Este diário complementa o nosso site pessoal

( VER ETIQUETAS NO FIM DA PÁGINA )

USE O PESQUISADOR DO BLOGUE -

-

OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

Pesquisar neste blogue

quinta-feira, 22 de março de 2018

O TEMPO É CRUEL



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



O TEMPO É CRUEL

anda   cambaleia comigo sombra amiga   leva-me contigo perfuma-me de nardo o caminho alaga-me a alma de confianças e desvelos      vê meus olhos lacrimejantes minhas mãos brancas e glaciais os lábios floridos        errático e sofrido estou      sou cinza mágoa e pó        oh clarões calados oh trovões que caís aos pés da minha verdura e da miragem de tantas benquerenças
fulgores de falsas dores        airosa cintura de menina       tão fina e quente        
espera
que a tarde é oiro e o tempo filigrana
espera
afinal para além de mim já ninguém te ama


sou um vendedor de tempo

seus
lagalhés-engravatados
suas
varinas de hemiciclo
seus
abades do armistício
e
defunteiros-dos-coitados
zés-ninguém


façamos uma pausa
breve como convém
vasta-quanto-baste

a lembrança dos dias úteis
dissolve-se no martírio dos fins de tarde
pintados por clarões flutuantes
  

nos desfiladeiros da esperança

nada é insubstituível      nem os deuses inefáveis e os anjos translúcidos

há uma ferida de assombro em cada passo
uma pedra tumular para a urgência
um enfado ansioso na moldura espinhosa do crepúsculo

as pétalas caem uma a uma cobrindo o solo de novas águas

longe a terra-de-ninguém

um coração estreitado nas mãos crispadas apoia-se no relicário
o cálix das antigas eras abre-se ao terno repouso dos frutos silvestres
a força do corpo perde-se no sono fatal da essência matinal
e no olivedo esmagado pelo peso amadurecido e pelo altar definitivamente abandonado

morrem as últimas andorinhas

na aleivosia dos dias      no rumorejo daquele mirar infinito


havia sido belo e elegante      ladeado por seres exuberantes      trazia consigo a poesia das mais enternecidas auroras e dos arcanos do ocaso
na magia das noites o sorriso discreto antojava às mais esplêndidas mulheres
agora poucos o ouviam e os luzeiros olhavam-no de soslaio como se estivesse irreparavelmente contaminado        nada lembrava as estupendas viagens na terra-da-volúpia      
as luzes dos palcos rastearam na madrugada vexadas pelos passos melancólicos e desalentados dos primeiros operários e das primeiras dactilógrafas         modorra do dia-a-dia 
pujantes eram as súplicas que pronunciavam em sânscrito as medidas exactas da imolação      
assim seja      disse        o cabelo ainda farto mas branco banhava seus pensamentos febris
com firmeza apoiou-se no balcão cravejado de corpos estranhos
alguém lhe perguntou      quantos anos
talvez cinco ou oito        afáveis os risos dos simples
algum silêncio


emudecimento 


e uma última explicação
são os que me restam de vida
talvez sim             talvez  não 


sua última palavra
um sopro      indiferença
carência de companhia do desejo
nos limites da arte furibunda
falecimento derradeiro ao anoitecer       


porque não
   a absoluta
razão

dos jumentos licenciados

dos poderes cariados

das matilhas políticas insalubres

dos populares rebanhos disciplinados

do tempo que se esvai dos dedos deformados dos indoutos e do conhecimento-sem-sabedoria
artrite reumatoide da cultura       fibromialgia dos vade-mécuns

badamecos de longo curso 


está chegado o tempo do ócio
às abas vulvares e rociadas
do pantanal remoto

os infiéis sufocam
nos rebentos odiosos
do cipreste morto

a lua cheia          convidativa
adivinha os teus anseios
reflectidos em pálidas nuvens
tão próximas e distantes

o objecto em si

o erro da consciência

o tempo        sempre o tempo
que passa
que não passa
   que escasseia
   que concebe
que bebe e é bebido 
             que morre e mata
     ilógico
      impiedoso


sempre a puta da consciência
e das coisas que nela navegam
no cornudo tempo psicológico


