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ARTE

domingo, 6 de dezembro de 2009

POESIA PARA CRIANÇAS (76) - MANUEL BANDEIRA - IRENE NO CÉU






Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro Bonacheirão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

MANUEL BANDEIRA


JOSÉ MARIA ALVES
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POESIA PARA CRIANÇAS (75) - LENDA DE SANTA IRIA






Estando eu a coser na minha almofada,
Com agulha de ouro e dedal de prata,
Veio cavaleiro pedindo pousada;
Se lha meu pai dera, estava bem dada,
Deu-lhe minha mãe, que muito me custava;
Fui fazer a cama no meio da sala.

Era meia-noite, a casa roubada,
Dos três que nós éramos, só a mim levava.
Eram sete léguas, nem fala me dava,
Lá para as oito é que me perguntava:
- Lá na tua terra como te chamavam?
«Lá na minha terra eu era morgada,
Cá nestas montanhas serei desgraçada.»
- Por essas palavras serás degolada,
Ao pé dum penedo serás enterrada,
Coberta de rama, bem enramalhada.

No fim de sete anos por ali passava,
E a todos que via lhe perguntava:
- Dizei-me pastores que guardais o gado,
Que ermida é aquela que além branquejava.

- É de Santa Iria bem-aventurada,
Que ao pé dum penedo morreu degolada.
- Oh minha Santa Iria, meu amor primeiro,
Perdoa-me a morte, serei teu romeiro!
«Não te perdoo, ladrão carniceiro,
Que me degolaste que nem um carneiro;
Veste-te de azul, que é cor do céu,
Se ele te perdoar, perdoar-te quero.»

ROMANCE POPULAR


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POESIA PARA CRIANÇAS (74) - MIGUEL TORGA - INSTANTE






A cena é muda e breve:
Num lameiro,
Um cordeiro
A pastar ao de leve.

Embevecida,
A mãe ovelha deixa de remoer
E a vida
Pára também, a ver.

MIGUEL TORGA


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POESIA PARA CRIANÇAS (73) - FERNANDO PESSOA - VIAJAR! PERDER PAÍSES!







Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E da ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.


«A melhor maneira de viajar é sentir/ Sentir tudo de todas as maneiras»

FERNANDO PESSOA


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POESIA PARA CRIANÇAS (72) - MARIA ALBERTA MENÉRES - AS PEDRAS



As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como as aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
uma coisa para dizer.

MARIA ALBERTA MENÉRES


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POESIA PARA CRIANÇAS (71) - SEBASTIÃO DA GAMA - MADRIGAL A UMA ESTRELA


De histórias de estrelas
ninguém quer saber.
Não conto, não conto...
Quem é que te quer,

história da estrela
que fica por cima
da minha janela?
Tão bela! Tão bela!

Comigo te guardo
na vida e na morte.
Serás um segredo...
Será uma estrela

que eu leve a meu lado
na vida que leve...
Escura que seja
- que vida tão clara!

Que noite tão branca
a noite que eu durma
(debaixo da terra)
debaixo da estrela!

Não conto. Não digo.
Comigo te guardo.
Assim tu, ó estrela,
me guardes contigo...

SEBASTIÃO DA GAMA


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POESIA PARA CRIANÇAS (70) - BOCAGE - A CIGARRA E A FORMIGA





Tendo a cigarra em cantigas
folgado todo o Verão,
achou-se em penúria extrema
na tormentosa estação.

Não lhe restando migalha,
que trincasse, a tagarela
foi valer-se da formiga,
que morava perto dela.

Rogou-lhe, que lhe emprestasse,
pois tinha riqueza, e brio,
algum grão, com que manter-se
té voltar o aceso Estio.

«Amiga (diz a cigarra)
prometo à fé de animal
pagar-vos antes de Agosto
Os juros, e o principal.»

A formiga nunca empresta,
nunca dá, por isso ajunta:
«No Verão em que lidavas?»
À pedinte ela pergunta.

Responde a outra: «Eu cantava
noite e dia, a toda a hora».
«Oh, bravo! (torna a formiga)
cantavas? Pois dança agora».

BOCAGE (Traduzido de La Fontaine)


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POESIA PARA CRIANÇAS (69) - TOMÁS RIBEIRO - BENÇÃOS








Bem hajas, oh luz do sol,
Dos órfãos agasalho e manto,
Imenso, eterno farol
Deste mar largo de pranto!

Bem hajas, água da fonte,
Que não desprezas ninguém!
Bem haja a urze do monte,
Que é lenha de quem não tem!

Bem hajam rios e relvas,
Paraíso dos pastores!
Bem hajam aves das selvas,
Música dos lavradores!

Bem haja o reino dos céus,
Que aos pobres dá graça e luz!
Bem haja o templo de Deus,
Que tem sacramento e cruz!

Bem haja o cheiro da flor,
Que alegra o lidar campestre;
E o regalo do pastor,
A negra amora silvestre!

Bem haja o repouso à sesta
Do lavrador e da enada;
E a madressilva modesta,
Que espreita à beira da estrada!

Triste de quem der um ai
Sem achar eco em ninguém!
Felizes os que têm pai,
Mimosos os que têm mãe!

