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ARTE

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quarta-feira, 28 de março de 2018

PEQUENOS POEMAS II



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –




***



     um só mandamento –
                                     amar mais
           do que deus amou



***



por vezes

não sou eu que escrevo

que penso     que vivo

alguém vive no meu espírito

pensa o que não penso

dita o que escrevo

diz o que não digo

e se de mim estou morto
nele estou vivo



***



nem telha
nem terra
nem alma
nem nada



***



      aqui ali sem saber onde
            sem lugar onde reclinar a cabeça – 
                            meu nome fumo branco



***



uma palmeira     cabos de alta tensão     o cipreste da estação     partida     sempre a paisagem suja e aqueles rostos de mortos-vivos

                paz às suas misérrimas almas



***



o ladrão nada deixou –

                               apenas a valiosa lua 
                               que o monge lhe quis dar
                               e que tolo rejeitou



***



aquele sorriso no metropolitano –

uma boca rosa a sorrir para si mesma
um olhar difuso e quente
um boné ao lado a soltar cabelos de oiro
calça de ganga rasgada
um desejo desejado
de te beijar
ainda hoje presente



***



que na hora da morte
o azul do céu seja meu tecto
e a terra a eterna companheira



***



os dias deviam ser ronceiros
como lesmas sem rastro
ou veleiros em delicada brisa



***



esteja onde estiver aí estará meu templo 
esteja com quem estiver aí estará meu irmão
estando só estarei no mundo
estando no mundo estarei só
                                       nele sempre
seja na virtude seja na imoralidade

não há crescimento ausente de sofrimento
nem alma incólume à leviandade



***



o meu testamento
nada tem de extenso –

a vida é um sonho



***



o amor não se disfarça
quem ama nada teme –

vem a mim



***



a correnteza do rio inundado
lembra-me a beleza de teu corpo
com o meu lado a lado deitado



***



uma árvore
no telhado
azul
desflorada
como a menina
dos seus olhos
dos seus sonhos



***



calor dos diabos 
a solidão dos campos de pasto morto –

junto ao ribeiro um velho cavalo busca sombra



***



o que procuras no coração esquerdo
ou está em ti no coração direito
ou é em vão que o buscas –

tempo perdido de absurdo humano
no palácio ilusório da vida



***



trago comigo um bloco onde anoto o que vejo e sinto
momento a momento hora a hora
                                                o eterno-agora

                 antes o deitasse fora



***



aqui
estou aqui
apenas aqui

e a neve cai



***



inverno chuvoso –

no campo alagado
dois cães fazem amor



***



amanhã pela manhã o dia ao nascer dir-nos-á

                                chega

                              urge orçar

      só arriba
                 a vontade
                              alquebrada



***



o velho tanque do juiz
no topo do quintal –

um rabo nu que flutua



***



o coração é o centro de todas as sombras –

             no cemitério da aldeia
um cão uiva à beira de cova hoje aberta



***



a seara na serra
é um mar verde
a ondular ao vento



***



na taça cheia
não sobra lugar –

mente encharcada



***



no dia de finados
a morte de sua amada

para memorar a morte
no dia de sua lembrança

viu-a o desgraçado descer à cova
sereno de lágrimas

morreu também o amado
que na amada vivia mais que em si

no mesmo coval relvado
foi sepultado em alba fria



***



olho em redor –

as montanhas as nuvens o céu azul
tudo religiosamente novo



***



nova partida –

meu nome 
indecisão



***



o galo já canta –

lá fora o breu da noite
cá dentro o vento frio da alma



***



porque carrego eu o fardo do desejo e da volúpia
porque não morro para o passado
porque não morro



***



sozinho
me deito

sozinho
me divirto

sozinho
acompanhado

por uma taça de vinho



***



o feitiço
foi-me lançado

deslumbrado por brinquedos fúteis
bens perecíveis
sombras da riqueza e ostentação

a feiticeira
venceu-me

preso às coisas do mundo
até quando



***



um sem-abrigo
rói as unhas –

que mais tem ele para comer



***



jesus não morreu –

morre todos os dias
na carne dos pobres



***



olha criança
           o papão da gentalha –
                        espantalho no parlamento



***



jesus disse –

mais nada vos digo
ó adulterados



***



eu sou o meu mestre –

o meu coração é o da pomba

o meu espírito o da serpente

e a minha atenção constante



***



casam-se
prazer 
e
dor

o azar
com 
a sorte

lágrimas
com
sorriso

porque não casar
vida e morte



***



três chaminés enormes
em perfeita quietude –

que desperdício



***



a ilusão
tem sempre o óbito reservado
seja tarde seja cedo



***



o bairro morre

nas pracetas coalhadas
as árvores
decadentes
são o testemunho infiel
dos túmulos ornados
a pérfidos vasos
ocos de amor



