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OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

terça-feira, 9 de agosto de 2011

A VIDA FLORESCE




A vida floresce
Em todo o vale –
Contudo estou só


segunda-feira, 8 de agosto de 2011

CHIA YI




Também gostaria de interrogar Chia Yi sobre os deuses
A miséria humana julgo eu conhecê-la


ROUXINOL




Ó rouxinol
Para quem cantas tu?

Calaram-se os homens
Na taberna
O jogo do truque
Findou


ESTÁTUA NEGRA




Para fazer o ninho
Um pássaro esquadrinha em vão
A estátua negra


UM CÃO RESSONA




Flores de ameixieira
Flores de cerejeira
Olham na direcção do céu

No chão
À sua sombra
Um cão ressona


CEREJEIRAS EM FLOR




Florescem as cerejeiras –
Nada espero
Nem cerejas


O ÚLTIMO DIA




O último dia do mundo será um dia de Outono com as folhas a cair como lágrimas na terra fértil por arar
A humanidade irá recolher silenciosamente aos túmulos abertos pelo Coveiro do Universo dividida em covais cinzentos onde botões de rosa murcham
Aves elevar-se-ão nos céus e apenas elas habitarão uma nova existência de sonho e bondade
A chuva copiosa ácida nivelará todos os contornos até que o fogo sagrado a extinga reduzindo-a às cinzas do presente e do passado


BEM VINDA




A chuva
De Primavera
É sempre bem vinda


O CÃO NEGRO




O cão negro
Entrou no ribeiro

Insaciável
Parecendo querer secar

A corrente
Enquanto lava as patas


O CHEIRO DA CONTEMPLAÇÃO




O Outono
Tem o cheiro
Da contemplação


CARACOL




O caracol
Marca na erva fresca
O meu caminho


ROSAMUNDO




Em si e por si é
Total
Perfeito
Acabado

Ilimitado
Aquele que é
Foi e será
Rosamundo


OS BÁRBAROS INSTINTOS




Era uma aberração Estava desviado do seu fim natural
Na multidão multiplicavam-se os bárbaros instintos


CONTRADIÇÃO II




Acreditava-se no acaso
No desígnio de Deus
E que tudo é mistério


ANGÚSTIA DO NADA




Nas algibeiras nada tinha Não tinha casa família ou bens Vivia o ócio da pobreza
Mesmo assim no cimo do rochedo donde se avistavam as naus que partiam para o novo mundo a angústia do Nada por ele clamou


MORTAIS




Todos os homens são mortais Pó na argila do solo queimado
Que se dane
Todos o sabem menos os mortos


ABSURDO E ESTRANHO




Como é estranho
Este vale de flores
Cercado pela miséria

Como é estranho
O universo
Em guerra permanente

Como é estranho
O absurdo

Como sou absurdo
E estranho


BEBER A VIDA




Sentado à porta da taberna num enorme copo de vinho amadurecido por longos dias de espera deixou cair a cabeça nos braços ressequidos
O vento sulcava-lhe as faces enquanto ouvia o rumor da folhagem da dócil tília
Não havia nele qualquer impulso psíquico para além da vontade de beber a vida no escuro néctar avinagrado
Nem querer nem conhecer nem ser


ORGASMO




Flores amarelas
Vermelhas
Azuis cor de mar

Uma rosa
Um cravo
Uma túlipa

Um leito florido
A volúpia de um orgasmo
A agitar o planalto


ALGO DE NOVO




Que algo de novo venha –
Uma alma aberta
Ao Bem que jorra do Céu


O GALO




Canta o galo
Morre o galo

Ao nascer da manhã
Que fica

Para outros dias
Para outro amanhã


GRITO DE GUERRA




A pele da pedra
Inerte

Sorri louca
Ao grito de guerra


MISTÉRIO VÍTREO





Um mistério vítreo

O cosmos mudo
Perante dois amantes

Enlaçados após
O pôr-do-sol

Por luzeiro o tacto
Por instinto o olfacto


SUSPEITA DE TRAIÇÃO




As Trindades dobram –
Ela sofre em silêncio
A suspeita da traição


BAILE NO TERREIRO




Descalça e graciosa
À beira do ribeiro
Lava a saia domingueira –
Há baile no terreiro


ATRÁS DO BIOMBO




O destino
O acaso
O absurdo

A dama sobe
A escadaria
Do palácio

Para o encontro
Golpe fértil
Atrás de biombo

Um leve gemido
Nupcial
Perfumou o ar


SE VOLTASSE A NASCER...




