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segunda-feira, 30 de maio de 2011

DA EXISTÊNCIA DE DEUS E DA ALMA




Em filosofia, ou melhor, na vida, todo o problema independentemente da sua maior ou menor complexidade, deve ser abordado sem quaisquer condicionamentos, crenças ou ideologias. Quando nos libertamos das influências religiosas, filosóficas, das inúmeras impressões residuais da nossa mente, para além de nos vermos tal qual somos, temos a objectividade necessária para a sua resolução, avaliando os factos de modo imparcial, sem a contaminação de uma visão nocivamente interpretativa. A maioria dos filósofos, que negaram por via da razão a existência de um Deus particular, não conseguiram alhear-se dos seus condicionamentos da infância – v.g. Descartes e o próprio Kant.

Os filósofos, por intermédio da especulação, podem “criar” ou “matar” deuses. São crianças cultas inventando conceitos de segurança para os seus medos e para os medos, inquietações e sensação de impermanência das sociedades a que pertencem.
O intelecto é insignificante por ter a sua actividade limitada pelo espaço-tempo. Assim, todas as filosofias estão limitadas pelos ferozes condicionamentos daquele e as investigações surgem como consequência do seu engenho desenvolvido ao longo dos séculos.

Quando não “possuímos” – e em contrapartida não somos possuídos – sistemas filosóficos, religiões com os seus deuses e dogmas, superstições, pessoas e coisas, estamos preparados para ingressar sem esforço na Terra da Verdade. Esta Verdade não é estática e como tal não pode ser definida, enclausurada numa qualquer fórmula limitativa. Não permite o acumular de conhecimentos, tendo de ser percepcionada em cada instante, da mesma forma que o deve ser a beleza de um rosto, de um vale serpenteado por rio de águas cristalinas, das nuvens, de uma magnífica aurora.

Conhecemos o que nos é exterior pela experiência. Mal ou bem, conhecemos o mundo e uma parte da nossa mente.
Pergunto: pode o conhecido atingir o desconhecido? há alguma experiência que nos possa conduzir à “terra de ninguém”, à Verdade, ao incognoscível?
Se a mente percebe a sua incapacidade para atingir Deus, cessa a busca, e com este abandono, pacifica-se, silencia, e talvez por intermédio do silêncio pacificador, possa intuitivamente aceder ao conhecimento instantâneo.

Precisamos de aniquilar os mecanismos de defesa psicológica. A liberdade só poderá existir em toda a sua plenitude, quando o nosso cérebro estiver integralmente despojado de dependências obnubiladoras, tais como as religiões organizadas e os seus deuses, puras invenções de mentes atormentadas. Estas maleitas, fortemente arreigadas nos alicerces profundos do cérebro, não podem ser esconjuradas por filósofos, teólogos, gurus, e outros repugnantes vendilhões da felicidade. Apenas nós as podemos destruir por intermédio da observação compreensiva. Por outro lado, se a vontade e os múltiplos anseios, desejos e apegos desaparecem naturalmente, nasce no homem uma energia indescritível e incomensurável.

A vida deve ser considerada como um todo, e não observada parcelarmente, já que é um fenómeno eivado de anarquia. Pela parte pretendemos atingir o Todo, partindo do conhecido almejamos o desconhecido. Quão tolos somos!
Habituámo-nos a ver apenas o que nos rodeia, objectos e pessoas que nos circundam. No entanto, precisamos de penetrar no infinito – no que não tem começo nem fim –, estender a nossa visão para além de todos os limites que conhecemos, independentemente da sua inacessibilidade ao pensamento.

Uma vida sem autoconhecimento e sem a pura observação de tudo o que nos rodeia, é um desperdício, e como tal não merece ser vivida.
Porque é que transformamos as experiências dos outros em nossas? O que é que nos leva a sublimar ou ignorar as nossas próprias vivências?
O espírito acomodatício não quer encarar os factos, em especial os que nos são desagradáveis ou que não respondem às nossas inquietações. Mas, a experiência de outrem, é uma experiência que não é própria, fazendo com que o ser humano que a perfilha, não seja mais do que um cidadão de 2ª, homem vestido de penas, tal papagaio.

