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ARTE

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sexta-feira, 27 de abril de 2018

PEQUENOS POEMAS VI



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



renuncio a todos os prazeres
           festas e romarias
ao conhecimento        ao conforto
ao amor        ao mundo
                 aos sentidos e à razão
mas à paz não



***



tão longe quanto a de deus     mais longínqua
tão perfeita quanto a do criador     mais ultimada     tanto que outra como ela não há

daí ser poeta
um péssimo bardo             é certo
                         mas poeta
                 diga-se o que se disser



***



com a mão de palma branca dizes que não
com o corpo a doirar mestiço dizes que sim

com o rosto oculto nem sim nem não

            assim como assim
            dizes ao sim que não
            e ao não que sim



***



nada há que o mar a si não chame
            coisas e gente
    tanto é o choro        ranger de dentes        ais
    consome-as sedente
    ou rejeita-as nos areais



*** 



o tempo continua cinzento

há canaviais na margem da linha 

as nuvens no horizonte exibem formas vivas
vinhedos      no prado alguns animais
os dias de seca já finaram

e há o ribeiro de águas sujas      os afrouxamentos      a ponte negra da pampilhosa

tardo em chegar a casa



***



por detrás da casa brilha a lua
   ah o luar     eterno elixir dos amantes

      noite densa e adocicada por sombras vivas

          o tempo está quente

          junto ao cipreste de antigamente
                      desnudos
        lianas invisíveis aos olhos do mundo
           aprendemos o tempo da paixão



***



   um profeta
      não nasce profeta      ah a terra-de-ninguém

   pela quietude      pelo não-querer      pelo vazio
   fabrica a sua palavra
                       na certeza do além



***



atravessámos juntos as imensas florestas 
tocámos as estrelas com nossos dedos
embainhámos as espadas
diluímos os desejos no pavimento rochoso
rasgámos todas as folhas de livros sagrados 
semeados em solo estéril
bebemos de todas as águas
de todos os venenos
e
recolhemos o fruto no ventre rasgado do universo



***



rosas do encanto     sono primaveril em planície de flores onde entoa a voz dos rochedos       
          encruzilhada de virgens

   uma jovem que se transforma em deusa
      um tigre atravessado por flecha envenenada
            vencida é a lonjura

   resplendor sagrado da harmonia angelical
      no murmúrio dos meus dedos



***



um coração sangra
no peito da floresta virgem –

   assassinos em viagem



***



imagina hoje
  que o mundo é nosso
   porque vivemos nas 
    chagas do crucificado

anda      vamos cantar carícias
          de amargo sabor
   comungar no mais secreto dos sonos
           a pulsar no limiar da alma



***



 o amor batera-lhe à porta
     teria de a abrir
      trilhar um caminho
       perseguir a via
        onde a dor
    sempre seria maior
    que a maior alegria



***



   os girassóis nos campos estrelados oferecem-se aos olhos da trepadeira da janela do caminho

   o poente desce à terra humedecida pelo sémen pacificador da primavera

   os mesmos rostos na estrada que não principia nem acaba

        intacta a náusea alastra pela planície



***



acautelai-vos ninfas das florestas que não seja sátiro vosso amante      esse que só em parte homem é e na parte que mais tem tem o que david não tem       rasgando-vos fadas sem asas   leves delicadas   o que tanto desejo e me não pode ser negado nem estar por besta sujo ou por sátiro sujado



***



um cão dança –
em voltas sucessivas
intenta alcançar
seu próprio rabo –
endiabrado



***



         incendiaram-se as nuvens
   a ilha das máscaras de pedra afoga-se no arquipélago proscrito
   os teus braços abriram-se ao voo que irrompe do corpo num gesto de beleza melancólico
   a infância são apenas lembranças 
          pretensiosas e derradeiras
   luz a descer dos céus naufragados



***



a neve vai lentamente derretendo
enquanto os ribeiros da montanha
     vão alegremente cantando



***



  ouço o teu canto na vastidão das nuvens
    a paz mais amorosa da mais preciosa pérola
            gémea
      mas tenho no coração o medo do último dos condenados no corredor solitário do amor