TOMÁS RIBEIRO


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POESIA PARA CRIANÇAS (68) - MATILDE ROSA ARAÚJO - BALADA DAS VINTE MENINAS FRIORENTAS







Vinte meninas, não mais,
eu via ali no beiral:
tinham cabecinha preta
e branquinho o avental.

Vinte meninas, não mais,
eu via naquele muro:
tinham cabecinha preta,
vestidinho azul-escuro.

.......................................

As minhas vinte meninas,
capinhas dizendo adeus,
chegaram na Primavera
e acenaram lá dos céus.

As minhas vinte meninas,
dormiam quentes num ninho
feito de amor e de terra,
feito de lama e carinho.

As minhas vinte meninas
para o almoço e o jantar
tinham coisas pequeninas,
que apanhavam pelo ar.

.........................................

Já passou a Primavera
suas horas pequeninas:
e houve um milagre nos ninhos.
Pois foram mães, as meninas!

Eram ovos redondinhos
que apetecia beijar:
ovos que continham vidas
e asinhas para voar.

Já não são vinte meninas
que a luz do Sol acalenta.
São muitas mais! muitas mais!
Não são vinte, são oitenta!

Depois oitenta meninas
eu via ali no beiral:
tinham cabecinha preta
e branquinho o avental.

..............................................

Mas as oitenta meninas,
capinhas dizendo adeus,
em certo dia de Outono
perderam-se pelos céus.

MATILDE ROSA ARAÚJO


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POESIA PARA CRIANÇAS (67) - EUGÉNIO DE ANDRADE - CANÇÃO DE LEONORETA







Borboleta, borboleta,
flor do ar,
onde vais, que me não levas?
Onde vais tu, Leonoreta?

Vou ao rio, e tenho pressa,
não te ponhas no caminho.
Vou ver o jacarandá,
que já deve estar florido.

Leonoreta, Leonoreta,
que me não levas contigo.

EUGÉNIO DE ANDRADE


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POESIA PARA CRIANÇAS (66) - ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO - INVOCAÇÃO A DEUS - ANTES DE COMEÇAR O ESTUDO






Tu, cujo amor em cânticos
Celebram sem cessar
O mundo dos espíritos,
O céu, a terra, o mar!

Senhor, acolhe as súplicas
De pobres filhos teus!
Melhora-nos! ilustra-nos!
Ampara-nos, oh Deus!

À luz disseste. Faça-se!
E a noite em luz se fez:
Dissipe igual prodígio
A sombra em que nos vês!

Nas trevas da ignorância
Não medra o santo amor.
Ilustra-nos! melhora-nos!
Senhor! Senhor! Senhor!

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO


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POESIA PARA CRIANÇAS (65) - GOMES LEAL - OS REIS MAGOS







Nas torres, olhando os astros,
que viajam pelos céus,
Os Reis Magos viram rastros
do avatar de um grande Deus.

Leram em livros profundos,
que a Caldeia e Assíria têm,
que estava a descer dos mundos
um Deus a Jerusalém.

Cheios de assombro à janela,
mudos ficam os seus lábios!
De pé olhando uma estrela,
velam noites os reis sábios.

Não querem mais alimento,
nem com rainhas dormir.
Não tomam ao trono assento!
Não mais volvem a sorrir!

Somente olham, sem cessar,
a branca estrela brilhante
como o ceptro dominante
do rei que vai a reinar.

Abraçam a esposa amada.
Dão as chaves aos herdeiros.
Mandam vir seus escudeiros,
Os seus bordões de jornada.

Despejam os seus erários,
cheios de alvoroço imenso.
Carregam seus dromedários,
d´ouro, de mirra, de incenso.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob as palmeiras.

Seguem a luz do astro belo,
que as estradas lhes clareia,
até chegar ao castelo,
do rei que reina em Judeia.

Chegados ao rei cruel,
que de Herodes nome tem,
bradam: «O Rei de Israel
nasceu em Jerusalém?...»

Fica assombrado o Tetrarca,
Diz-lhes tal nova ignorar.
- «Mas, em nome da Santa Arca,
voltai, reis, ao meu solar!»

Seus olhos ficam sombrios:
vê perdido o seu tesouro,
soldados, terras, navios,
da Judeia o ceptro de ouro!

Tomam os reis seus bordões
Levantam as suas tendas.
Carregam as suas oferendas.
Demandam novas regiões.

Passam rios e cidades
cheias de estátuas guerreiras,
palácios, campos, herdades,
cisternas sob palmeiras.

Passam colinas, rebanhos,
campos de louras searas,
quando a lua faz desenhos
no chão das estradas claras.

Passam o quente areal
que a palmeira não conforta.
Eis que a estrela pára à porta
de um decrépito curral.

Descem dos seus dromedários,
cheios de pó os reis sábios.
Descarregam seus erários.
- Mas estão mudos seus lábios.

Rojam as barbas nevadas
Sobre o Deus que adormecera.
Com as mãozinhas rosadas
Da Mãe nos seios de cera.

Seus olhos sentem assombros
e nadam cheios de choro.
- Rasgam seus mantos de ombros.
- Dão-lhe mirra, incenso e ouro.

Esquecem sua nação
mais seus carros de batalha.
- Seus ceptros rolam na palha!
- Seus diademas no chão!

