mesmo de noite.

Sei que não pode haver coisa tão bela,
E que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo de noite.

Eu sei que nela o fundo não se pode achar,
E que ninguém pode nela a vau passar,
Mesmo de noite.

Sua claridade nunca é obscurecida,
E sei que toda a luz dela é nascida,
Mesmo de noite.

Sei que tão caudalosas são suas correntes,
Que céus e infernos regam, e as gentes,
Mesmo de noite.

A corrente que desta fonte vem
É forte e poderosa, eu sei-o bem,
Mesmo de noite.

A corrente que destas duas procede,
Sei que nenhuma delas a precede,
Mesmo de noite.

Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida,
Mesmo de noite.

De lá está chamando as criaturas,
Que nela se saciam às escuras,
Porque é de noite.

Aquela viva fonte que desejo,
Neste pão de vida já a vejo,
Mesmo de noite.



ROMANCE SOBRE O EVANGELHO «IN PRINCIPIO ERAT VERBUM», ÀCERCA DA SANTÍSSIMA TRINDADE

No princípio morava
O Verbo, e em Deus vivia,
Nele sua felicidade
Infinita possuía.
O mesmo Verbo Deus era,
E o princípio se dizia.
Ele morava no princípio,
E princípio não havia.
Ele era o mesmo princípio;
Por isso dele carecia.
O verbo se chama Filho,
Pois do princípio nascia.
Ele sempre o concebeu,
E sempre o conceberia.
Dá-lhe sempre sua substância
E sempre a conservaria.
E assim, a glória do Filho
É a que no Padre havia;
E toda a glória do Padre
No seu Filho a possuía.
Como amado no amante
Um no outro residia,
E esse amor que os une
No mesmo coincidia
Com o de um e com o de outro
Em igualdade e valia.
Três pessoas e um amado
Entre todos três havia;
E um amor em todas elas
E um só amante as fazia,
E o amante é o amado
Em que cada qual vivia;
Que o ser que os três possuem,
Cada qual o possuía,
E cada qual deles ama
À que este ser recebia.
Este ser é cada uma,
E este só as unia
Num inefável abraço
Que dizer-se não podia.
Pelo qual era infinito
O amor que os unia,
Porque o mesmo amor três têm,
E sua essência se dizia:
Que o amor quanto mais uno,
Tanto mais amor fazia.

Da comunicação das Três Pessoas

E naquele amor imenso
Que de ambos procedia,
Palavras de grande gozo
O Padre ao Filho dizia,
De tão profundo deleite,
Que ninguém as entendia;
Somente o Filho as gozava,
Pois a ele pertencia.
Mas naquilo que se entende
Desta maneira dizia:
- Nada me contenta, Filho,
fora da tua companhia.
E se algo me contenta,
Em ti mesmo o quereria.
O que a ti mais se parece,
A mim mais satisfazia;
E o que em nada te assemelha,
Em mim nada encontraria.
Só de ti eu me agradei
Ó vida da vida minha!
És a luz da minha luz.
És minha sabedoria;
Figura da minha substância,
Em quem bem me comprazia.
Ao que a ti te amar, meu Filho,
A mim mesmo me daria,
E o amor que eu em ti tenho,
Nele mesmo eu o poria,
Por razão de ter amado
Aquele a quem tanto queria.

Da Criação

Uma esposa que te ame,
Meu Filho, dar-te queria,
Que por teu valor mereça
Estar em nossa companhia,
E comer pão numa mesa
Do mesmo que eu comia,
Para que conheça os bens
Que em tal Filho eu possuía.
E se congrace comigo
Por tua graça e louçania.
- Muito te agradeço, Padre,
- O Filho lhe respondia -.
À esposa que me deres,
Minha claridade eu daria,
Para que por ela veja
Quanto meu Padre valia,
E como o ser que possuo
Do seu ser o recebia.
A encostarei ao meu braço,
E em teu amor se abrasaria,
E com eterno deleite
Tua bondade exaltaria.