***



o que está perto nem sempre está descoberto

   uma ave marítima cruza o tejo pensando que dá a volta ao mundo

   um ancião passeia-se na praceta em círculos

          para quê ir mais longe 
          quando o mundo nos foge



***



é na separação que o amor se recria –
            explosão de rosas
no descampado solitário do coração



***



a miguel angelo

a corpo que se quer perfeito
por mão de homem esculpido

por complexo 
por opção de sexo

certo e sabido
algo notável lhe há-de faltar



***



não digas que me amas      de que serve amar o que o que já não tem febre      dor      sentimento
não      não digas mais que me queres
deixa que a morte corra em mim como tempestade de asas brancas no destino cruel das carnes putrefactas



***



 os elmos dos guerreiros
          devastados
   testemunho a reconciliação

 os sepulcros dos vivos
        ardem fiéis
  aos pulsos do homem
       amordaçado

        não acredito nos deuses
    histórias a medo trespassadas

        não posso
        serei traição      
                        mas cobarde não



***



há uma canção de liberdade nos nossos corpos
o prazer do coração floresce na noite

            a liberdade termina
            sempre ao alvorecer
       e transforma-se em cárcere



***



no sofá verde da parede amarela brincais ao amor pela primeira vez        jovens e belas experimentais o toque subtil
donzelas em erecção      uma mão na rosa outra no botão



***



      sou ou não religioso em tudo o que faço e intento fazer
      quando acordo e me deito com ou sem fé e esperança se não te vejo nem te quero ver ou vejo sem que o saiba nem saiba o que é o saber
      sou ou não religioso quando de desejo peco ou da caridade me despeço e ao mundo tanto aborreço
      sou ou não religioso quando mais do que a ti a mim tanto me amo



***



nesta viagem
que silêncio

por companhia
ninguém



***



falo com as mãos        unhas que são garras soletram os ossos dos afogados
com os meus dentes lavro a terra que arde nas profundezas da alma
na orla dos rios recolho flautas      túneis dos canaviais alados
na berma dos caminhos orvalhados o degelo das lágrimas da orfandade



***



as aves pertencem
ao espaço
voam nas almas
apaixonadas
que sombreiam a terra
e o azul do mar



***



não sabia
- ainda não o sei –
se te havia de conhecer ou não
o conhecimento traz no hálito os perigos do acaso

o desenho azul da intuição sobrevoou a mente

este tédio que já não admite paixões
dorme solitário no canto mais secreto da minha alma 



***  



  vieste há hora marcada 
    vieste com a tua sombra         mais
      muito mais profunda que as tuas formas

poderia ser o teu corpo a minha última morada



***



  insondável primavera      lua nova
   os ciprestes roçam o céu

    uma viúva no campo florido
     o peito arquejante no véu oloroso

os choupos do rio movem-se ao vento
ordenados          manancial de ilusões
    nas arestas do punho vigoroso



***



enquanto houver um
homem com fome
um injustiçado
um degredado
não dormirei 
- dizia o ministro
enquanto deitado
no leito nauseabundo
de asquerosa concubina



***



  ao anoitecer
   uma estrada rumo ao mar
    um rio na gruta da montanha
     a explosão da fúria da carne

     ao anoitecer
  quando o desejo ensandece 



***



corpos há que em alma pura moldados transcendem o tempo-espaço
assim queria eu o teu        universo-orgasmo infinito             abraço de nuvem absoluto

                 a vaguear nesse instante 
                      de eterno prazer
                       por deus tocado



***



o velho contemplava
cabisbaixo e ensimesmado
o lameiro semeado
com aquela certeza
que só a sabedoria tem –

não mais veria germinar o pão



***



leio algumas passagens de leibniz
        eis o advogado de deus 

   se eu tivesse fé     dele precisaria e só dele
   queimaria os livros sagrados as representações de santos e os templos

        não viveria em mim     viveria nele

           não seria eu     seria ele

          morreria por não morrer
        sem ego para sempre viver



***



  a fama das tuas formas aneladas ao mundo
  escondem nesse olhar expressiva melancolia
  duramente repetida no dia-a-dia
e aquele tédio assustador  de quem por tudo ter atingido
           bela e apetecida se sente vazia

                      taedium vitae
                     naomi campbell
                      taedium vitae