E erguendo seus olhos graves,
perguntam então – olhando
as pombas voando, em bando,
os aldeões, mais as aves:

«É este o rei dos senhores?
Tábua da Lei das rainhas?
Por archeiros – tem pastores.
Por pagens – as andorinhas.»

GOMES LEAL


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POESIA PARA CRIANÇAS (64) - ALICE GOMES - CHEGOU O OUTONO







Chega o outono!
As andorinhas
despedem-se das outras avesinhas
e vão pelos ares fora
vão-se embora
embora?
Não!
Que voltam, voltarão...
Quando a bela estação
da Primavera
que antecede ao Verão
oferecer melhor vida.
Não têm agasalhos nem comida,
vão para terras quentes
à procura do sol que as consola
Mas nós, crianças,
nós,
todos contentes
partimos para a escola.

ALICE GOMES


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POESIA PARA CRIANÇAS (63) - AFONSO DUARTE - O MEDO DAS SOMBRAS







Rondam sombras pelas telhas:
não é vento, são andanças
de bruxas! As bruxas velhas
chupam o sangue às crianças.

A mãe dorme, a filha ao pé,
em casa de telha vã
onde nem há chaminé;

e de interiores deserta
é toda uma casa aberta
à chuva e sol da manhã.

E a filha diz para a mãe,
como a mãe responde à filha,
porque este drama não tem
a mais do que mãe e filha:

- Mãezinha, que é, que é?

- Não luz vidro no soalho,
nem há luz de tição;
está a gatinha ao borralho.

Oh! dorme, meu coração,
susto, filha, não te dê:
a água do bebedouro
espelha luz que se vê.

Longe vá o mau agouro,
benza-me a luz que nos olha:
quem não existe não é.

O pucarinho de folha
lá está no mesmo pé.

- Pela telha destelhada,
minha mãe, minha mãezinha,
voar negro de andorinha
com risos de gargalhada!

- Água de bica, lá fora,
corre, corre, que se chora:
filha minha, não tens sede?

- Como peixinhos na rede,
sombras, ó mãe, na parede!

- Não é nada, não é nada:
buraco da fechadura,
em rosa de luz coada
será a luz da madrugada
que vem em nossa procura.

AFONSO DUARTE


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POESIA PARA CRIANÇAS (62) - ODYLO COSTA, FILHO - OS COELHINHOS






Iam dois coelhinhos
andando apressados
para o céu – com medo
de serem caçados.

E também com medo
de passarem fome.
Pois – quando não dorme –
o coelhinho come.

E ainda tinha os filhos
que a coelha esperava...
O Céu era longe
e a fome era brava.

Jesus riu, com pena:
fez brotar da Lua
- para eles – florestas
de cenoura crua.

ODYLO COSTA, FILHO


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POESIA PARA CRIANÇAS (61) - BRANQUINHO DA FONSECA - O ARQUIPÉLAGO DAS SEREIAS






Ó nau Catarineta,
em que andei no mar
por caminhos de ir,
nunca de voltar!

Veio a tempestade
perder-se do mundo,
fez-se o céu infindo,
fez-se o mar sem fundo!

Ai como era grande
o mundo e a vida
se a nau, tendo estrela,
vogava perdida!

E que lindas eram
lá em Portugal
aquelas meninas
no seu laranjal!

E o cavalo branco
também lá o via
que tão belo e alado
nenhum outro havia!

Mundo que não era,
terras nunca vistas!
tive eu de perder-me
pra que tu existas.

Ó nau Catarineta
perdida no mar,
não te percas ainda,
vem-me cá buscar!

BRANQUINHO DA FONSECA


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POESIA PARA CRIANÇAS (60) - JÚLIO DINIS - AQUELA VELHA







Aquela velha coitada!
Se lhe soubessem a vida,
Não passaria na estrada
Assim desapercebida.

Vive só; mas vive agora,
Que num tempo já volvido,
Houve na casa em que mora
Filhos, netos e marido.

Morreu primeiro o marido
Duma morte desastrosa:
Com o coração partido
Rezou por ele, piedosa.

Morreram-lhe os filhos todos
No tempo da epidemia:
Ela com os mesmos modos
Rezou de noite e de dia.

Ficara só com três netos;
Morreram de tenra idade:
E ela, viúva de afectos,
venceu, rezando, a saudade.

E ainda vive! O que alenta
Aquela alma atribulada?
É a fé, que lhe alimenta
Uma crença inabalada.

Ai, quem me dera esse alento
Nestes combates da sorte!
Que paz para o pensamento!
Que paz na hora da morte!

JÚLIO DINIS


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POESIA PARA CRIANÇAS (59) - AFONSO LOPES VIEIRA - BARTOLOMEU MARINHEIRO







Era uma vez
um capitão português
chamado Bartolomeu
que venceu
um gigante enorme e antigo.
Bartolomeu, em menino
pequenino,
ia para o pé do mar...

e ficava a olhar
o mar...
E Bartolomeu cismava...
Ó que lindo, ó que lindo,
o mar, e a sua voz profunda e bela!
Uma nuvem no céu, era uma caravela
que novos céus andava descobrindo...

Ó que lindo, os navios,
que vão suspensos entre a água e o céu,
com velas brancas e mastros esguios,
e com bandeiras de todas as cores!
Bartolomeu cismava
porque ouvia
tudo o que o mar contava
e lhe dizia.