coisas que são e não são coisas

se a minha consciência é realmente consciência

ou se as coisas que o não são o são

e há coisas sem consciência

  talvez
consciência 
sem coisas 

as adoráveis percepções amarrotadas dos sentidos pesarosos e escandalizados


suave milagre


a terra gira amalucada da mesma forma para os embriagados do que para os cosmógrafos de sua majestade        daí nasce toda a ciência obsoleta estribada nas leis arrogantes das cátedras embrutecidas
desde criança que na minha falsa timidez vi nas palavras dos tratados que à força me impingiam a magna parvoíce das deliciosas ambições dos eruditos        brutos embevecidos por discursos dignos dos mais extraviados sofistas
hoje poucos são os que lembram esses mestres barulhentos e ocos como tambores em dia de comício
a cada quatro anos nova arruada para um mesmo povo que sonha com amores de encantar e adormece no colo dos demónios-sempiternos
saudemos o grunhido do envelhecimento e a morte das instituições      dos nobres-sem-tostão      dos estadistas      da argumentação falaciosa dos trabalhadores e das promessas ignóbeis dos sindicatos e corporações
sordícia que o tempo corrói 


cidade dos cem portões e mil torreões
mil eram os alabardeiros
nos semideiros sonolentos estacara a cavalaria

nela os desafortunados soldados famintos sorriam-se dos estorvos da estratégia contando as horas nos dedos vacilantes
da sabedoria
sem que soubessem
que a sua única fé
era a morte

o remordimento do final do dia
a torrente plana do recreio da vida
consciência de pesadas vestes

o ameaço circunspecto de um cerceio no estuário do denodo 
crime imperfeito de pestes ancestrais


heróis-do-descanso        como é fácil e pouco exigente dar voz de comando no areal        ó generais-do-arneiro almirantes-do-ribeiro-manso

ide
    naveguem


sempre para sul
busquem e
rebusquem
novas terras
negras-altezas
mulheres
monstros
semi-deuses
diamantes e
rubis
riquezas

barca barinel e caravela
aproai-vos ao tempo
bolinas imperfeitas
singraduras silenciosas
abatimentos fatais

o maior perigo do mar é a terra

ide
    pobres
    presidiários
    condenados
    mendigos 
    aventureiros

e trouxeram nos porões sujos e fedidos
escravos
escravas
crianças
satisfazendo libidinosos anseios

no convés
  especiarias
  oiro e jóias
  sândalo


história de porcos-negreiros

escândalo

gente tão forte com os fracos e fraca com os fortes
tão temente a deus como ao diabo
gemeu e rangeu os dentes
na hora da morte
enquanto os heróis
  jazem
  pó
  nos panteões
  nos mosteiros 
    

a vida contínua
no fenecimento eterno

o deslumbre
do despojado

um único passo 
em leve movimento

pássaros voando em círculos
   na cegueira 
do vento
glória na terra
à madeira sepulcral 
ao vinho nupcial

o esquecimento das notas brancas do alaúde
e um corpo pisado pela
chama canibalesca

quando o dia termina
     os corações
     regressam
     aos covis
     extenuados
     desesperados
aguardando a irrespirável ordem de despejo dos sentimentos
certeza única do rescaldo das marés-vivas de setembro


as folhas caem hoje das árvores da alameda com a violência do vento de sudoeste
caem na minha consciência com todas as dúvidas de todas as ciências
        
  merda para as ciências
para os afiliados das academias 

capitulam como se não tombassem e o vento de nordeste amainasse ou não existisse no quotidiano filamentoso das massas anónimas


uma mulher
tresmalhada
um padre
por benzer
uma loja
da mão esquerda
contos velhos
por cicatrizar
no canavial
queloidiano

a loucura
abraça
a cidade
o repelente
de insectos
debruça-se
à janela
o crepúsculo
tarda
nos olhos
tristes
dos transeuntes
as coisas
nomeiam-se
transitórias
na desordem
do quebranto

só o rio
desagua
no mar


a terra abraçada por vaticinadores
desvelos em tempo de outono
impaciência vertida por deuses embriagadores estremecidos em ferais a engrandecer as almas mortas

campanários velhos gerados nas águas cristalinas das fontes secas
antediziam a dádiva do fim da brecha entre céu e terra

do meu quarto viam-se os jardins anediados pelas névoas matinais
trespassando incólumes as entranhas das flores
bem perto o ribeiro murmura embalado por estilhaços de sol
nele corre o pretérito incendido pela música cega composta pelo gotear surdo das cascatas
e a dor da remigração caiada por agonias