***



de pé
ao leme do meu
espírito
entendi
como única verdade –

o meu desejo por ti é uma falsidade



***



o céu esteve cheio de nuvens      à tarde o sol apareceu queimando tudo à sua volta      ocupei-a a tratar da casa de inverno      granito e pinho      lenha para a lareira para as noites longas e melodiosas da invernia aconchegante      o frio dói e ama      amante perfeito do espírito silente em leito de serra neve e vento



***



  uma pele de carnívoro no chão brilhante
    um dente de leopardo na estante
      e tu bacante olhas-te num sorriso
        de velho espelho
          enquanto aguardas ansiosa
            o costumeiro amante



***



      factos 
há gente em quem não se pode confiar        ervas daninhas que minam a ceara      vendedores de afectos      a voz melosa na saliva envenenada        niilistas arrebatados pelo seu próprio voo      circuncisos da verdade afogados pelo cinismo em águas que tudo lavam menos as línguas pelo esterco afiadas
   gente cobarde
      que mata pela palavra e não à espada

                seta alojada no ventre do diabo



***



um sábio louco
escreveu na porta da ermida –
deus vê tudo mas 
não condena ninguém 



***



                     doces olhos
doce negritude        a tua pele é uma túnica de pedra escura        o teu corpo pináculo de catedral        teus seios o portal do desejo vivo e quente        tua boca gerada da matéria mais pura
alimento que verto no sal do meu ventre
em ti penso e eternamente me contento
      num presente que não é tempo
                   doce negritude



***



a aurora dos meus dias começa ao cair da noite
quando na aldeia deserta o mundo se silencia
na lareira que me aquece e a alma me alumia



***



 intactos      silentes      pacificados
  as portas cerradas
   os corpos de si ausentes
    só as almas estão presentes
     no desatino da noite de longos dedos
      é esse afinal o destino que nos é negado
                 amar como ninguém ama
                sem carne        em espírito
                        gratuitamente



***



está um frio terrível
no café entra a velha romena      vende revistas       pede esmola
dou-lhe uma moeda contrariado      lembra-me que é natal
- é natale siô –
a dona oferece-lhe uma sopa      é natal      uma sopa e um pão
não sou tão bom quanto penso        quanto pareço
                 e a vida não tem sentido
                     apetece-me chorar



***



flor que se abre no monte branco como quem se perde nas vielas da cidade de altas paredes recortadas na abóbada dos dias
pedras pardas do muro da prisão em altivez silenciosa clamam pelo prazer dos mortos
passos antigos dos gemidos e ais dormem o último sono às mãos de um bordel de lata onde jazem os vultos de mulheres para sempre perdidas



***



pudera eu transformar-me em cisne branco e seria zeus
o deus sedutor de todas as rainhas da terra
jorrando eternamente o meu amor em vossas soberbas delícias



***



  caem as folhas
   no rosal
    as andorinhas
     em árvores de lágrimas
      acolhem o sudário
       bordado em manhã antiga

       o povo do vale
       já pouco vale



***



a chuva que deveria ter caído e não caiu
é verde na face        amarelo-pálido nos dedos

na sacristia as labregas
dos lameiros lacrimosos
oh santos pastores das encostas
noivos eternos das borregas



***



de ventre em ventre nasceu em busca  de uma forma
as pedras dos ícones dos altares da parede do oratório não são mais adoradas
   repousam da adulação
         deixai-as repousar



***



esta alegria 
que agora
me invade tão bruscamente
nasceu
da mais severa
melancolia



***



os meus vícios
uma oração por cada um

a palavra de deus é gratuita
mas dura o tempo de um relâmpago
recolhido nos olhares assustados
de monges e pastores da negritude

há uma cadela na rua com cio
ervas que crescem na língua madura
e os cães amontoam-se à coberta da lua fria



***



estamos juntos        velhos amigos
contamos mortos no chafariz enquanto a noite cai nos nossos ombros descaídos
a aldeia deserta        no cemitério respira-se lume
há um cadáver de pé
enquanto a luz gelada da rua
se mistura com o nosso queixume



***



   sátiro que te escondes no odor do pinho e da oliveira
   que ostentas o membro erecto e na luxúria do sexo descoberto
   nunca hás-de amar esse espírito natural que faz viver os entes mais perfeitos de lagos rios bosques e mar
      aparta-te meio-homem meio-animal
        entrega-me esse corpo belo
          a quem mais não queres do que mal