AFONSO LOPES VIEIRA


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POESIA PARA CRIANÇAS (58) - FERNANDO PESSOA - FALLAR E ESCREVER







Ao Caturra Junior

Depois de trabalho vario
Ando triste como vê.
Não entendo o diccionario,
Não conheço o abecedario.
Caturra! O que fez você!

Fallar é com um só L
(Agora não foge a burra).
Ora é isto que m´impelle
A beber o amargo fel
Das tolices do Caturra.

Cedilha-se agora o C
Antes de i (!), e (!) (e mais nada).
Ando triste como Vê
Caturra! O que fez você!
Alma do diabo-damnada!

Tu mandas p´ra Grecia o K;
- Kágado – vamos a vêr,
- Cágado – escreve-se lá
Na officina de cá
Do Caturra – póde crêr!

O accento digo aqui
Miúdas sempre (como o vento)
A palavra acima alli
Está mesmo a calhar p´ra ti
Se lhe mudas o accento!

----------

Escreve lá à tua moda,
Na minha eu hei de ficar;
Não m´importo com a roda
Quem está bem deixa-se estar!

FERNANDO PESSOA


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POESIA PARA CRIANÇAS (57) - AGUINALDO FONSECA - MÃE NEGRA







A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção
Que seus avós já cantavam
Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu
Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,
Que o céu
Às vezes também é negro.

No céu
Tão estrelado e festivo
Não há branco, não há preto,
Não há vermelho e amarelo.
- Todos são anjos e santos
Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa
Nem carinhos de ninguém...

A mãe negra é triste, triste,
E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado
E de repente sorri.
Parece-lhe que cada estrela
É uma mão acenando
Com simpatia e saudade...

AGUINALDO FONSECA


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POESIA PARA CRIANÇAS (56) - ALMEIDA GARRETT - BELA INFANTA







Estava a bela infanta
no seu jardim assentada,
com o pente de oiro fino
seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
viu vir uma enorme armada;
capitão que nela vinha,
muito bem que a governava.
- Dize-me, ó capitão
dessa tua nobre armada;
Se encontraste meu marido
na terra que Deus pisava.
- Anda tanto cavaleiro
naquela terra sagrada...
Dize-me tu, ó senhora,
as senhas que ele levava.
- Levava cavalo branco,
selim de prata doirada;
na ponta da sua lança
a cruz de Cristo levava.
- Pelos sinais que me deste
lá o vi numa estacada
morrer morte de valente:
eu sua morte vingava.
- Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho, sem nenhuma
ser casada!...
- Que darias tu, senhora,
a quem no trouxera aqui?
- Dera-lhe oiro e prata fina,
quanta riqueza há por aí.
- Não quero oiro nem prata,
não nos quero para mim:
Que darias mais, senhora,
a quem no trouxera aqui?
- De três moinhos que tenho,
todos três tos dera a ti;
um mói o cravo e a canela,
outro mói do gerzeli:
rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si.
- Os teus moinhos não quero,
não nos quero para mim:
Que daria mais, senhora,
a quem to trouxera aqui?
- As telhas do meu telhado
que são de oiro e marfim.
- As telhas do teu telhado
não nas quero para mim:
.............................................
Dá-me outra coisa, senhora,
se queres que o traga aqui.
- Não tenho mais que te dar,
nem tu mais que me pedir.
..............................................
- Este anel de sete pedras
que eu contigo reparti...
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-la aí!
- Tantos anos que chorei,
tantos sustos que tremi!...
Deus te perdoe, marido,
que me ias matando aqui.

ALMEIDA GARRETT


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POESIA PARA CRIANÇAS (55) - MENDES DE CARVALHO - PONTO NEVRÁLGICO








Às cinco horas da tarde
sobe-se e desce-se o Chiado
bebe-se chá no Chiado
bebe-se o ar do Chiado
come-se nas montras do Chiado
conversa-se no Chiado
conversa-se do Chiado
literatura-se no Chiado
figura-se no Chiado
Chiada-se.

MENDES DE CARVALHO


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POESIA PARA CRIANÇAS (54) - EUGÉNIO DE ANDRADE - NÃO QUERO, NÃO







Não quero, não quero não,
ser soldado nem capitão.

Quero um cavalo só meu,
seja baio ou alazão,
sentir o vento na cara,
sentir a rédea na mão.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

Não quero muito do mundo:
quero saber-lhe a razão,
sentir-me dono de mim,
ao resto dizer que não.

Não quero, não quero, não,
ser soldado nem capitão.

EUGÉNIO DE ANDRADE


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POESIA PARA CRIANÇAS (53) - AFONSO LOPES VIEIRA - CAVALEIRO DO CAVALO DE PAU








Vai a galope o cavaleiro e sem cessar
galopando no ar sem mudar de lugar.

E galopa e galopa e galopa, parado,
e galopa sem fim nas tábuas do sobrado.

Oh, que bravo corcel, que doidas galopadas,
- crinas de estopa ao vento e as narinas pintadas!

Em curvas pelo ar, em velozes carreiras,
o cavalo de pau é o terror das cadeiras!

E o cavaleiro nunca muda de lugar,
a galopar a galopar a galopar!...