Prossegue

- Faça-se, pois – disse o Padre -
que o teu amor o merecia.
E neste dito que disse,
O mundo criado havia;
Um palácio para a esposa,
Feito em grande sabedoria;
O qual em dois aposentos,
Alto e baixo dividia.
O baixo que diferenças
Infinitas possuía;
Mas o alto requintava
De admirável pedraria,
Para que conheça a esposa
O Esposo que possuía.
No mais alto colocava
A angélica hierarquia;
Mas a natureza humana
No inferior a poria,
Por ser sua compleição
Algo de menor valia.
E embora o ser e os lugares
Desta sorte os repartia;
Eram todos um só corpo
Da esposa que dizia,
Que o amor dum mesmo Esposo
Uma esposa os fazia.
Os de cima possuíam
O Esposo na alegria,
Os de baixo em esperança
Da fé que lhes infundia,
Dizendo-lhes que a seu tempo
Ele os engrandeceria,
E aquela sua baixeza
Ele lha levantaria,
De maneira que ninguém
Jamais a insultaria;
Porque em tudo semelhante
Ele a eles se faria
E viria ter com eles,
E com eles moraria;
E que Deus seria homem,
E que o homem Deus seria,
E trataria com eles,
Comeria e beberia;
E para sempre com eles
O mesmo se ficaria
Até que se consumasse
Este tempo que corria,
E que juntos se gozassem
Em eterna melodia;
Porque ele era a cabeça
Da esposa que possuía,
À qual todos os membros
Dos justos ajuntaria,
Porque são corpo da esposa,
A quem ele tomaria
Em seus braços ternamente,
E ali seu amor lhe daria;
E que assim juntos num só
Ao Padre a levaria,
Donde do mesmo deleite
Que Deus goza, gozaria;
Que, como o Padre e o Filho
E o que deles procedia
Como um vive no outro,
Assim a esposa seria,
Que dentro de Deus absorta,
Vida de Deus viveria.

Prossegue

Com esta bendita esperança
Que de cima lhes viria,
O peso dos seus trabalhos
Mais leve se lhes fazia;
Mas a prolongada espera
E o desejo que crescia
De gozar-se com o Esposo
De contínuo os afligia.
Por isso com orações,
Com suspiros e agonia,
Com lágrimas e com gemidos
Lhe rogavam noite e dia
Que já se determinasse
A fazer-lhes companhia.
Uns diziam: Oh! Se fosse
No meu tempo essa alegria!;
Outros: Acaba, Senhor,
Ao que hás-de enviar, envia;
Outros: Oh! Se já rompesses
Esses céus, eu já veria
Com meus olhos que descesses,
E meu pranto cessaria!
Regai, ó nuvens do alto,
Porque a terra to pedia,
E abra-se já a terra
Que espinhos nos produzia,
E produz aquela flor
Com que ele floresceria.
Outros diziam: Oh! Ditoso
Quem em tal tempo vivia,
Que mereça ver a Deus
Com os olhos que possuía,
Tratá-lo com suas mãos,
Estar em sua companhia,
E disfrutar os mistérios
Que ele então ordenaria!

Prossegue

Em estes e outros rogos
Muito tempo passaria;
Porém nos últimos anos
O fervor muito crescia,
Quando o velho Simeão
Em desejos se acendia,
Rogando a Deus que quisesse
Deixá-lo ver esse dia.
E assim o Espírito Santo
Ao bom velho respondia
Dando-lhe sua palavra
De que a morte não veria
Até que chegasse a vida
Que do alto desceria,
E que ele em suas mãos
Ao mesmo Deus tomaria,
E o teria nos seus braços
E consigo o abraçaria.