***



a neve chegou 
de mansinho
trazendo consigo
no coração ardente
a nostalgia
das noites sintéticas



***



é dentro de mim
  que te vejo
    oiço e sinto

     plenitude de um beijo escondido
 a clamar no planalto com as entranhas em lágrimas
            fim do deserto e do degelo



***



se viver uma outra vida hoje e aqui
terei a carne na carne divina e a alegria na alegria da chuva de uma tarde fria

ó nostalgia que a inspiração ata na fúria da tormenta e os bandos de flores desata na luz lânguida das cores



***



                   este remorso imenso
                  sem princípio nem fim
                   libera-me do castigo 



***



a realidade        demasiado tarde
uma estrela no caminho apaga o luar
alegria imaginária dos cravos
naquele jardim oculto de açucenas



***



terra nua      febril      em imóvel oração
a dor é o pão de cada dia        do destino
lá fora está frio        há raiva e amor no campo limpo e nos espíritos por limpar alarga-se o passo
nos soluços da visitação chovem tições de vinho
aves do paraíso      graça do rio dourado nas asas do meu caminho



***



cavalos brancos 
erguem-se no descampado onde
cavaleiros envoltos em poeira
respiram o ar sufocante
dos antepassados 
mortos em combate



***



o passeio branco de geada
desliza sereno sob os teu pés

o firmamento foi devorado pelos angustiados
o seu olhar surdo e inumano debruça-se na terra árida

o horizonte é um homem com duas lágrimas
fome insaciável do deus vivo
evasão da imortalidade nos lábios rosados do transfigurado



***



incendeia-se o sol nas ervas que sangram naquela zona sombria onde a carne se decompõe e o espírito com suas garras se sustém com a nobreza e altivez da agonia dos séculos inundados pelas  encardidas chuvas de outono



***



   sussurram as folhas nas horas amotinadas

   no monte branco a carne da virgem sem mastro rastejava ofegante
   sonho incerto de vaso santo penetrado por misterioso florescer

      onde haveria de esconder o juvenil tesoiro
   quando as moscas zunem sobre a penugem claramente visível

      soam três badaladas na pradaria desolada

   um rio orgulhoso despedaça-se nos rochedos da nudez

      melífluo aguaceiro de fêmeas verdejantes



***



um veleiro aporta vindo do porvir

amargurado olho-o do meu dois mastros
com as velas recolhidas

            velho para partir



***



meu corpo no teu
teu cheiro no meu

espasmos consecutivos
na carne que renasce

beleza do mundo
nesta tarde reencarnada



***



lâminas que cortam o gelo de uma vida consumida
o muro caído        a casa em ruínas
os filhos que a morte comeu
a velha mulher que se pranteia no regaço do passado miserável
e a cotovia que apaga o rancor das manhãs

canto sonhado na triste alegria do despertar



***



antes réu que juiz
espinho que rosa
tempestade que bonança

em cada noite de insónia
um último poema      digo
nem sequer sou poeta
a noite arde
na janela aberta



***



   heras no jardim envolviam os narcisos      séculos medidos pelo respeitável carvalho velho
   no banco do lago a angústia das vestes apodrecidas na espera da nau comida pelo mar         viver sombrio da amada
   o rio das ausências junto à mansão agora em ruínas
   o salão vazio e o quarto desmembrado pela insónia centenária
   na cadeira de estilo bárbaro o corpete de mil e uma volúpias
   naquele breve olhar vimos nítidos os fantasmas de séculos
          o desalento e padecimento eternos



***



   a fome do teu corpo das tuas faces rosadas a cor alegre de teus vestidos fazem-me aguardar a hora incerta
   ver-te sem que te fale e plasmar na memória a tua imagem é quanto basta aos meus sentidos 
                 mesmo tão envelhecidos 



***



um peixe encarnado

a velocidade da respiração
dos amantes nos nervos ensanguentados
dos escandinavos

havia gelo e enxofre
nas margens do rio
e um orgulhoso silêncio
nas flores da pele



***



pernas nas minhas entrelaçadas
de braço na cintura pergunto-te com o olhar – 
estamos nus             vamos amar



