Este diário complementa o nosso site pessoal

( VER ETIQUETAS NO FIM DA PÁGINA )

USE O PESQUISADOR DO BLOGUE -

-

OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

JARDINS DA TERRA E DO OCEANO




a minha alma faz o caminho pedregoso para o mosteiro          por quantos dias?     
junto ao mar num portão púrpura do cais está atracado o veleiro nórdico de escotilhas luzentes
jardins da terra e jardins do oceano     a mesma solidão pacificadora a mesma brisa sussurrante 
cálida é a bênção dos deuses derramada sobre os que enveredam pela contemplação do infinito 
percorrendo com imaginação delirante os confins do que não tem existência







VENCIDA É A LONJURA




rosas do encanto     sono primaveril em planície de flores onde entoa a voz dos rochedos     encruzilhada de virgens

uma jovem que se transforma em deusa
um tigre atravessado por flecha envenenada
vencida é a lonjura

resplendor sagrado da harmonia angelical
no murmúrio dos meus dedos





sábado, 19 de outubro de 2013

POEMA DA CRIAÇÃO DO MUNDO




William Blake - Deus Criador


       
OU POEMA DE DEUS OU DO DIABO


escrevo este esboço doente     não o escreveria se não estivesse assaz enfermo     se não cuidasse no mal que fiz e que hei-de causar     actos de amor     de ódio     de deus ou satanás

- se deus o quiser     por assim o ter destinado quer eu queira ou não     o que está escrito não pode ser apagado - 

se o meu peito sanguinolento não sofresse como sofre
e se a morte não fosse aquele grande mistério que tanto nos apetece e que não se conhece com preces nem é compreendido por filosofias ou teologias em noites de amarga especulação          misérrimo pensamento

vive-se     como se pode      por não haver melhor
come-se     bebe-se     faz-se sexo     dorme-se                         e o pior
é que se vegeta sem nexo
da nascença à cova funerária
e dos que partiram deste mundo
nenhum torna
ninguém dá nova
de corpo ou espectros
ressuscitados     reencarnados
almas de deus
ou de trinta-diabos



        onde estás tu senhor?


        quem sou eu?



ao acaso vou abrindo o desgastado saltério     herança de meu pai

         - ouvi ó deus a minha voz na aflição

eu sou a palha que do terreiro o vento de sueste leva
árvore de folhas ressequidas que em tumulto escondido se inflama
o que aborrece o caminho da mentira

         - tende compaixão de mim senhor porque estou doente

sobre mim cai uma chuva de fogo vivo e enxofre
coração em lágrimas no covil dos leões
corpo que em fornalha ardente novamente sofre
mente angustiada     mortalha de lamentações

         - meu deus meu deus porque me abandonaste?

perfuma-me a cabeça com óleo de nardo 
se és bom e recto a mim que te prezo  
mostra-me o caminho nesta noite escura
alivia-me a mim que sou fraco deste fardo
eu penso no pobre no que sofre no desvalido
sou como o veado que gemente suspira 
gazela em busca de verdes prados e água pura


         do novo testamento que se diz de teu filho
     
       - se alguém quiser vir após mim negue-se a si mesmo
         tome a sua cruz dia após dia
         e siga-me

     sem condições te seguiria
     por vereda de abrolhos
     cardos e despenhadeiros  

     fundearia na tua palavra
     e se teu caminho visse
     e a tua lei entendesse
     nela meditaria noite e dia 

     imita-me dirias
     e eu o faria

     seria como és
     madeiro nos braços
     cravos nas mãos
     e nos pés

     coroa de espinhos
     na fronte
     chagas de verdasca
     a bem aceites
     sangue da alegria
     beberia de tua fonte
     tua missão imitaria

se o mundo salvasse de tanta miséria doença fome morte
terríveis males por teu pai criados     poderes que te foram dados
mas a mim não

se expurgasse do universo cataclismos terramotos guerras malefícios corrupção furor ganância ódio e vingança
males que teu pai previu
mas eu não

se iníquos e ímpios poderosos e governantes deste mundo sanguinários traidores de seus povos famintos
que nada e ninguém temem 
pudesse julgar     esmagando seus braços     exterminando-os e às torrentes malignas de seu sémen no pecado imerso      
que tu em nome de teu pai podes
e eu não

     seguir-te-ia
     mas às tuas igrejas não  




no princípio o teu santo espírito movia-se à superfície das águas
a terra era informe

olhaste o abismo e aí projectaste o mundo no caderno do destino
onde tudo está escrito com infinita ciência     dizes tu

cansado de tanta solidão munido de sólida intenção
- a eternidade também cansa e o vazio entedia –
no primeiro dia fizeste resplender a luz separando-a das trevas