um poeta bondoso
sentou-se na minha mesa em convulsiva e falsa reconciliação com a profissão
falou de amor   da revolução dos oprimidos   do partido das massas   da força do povo   da virtude   do vício   da verdade e da mentira
de tudo o que cresce
     do que morre
das leis do acaso
dos seus livros-sátiras
e suas consequências

bebeu o café que paguei

os poetas-profissionais andam sempre à míngua de óbolos

tamborilou com os dedos na toalha desgastada pelo lodaçal das palavras sujas de anos

cerimonioso pediu-me um cigarro
e emudeceu na nuvem do fumo pecaminoso
estupidificado e temente como alma-viva constrangida ao crematório


estou aqui por estar
nestas páginas
grotescas
doentias
sem fotos
dos antepassados
putrefeitos

espelham a transpiração da noite acesa
nos feitos dos que partiram e que
tiveram nomes
cartões bancários
carros velozes
mulheres
alguns filhos
um círculo do nada ao nada
  
  bastardos

as mãos acordaram 
subitamente
sustendo a curva da estrada
no reflexo labiríntico
da malícia


estar por estar


o poeta
     o trem
     as letras
     rasuradas
     pelos trilhos
o poeta
     a gare
     a pulsação da chuva
     perpendicular ao
     regresso
     na vertigem
     medonha
     da escuridão divina


apenas estar

sem ser

sem-tempo


ouvir e olhar como quem vê e olha


entrámos no túnel
parecia não ter fim
o cheiro a carvão queimado
sonho afogueado e feliz da puerícia
onde a palavra agora se confundia com saudade
e a arraiada com eternidade

o sidónio caminhava lentamente na calçada romana      a vida consumira-o
a morte do único filho entregara-o à sua própria morte
tinha sempre os olhos rasos de água      plácida lagoa desabitada
o sidónio existe      digo eu
existe porque eu existo
quando ele morrer eu deixarei de existir 
se eu morrer primeiro será ele que perderá a sua triste existência

o mundo
será um amontoado
     de destroços
sem lembranças

mas a realidade verdadeira ou falsa existe

e eu
vindo sem saber donde
ouço o eco de longínqua galáxia 
no vazio cósmico
dos destroços de vidas passadas
e no ar
o cheiro adocicado da seiva do martírio inglório
lugar distante onde os cristais brilham no topo dos mastros amarelados


afasta este cálice de mim      este é um país de escombros
      
múmias e palhaços à presidência
pierrôs e arlequins ao governo       
histriões e parlapatões ao parlamento
vendilhões de tradições

esquerdas e direitas e nauseabundas arqueações 
tratados convenções e falsas intenções      

mutilados mentais transfiguram amor em ódio e pedem-me que os aceite no meu regaço
turba de corsários reinventai-vos        forjai-vos bebedores-de-cataménio        apresentai-vos aos rebanhos de gado miúdo com nova catadura        convencei-os de que não cagais  
merdosos fraldiqueiros        pajens de vossas ventosidades 
vendedores de quimeras flatulosas        bolsas fartas de ignomínia        insensíveis aos
soluços biliosos nas veredas e às tenebrosas alcovas onde as brisas se embebem de penúria e
as flores silvestres se refugiam nas pedras roladas do muro derribado

em todas as palmas das mãos abertas ao firmamento com cravos ferruginosos expostos à adversidade        estulta ilusão dos desvalidos que vos alimentam
imemorial voo da prostração da fome cercada por um mundo gerado pelo desdém do esquecimento


nona hora na quinta
debaixo deste céu
todos os homens são iguais


vencer os poderes da natureza        da impermanência oculta na sua concha dourada
esta é a terra das armadilhas
dos génios orgulhosos        talentos do rocambole de terrail
servos da devoção e da inacção

um anjo desamarra-se do mais profundo dos sorvedouros e esfrega os olhos na face poenta da claridade
paciência        diz-nos 
perseverança        bisa
esperança        insurge-se
caridade        desespera
compaixão        enfurece-se
tudo com feridas abertas        infectas e virulentas
voz que clama e ruge num planeta em pranto

ora
estou para além
da ilusão
do mundo
de mim
por segundos
toco o real
suma heresia
de um crepúsculo
final


o
  norte
          da infância
partir para o norte
definitivamente
decididamente
irreversivelmente