Se voltasse a nascer
Faria tudo o que fiz –
Que outra coisa saberia eu fazer?


ÂNSIA DE AMAR




É íntima
Esta ânsia
De amar


A ESTRELA AZUL




Já vivi numa estrela
Azul

Fazia a travessia do mundo
Com lenços brancos a acenar

No cais de pedra negra
Confessor de todos os segredos

Que podemos ter
Que se podem dizer

Agora
Vivo
Numa mansarda
Verde
A amadurecer


A SALIVA DA VIDA




Cantavam aves na mansa fonte imemorial
Jorravam gotas de água perdida
Dois corpos bebiam a saliva da vida na jóia da noite renascida


AMORES




Por escadas
De flores
Sobem amores


ORQUÍDEAS




Orquídeas planavam
No jardim
Por entre cedros centenários
Do longínquo Líbano


PASTOR E ABISMO




O pastor mirava atónito o cintilar da Estrela da Manhã Os chocalhos irrompiam pelo renque de pinheiros montanheses vergados à violência das neves invernais no esplendor do desassossego íntimo da natureza inóspita
O céu atraía o movimento violeta dos olhos de prata e das brisas de caminhos sem retorno
Anos de transumância de noites dormidas ao luar que nunca foi mais do que luar porque se fosse mais do que luar já não seria luar e seria certamente diferente
História simples da simplicidade agasalhada num capote de palha entrançada sem cama sem avidez com sonhos de calor mutilados por mãos descobertas orvalhadas gélidas Mãos doridas rasgadas por cicatrizes de amor olvidado
À frente um dos cães na vegetação solene e rasteira ordenava o rebanho na demanda da erva fresca do planalto do Cabo do Mundo Daí poderia cair-se no último dos abismos A partir dali o desconhecido sem espectros abantesmas ou delírios
O olhar cessou nesse horizonte infernal e fez-se luz


CASA BRANCA




Uma casa branca
No outeiro

Sempre gostei de casas brancas

Noivas
Imaculadas


OS CORRUPTOS




Os homens
Maltratam a justiça
Que a Deus pertence

Maltrapilhos morais
Dizem-se justos
Esses ranhosos

E dizem-se sérios
Miseráveis poderosos

Podres no sangue
Na carne
Nos ossos vergados

De sujos corcundas
Os corruptos


BASTARDO DA INVEJA




Um carro de prata
No aparador da sala –
Bastardo da inveja


CRUELDADE




As Crianças são cruéis
Algumas são monstros de rostos pálidos perfeitos angelicais ruínas bárbaras de bosquetes encantados por duendes e semideuses
Crescem no movimento dos milhafres imersas no êxtase fatídico de palácios submersos
Aquela isola-se
Aquela canta
Aquela outra discursa agonizante
Estiradas no lamaçal construtoras de mundos de carvão e papel fosforescente galgam caminhos eivados de tempestades e pedras preciosas em vigília permanente
Adormecem no pesado sono do infortúnio vagabundeando de sonho em sonho e acordam na fraqueza das cidades moribundas onde roídas são por vermes lacustres da ambição
Sem remorso sem redenção


IDÍLIO




Idílio
Acompanhado à flauta
No fio da memória


O PERDÃO DOS SÉCULOS




A noite dura na impensável longevidade do cosmos
Corre sangue na ladeira iluminada por velha estrela de prata uma das poucas que a cidade desordeira não ofuscou
À porta da catedral de três bicos um homem de tenra idade jorra lágrimas efervescentes de sentimentos contraditórios Matara-o a morte de amor e ciúme ódio e rancor
Aguardaria com as mãos crispadas no coração contrito o perdão dos séculos Aguardaria sempre mesmo depois de morrer com o coração exposto no ventre aberto