***



            descia os degraus do templo
            mais triste do que nunca –
              deus não estava lá



***



o quarto inundara-se de luar      a noite não adormecia      pingos de chuva escorriam lânguidos      nas vidraças das janelas

os galhos da árvore grande do jardim beijavam os beirados dos olhos abertos e exauridos

            a luz ténue do astro nocturno
             era o amor da terra escura



***



vivos que morrem        mortos que se vingam nos sentimentos de culpa do passado
aves que cruzam os mares que planam nas altas montanhas e a cidade empedernida louca e entristecida chora-os na resignação terrestre
nos escombros mesquinhos
de palavras a sangue arroteadas
      tédio interminável da melancolia



***



na janela o galo
de penas prateadas
entrançadas como heras
sonhava inutilmente
com o homem novo
quando o granizo
estrondosamente
reflectiu a sua violência
nas vidraças assombradas



***



um homem com a bagagem às costas

o trem tarda                   que importa

      a vida real não marca horas
      não se atrasa nem adianta



***



  doçura de teus lábios no meu sexo
   dedos na escuridão do teu fruto

    um ai que se solta no silêncio

     como vieste te foste – 
                     tudo findou



***



parto
      uma nova sorte
                    o coração oprimido

            não sei se o tempo amadureceu
              ou se sou eu que tenho medo



***



na avenida
árvores de lábios rasgados
o bom vento lateja nos primeiros raios
nos pulsos cortados das vísceras massacradas pelo destino
o infinito nada acorda do seu sono exemplar        ergue-se na sua morada
pés em terra nunca antes pisada
o mistério da vida na cobiça da sua sombra esquecida



***



esta angústia de
não poder estar só
silente
na mente que se masturba
masturba e
novamente se masturba
como se fora adolescente



***



  franzina nudez
    de costas voltadas

      pela parede 
        nua amparada
      reluz na alvorada

    do sexo
  hoje negado



***



vi-te naquele dia chuvoso sabendo quem eras sem que o parecesses
sem que te tivesse visto nesta ou noutras ilusórias vidas
senti o teu gosto os estilhaços de tua alma o meigo oiro dos cabelos soltos na mais subtil das aragens e a sedução de tristes olhos inundados de profundas razões
              desde logo li o nosso destino



***



desceram do trem com aquele ar impertinente de quem não sabe o que faz
tiraram fotografias que irão apagar as falsas delícias da ignorância
           assim se foram como vieram



***



  arestas doiradas das armas no campo das crianças mortas
  adaga com que matas a inocência que a ti sobe
  olho-te        vejo-me
  sem serenidade nem esperança
  floresta desertificada por línguas de fogo bifurcadas
  sílabas de fumo nas ramagens secas espoliadas da seiva secular 
   nem os cabelos como lírios de prata te alcançam



***



um tiro apenas
fez de ti um herói
rodas de flores
lápides rosadas
cruzes        credo        cruzadas
um amor desfeito
mãos arroxeadas
poisadas no peito



***



tu a rainha luminosa      túnica colada ao corpo
                 perfeito rosto de rosa

ameixas caem ao solo         tua beleza não
             pele diáfana da natureza

toco-te levemente
        um gemido ergue-se na noite
               delícia que não é de gente

amor que em minhas mãos por horas deus te deu e tão bem soubeste divinizar

            só o divino vive eternamente



***



posso aguardar pela paz
na noite da quinta deserta

a chuva canta 
penso em deus
enquanto ela parte



***



o ar acendeu-se        chispas por  todo o lado
o céu escureceu além das claras janelas
de novo
a minha alma solitária prepara a partida
                  um novo passo

      a cada partida
renasce o coração de aço



***



na viagem do teu corpo
na voragem do desejo
não peço que me peças nem tu
pediste que te pedisse
a voz liberta dos sentidos
anseio resolvido e sedento
no grito louco e místico
do delírio que morde voraz
as palavras que consumimos