assassinámos a realidade dos montes desertos
giesteiras do nada contorcem-se ao som dos raios de sol
na encosta os povoados são bandos de aves em devaneio
e a estação deserta apenas uma passagem negra e húmida na voz do silêncio
crisálida ilusória de alma tumultuosa
contemplada num fio de prata a emergir das montanhas
a vereda vazia da brisa mental
a morte derramada nas águas verdes do lagoacho
da erva-da-fome
que venha o manto róseo da solidão e da enarmonia
contraponto do fatal homicídio do pensamento
e do tempo


o sul
da adolescência
  tardia
    mar
    mulheres
    sexo
    e rum
    para amar

onde o mênstruo das águas 
circula serenamente
música divinizada
dos passos da morte enleante

meus amigos        golfinhos do espichel
olhos nas lágrimas do oceano arado por mágoas e alegrias infindáveis
hoje digo-lhes definitivamente adeus        não nos tornaremos a ver      amigos como tantos outros nascidos nas derrotas dos navios mercantis nas jornadas costeiras nos portos atlânticos e mediterrânicos e nos bares dos cais das amarrações
acidentais        como vós criaturas marinhas que ides continuar a vossa dança noutras vantes
na graça dos cânticos faustosos erguidos ao paredão das vagas 

vagueio pelo terraço
vejo-os no reflexo da barra
no assombramento dos velames espectrais


as estrelas
entravam
pela frincha
do través
na serenidade
da noite

     o mar a sul

   jazigo de naufragantes

  dos erros de rumo e estima

  vítimas dos rituais macabros de torrentes balsâmicas

devotava-se descontínuo aos surtos lunares

párpado cerrado ao destino colorido de insustentável penar

    e dos gestos das tormentas numa alma seca de amores

a despedida é uma parte de nós que se arreda
é um amor que se dá sem se dar
um dom sem palavras ou gemidos
um padecer que não nos basta
no infeliz apartamento do mar

qual a menor distância
a maior separação
a mais pequena ambição
a maior paz

linha
recta
ou
curva
   elíptica


às de espadas no tempo que passa
às de copas nas pernas virgens do desejo

brota a túlipa-negra
da rua escura
nada há sem ela

que me importa se os carris estão fixos na sua trajectória e as estradas delineadas por montes e vales e se cada cidade do mundo tem uma estrela que cai sobre ela à hora certa norteando a rota do mareante sem tino        se o teu jovem rosto é o sossego insistente desta tarde epidérmica em que as abadias envelhecidas desagravam a soledade da derradeira rosa no cálice derramado        se o novíssimo cárcere sangrante de neblina púrpura está vazio e manso sem o menor estrépito da ampulheta
  fundamento
dos elementos
  verticais
das sombras enviesadas das patas da existência

no firmamento
o tempo
jaze
numa translucidez
concreta
e num
equilíbrio
couraçado
por
relâmpagos
que regressam
em cada ensejo
à fonte modelo
da inocência
que invejo

    
na alma desvendada
pelos dedos
da morte
branqueada
no coração
das aves
que 
aos primeiros
alvores
perfumaram
o céu
com vozes
lustrosas


para além das montanhas ressequidas de longas rugas a dança circular das estrias
das nuvens esventradas por cimitarras malsãs
das cidades incendiadas por archeiros inoportunos        

o silêncio aborta nas vísceras do desalento
o feto apodrece no ventre nocturno da sinagoga alcoolizada
o nascituro sucumbe às mãos da impiedade do sol que se põe 

as ruas estão de luto        vazias        timoratas e entontecidas        a mesquita desprezada
em cada esquina a semente escarlate da discórdia
em cada porta um símbolo execrável desenhado a sangue novo contrastando com a falsa religiosidade da cristandade

nau que se embebe nas suas próprias asas
proa virada às vagas quentes do invejável cantar pelágico
o través cercado das mais violentas blasfémias 

um mar de todas-as-dores tingido de vermelho-vivo 
trágico-cómico
e sem que se veja 

há algo que percorre o tempo 
corroendo-o
traça que devora lentamente a catedral do acaso

ninguém escolhe a alma visceral ou a dádiva de um nascimento desapropriado
os passos contados ao peso e com o gume acerado da velha respiração arquejante
onde o amor se apaga e o mar se encapela

medito na lei que desconheço
aves silvestres sobrevoam a noite 
o sono morreu nos portais da angústia
nada de novo
no tudo-visto
a árvore da vida entoa seus cânticos fúnebres
lamentações da irmandade dos seios com as ancas sustidas entre muros do rio calmo
folhas asfixiadas pelos ventos mutantes
ápices que consomem os frutos ainda verdes e a palha seca da seara por ceifar
os leitos de amor desfeitos cumprem a profecia
de idosas ânsias coroadas de espinhos taciturnos e neutrais
virtuosa arbitragem das linguagens ulceradas
sepulcros fermentados pela ambição