Olhamos o Universo na sua imensidão, a vastidão do espaço com uma aparente infinitude de astros e sentimos intensamente a nossa efemeridade. É indubitavelmente esse sentimento de impermanência, tão inquietante quanto angustiante, que nos levou a buscar algo, que esteja para além do nascimento e da morte e que possa connosco “negociar” a imortalidade.
Dizer que o Universo não é o produto de um acidente, mas antes de uma Realidade absolutamente consciente, sábia e boa, é negar todo um conjunto de factos, e os factos são indesmentíveis – que se apresentam ao nossos sentidos. Já o estabelecimento de uma relação com essa Realidade transcendente, capaz de nos transfigurar, é pressuposto que apenas no mais íntimo da individualidade poderá obter resposta. Não há fórmulas mágicas, credos, procedimentos mortificantes, que a proporcionem e expliquem.

O homem deseja o prazer; é algo de primário. Os desejos são múltiplos, pertencendo uns à cidade terrena outros à cidade de deus. Não obstante sejam muitas as distracções do homem, com os seus consequentes desejos, o maior e o mais inatingível é o de Deus, estando associado à aspiração da imortalidade. Se a essência do Todo for a infinitude e a eternidade, podemos estar certos que o pensamento nunca a atingirá, por via das suas naturais limitações.

Tem de ser cada um de nós, por si, sem recurso a dogmas, crenças, sistemas filosóficos ou auxiliados pela teologia – seja a dogmática, seja a natural –, que deve descobrir se Deus tem uma verdadeira existência ou se é um fantasma elaborado por um pensamento tortuoso, a quem todas as ilusões são concedidas de molde a minimizar o sofrimento psicológico pela fuga da realidade, do que realmente é.
Tem de ser cada um de nós, que deve descobrir se existe uma alma e o que é a morte, essa realidade fantástica que tanto nos atormenta e aniquila a beleza da vida.
As Igrejas com a sua horda de sacerdotes ineptos não têm qualquer valor, para além de permitirem ao miserável homem comum uma frágil e ilusória segurança.

Não sabemos se Deus e a alma existem. Desconhecemos o que é a morte. Independentemente das inúmeras respostas de filósofos e teólogos alicerçadas na razão, na fé ou em ambas, nada conseguimos atingir ou o que atingimos está à partida condicionado pelas impressões residuais acumuladas na mente humana durante milénios e na nossa em especial, durante toda a nossa vida. São em regra, respostas programadas, quer ao nível consciente quer inconsciente. Não poderia ser de outra forma. O pensamento é um exímio prestidigitador, um ilusionista que se engana a si mesmo quando pretende transcender o espaço-tempo na inglória tentativa de compreender o que é permanente, e como tal, não pertence à natureza do impermanente. O pensamento só compreende – quando compreende – realidades limitadas, não as que excedem limites inultrapassáveis. Em boa verdade, toda a actividade do cérebro, padece das mesmas limitações deste: as do espaço e do tempo. Ora, o que é limitado, não tem acesso ao ilimitado, à eternidade e à infinitude.
Podemos então, confiar no pensamento? Julgo que não! Por muito elaborado, lógico, coerente e profundo que seja o pensamento, isso não fará com que a superficialidade e a inconsistência reinem no seu seio. A Verdade é uma terra sem dono, terra de ninguém, trilho não delineado, inatingível por qualquer doutrina, sistema filosófico, especulação ou religião. A Verdade não jorra nos corações dos que a perseguem com incessante ansiedade, porque é contrária à ambição, a todas as ambições, mesmo à ambição que apenas se tem a si como objecto.

A sabedoria é a constatação da nossa ignorância, da incognoscibilidade das questões metafísicas e da sua inevitável aceitação.
Muitas das vezes, os que aparentam sabedoria são tão insensatos como crianças, jogando às escondidas ou “reinando”,
Em bom rigor, a sabedoria entendida como conhecimento, tem muito pouco valor. Apenas quando reconhecemos a nossa ignorância, como o fez Sócrates, terá alguma valia.