AFONSO LOPES VIEIRA


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POESIA PARA CRIANÇAS (52) - O ÍBIS - FERNANDO PESSOA







O íbis, ave do Egipto
Pousa sempre sobre um só pé
(O que é
Esquisito)
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.

Uma cegonha parece
Porque é uma cegonha.
Sonha
E esquece –
Propriedade notável
De toda ave aviável.

Quando vejo esta Lisboa,
Digo sempre, Ah quem me dera
(E essa era
Boa)
Ser um íbis esquisito,
Ou pelo menos estar no Egipto.

FERNANDO PESSOA


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POESIA PARA CRIANÇAS (51) - ALMADA NEGREIROS - RONDEL DO ALENTEJO






Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete de luar.

Meia-noite
de Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
e os bonés,
e os braços
destes dois
giram laços
ao luar.

O colete
desta virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

ALMADA NEGREIROS


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sábado, 5 de dezembro de 2009

POESIA PARA CRIANÇAS (50) - ANTERO DE QUENTAL - AS FADAS






As fadas... eu creio nelas!
Umas são moças e belas,
Outras, velhas de pasmar...
Umas vivem nos rochedos,
Outras, pelos arvoredos,
Outras, à beira do mar...

Algumas em fonte fria
Escondem-se, enquanto é dia,
Saem só ao escurecer...
Outras, debaixo da terra,
Nas grutas verdes da serra,
É que se vão esconder...

O vestir... são tais riquezas,
Que rainhas nem princesas
Nenhuma assim se vestiu!
Porque as riquezas das fadas
São sabidas, celebradas
Por toda a gente que as viu...

Quando a noite é clara e amena
E a lua vai mais serena,
Qualquer as pode espreitar,
Fazendo roda, ocupadas
Em dobar suas meadas
De ouro e de prata, ao luar.

O luar é os seus amores!
Sentadinhas entre as flores,
Horas se ficam sem fim,
Cantando suas cantigas,
Fiando suas estrigas,
Em roca de oiro e marfim.

Eu sei os nomes de algumas.
Viviana ama as espumas
Das ondas nos areais,
Vive junto ao mar, sozinha,
Mas costuma ser madrinha
Nos baptizados reais.

Morgana é muito enganosa:
Às vezes, moça e formosa,
E outras, velha, a rir, a rir...
Ora festiva, ora grave,
E voa como uma ave,
Se a gente lhe quer bulir.

Que direi de Melusina?
De Titania, a pequenina,
Que dorme sobre um jasmim?
De cem outras, cuja glória
Enche as páginas da história
Dos reinos de el-rei Merlin?

Umas têm mando nos ares;
Outras, na terra, nos mares;
E todas trazem na mão
Aquela vara famosa,
A vara maravilhosa,
A varinha do condão.

O que elas querem, num pronto
Fez-se ali! parece um conto...
Mesmo de fadas... eu sei!
São condões que dão à gente,
Ou dinheiro reluzente
Ou jóias, que nem um rei!

A mais pobre criancinha
Se quis ser sua madrinha,
Uma fada... ai, que feliz!
São palácios, num momento...
Beleza, que é um portento...
Riqueza, que nem se diz...

Ou então, prendas, talento,
Ciência, discernimento,
Graças, chiste, discrição...
Vê-se o pobre inocentinho
Feito um sábio, um adivinho,
Que aos mais sábios vai à mão!

Mas, com tudo isto, as fadas
São muito desconfiadas;
Quem as vê não há-de rir.
Querem elas que as respeitem
E não gostam que as espreitem,
Nem se lhes há-de mentir.

Quem as ofende... cautela!
A mais risonha, a mais bela,
Torna-se logo tão má,
Tão cruel, tão vingativa!
É inimiga agressiva,
É serpente que ali está!

E têm vinganças terríveis!
Semeiam coisas horríveis,
Que nascem logo no chão...
Línguas de fogo que estalam!
Sapos com asas, que falam!
Um anão preto! um dragão!

Ou deitam sortes na gente...
O nariz faz-se serpente,
A dar pulos, a crescer...
É-se morcego ou veado...
E anda-se assim encantado,
Enquanto a fada quiser!

Por isso, quem por estradas
For de noite e vir as fadas
Nos altos, mirando o céu,
Deve com jeito falar-lhes,
Ser muito cortês e tirar-lhes
Até ao chão o chapéu.

Porque a fortuna da gente
Está às vezes somente
Numa palavra que diz.
Por uma palavra, engraça
Uma fada com quem passa
E torna-o logo feliz.

Quantas vezes, já deitado,
Mas sem sono, ainda acordado,
Me ponho a considerar
Que condão eu pediria,
Se uma fada, um belo dia,
Me quisesse a mim fadar...

O que seria? um tesouro?
Um reino? um vestido de ouro?
Ou um leito de marfim?
Ou um palácio encantado,
Com seu lago prateado
E com pavões no jardim?

Ou podia, se eu quisesse,
Pedir também que me desse
Um condão, para falar
A língua dos passarinhos,
Que conversam nos seus ninhos...
Ou então, saber voar!

Oh, se esta noite, sonhando,
Alguma fada, engraçando
Comigo (podia ser!)
Me tocasse com a varinha,
E fosse minha madrinha,
Mesmo a dormir, sem a ver...