***



o corpo amanhece trémulo
renascido para a dor e para o luto encarcerado no olvido

a montanha mais alta a meus pés
repartida como o pão doado aos pobres na serenidade luminosa da antiliberdade

lisboa chora os anos passados        hoje carrasco amanhã vítima

o rio enegreceu ao rufar da cobiça



***



conhecer-te não quero
nem o teu corpo desejo

quero a tua imagem
esguia   perfeita
no fundo dos meus olhos



***



a minha alma faz o caminho pedregoso para o mosteiro     por quantos dias   pergunto-me     
junto ao mar num portão púrpura do cais está atracado o veleiro nórdico de escotilhas luzentes
jardins da terra e jardins do oceano     a mesma solidão pacificadora a mesma brisa sussurrante 
cálida é a bênção dos deuses derramada sobre os que enveredam pela contemplação do infinito 
percorrendo com imaginação delirante os confins do que não tem existência



***



o tempo 
deixa os seus passos
na areia vermelha
do desespero
escurece os que padecem
extermina os receosos
confunde os que se lamentam
assombra os medrosos
mata os que amam



***



as mãos não cedem ao silêncio
que se faz vício nos corpos apertados
filtrando o odor
de um amor desconhecido e puro
como saliva e suor de anjos



***



este momento de rendição enobrece-me

entrego a minha carne às famélicas águias     sou seu precioso alimento seu prazer seu orgasmo selvático no membro extático

para cada ocasião uma oração
não evoco

o anelo evola-se para ressurgir na tarde ociosa
a noite cai perfumando os ares
a mente esvazia-se
a agonia vai-se
por agora
ela fica



***



o tempo mágico dos corpos floridos
a partida que se deseja na irresolução

minha velhinha mãe
sozinha

tarda o encontro
onde estará o que em mim vive

terei de deixar tudo
espalhado no caminho

irei por dias
tu estás para além dos teus templos

também estás no coração
de minha amorosa mãe



***



difíceis e morosos são 
os momentos em que
secretamente te aguardo



***



acendem-se lâmpadas nas folhas de trevo     cavaleiros preparam as montadas     a guerra
retinir crescente do orvalho escutado à janela pelos rostos de crianças melancólicas

        anseia-se sempre por outro amor
               incomparável e único
            sol a beijar manhã plana

logo que o mundo finde
guiados pelas estrelas nos promontórios dos mistérios
            aprenderemos a amar



***



que o ouro se cale
e a inocência regresse nos
meios-dias de esperança

nos mitos antigos
ressoa a noite no fumo
do cigarro que se apaga



***



à cegueira da culpa
me confesso

do sonho fantástico
do sangue da terra
me despeço

aqui teimosamente
sem gente nem crente
no outono da dor
desfaleço



***



    teu corpo nu no meu leito
    o repouso de uma mão no peito redondo
    palavras soltas na insónia nascente
    o amor não dorme na
    ausência que consente o medo



***



tétricos e eternos horrores     provações deste mundo nas caves encarvoadas que suspiram lágrimas
farrapo velho a vaguear nos penhascos do descuido
palavras solitárias das montanhas nevadas 
        tão fúteis            tão calmas
                    tão calvas

     nada és para além da lembrança



***



  em redes de esmeralda escrevi as minhas dúvidas
            as noites continuam a ser longas
   acenderei as velas aos primeiros sinais da madrugada
     a lua ergue-se na montanha        sonho com os raios cristalinos em dança frenética no lagoacho
        e a dança melodiosa da velha truta na erva-da-fome



***



o meio-dia da vida oculta-se no que está abscôndito

revela-te à minha visão espírito     contigo desfarei o tempo     
      o véu do templo irá romper-se em estilhas 

fundeio com ferro bifurcado nas minhas entranhas fechando os olhos à paisagem ruinosamente abatida por garras de homens

      no ventre vazio sinto a alma viver

mas se vens não te vejo      se te vais não entendo         
                        nada compreendo

            a ignorância é a minha essência



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é tempo de visita
o vulto da morte amainou a tempestade mítica do fim dos tempos

   nada para a deter
        posso morrer nos símbolos da noite



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esta necessidade de solidão e de olhar para dentro transformou-se numa obsessão

busco uma nação distante no que de mais perto atinjo
         ermo é o lugar onde mais ninguém cabe

templo cingido por fino véu     na noite escura do mundo em hesitação

                      peregrino do além
                        mendigo do céu



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a mesma oração de sempre –
estou aqui
simplesmente aqui
à espera de nada
a querer nada



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