PROJECTO




Mais um projecto entre tantos
Necessito de um projecto para viver estupidamente –
Atravessar o Atlântico de patins


POBREZA ENVERGONHADA




Pobreza envergonhada
No bairro dos subúrbios
Envelhecido pelo ócio
Pelo tédio

Pelo sem-sentido
Dos passeios vulgares
Irregularmente calcetados
Nas noites de Inverno

Sordidamente ornadas
Por insónias
Mar de chamas

E pela cólera
Das famílias
Famintas


TODOS TEMOS O NOSSO DEMÓNIO





Todos nós temos um demónio
Tal pedra de fogo na algibeira do casaco roto a esquadrinhar o fundo do lago
Gravura bizarra
Impressa no sonho de fim de tarde
Onde penetra um amigo acocorado no canto da sala vazia
Sem que tenha sido convidado para o fuzilamento
Uma águia na parede negra de lumes remotos poupada ao inferno das almas humanamente imbecis pressagia a chegada de moscas ferozes tristemente despeitadas no reino animal
Na fome do amor infinito iludiu-se o espírito no espaço ocupado pelo bosque da ravina de Satanás


ESCOLHA




Cigarra
Faz a tua escolha

Um único lugar
Para cantar

Uma só fêmea
Para amar


OS SELVAGENS





Os selvagens
Modernos
Condenam
Os irmãos
A morrer
Famélicos

As cidades alimentadas de seiva ornamental amamentam manadas oblíquas e transviadas de seres ausentes fumegantes seminus a esmiuçar o pântano da avidez

Os selvagens
Modernos
Não são
Como
Os de antigamente

São canibais castrados a arrostar a pior das prostituições no ego massacrado por falsas rebeliões
Muralhas do tempo


TERREIRO EM FESTA



O fogo ergue-se
No terreiro

Pássaros minados de piolhos
Tomam assento nas bancas

De frente para o coreto
Povoado de bandeiras de papel

Grossos bigodes
Em saxofones doirados

Raparigas aguardam ansiosas
A chegada do esquelético conjunto

Do toque aprazível
Ao bailar


CONTRADIÇÃO



Paus de vedação
Amontoados
Sem protecção


ACORDE DE DÓ MAIOR



Ouviu-se um acorde
De dó maior no corredor escuro da casa grande do embarcadouro
Alguém soletrava palavras de versos salgados que ecoavam no horizonte cinzento-pérola Maresia e acórdão entrelaçados em acto de amor
Ao fundo da rua estreita via-se o céu carregado de sombras e a Lua timidamente a espreitar
Uma cantora com uma garrafa de rum ao peito encostara-se ao garrido papel de parede descolorado por alucinações larvares Não se iria deitar sem homem No ferro-velho do pontão Norte encontraria pelo menos um velho mutilado ou um magistrado embriagado
Iria beber o licor da volúpia num qualquer vão de escada enquanto o mar descansava nos degraus do cais


MÁQUINA DO TEMPO



Pampilhosa –
Outrora
A esperança interminável
Da mudança

Hoje
Por segundos
A mesma casa rosa
E a partida
No silvar da máquina do tempo




O POBRE PINTOR




Uma exposição de pintura
E ao lado um pobre pintor
Vai caiando um casebre


CORPOS À VENDA




Experimentámos as palavras
O sentido rude da enarmonia

Convexa

Ambições

O amor

Joguemos como amantes nascentes
Os corpos suados lânguidos ausentes
No palco sombreado do leito de açucenas

Há uma ponte entre nós Um abismo enlameado pela apoteose

A Lua arde e o Sol no outro lado da Terra desespera
Diz-me flor qual é o teu nome Não corras gazela
Os corpos estão à venda
Hoje
Domingo
Algures lá fora