E que amanhã acordasse
E me achasse... eu sei? me achasse
Feito um príncipe, um emir!...
Até já, imaginando,
Se estão meus olhos fechando...
Deixa-me já já dormir!

ANTERO DE QUENTAL


JOSÉ MARIA ALVES
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POESIA PARA CRIANÇAS (49) - FERNANDO PESSOA - O AVÔ E O NETO






Ao ver o neto a brincar,
Diz o avô, entristecido,
«Ah, quem me dera voltar
A estar assim entretido!

Quem me dera o tempo quando
Castelos assim fazia,
E que os deixava ficando
Às vezes p´ra o outro dia;

E toda a tristeza minha
Era, ao acordar p´ra vê-lo,
Ver que a criada já tinha
Arrumado o meu castelo.»

Mas o neto não o ouve
Porque está preocupado
Com um engano que houve
No portão para o soldado.

E, enquanto o avô cisma, e triste
Lembra a infância que lá vai,
Já mais uma casa existe
Ou mais um castelo cai;

E o neto, olhando afinal
E vendo o avô a chorar,
Diz, «Caiu, mas não faz mal:
Torna-se já a arranjar.»

FERNANDO PESSOA


JOSÉ MARIA ALVES
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POESIA PARA CRIANÇAS (48) - AUGUSTO GIL - BALADA DA NEVE







Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

AUGUSTO GIL


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POESIA PARA CRIANÇAS (47) - CARLOS PINHÃO - O GATO DA VELHA







Era um gato com tanta personalidade
com tal raça
tal centelha
que toda a gente dizia:
- Era uma vez um gato que tinha uma velha.

CARLOS PINHÃO


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POESIA PARA CRIANÇAS (46) - EUGÉNIO DE ANDRADE - GATOS





Gatos dos quintais,
gatos dos portões,
gatos dos quartéis,
gatos das pensões.

Vêm da Índia, da Pérsia,
da Nínive, Alexandria.
Vêm do lado da noite,
do oiro e rosa do dia.

Gatos das duquesas,
gatos das meninas,
gatos das viúvas,
gatos das ruínas.

Gatos e gatos e gatos.
Arre, que já estamos fartos!

EUGÉNIO DE ANDRADE


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POESIA PARA CRIANÇAS (45) - MANUEL BANDEIRA - ACALANTO DE JOHN TALBOT








Dorme, meu filhinho,
Dorme sossegado.
Dorme, que a teu lado
Cantarei baixinho.
O dia não tarda...
Vai amanhecer:
Como é frio o ar!
O anjinho da guarda
Que o Senhor te deu,
Pode adormecer
Pode descansar,
Que te guardo eu.

MANUEL BANDEIRA


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POESIA PARA CRIANÇAS (44) - ALICE GOMES - NA IDADE DOS PORQUÊS





Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
e roda gira rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
fazes-me decorar.

É a luta professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são as conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tantas mais definições
o meu coração que não sei como é feito
o meu coração
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.

ALICE GOMES


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POESIA PARA CRIANÇAS (43) - BOCAGE - A RAPOSA E AS UVAS







Contam que certa raposa,
andando muito esfaimada,
viu roxos, maduros cachos
pendentes de alta latada.

De bom grado os trincaria;
mas, sem lhes poder chegar,
disse: «Estão verdes, não prestam,
só os cães os podem tragar».

Eis cai uma parra, quando
prosseguia o seu caminho;
e crendo que era algum bago
volta depressa o focinho.

BOCAGE


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POESIA PARA CRIANÇAS (42) - AFONSO LOPES VIEIRA - CANTARES DOS BÚZIOS





Ai ondas do mar, ai ondas,
ó jardins das alvas flores,
sobre vós, ondas, ai ondas,
suspiram os meus amores.

No fundo dos búzios canta
o mar que chora a cantar
ó mar que choras cantando,
eu canto e estou a chorar!

Ai ondas do mar, ai ondas,
eu bem vos quero lembrar:
«a minha alma é só de Deus
e o meu corpo da água do mar!»

AFONSO LOPES VIEIRA


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POESIA PARA CRIANÇAS (41) - SIDÓNIO MURALHA - GREVE NO CIRCO







Uma foca equilibrista
cansada de equilibrar
ficou desequilibrada
e confessou ao artista:
- amigo, estou esfomeada,
se me não dão de jantar
não equilibro mais nada!

SIDÓNIO MURALHA


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POESIA PARA CRIANÇAS (40) - EUGÉNIO DE ANDRADE - O INVERNO









Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
vem de cachecol,
o chão onde passa
parece um lençol.

Esqueceu as luvas
perto do fogão:
quando as procurou,
roubara-as um cão.

Com medo do frio,
encosta-se a nós:
dai-lhe café quente
senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

EUGÉNIO DE ANDRADE


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POESIA PARA CRIANÇAS (39) - EUGÉNIO DE CASTRO - UMA CANÇÃO INÉDITA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS







- «Por amor e caridade,
Fui dos brutinhos irmão,
De irmão dando-lhes o nome
E também o coração.

«Quantos ser´s vivos viviam
Sob a clemência dos céus,
Jumentos, sapos e piolhos,
Eram todos irmãos meus!