no segundo fizeste os céus separando-os das águas
mas deste-lhes a mesma cor     quererias neles espelhar o amor

no terceiro enxugaste a terra
o mar uniu-se aos céus no horizonte
e ordenaste à terra que produzisse erva 
arbustos e árvores de fruto

no quarto criaste os luzeiros do céu
no quinto povoaste a terra de todo o tipo de animais
domésticos     répteis     ferozes
e sob o firmamento as aves
nalguns brejos     
alguns animalejos alados     

não satisfeito
fizeste-nos à tua imagem e semelhança
a nós falsos dominadores da natureza
pasto de melgas e mosquitos

                  e ponderaste a tua obra muito boa

como pudeste tu o omnipotente o omnisciente
não prever o evidente
não fazer o excelente
se a erva sofre quando calcada
e a árvore quando derrubada

como pudeste na tua omnisciência criar
bicho-come-erva     bicho-come-bicho     bicho-come-gente     gente-come-erva     gente-come-bicho     gente-come-gente

violência e dor

não violaste os princípios de tua omnipotência?

parece-te isto bem senhor
cadeia interminável de sofrimento
outrora agora e para sempre
a isto chamas amor? 

bela é a ave     e ave-come-ave ave-come-bicho bicho-come-ave ave-come-gente e gente-come-ave
é esta a tua natureza
aniquilação dolorosa da beleza?


     razão a de quem diz da vida
     tudo é sofrimento
     nascimento     doença     velhice     morte
     desgraçado o que nasce
     o que teve tal sorte


o homem foi por ti moldado
em pó da terra

colocaste-o no jardim dos jardins
no meio das mais belos jasmins
ó éden de todas as delícias
visões perfumes júbilo carícias 

mas estava só     
e a solidão mata
basta de sevícias
disseste

enquanto dormia     sorrateiro     tiraste-lhe uma costela
e dela 
fizeste a mulher
que por argúcia tal 
de ofídia sua aliada
o fez comer da árvore do bem e do mal
- para que criaste tu o bem e o mal     não sabias que eva faria adão comer o fruto     e que a serpente nada tem com o assunto? –

amaldiçoaste injusto a serpente
aumentaste os padecimentos da mulher
e o homem nascido para o prazer
para a eternidade e lazer 
teve de comer o pão que o diabo amassou
castigo do pecado gerado por quem o criou



eva penetrada por adão
deu à luz caim e abel
e como o que nasce torto
tarde ou nunca se endireita
abel apareceu morto
por obra de seu irmão

ainda assim os homens multiplicaram-se
penetração após penetração no seio da erva
gozo primordial de adão com eva

mas nos seus corações a malícia reinava


arrependeste-te então tristemente
contrário à tua sapiência
usada na criação com displicência
- eu deus omnipotente e omnisciente arrependo-me de ter criado o homem sobre a terra

choraste lágrimas de sangue     amarguradamente     na terra corrompida e cheia de violência
e tracejaste com raiva o malfadado caderno do destino que com negligência escrituraste



de toda a multidão apenas noé te era agradável
e pensando não sei se bem se mal
ordenaste-lhe a construção de uma arca     espécie de barca
nela noé embarcaria a mulher os filhos e dois seres vivos de cada espécie existente na terra

por um dilúvio em sete dias 
– mania a tua – 
exterminaste toda a humanidade
e
aos pobres e impolutos animais
num acto de nova crueldade


não sabias qual a natureza do homem que criaste    
não sabias que no seu sangue correria para todo o sempre corrupção e violência
e que a humanidade é a mãe da demência?

que pecado cometeram os animais que ficaram
com que direito os submergiste     
que tinhas em mente     
tua vontade     discricionária e indiferente?


a ti meu deus assiste a razão quando disseste
- façam-se à minha imagem e semelhança
desgraça atrai desgraça     castigo divino injustiça humana     erro     desesperança

e tu sempre o soubeste
e a noé o disseste
quando assinaste a aliança
de nenhum outro dilúvio lançar
sobre a terra e sobre o mar
- de que te valeria também     nada variaria – 
desististe e bem senhor

      aposentaste-te de criador



     quanto a mim e no restante
     sempre soubeste
     quem iria eu ser
     que iria eu fazer
     que pecados cometer

     dizes
     dei-te o livre arbítrio

     que bom que és senhor

     determinas-me ao acto
     definitivamente lavrado
     no caderno do destino

     e a criatura que agora vês
     pecadora perdida sem tino
     foste tu quem a modelou