***



no cemitério entre mortos
      leio as inscrições da memória –

            uma lágrima inunda os sepulcros



***



o portão sem fechadura 
quem quiser entrar entre –

quinta que sem ti se sente só



***



o destino
é uma moeda
de duas caras

        como tu
        como eu



***



                    geada
             campos brancos

      a dor de uma alma angustiada
    nos botões da cerejeira por florir



***



um serzino canta num poste de electricidade

    uma túlipa-brava atenta à sua ária

        vem até ao solo coberto de alimento

                  e volta ao céu
                       a cantar

   é esse o seu lugar



***



à beira da via férrea
são muitos os canaviais

no trem animais     pouco mais



***



a ambição
o veneno chamuscado
pelos tesouros
crescentes

as vidas
a encolher os ombros
no ferro-velho 
das alucinações

a esperança 
ébria
a enfraquecer o dia
na hora da sua extinção



***



de rosa veste-se o céu

   rosa é teu vestido 

      a bordo tua rosa desfolho



***



ovelhas no lameiro
sem pastor –

as muralhas do ego derrubadas



***



os ladrilhos do coração
dizem-me ao som da chuva –

ama hoje amanhã é noite



***



ó corvo de bico amarelo
que te faz aproximar

vai
hoje não tenho nada para te dar



***



no outono ao tombar das frias folhas
as crianças correm felizes no pátio da escola
enquanto a cada dia um velho morre na aldeia



***



a beleza do céu azul
é a beleza da cor –

incontornável



***



são as viagens que nos aproximam
e afastam como aves marinhas
que planam em lágrimas de luar



***



a dor da ferida
que rasga
o teu peito

o sofrimento
que deus te deu

é teu
é meu



***



mastros erguem-se
ao sol poente

nuvens enamoradas
a ocidente

tão triste é
a embarcação
fundeada

como a alma
mal-amada



***



tal como a ulisses
meu velho cão 

aguardou por mim
para morrer

ó peste
como te hei-de eu esquecer



***



o vento sopra para norte
o meu caminho é sul

mas

amigo
vou contigo



***



tão velhinha –

na memória da infância
não me reconhece

eu
já tão velho
tão diverso
na carne tão diferente do que era
da imagem
retida
na sua santa lembrança



***



é esta dor
este ferimento
que me faz conceber

não coisas nuas e novas

mas a mim
o meu ser 
eu mesmo
em cada momento



***



uma barata-tonta
de fato e gravata –

director-menino-da-mamã



***



lince-ibérico
há horas que o persigo

é antigo lusitano

mesmo que o encontre
de nada me irá adiantar



***



      abomino telhas e soalhos
   não assim o céu e o mar
na maresia que em mim renasce



***



perco-te com dor
mas perco-te
como quem ama uma virgem
sem ousar tocar-lhe

e se tudo pareço ter perdido
digo
resta-me a solidão da coragem
e do amor



***



não há nada que neste mundo já não conheça
nenhuma gruta escorada por ossos do acaso
nenhuma ponte sobre o infinito
nenhuma noite com os olhos rasos de lágrimas trémulas
nenhum domingo em fúria dentro de um outro dia qualquer

esmolados mistérios



***



há uma lágrima no teu olhar
longos cílios que lacrimejam –

hei-de voltar



***



todos os dias
reza minha mãe o terço

maria a ouve
decerto
no seu coração em flor

é uma santa
escutando
o que outra santa
com fé e amor
lhe está rezando



***



outono – 

silvas crescem para dentro
como eu para o meu interior



***



serei eu sempre o eterno viajante

      quando chego
               quero partir

               quando parto 
      quero chegar

          e se chego
              voltar

ora – 

           raios me partam
           deixai-me estar



***



não há mal que me possa acontecer

que mal pior do que um eterno
anoitecer do amor que mal mais
atroz que a ausência do amar e a
feroz investida do ódio e da ganância



***



para esta viagem
a melhor companhia
é o silêncio da solidão



***



na noite aguardo a tua voz

qualquer mensagem do vento tranquilizará o corpo dobrado sobre si mesmo

gravuras terra de sombra natural nas paredes
curvadas aos temporais românticos

uma única palavra eternizará o amor de outrora



***



a tua morte

                o vazio da tua presença
                na esplanada deserta
                fazem-me reflectir –

que busco eu afinal



***



na parede velha da casa
segurando-a
uma osga –

livra-me das melgas



***



no bosquete

a sombra de cada folha
vigia suspensa
o azul do firmamento



***



se a minha mente fosse um espelho
nada me atormentaria

aceitaria sem conservar
seria perfeito
na paz da quietude
no vazio da plenitude



***



um cego na vereda
outro cego conduz –

espelho do mundo



***



indecisão –

fim de tudo
princípio do nada



***



sol do meio-dia –

no rio a imagem do céu
na cabecita da rã



***



vê o pássaro que voa
em círculos rápidos e perfeitos

em si
morto o passado
a lembrança

retorna ao voo
novo e inocente
como a mente de uma criança



***



olhos negros
na noite negra

vinde daí
corromper o doce sono

numa cama emprestada
fazer amor 
por toda uma vida
no amplexo adormecida



***



a pedra grande da colina
junto da levada
doirava ao sol
sem lembrar
que dia após dia ano após ano
o mesmo sol a doirava

abençoada



***



flocos de neve
      vestem a impiedade
             que ofendeu o teu santo corpo

eu estou aqui
       imóvel –
               a neve também

   e tu onde estás



***



na tarde fria as palavras não aquecem o vento
o bafo quente das sílabas dissipa-se nas paredes de granito negro

            enfado de palavreado
            inútil e desnecessário



***



se houvesse justiça divina
a palavra seria dada aos justos
e os iníquos seriam mudos



***



quando o coração
      se comprime nas sombras
                        e a aldeia repousa
                             no silêncio viperino
                             a angústia
                        paira na cresta
      da velha tília



***



      noite escura na colina

      não a temo ou esconjuro
              basta-me uma vela
                    para as letras grandes do livro

            acendo-a e não vejo as estrelas
                  mas não é noite é dia
                       apago-a e vejo

                              e vivo



***



os pensamentos persistem
                                   na nau lotada

   sucedem-se e subsistem
                           em perpétua afronta
   ao universo inocente



***



uma geneta – 

não é o que pensas 
é civeta nocturna



***



a branca flor
                   roça as margens da ribeira
          a par
                   do cabelo negro-azulado
que do salgueiro
                         cai 
                         para o leito de morte
          da cruel ausência

      o túnel pintou de negro a paisagem
      a morte pinta de negro o pensamento



***



a vida é doença
                   de que nenhum vivo se livra

a morte sossego
                    que ao morto não deleita

vida e morte a ninguém aproveita
                      a menos que tolo se seja



***



na primavera
                                      a percepção
                   mais perfeita
mais nítida
                                 amplia-se ao exterior
às pétalas incólumes
                                      e rosadas
    da flor de um só dia



***



uma borboleta esvoaça
                              ao vento forte

exausta poisa na proa
                            lança aguçada rumo ao norte

             logo parte

                       antes a liberdade
                           à segurança



***



        no penedo de gibraltar
               um macaco

                         macaco-de-gibraltar

     olhamo-nos imóveis
                                       cada um
               querendo saber
                                    quem o outro é

        segundos que parecem eternidade
        nos olhos luzidios da curiosidade

                      somos irmãos



***



dor sem fim
dor gélida

por quanto tempo
esta saudade

haverá quem a transforme
em amor
e não podendo ser
em amizade



***



uma nuvem negra
no alto do mastro

a sua água é pura
verdadeira
transparente fresca
imaculada

inocente e cristalina
como brincadeira de criança



***



pássaros chilreiam no teu quintal
                      na eira nos juncos da ribeira

        e eu não sei
                          se fico surdo cego mudo
         como antes de minha mãe
                          me entregar ao mundo

        quando apenas quero
        a vida que um animal tem



***



campos secos que brilham ao sol poente
azinheiras a amarelar de secura – 

não findará este verão infernal



***



uma canção pela tua trança

no salão doirado um alaúde em que as almas nobres se perdem
uma flauta adormece no leito cristalino
a tua trança ao lado
                nos olhos esculpidos a lágrimas 
                do santo que impávido
                te implora no seu canto
                um efémero momento
                em breve movimento



***



dia de primavera –

as ruas sujas da cidade
ignoram-no



***



injuriado vilipendiado
o desdém da ingratidão

o silêncio –

o doado retorna ao doador



***



desaparecido o passado fica
                                     o presente

desaparecido o presente resta
                        o agora-sem-tempo

           o nada que tudo agrega
              que a nada se apega



***



      o sol queima-me o corpo
              mas quero-o

  tanto como o sofrimento que me atormenta
        e os ténues momentos de repouso

               no espaço lento dos dias

é um privilégio ter vivido
uma vida de padecimento



***



sou a gota
que dia a dia se derrama
no oceano da vida



***



um carvalho na
aurora
da serra despida
aponta com suas chagas
o caminho áspero
das dunas vegetais



***



        sento-me na enxerga
cabeça apoiada nas mãos dolentes

        aguardo entorpecido

enquanto espero
                         pôs-se a lua
                         nasceu o sol
e hoje tu já não vens



***



que angústia é esta que me domina
que sopro de ânsia me consome

que saudade me envolve
que tristeza me contamina

neste quarto de invernia é ausência que sinto
do cheiro da urze e da visão do cume



***



hoje sinto alma em corpo limpo –

saiu da minha vida a imagem
de asco da última das falsas-prostitutas



***



o sol enlouqueceu
a lua de amor –

suor de primavera



***



uma prostituta na noite negra
                                   desce a avenida

um mendigo aconchega-se
                                   nos cartões do banco verde

um bêbado vomita bílis
                               e cambaleia a sorrir

um homem foge do medo
                                  com a mão no peito

       um padre passa em corrida cega



***



serras mar estrelas
                                     ventos sol e luar
              derramam amor

                      doce
     e
                                        forte

             forte
                           como
a morte



***



a casa da quinta cercada de pinheiros mansos
nos campos por lavrar alguns bois bravos –

os contrários conjugam-se harmoniosamente



***



do longo e frígido inverno
nasceu fugaz primavera
como paixão de amantes



***



levantou-se o sol
              no teu seio

o orvalho brilha 
                  no ninho das aves
que se acende

e meu rosto doirado
                    resplandece no terreiro



***



forte corrente arrasta a barca –

quem auxiliará o barqueiro
a chegar à margem



***



hoje o poente
é uma atmosfera de turner

vermelho-rosado de vigor
cinzento-marfim tormentoso



***



a morte um dia virá
ceifando violenta
o que à força foi criado

terei eu pedido para ser concebido
terei eu solicitado a presença de yama



***



parto
por te ter
e por te não ter
parto também

teus olhos
verdes
troco
pela partida

se com eles
ficar
para sempre
te verei

se chegar
sem os ter
cego de ti
estarei



***



uma gaivota longe do mar

um homem emigrado no fim do mundo

uma mulher esconde o rosto à entrada de um hotel

um estropiado pede esmola

um jardim de urtigas plantado

um polícia dorme no carro

uma mulher faz um guisado

um cego atravessa a rua

uma andorinha de luto

                     o mesmo mundo 
                     a mesma fraude
                     a mesma merda
                     do mesmo estado
              nos corredores do mercado



***



lágrimas do céu
caem nas telhas partidas
nos buracos do telheiro
do vagabundo esfarrapado

tão em paz

sono profundo
de frio morto
e
que para ali jaz
sem acordar
sem ser notado



***



antigamente
escrevia-se pelos cafés

versos saíam ao ritmo das encomendas
das pilecas e das manadas

as mesas eram damas
as cadeiras corpos nus
e os cinzeiros corações latentes de braços em cruz



***



quando as tuas coxas se abrem
ainda que levemente
como quem quer deixar passar a brisa da manhã no corpo a espreguiçar o desalinho
surge uma neblina prateada no abismo da minha alma
desejo de navegante desmandado 
do mar violeta da volúpia enamorado



***



feres-me a alma
senhor
mas não te mostras

tanto te acusámos
de ser um deus escondido
que te escondeste para sempre



***



dizem                               paz
         a paz esteja convosco
          que durma connosco

questão de palavras     dez mil anos de arte poética
e outros tantos com as mesmas guerras

         que o diabo as carregue



***



deus pecou
aquando da criação
ao acordar com satanás
na mais vil e cruel
discriminação
de a poucos dar
o que a todos 
não deveria faltar

      cada homem deveria ter um cérebro



***



cheios de graça
os navios no alto

                        o patrão só
                        que passa e vê
                        no rumo inconstante
                        como é triste o horizonte
                        na beleza do mar



***



amanhã rezarei pelo mundo
que continuará a arder no corpo tombado da cruz –

       deus cerrou os ouvidos



***



os fios da noite
   percorrem os meus pulsos
       o arquejo da respiração
           e pousam crus
              nos meus ombros 
         nus



***



este é o primeiro poema que te escrevo –

não te conheço mas sei que virás
perfumar o chão do caminho
e as pétalas do meu coração embriagado



***



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