«Quanto mais baixo era o bicho,
Mais alto era o meu amor:
Beijei um dia uma lesma
Como quem beija uma flor!

«Quanto mais baixo era o bicho
Mais me comprazia a vê-lo:
Se era negro, via-o d´oiro,
Se era vil, achava-o belo!

«Grande amador de infelizes,
Por inspirações estranhas,
Muito mais lindas que as rolas
Achava eu as aranhas.

«E, confesso o meu pecado,
Via, com frieza acerba
O leão e a águia real,
Que são dados à soberba.

«Uma vez, vindo da esmola,
Com a alma em Jesus Cristo,
Vi uma coisa a meus pés
Como ainda não tinha visto.

«Toda eriçada de espinhos
Essa coisa repelia
Pela sua fealdade...
Mas palpitava e sofria!

«Sofria... Bastava! Então
Curvei-me humilde; e ligeiro
Do chão ergui nestas mãos
Um pobre ouriço cacheiro.

«Agonizava o infeliz
Em tremuras dolorosas!
Beijei-o e picou-me, enchendo
a minha boca de rosas!

«Morreu o pobre em meus braços,
Triste, para mim sorrindo...
Nunca vi um ser tão feio,
Nunca tive irmão tão lindo!»

EUGÉNIO DE CASTRO


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POESIA PARA CRIANÇAS (38) - ODYLO COSTA, FILHO - A BORBOLETA







De manhã bem cedo
uma borboleta
saiu do casulo.
Era parda e preta.

Foi beber ao açude.
Viu-se dentro de água.
E se achou tão feia
que morreu de mágoa.

Ela não sabia
- boba! – que Deus deu
para cada bicho
a cor que escolheu.

Um anjo a levou,
Deus ralhou com ela,
mas deu roupa nova
azul e amarela.

ODYLO COSTA, FILHO


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POESIA PARA CRIANÇAS (37) - A SANT´ANA






Senhora Sant´Ana
Subiu ao monte;
Onde se sentou
Nasceu uma fonte.
Vieram os anjos
Beberam dela,
Que água tão boa!
Que senhora tão bela!

POEMA POPULAR


JOSÉ MARIA ALVES
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POESIA PARA CRIANÇAS (36) - FERNANDO PESSOA - EPIGRAMA






O poeta Brás Ferreira
Discute com o primo Bento
Se kágado tem o acento
Na segunda ou na primeira.

Grita-lhe a mulher, «Ó Brás,
Acaba com a discussão;
É bem fácil a questão:
O assento está sempre atrás.»

FERNANDO PESSOA


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POESIA PARA CRIANÇAS (35) - A MANHÃ DE S. JOÃO






Manhãzinha de S. João
Pela manhã de alvorada
Jesus Cristo se passeia
Ao redor da fonte clara.
Por sua boca dizia,
Por sua boca falava:
Esta água fica benta
E a fonte fica sagrada.
Ouviu a filha d´el-rei
D´altas torres donde estava.
Vestiu suas meias de seda,
Calçou sapatos de prata,
Pegou em cântaro d´ouro,
À fonte foi buscar água.
Lá no meio do caminho
Com a virgem se encontrava.
Atreveu-se e perguntou-lhe
Se havia de ser casada.
Casadinha haveis de ser,
Muito bem afortunada,
Três filhos haveis de ter
Todos de capa e espada.
Um será bispo em Roma,
E outro cardeal em Braga,
O mais novo deles todos,
Servo da Virgem sagrada.
Ditosa da donzelinha
Que à fonte foi buscar água!

ROMANCE POPULAR


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POESIA PARA CRIANÇAS (34) - EUGÉNIO DE ANDRADE - ROMANCE DE D. JOÃO










Foi-se D. João,
foi à sua vida,
sem dificuldade
saltou pelo muro,
não voltou senão
quando ao outro dia
já fazia escuro.
Vinha enfarruscado,
partida a viola,
o boné ao lado,
rasgado o calção
e a camisola.
Fiz-lhe uma carícia,
não me respondeu,
foi-se encafuar
perto do borralho
arrastando o pé.
Percebi então
que não vinha bem.

Que desgosto teve?
Com quem se bateu?
Disputas de gatos
em pleno Janeiro?
Ou foi antes cão
que o filou primeiro?
Nada perguntei
por delicadeza,
mas que fora coça,
da rija, da boa,
da que deixa mossa
para a vida toda,
isso bem se via.
Queria ajudá-lo,
não só por carinho:
custa tanto vê-lo
metido na fossa
da melancolia!

E para acabar
quase me atrevia
a pedir que guardem
muito bem guardado
tudo isto em segredo.
E muito obrigado.

EUGÉNIO DE ANDRADE


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POESIA PARA CRIANÇAS (33) - JOÃO DE DEUS - HINO DE AMOR







Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via:
De vez em quando
Lá lhe passava
À dianteira,
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E o foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo),
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

JOÃO DE DEUS


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POESIA PARA CRIANÇAS (32) - FERNANDO PESSOA - HAVIA UM MENINO







Havia um menino
que tinha um chapéu
para pôr na cabeça
por causa do sol.

Em vez de um gatinho
tinha um caracol.
Tinha o caracol
dentro de um chapéu;
fazia-lhe cócegas
no alto da cabeça.