Prossegue a encarnação

Já que o tempo era chegado
Em que fazer-se devia
O resgate da esposa
Que em duro jugo servia,
Debaixo daquela lei
Que Moisés dado lhe havia,
O Padre com amor terno
Desta maneira dizia:
- Já vês, Filho, que tua esposa
à tua imagem feito havia,
e no que a ti se parece
contigo coincidia;
mas é diferente na carne,
que em teu simples ser não havia.
Pois nos amores perfeitos
Esta lei se requeria,
Que se torne semelhante
O amante a quem queria,
Porque a maior semelhança
Mais deleite caberia;
O qual, por certo, em tua esposa
Grandemente cresceria
Se te visse semelhante
Na carne que possuía.
- Minha vontade é a tua
- O Filho lhe respondia -
e a glória que eu tenho
é a tua vontade ser minha;
e a mim me agrada, Padre,
o que tua Alteza dizia,
porque por esta maneira
tua bondade se veria;
ver-se-á teu grande poder,
justiça e sabedoria;
irei a dizê-lo ao mundo
e notícia lhe daria
de tua beleza e doçura,
de tua soberania.
Irei buscar minha esposa
E sobre mim tomaria
Suas fadigas e dores
Em que tanto padecia;
E para que tenha vida,
Eu por ela morreria,
E tirando-a das profundas,
A ti a devolveria.

Prossegue

Então chamou um arcanjo
Que São Gabriel se dizia,
Enviou-o a uma donzela
Que se chamava Maria,
De cujo consentimento
O mistério dependia;
Na qual a santa Trindade
De carne ao Verbo vestia;
E embora dos três a obra
Somente num se fazia;
Ficou o Verbo encarnado
Nas entranhas de Maria.
E o que então só tinha Padre
Já Madre também teria,
Embora não como outra
Que de varão concebia,
Porque das entranhas dela
Sua carne recebia;
Pelo qual Filho de Deus
E do Homem se dizia.

Do Nascimento

Quando foi chegado o tempo
Em que de nascer havia,
Assim como o desposado,
Do seu tálamo saía
Abraçado a sua esposa,
Que em seus braços a trazia;
Ao qual a bendita Madre
Em um presépio poria
Entre pobres animais
Que então por ali havia.
Os homens davam cantares,
Os anjos a melodia,
Festejando o desposório
Que entre aqueles dois havia.
Deus, porém, em o presépio
Ali chorava e gemia;
Eram jóias que a esposa
Ao desposório trazia;
E a Madre se assombrava
Da troca que ali se via:
O pranto do homem em Deus,
E no homem a alegria;
Coisas que num e no outro
Tão diferentes ser soía.

Finis



OUTRO DO MESMO QUE VAI POR «SUPER FLUMINA BABYLONIS»

Por sobre aquelas correntes
Que em Babilónia encontrava,
Ali me sentei chorando,
Ali a terra regava,
Recordando-me de ti,
Ó Sião, a quem amava.
Tua lembrança era doce,
E com ela mais chorava.
Deixei os trajos de festa,
Os de trabalho tomava,
Pendurei nos salgueirais
A música que levava,
Colocando-a na esperança
Daquilo que em ti esperava.
Ali me feriu o amor,
E o coração me arrancava.
Disse-lhe que me matasse,
Pois de tal sorte chagava.
Eu me metia em seu fogo,
Sabendo que me abrasava,
Desculpando a mariposa
Que no fogo se acabava.
Estavam-me consumindo,
E só em ti respirava.
Em mim, por ti, eu morria
E por ti ressuscitava;
Porque a lembrança de ti
Dava vida e a tirava.
Finava-me por finar-me
E a vida me matava,
Porque ela perseverando,
De ver-te, a mim, me privava.
Mofavam os estrangeiros
Entre os quais cativo estava.
Pensava como não viam
Que o gozo os enganava.
Pediam-me eles cantares
Dos que em Sião eu cantava:
- Canta de Sião um hino;
para vermos como soava.
- Dizei, como em terra alheia
onde por Sião chorava
cantarei eu a alegria
que eu em Sião disfrutava?;
no olvido a deixaria
se em terra alheia gozava.
Com meu palato se junte
A língua com que falava,
Se de ti eu me olvidar
Na terra onde morava.
Sião, pelos verdes ramos
Que Babilónia me dava
Olvide-me a minha destra,
Coisa que em ti mais amava,
Se de ti não me lembrar
No que mais gosto me dava,
E se eu tivesse festa
E sem ti a festejava.
Oh! Filha de Babilónia,
Mísera e desventurada!
Bem-aventurado era
Aquele em quem confiava,
Que te há-de dar o castigo
Que da tua mão levava;
E juntará os seus filhos
E a mim, que em ti chorava,
À pedra, que era Cristo,
Pelo qual eu te deixava.