A minha metafísica, resume-se grosso modo, a um simples “não sei”. Não conheço expressão mais fácil e real. Se não sei e não procuro, talvez venha a conhecer, talvez encontre, melhor, talvez venha eu mesmo a ser encontrado. É esta a humildade que permite transcender o espaço-tempo.
Deus não pode ser definido. Manter-se-á para todo o sempre como o que é incognoscível. E se por um mero acaso, eu tiver alguma experiência de aproximação à sua existência e essência, essa experiência será unicamente minha e praticamente incomunicável, e terá nascido da morte do pensamento.

Ao problema da existência de Deus, conceito que remonta aos primórdios da humanidade, referem-se os filósofos a uma entidade suprema, que se identifica com uma existência absoluta, que se satisfaz a si mesma subsistindo por si, que cria e é livre no acto da criação. Poderá este deus dos filósofos, ser também o deus de uma determinada religião? Em consonância com os nossos condicionamentos, que como tal pouco mais são do que pura ficção, poderemos responder afirmativa ou negativamente, mas sempre de modo dúbio e incerto.
Filósofos, aspirantes a santos, místicos de práticas torturantes, afadigam-se na procura de um Deus que lhes escapa e que se lhes nega, não obstante se iludam com certezas e visões que têm a medida das suas expectativas. Não estão libertos do medo. Se o homem não estiver acorrentado pelo medo procurará Deus?
O deus das religiões, dos teólogos, dos filósofos, dos livros “sagrados”, não é Deus, antes uma mera ilusão, ainda que agasalhadora e assombrosa. Se o conceito e a crença não existissem, estaríamos limitados à alegria e à tristeza, mas logo o inventaríamos para protecção dos nossos medos angustiantes.

Na fé, pode existir uma verdadeira “cegueira filosófica”, uma fé sem qualquer alicerce, construída nas nuvens que são arrastadas por ventos que mudam constantemente de direcção. Esta, não é de todo razoável, mas antes acto irracional e cómodo. Apesar de tudo, no Concílio Vaticano I, foi frontalmente atacado o fideísmo, afirmando-se a plena capacidade da razão para demonstrar a existência de Deus, mais do que atestar por uma mera razoabilidade o acto de fé subjectivo.

A criação dos nossos deuses em nada diminuiu o sofrimento do ser humano, excepcionados alguns espíritos raros – normalmente apelidados de místicos – que, como consequência de patologia mental ou de uma realidade que nos transcende – e para sempre transcenderá – se acercaram do Absoluto, comungando da sua essência ou deram assentimento à sua existência.

Confiai em Deus, dizem-vos. Mas que confiança e amor podeis ter num Ser que permite atrocidades constantes, a miséria, a fome, a morte por carência dos mínimos cuidados de saúde, os cataclismos que engolem tantos inocentes de modo indiscriminado, a guerra, afinal todo um conjunto de males e injustiças? Não teremos de concordar com Epicuro, quando afirma que “a divindade ou quer suprimir os males e não pode, ou pode e não quer, ou não quer nem pode, ou quer e pode. Se quer e não pode é impotente; e a divindade não o pode ser. Se pode e não quer, é invejosa, e a divindade não o pode ser. Se não quer e não pode, é invejosa e impotente, portanto não é divindade. Se quer e pode (que é a única coisa que lhe é conforme) donde vem a existência dos males e porque não os elimina?”
Como diz na sua simplicidade uma velhinha da minha aldeia, que Deus é esse, omnipotente e omnisciente, que permite que uma criança seja torturada, violentada e morta por um qualquer criminoso, assistindo impávido e sereno a um acontecimento a que qualquer um de nós obstaria se possível, mesmo com o risco da própria vida. Lembro-vos o “tratamento” a que os pedófilos são sujeitos pelos outros reclusos... e são apenas outros criminosos.

Invocamos Deus e o seu santo nome para nossa protecção – como um antibiótico para uma infecção –, para que vejamos os nossos desejos realizados e os males afastados. E para além deste, há os santos, santos para todos os fins, e uma Virgem Maria que parece ser mais poderosa do que o próprio Ser supremo, tantas vezes relegado para um plano inferior.

Diz-se que o mundo que perdeu o Deus cristão só pode assemelhar-se ao mundo que ainda não o encontrou. Mas, se o Deus único nunca foi encontrado pelo mundo, que poderá este perder?
Mesmo que se considere que o Absoluto é atingível pela experiência mística, dir-se-á que esta é pessoal e intransmissível, inexistindo palavras que a possam cabalmente explicar ou divulgar.

Alguns filósofos tendem a crer na existência de Deus em virtude de não conceberem um Universo apoiado numa realidade pessoal. Poderá o cosmos ser fruto de lei, acaso ou vontade inconsciente? A tal questão respondem pela negativa. O Universo foi criado intencionalmente, com sabedoria e bondade, elevadas ao seu mais alto grau. Mas, tal afirmação não tem correspondência factual.

O deus dos filósofos é o deus da razão, da geometria, dos que reduzem a vida ao raciocínio, sendo como afirma Kolakowski um deus dos fracassos. Um deus dos fracassos e dos fracassados não pode obviamente ser religioso.

Não é o pensamento que ascende ao Absoluto, mas é o Absoluto que atinge a mente vazia.
Só um cérebro, que sem motivo foi esvaziado do seu conteúdo – daquilo que o condiciona –, e que nada busca, poderá ter acesso ao que é Eterno e Infinito. Este Ser, poderosa fonte de energia sem forma nem qualidade é inatingível na sua essência. O Absoluto – ou seja lá o que for – só surgirá por sua livre vontade, espontaneamente, nunca por via das nossas mesquinhas exigências, preces, invocações, ou na pior das hipóteses por práticas “religiosas” mortificantes.

A alma, princípio de vida e princípio de inspiração moral, não pode ser investigada como problema religioso, independentemente dos problemas da imortalidade e de Deus.
Filósofos e teólogos procuraram desde sempre isolar duas substâncias diversas, mas bem definidas, no homem. Por um lado, a alma, que a partir do momento da sua criação subsistiria por todo o tempo futuro, ou seja, eternamente, e o corpo, sujeito à corrupção – mas que no caso do cristianismo ressuscitaria como corpo glorioso.

Se existir uma alma que sobreviva ao corpo, somos forçados a admitir, que essa alma impregnada das vivências, emoções, conhecimentos e memórias do seu portador, manifestar-se-á com todo o seu conteúdo numa nova “vida”. É a continuidade do “eu”, essa entidade tão sofrida e insignificante. Improvável, quase absurdo. As nossas memórias estão intimamente dependentes do cérebro, que está destinado com o corpo à extinção.

Quando o nosso discurso tem como objecto a alma, em regra, estamos no domínio do pensamento. Pensamento que é a fonte do medo, de todos os medos, e em especial do mais poderoso, o medo da morte. É o pensamento que elabora doutrinas ou que se limita a afirmar com cega fé, em atitude de “santa burrice”, a existência da alma, uma alma que é permanente, que não está destinada à corrupção e que viverá com deleite os eternos prazeres dos céus.

Temos uma premente necessidade de acreditar na “vida” depois da morte, porque temos medo e nos sentimos inseguros. Estamos demasiadamente preocupados com a continuidade. Não queremos deixar de ser quem somos, nem deixar de possuir o que possuímos.

Poderá a imortalidade ser a continuação do “eu”? Estranha vontade esta que nega a destruição do que é misérrimo, mesquinho e escabroso. O imortal não tem qualquer afinidade com o mortal.
Que eu morra e renasça a cada instante. Só essa atitude é absolutamente religiosa e a santidade é a observação continuada de nós mesmos e do que nos rodeia, o que faz cessar o tempo com a consequente imersão na eternidade.


JOSÉ MARIA ALVES
www.homeoesp.org




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