Por isso ele andava
depressa, depressa,
p´ra ver se chegava
a casa e tirava
o tal caracol
do chapéu, saindo
de lá e caindo
o tal caracol.

Mas era, afinal,
impossível tal,
nem fazia mal
nem vê-lo, nem tê-lo:
porque o caracol
era do cabelo

FERNANDO PESSOA


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POESIA PARA CRIANÇAS (31) - O SONO DO JOÃO






O João dorme... (Ó Maria,
diz àquela cotovia
que fale mais devagar:
não vá o João, acordar...)

Tem só um palmo de altura
e nem meio de largura:
para o amigo orangotango
o João seria... um morango!
Podia engoli-lo um leão
quando nasce! As pombas são
um poucochinho maiores...
Mas os astros são menores!

O João dorme... Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó mar, fala mais baixinho...
E tu, mãe! e tu Maria!
Pede àquela cotovia
que fale mais devagar:
não vá o João, acordar...

...........................................
Depois, um dia virá
que (dormindo) passará
do berço, onde agora dorme,
para outro, grande, enorme:
e as pombas que eram maiores
que o João, ficarão menores!

Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
que fale mais devagar:
não vá o João, acordar...

ANTÓNIO NOBRE


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POESIA PARA CRIANÇAS (30) - ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO - OS TREZE ANOS






Já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro:
madrinha, casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro;
já bailo ao domingo,
com as mais no terreiro.

Já não sou Anita,
como era primeiro,
sou a senhora Ana,
que mora no outeiro.

Nos serões já canto,
nas feiras já feiro,
já não me dá beijos
qualquer passageiro.

Quando levo as patas,
e as deito ao ribeiro,
olho tudo à roda
de cima do outeiro;

E só se não vejo
ninguém pelo arneiro,
me banho com as patas
ao pé do salgueiro.

Miro-me nas águas,
rostinho trigueiro,
que mata de amores
a muito vaqueiro.

Miro-me, olhos pretos
e um riso fagueiro,
que diz a cantiga
que são cativeiro.

Em tudo, madrinha,
já por derradeiro,
me vejo mui outra
da que era primeiro.

O meu gibão largo
de arminho e cordeiro,
já o dei à neta
do Brás cabaneiro.

Dizendo-lhe: “Toma
gibão domingueiro,
de ilhoses de prata,
de arminho e cordeiro.

A mim já me aperta,
e a ti te é laceiro;
tu brincas com as outras
e eu danço em terreiro.”

Já sou mulherzinha;
já trago sombreiro;
já tenho treze anos,
que os fiz por Janeiro.

Já não sou Anita,
sou a Ana do outeiro;
madrinha casai-me
com Pedro Gaiteiro.

Não quero o sargento,
que é muito guerreiro,
de barbas mui feras,
e olhar sobranceiro.

O mineiro é velho;
não quero o mineiro;
mais valem treze anos
que todo o dinheiro.

Tão-pouco me agrado
do pobre moleiro,
que vive na azenha
como um prisioneiro.

Marido pretendo
de humor galhofeiro,
que viva por festas,
que brilhe em terreiro;

Que em ele assomando
com o tamborileiro,
logo se alvorote
o lugar inteiro;

Que todos acorram
por vê-lo primeiro,
e todas perguntem
se ainda é solteiro.

E eu sempre com ele,
romeira e romeiro,
vivendo de bodas,
bailando ao pandeiro.

Ai, vida de gostos!
ai, céu verdadeiro!
ai, páscoa florida,
que dura ano inteiro!

Da parte, madrinha,
de Deus vos requeiro:
casai-me hoje mesmo
com Pedro Gaiteiro.

ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO


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POESIA PARA CRIANÇAS (29) - À MORTE NINGUÉM ESCAPA






À morte ninguém escapa
nem o rei nem o papa,
mas escapo eu!
Compro uma janela
meto-me dentro dela,
tapo-me muito bem
e, então a morte passa e diz:
- truz, truz
Quem está aí?
- Aqui? Aqui não está ninguém
Adeus meus senhores
passem muito bem.

CANÇÃO POPULAR


JOSÉ MARIA ALVES
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POESIA PARA CRIANÇAS (28) - ANTÓNIO BOTTO - CINCO RÉIS DE GENTE






Vai sempre na frente
dos outros que vão
cedo para a escola;
corpinho delgado,
o olhar mariola,
- belos os cabelos,
quantos caracóis!
mas as mangas rotas
nos dois cotovelos
são de andar no chão
atrás dos novelos!
Nos olhos dois sóis
que alumiam tudo!
A mãe tecedeira,
perdeu o marido
mas vive encantada
para o seu miúdo.

ANTÓNIO BOTTO


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POESIA PARA CRIANÇAS (27) - JOÃO DE DEUS - O GALO E A PÉROLA






Um galo viu, perdida,
Uma pérola polida
Que abandonou aos pardais...
«Admiro – disse – o seu brilho,
Mas se fosse um grão de milho
Para mim valia mais!»

Também um pobre ignorante
Que herdara um livro importante
O foi vender ao livreiro,
dizendo com os seus botões:
«Mais me valem dez tostões
Que ao menos sempre é dinheiro!»

JOÃO DE DEUS


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