     e sem que mudança 
     houvesse na tua ciência
     ou não seria omnisciência

     o que tão contrário
     é à tua essência
     como a presença do mal

     e se por tal iníquo sou
     por tua vontade
     erro ou desacerto 

          eu pecador me confesso
          eu pecador me perdoo



tantos são os males do mundo     e não os reprimes
não podes senhor?     se não podes não és tu o deus do nosso coração     se não queres és um ser indiferente desapaixonado     não és tu o deus de isaac jacob e abraão     
se não podes nem queres és impotente e indiferente       deus dos fracassados e dos dementes

podes senhor     podes exterminar o mal?     essa a tua natureza e essência
mas não o fazes     não cumpres teus preceitos     não alimentas os teus eleitos com paz e rectidão     não és o nosso pastor     quem nos leva a descansar em verdes campos a água pura irrigados



não te entendo senhor
mas uma prometimento te faço     desisto de te buscar fora
buscar-te-ei dentro
e se num qualquer dia
no recanto da minha alma te encontrar
perguntar-te-ei
porque nasce o mal do bem     o imperfeito do perfeito     o injusto do justo     o padecimento da paz

nesse dia
- talvez a final tudo pareça bem - 
com o coração em chamas
o espírito em festa por te ter
sabendo que nos amas
de vez vencido o mal
louvar-te-ei


então
olharás do céu para o filho do homem e encontrarás um sensato que te desejou sem desfalecer em momento algum

per omnia saecula saeculorum








INTERPRETAR OS SINAIS




interpretar os sinais dados em pesadelos nublosos
tantas as vezes que o disse     tantas foram as que o sonhei
a noite é minha como é o rumor da brisa nas árvores gigantescas que circundam o terraço

adio constantemente a partida
uma hora de sono     apenas uma

aguardo o meu veleiro
levá-lo-ei nas noites estreladas pelos mares prateados
dormindo ao leme por instantes
e para sempre no derradeiro momento

ele ouviu a minha prece
mas não compreendo a sua palavra
que venha
dando-me a angústia ancestral
ou um doce estar em absoluto remanso

ouvir uma cantata enquanto a manhã não germina
que venha
seu esplendor
meu cansaço





OS MISTÉRIOS SERÃO SEMPRE MISTÉRIOS




já sabido     os mistérios serão sempre mistérios o que faz deles não-mistérios
prolongar os dias no carreiro da processionária descobrindo o que não existe     vida de saltos mortais piruetas trejeitos e gente obsoleta a vaguear nos corredores das cidades nos trens nas aldeolas na promiscuidade dos pavilhões exsudados     a clandestinidade da traição     a fome a ganância e a ira dos povos
morreremos tão asnos quanto nascemos
as árvores nem sempre são verdes e os rios não correm sempre na direcção do mar
pouco mais     pouco mais





APRENDER A AMAR




acendem-se lâmpadas nas folhas de trevo     cavaleiros preparam as montadas     a guerra
retinir crescente do orvalho escutado à janela pelos rostos de crianças melancólicas

anseia-se sempre por outro amor
incomparável e único
sol a beijar manhã plana

logo que o mundo finde
guiados pelas estrelas nos promontórios dos mistérios
aprenderemos a amar





DESPOJOS




os despojos do meu ser pródigo e fulgurante
não tenho coragem de olhar para trás

a jornada do dia condensa-se nas maçãs do teu rosto
nos teus olhos o amor     círculos de peste e fogo

o passado anda pela sala sem afeição
o presente cerca-me a morada
o futuro é um lugar sombrio

um abraço     um beijo
uma ave de asas imensas

pesa-me o coração ao tocar do sino
agravo da quietude





TU ÉS A ÚNICA




tu és a única
a estrela de pétalas
que minha pele atravessa

banhas-te no meu sémen
seios dilatados no lótus
coxas a apertar o coito

juntos na noite
aguardamos a alvorada
de mão dada

sexo com sexo
confinado
ao amor carnal

rugido 
de leão
no coval

a boca na boca
a arder salivada 
sem que nada

nos possa deter
tão forte é
a força da remada

aleitaremos ambos
um novíssimo amanhecer
luz a fazer doer

crisálida de renovados tempos





PERTO TE SINTO SE TE AFASTAS




perto te sinto se te afastas
nuvem que peregrina em melífluos aguaceiros

barro e cinza     barco vaiado pelas vagas de espuma
cidade desaparecida no lodo com todas as suas flores e pomares
frondosas árvores cessam o pranto dos caleiros do céu

tempo da rosa     sorriso de noite morta

chegaste para logo partir brisa do levante
sol do meio-dia onde os nevões vão perecer