demais visto

ao fim da tarde
a luz desceu magnífica
    sobre os meus ombros

o tempo escasseia

ergui os olhos 
fingindo pensar
com a gravidade 
de uma súplica
tão artesanal
como a paixão
  
o embrião da solidão

no prado a égua agitava-se a cada respiração
calcando desdenhosa a erva do templo
invadido por uma multidão de crentes minúsculos
insignificantes

uma cigarra

não páres de cantar amiga
vem ver o meu pensamento
a ressumar amarguras


na planura os lábios vegetais        as asas atrozes da luxúria
sombras que se iluminam
na sonoridade
do impossível perfeito

estou no campo        é natural que existam formigas num percurso incompreensível        um cão ladra ao longe enquanto alguns pássaros vão preenchendo a paisagem
um cão
    um latido
    um vagido
    um verso lido
sem arte          sem ti
sem a pontuação dos teus seios
as formigas são milhares num carreiro que parece evitar-me
umas vão outras retornam tocando-se amorosamente            em que estarão a pensar
eu penso nos meus mortos
sentado no milenar banco de pedra da quinta apuro a visão o olfacto e a audição
de quando em vez ouve-se uma rã enquanto duas vacas pastam na quietude da encosta
a noite
debruça-se no orvalho
um corpo ascende à janela dos fundos
é bela
sonho que oculta devaneio
deixo de a ver
leio nas formas apagadas
de permeio
a essência do desejo
lâmina temporária
de humana crueldade

a minha tristeza que não é mais do que uma plangência sem causa      deve ser idêntica ao insulamento do colossal aranhiço que deambula na banheira
ainda não me decidi a aniquilá-lo        não é este o seu tempo      diz o eclesiastes      digo eu justificando o sumo da misericórdia
não desejo ou se desejo finjo não desejar tomar banho        não me apetece nada        trotear a buena-dicha
dormir sem sonhos tão-somente

tão-sem-tempo 


o peso das revelações
é sempre um fragmento 
da melancolia

abatimento que não cala
o corpo dolorido pelo medo cinzento
humilhado pelo desconcerto mudável da
esfera toldada de um qualquer lugar feliz


o amor e seu horizonte

de utopia e boqueirões

estava presente no rumorejo

da noite e na blandícia

erma enquanto

lá fora o rafeiro ladrava

às ramagens e rameiras

com a ternura

de quem se amplia

e porfia na capitulação do espaço


é triste quando os nossos olhos
já não vêem
a alegria esplêndida
do doirar do dia
o desassossego da dança
frenética de
uma tarde ventosa
ou a paisagem
revestida a anjos
no voo em fuga
das mulheres nuas

as ruas
cantam
sobrepostas
o burburinho
do retorno
à mesma
existência
opressiva
sem rasto
das horas
de metal
poisadas
na transparência
do cimo
das árvores
em penitência


quando era petiz flutuava no ribeiro alheio ao perigo e penetrava a realidade com a claridade simples dos santos e inocentes      nesse tempo de paz

bastava-me

consumia as estações gloriosas
o tempo discreto das amoras
sem confidentes


e havia na aldeia um triste homem

tinha nos olhos
a inquietude do tempo
procriado por gerações
de inúteis

seus ombros
desconheciam a amplitude
da sensualidade
e o odor táctil das chamas oblíquas
que convergem
na fissura de todas as escuridões

trazia a bagagem
às costas
o mundo apagara-se
nas espáduas
escavadas
pelo declínio entrançado
do escurecer
num lugar tão distante
de andrómeda
onde se haviam urdido
todos os futuros
e aberto
todos os covais

agora estava junto de si
como albatroz só
no grande mar oceano

adormeceu isento
de revelações sob a
ramagem de um ulmo
tendo por cabeceira
os reflexos do nojo


eis que a claridade surgiu
fastienta         escorria pela forte e farta cabeleira de deus
prostrando-se aos objectos deteriorados pela maresia das memórias

uma melodia
derramava um som
impuro   enarmónico
nas veias do muro
da casa deserta