Debetur soli gloria vera Deo!



COPLAS DO MESMO SOBRE UM ÊXTASE DE ALTA CONTEMPLAÇÃO

Entrei aonde não soube
E quedei-me não sabendo
Toda a ciência transcendendo


Eu não soube aonde entrava,
Porém, quando ali me vi,
Sem saber aonde estava,
Grandes coisas entendi;
Não direi o que senti,
Que me quedei não sabendo,
Toda a ciência transcendendo.

De paz e de piedade
Era a ciência perfeita,
Em profunda soledade
Entendida (via recta);
Era coisa tão secreta,
Que fiquei como gemendo,
Toda a ciência transcendendo.

Estava tão embevecido,
Tão absorto e alheado,
Que se quedou meu sentido
De todo o sentir privado,
E o espírito dotado
De um entender não entendendo,
Toda a ciência transcendendo.

O que ali chega deveras
De si mesmo desfalece;
Quanto sabia primeiro
Muito baixo lhe parece,
E seu saber tanto cresce,
Que se queda não sabendo,
Toda a ciência transcendendo.

Quanto mais alto se sobe,
Tanto menos se entendia,
Como a nuvem tenebrosa
Que na noite esclarecia;
Por isso quem a sabia
Fica sempre não sabendo,
Toda a ciência transcendendo.

Este saber não sabendo
É de tão alto poder,
Que os sábios discorrendo
Jamais o podem vencer,
Que não chega o seu saber
A não entender entendendo,
Toda a ciência transcendendo.

E é de tão alta excelência
Aquele sumo saber,
Que não há arte ou ciência
Que o possam apreender;
Quem se soubera vencer
Com um não saber sabendo,
Irá sempre transcendendo.

E se o quiserdes ouvir,
Consiste esta suma ciência
Em um subido sentir
Da divinal Essência;
É obra da sua clemência
Fazer quedar não entendendo,
Toda a ciência transcendendo.



OUTRAS CANÇÕES AO DIVINO DE CRISTO E A ALMA

Um Pastorinho, só, está penando,
Privado de prazer e de contento,
Posto na pastorinha o pensamento,
Seu peito de amor ferido, pranteando.

Não chora por tê-lo o amor chagado,
Que não lhe dói o ver-se assim dorido,
Embora o coração esteja ferido,
Mas chora por pensar que é olvidado.

Que só o pensar que está esquecido
Por sua bela pastora, é dor tamanha,
Que se deixa maltratar em terra estranha,
Seu peito por amor muito dolorido.

E disse o Pastorinho: Ai, desditado!
De quem do meu amor se faz ausente
E não quer gozar de mim presente!,
Seu peito por amor tão magoado!

Passado tempo em árvore subido
Ali seus belos braços alargou,
E preso a eles o Pastor se ficou,
Seu peito por amor muito dolorido.



OUTRAS COPLAS AO DIVINO

Atrás de amoroso lance,
Que não de esperança falto,
Voei tão alto, tão alto,
Que, à caça, lhe dei alcance
.


Para que eu alcance desse
Àquele lance divino,
Voar tanto foi preciso
Que de vista me perdesse;
E, contudo, neste transe
A meio do voo quedei falto;
Mas o amor foi tão alto,
Que lhe dei, à caça, alcance.

Quando mais alto subia
Deslumbrou-se-me a visão,
E a mais forte conquista
Se fazia em escuridão;
Mas por ser de amor o lance,
Dei um cego e escuro salto,
E fui tão alto, tão alto,
Que lhe dei, à caça, alcance.

Quanto mais alto chegava
Deste lance tão subido,
Tanto mais baixo e rendido
E abatido me encontrava;
Disse: Não haverá quem alcance;
E abati-me tanto, tanto,
Que fui tão alto, tão alto,
Que lhe dei, à caça, alcance.

Por uma estranha maneira
Mil voos passei de um só voo,
Porque a esperança do céu
Tanto alcança quanto espera;
Esperei só este lance
E em esperar não fui falto,
Pois fui tão alto, tão alto,
Que, à caça, lhe dei alcance.



GLOSA

Sem arrimo e com arrimo,
Sem luz e às escuras vivendo,
Todo me vou consumindo.



Minha alma está desprendida
De toda a coisa criada
E sobre si levantada,
Numa saborosa vida
Só em seu Deus arrimada.
Por isso já se verá
A coisa que mais estimo,
Que minha alma se vê já
Sem arrimo e com arrimo.

E, embora trevas padeço
Em esta vida mortal,
Não é tão grande o meu mal,
Porque, se de luz careço,
Tenho vida celestial;
Porque o amor dá tal vida,
Quanto mais cego vai sendo,
Que tem a alma rendida,
Sem luz e às escuras vivendo.

Faz obra tal o amor
Depois que o conheci,
Que se há bem ou mal em mim,
Tudo faz de um só sabor,
E à alma transforma em si;
E assim sua chama saborosa,
A qual em mim estou sentindo,
Apresta sem restar coisa,
Todo me vou consumindo.




GLOSA AO DIVINO

Por toda a formosura
Nunca eu me perderei,
Mas sim por um não sei quê
Que se alcança por ventura
.


Sabor de bem que é finito,
Ao mais que pode chegar
É cansar o apetite
E estragar o paladar;
E assim por toda a doçura
Nunca eu me perderei,
Mas sim por um não sei quê
Que se acha por ventura.

Não vos cause espanto isto,
Que o gosto se torne tal,
Porque é a causa do mal
Alheia de todo o resto;
E assim toda a criatura
Alienada se vê,
E gosta um não sei quê
Que se acha por ventura.

É porque estando a vontade
De Divindade tocada,
Não pode ficar pagada
A não ser com Divindade;
Mas porque esta formosura
Somente se vê por fé,
Saboreia um não sei quê
Que se acha por ventura.

Assim de tal namorado
Dizei-me se tendes dor,
Pois que ele não tem sabor
Entre tudo o que é criado;
Só, sem forma e sem figura,
Sem achar arrimo e pé,
Gostando lá não sei quê
Que se acha por ventura.

Não penseis que o interior,
Que é de muito mais valia,
Acha gozo e alegria
No que cá produz sabor;
Mas sobre toda a formosura
E o que foi, será e é,
Gosta de lá um não sei quê
Que se acha por ventura.

Mais emprega seu cuidado,
Quem se quer avantajar,
No que ainda está por ganhar
Que no que já tem ganhado;
E assim, para mais altura,
Eu sempre me inclinarei
Sobretudo a um não sei quê
Que se acha por ventura.

Pelo que pelo sentido
Se pode cá compreender
E quanto se pode entender,
Seja embora muito subido
Nem por graça e formosura
Eu nunca me perderei,
Mas sim por um não sei quê
Que se acha por ventura.

Finis



LETRAS

Do Verbo divino
A Virgem prenhada
Segue de caminho:
Pede-vos pousada.

Suma da perfeição

Olvido do que é criado,
Memória do Criador,
Atenção ao interior
E estar amando o Amado.


SÃO JOÃO DA CRUZ



JOSÉ MARIA ALVES
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