AMOR ETERNO




senhora        ofendi-vos sem nunca vos ter 
em bom ou mau momento querido ofender
amei-vos como quem só tem uma amada
mãe que no coração abriga filha preferida

nunca quis para vós nada 
que vos não desse prazer
insónia do desejo de vos ter
alma em pranto ansiada 

a cada dia me lembro de vós
de vossos olhos cabelos dedos
gestos dóceis maviosa voz
coração alimentado a medos 

e junto ao rasgado peito
com muito aperto vos guardo
e com desassossego espreito
o que fazeis e tendes feito  

só deus sabe como me sinto imperfeito
sonhador que solitário morre à beira-mar
como um triste mendigo que por leito
tem rochas areia cardos banhados a luar

pedindo à morte por caridade um lugar 
onde só eu eternamente vos possa amar





sábado, 12 de outubro de 2013

BEIJO-TE




na sala decorada a dragões
o corpo nu à luz das velas

ao longe as montanhas para onde voam as andorinhas na primavera

o sino do templo toca

o rio corre lentamente     espelho que reflecte a velhice

deuses repousam nas almofadas que bordaste nas noites de insónia

leio um dos teus poemas
triste é o amor que dele exala     a visitação da morte nas folhas da acácia e a chuva que faz brilhar as pérolas da vida que se extingue animam-no

o encontro é receoso

beijo-te





QUANDO ENVELHECERES QUEM TE IRÁ AMAR?




quando envelheceres quem te irá amar?
regressarás a casa sozinha com as tuas rugas por companhia
vacilarás no carreiro juncado de salgueiros curvados à tua passagem     tu o ribeiro que secou
será verão e o teu corpo estará frio como neve no cume
silencioso o quarto com o papel de parede amarelecido     inerte     estupidamente absorto no corpo disforme
outrora coroa de gemidos

a boneca de porcelana herança de teus pais sorri juventude
só tu envelheces no espelho embaçado de anos





DESÇO AO MEU INFERNO




desço ao meu inferno
baía da meia-lua onde as folhas das faias murmuram
estrelas nas entranhas rasgadas pela espada do amante visionário

o mensageiro que os deuses enviaram na beleza da mulher     palavra mágica em canção incompleta     

quem não sabe amar não merece viver

a trova de um grilo na doçura de outrora
uma víbora assobia no monte farvão
no mosteiro amontoam-se mágoas     sempre que uma folha cai do plátano no pátio enegrecido deus chora

mãos invisíveis tocam os meus parcos cabelos
e eu adormeço
sem pensar se vale a pena ou não acordar mais logo





TEMPO DE MAGIA




o tempo mágico dos corpos floridos
a partida que se deseja na irresolução

minha velhinha mãe
sozinha

tarda o encontro
onde estará o que em mim vive

terei de deixar tudo
espalhado no caminho

irei por dias
tu estás para além dos teus templos

também estás no coração
de minha amorosa mãe





FERES-ME A ALMA




feres-me a alma
senhor    
mas não te mostras

tanto te acusámos
de ser um deus
eternamente escondido
que te escondeste para sempre





HOJE TENHO-ME A MIM




as velas tremulam no quarto silencioso
chamas que abrasam o mundo

o pequeno transforma-se no grande
limite natural ao pudor do desejo

uma alma que se abre no denso bosquete
tesoiros não trazem paz

guarda esse beijo     essas carícias
hoje tenho-me a mim
príncipe sereno do deleite
tempo medido pela ampulheta vaga 
na sobriedade de meu pobre quarto





AMOR MORTO




seus seios no meu peito
silêncio de noite em mundo flutuante

jardins choram nas fontes dispersas
voltar     porto seguro     teus braços

perco-me nos bosques onde deambulam palmeiras acesas

a manhã está rosada     paz de mensageiro abençoado
as árvores cantam
os lírios enredam-se nas liras em estranha vibração

haverá alguma omnipotência na verdade ou tudo o que fomos somos e seremos se parece com a rosa que esmorece?

matámos o amor na sua louca juventude





MORTE INGLÓRIA




a tarde chega carregada de ilusões
no declinar do sol a tristeza do dia que finda
peito ferido de corvo branco em corcel de marfim

as muralhas da cidade com o lenço bordado de camélias acende-se ao tanque das trutas moribundas
soldados mortos nascidos no sorriso das praias de nordeste

tranças verdes na floresta ocultam o carro da vitória
dedos ventosos erguem-se das tendas
um odre de vinho derrama-se no limite da miséria

mães que os filhos criaram para morte inglória





SEPARAÇÃO




sei que me aguardas

separa-nos um biombo de tempo

as figuras pintadas movem-se  

tectos que suam sangue

paredes com sémen coalhado

o leito inquieto
abre-se às tuas formas

estou longe e só

quando voltarei a sentir o despertar do teu hálito?