quis escutar
mas estava surdo

quis falar

mas estava mudo

aquela amaurose que nem o mais genuíno dos concertos concerta 


estamos juntos nos meus pensamentos      ébrios       voláteis      ternos e desnecessários
eu e eu
em criança quando chovia abrigava-me na igreja da aldeia e rezava trinta padre-nossos e cinquenta ave-marias pelas almas do purgatório 
achava como quem não acha nada e não tem nada para achar ou que achar que as beatas eram santas mulheres e os padres santos homens        mas não      comiam-se mutuamente      sabe deus   só visto porque contado ninguém acredita      enquanto soletravam credos em latim
ah portugal dos enganos e dos bastardos dos falsários e iletrados
na minha virgindade corpórea e intrépida inocência espiritual vivia a escuridão masturbatória das noites-sem-fim        em desvirtude boca cerrada esgaravatava para aromatizar os pérfidos pensamentos julgando-me o maior dos pecadores      o merecedor das penas eternas
pareciam-me felizes as pedras as árvores os rios e as nuvens sem desejos ou instintos 

lamparinas alumiavam-nos as silhuetas nos fins de tarde ao som das novenas ou das missas de sétimo dia
em latim
sempre em latim
como convinha a quem nem sabia ler

as beatas adoravam todo aquele magnificat e outros prazeres nupciais decadentes        foda-santa aspergida a água benta      conação borrifada por sacrossanto-esperma
não havia rata que resistisse ao encanto de um pau-santo      e entre paters e avés iam nascendo uns tantos 
enquanto os chavelhudos-domingueiros tiravam ao senhor abade respeitosamente o chapéu

estarão suas santas-mulheres no céu

afinal era obra tão necessária ao povoamento


envelhecer faz-se num grande silêncio
nascer e morrer a cada instante
saber estar desacompanhado      empoleirar-se no trampolim pendente dos acontecimentos
sem criar raízes no tempo
levantar
esquecer
renascer
no parapeito
da impermanência
sem direcção 
filosofia ou
ciência

ser o que não tem nome
tocar as vestes da vida com as mãos dormentes

o nada que é tudo
soberano e
    adocicado
pelo amor gratuito
  nas alegrias
nas feridas
   profundas
     da infelicidade

bendito o que está em todos os lugares e em nenhum
enquanto a vida vai respirando a poeira que se acumula no fluir das horas


o sino

aquele som inconfundível das horas

envio-te uma mensagem nas asas do vento

já não és aquela jovem terna

viçosa como o jasmim da floreira de pedra

do jardim desocupado e escaldante

és mais uma no tempo de verão

que flutuou nas águas redondas

do dulçor de meus dedos

e agora

sem amante que te contemple
a eterna ausente


um abraço
voltei a ver-te como te vi
na primeira vez

desabituara-me
agora um outro céu alberga o alento

ninguém sabe
que mentimos
a nós
e
omitimos
aos outros
suspensos no prodígio de um simples olhar

na tarde            o enlaço
um beijo fugidio
e um novo adeus

quantas vezes quis dizer que amava
levantar a voz ao céu surdo
ter na alma as pupilas das nuvens
e nas mãos o sacrário salgado dos despenhadeiros

falemos então      digamos as palavras frenéticas da borrasca
o que nos é proibido

a verdade cai como mortos no outono e as lágrimas das crianças com fome 
corpos estendidos no areal sem fim 
cercada por bruma laçada converte-se a uma qualquer religião      mente e minto
vamos diz            o amor é apenas instinto
uma desculpa para estar vivo


visitei-a na mesma rua de sempre

junto ao mar 
       
depois de longa viagem

percorria-a um hálito de tristeza

a certeza do fim

estava doente


os ossos iluminados

a carne em sombras


dá-me a tua mão      disse-lhe

sabes que vamos morrer

morremos sempre
nas ruínas do prazer

não chores
afinal a morte na orla da praia deserta
deixa nas covas do areal nossas dores

não chores


dá-me tua mão


                        como é cruel o tempo


sou o que te espera sem esperar
o que julga ser a tristeza natural
que nada busca nem quer buscar
que sempre aceita por bem o mal

que acontece e que o não magoa
o que lhe parece que chamam dor 
que vem e vai como a ave que voa
e mais não é do que de alguém favor

sou o habitante lunar
o monstro voador
o senhor do mar

apenas mais um sonhador
que nada tem para dar
nem ninguém para amar


                       e nessa suprema liberdade
                             sem ser e nada ter
                            feito nada e verdade
                                 poderei morrer


                        sem a crueldade do tempo



Sem comentários: