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OS TRATAMENTOS SUGERIDOS NÃO DISPENSAM A INTERVENÇÃO DE TERAPEUTA OU MÉDICO ASSISTENTE.

ARTE

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

NÃO HÁ MAUS RAPAZES




o h… veio para o seminário encaminhado pela segurança social     tem apenas quinze anos dez dos quais passados numa casa de correcção de menores     a prisão     como lhe chama ainda que sem revolta palpável

um brinco na orelha marca-o

é amável     irreverentemente submisso 
não é o que parece ou querem que pareça ou querem fazer ser

os seus olhos afectuosos imploram uma bem-querença que talvez nunca tenha tido
a confiança que lhe foi desde sempre negada
por isso olho-o como amigo de longa data e digo seguro de mim
confio em ti

pouco há para corrigir
é apenas um jovem que intenta ser desbastador de cavalos provavelmente relembrando os primeiros anos da infância em que percorria na carroça da avó as ruas empedradas e gélidas de gouveia 
sujeito aos olhares maldosos dos transeuntes 

não há maus rapazes     há maus homens     isso sem pensar tenho-o  achado     

meu deus dormes ou não queres simplesmente ser incomodado? 






PAÍS EXEMPLAR




deste país o exemplo – 
lerdos seguem lerdos
fedelhos seguem fedelhos





CHAMAMENTO




o chamamento quando se julga internamente claro é apelo do próprio chamado no erro do desejo e da vontade reprimida
chama-se a si o que sofre e pela força anseia a luz do dia
chama julgando-se chamado e como superficialmente ama pensa-se profundamente amado

chamamento é dúvida sofrimento indecisão de quem os primeiros passos ensaia na vereda sombria da iluminação

no atalho que distancia chamamento e missão há a interrogação envolta em escuridão de fé
de morte ferida a indecisão pesa-se a cidade das coisas e a metrópole do espírito     ninguém pode bem servir dois senhores 
penhorar os seus instintos aos desígnios incompreensíveis

o recalcamento mata     a substituição destrói     e a compensação frustra
nas duras e pedregosas terras do cume não crescem os mimos dos hortos     
só se alimenta de neve e vento quem desdenhou os sórdidos banquetes     aquele que se abandona ao espírito do mundo     
só vence a morte quem venceu a vida na morte do dia-a-dia

a solidão faz a poesia surda

deixar tudo seguindo o trilho das rosas brancas com a carne violada por espinhos transfigurados em beatitude





DEUS ESCONDIDO




diz-me onde te escondes para que possa esconder-me contigo
em que recanto da floresta interior encontraremos a tua presença? 

qual é a tua essência?

não há compreensão que te atinja     olhos que te vejam

os bens materiais bradam aos nossos cuidados e tu pareces estar longe
os deuses do prazer desfilam na mente oprimida pelo desejo
e tu és verdadeiramente um deus escondido vedado ao entendimento

aceito a minha ignorância e a ilusão de te ter atingido nalguma noite escura como aceito este resfriado incómodo

não olvides que o tempo escasseia 
que à beira-mar envelheço e
até os peixes me olham de soslaio





TEMPO E AMOR




tempo e amor rareiam na concisão da vida
época de incerteza

a noite é minha     perdoem-me     não cruzem displicentes a vereda de quem pelo suor e fadiga lavra o seu destino

a alma se consumida pela vileza do mundo não acolhe a eternidade

compreender em altura que meia noite é meia vida
perdida a hora
perdida a vida
candeia que alumia sem que veja o que se esconde e o que se deveria ocultar na escuridão da alma vazia
torpeza do que vegeta no esterco da evolução

abundam os iníquos e o mundo dos humanos é a imagem espelhada exacta dos mil e um demónios
jerusalém esquadrinhada e desocupada 
como é vã a ambição vertida no palácio dos espelhos disformes     no fim nada resta e a vaidade esboroa-se em odiosas cinzas negras

noites não são sono 
são alegria sem fim
sem cansaço em mim
umas vezes atento outras mergulhado em doce letargia
dispenso companhia

renúncia amorosa de quem sente em mundo menor um amor maior
ventura silente de peregrino tardio

fiquem-se com vossos projectos ilusões desejos agonia
eu quedar-me-ei assim só     probo e desacompanhado
do que é mundano do que tenho e tinha
transmutando a cada passo a noite em dia
sem pressa nem demora     sem hora

a noite é minha





ÚLTIMA PARAGEM




nem um veleiro no tejo da minha puerícia ainda surda ao chamamento das ninfas submersas em coifas

um edifício debruça-se nas águas sonolentas da baixa-mar
o fedor da vazante a imundície que vem de montante

um cargueiro apresta-se para sair a foz
onde aportará que estiva no coração do porão?
choram águas na proa insensitiva     maresia da dor

próxima paragem     algés     um circo à beira-rio os animais de outrora     saudade a arrastar pela crista das pequenas vagas do areal     os carneirinhos prenunciam aguaceiro 

rodados de todas medidas     alguns soldados na berma à sombra de uma obra estupidamente moderna    
as ruínas da velha casa

longínquo o cristo-rei     ausente com a cidade por abraçar
em puro gemido se eleva     
sacramento     falsidade     santidade pecaminosa 
gente que mente

a crise ensandeceu estes homenzinhos sem futuro

última paragem





A PROFECIA DE RIMBAUD




estou certo de que num dia doirado ao refulgir da alva como rimbaud profetizou entrarei só e de cabeça erguida armado de inflamada paciência na cidade esplêndida e luminosa
aí sem qualquer alucinação ou apegamento rodeado de veros espectros silentes imergirei na verdade absoluta onde o tempo se ab-roga naturalmente e o espaço se desmembra no ilimitado 
abençoado o que nasce para si e morre sozinho
em recato ditoso seja






GENTE FRANZINA




não alcanço o entendimento das sensaborias da frivolidade     o prazer da discórdia a aura negra das salas escarlate dos comensais de grifos

tudo arde de invídia na idolatria da substância brutal 
paganismo da realidade

lastimam-se como animais acorrentados na mais pútrida das masmorras     no dorso vergado o pesadume de todos os pecados do mundo     oh o vaga-lume da autocompaixão queixume depresso da insatisfação
aziagos do nada no reino do tudo     infortúnio da vontade conveniente
apeçonhentam a placidez aquosa dos aclamados cobiçando a concórdia como se o espírito se dissolvesse na matéria anelada

franzina é esta gente





DE ALÉM CIVILIZAÇÃO




há que estar em rematada quietude     mesmo na horda mais abjecta da cidade em chama viva 
indiferente ao ruído dos sexos arvorados penetro a essência do pensamento
daí ocorre algo     não sei     
sinceramente não sei que ser ou coisa 
provoca este magnífico 
e indescritível estado de alma
nem sequer é importante
marcante sim é a paz que dele advém
indispensável é que não amotinem a minha pacificação

preparo-me para a reclusão
não sou deste mundo e se sou não o quero ser
sou de além civilização





A ESSÊNCIA DA TRISTEZA




há pouco estava desassossegado e triste     
porquê? 
que interessa ou ofende
sempre o porquê das coisas o porquê do porquê     a essência da tristeza é a tristeza
estava triste     já não estou

morta e enterrada a melancolia é passado
lembro-me perfeitamente de a ter esquecido


http://www.homeoesp.org/livros_online.html



ALMA SEM LIMITES




demando destruir a dupla doblez do dualismo     a externa que nasce do dia e da noite do frio e do calor e a interna do gosto e do desgosto

ah a unificação da embarcação com timoneiro de luz e trevas onde nenhum negro temporal abalroará os costados protegidos com a lona de todos os óleos do mundo 
poder sobre mim     concórdia do uno e do múltiplo do tempo e da eternidade
ventura indizível onde o fantasma da nau mastreada é a minha alma sem limites
governo de meus apetites 





ALMA SEM RAÍZES




passas incólume pela minha alma sem criar raízes     de ti resta a imagem exterior     as plumas esmaecidas da ave aprisionada no azul

hoje a vontade não é minha

os desejos cessaram     as penitências     as orações que fundeiam nos bolsos de deuses sobrecarregados de falsas prédicas 

tua? não sei de quem
nem minha nem tua talvez a da lua que contemplo enquanto aguardo por inglório sono ou beatífica inocência





ASSOCIAÇÃO DE DEMÓNIOS




reproduzem-se os esconjuradores as videntes os mezinheiros e áugures
associação de demónios em país de mau-olhado     povo indouto à beira-mar agricultado

estás longe     não te oiço  
o vento traz nas suas mãos crestadas o sim audível de saudade meramente esboçada
encantamento     ficção do jardim verde de maduros amores

na solidão afectuosa reside a paixão

não estou a favor nem contra ti
apenas amorosamente indiferente

cada um que vigie por si





A FLOR DE BUDA




mesmo autenticando a inutilidade da palavra persisto em falar
lavrar impiedades no papel precioso quando vazio e improfícuo se preenchido de sinais burlescos

observo a flor em silêncio que mahakashyap olhou
só a flor existe na campina que a esgota e é por ela consumida
só mahakashyap compreendeu

louco porque razão tropeças nos teus próprios passos?


primeiros passos da criança-nova

evacuar a alma
emudecer a voz
não encalçar nada

depois com a mente desapossada de todas as inanidades voar sobre a ravina mortífera para além do próprio vazio planando nos céus sem opostos

e descoberto o buda mata-o     vai além      mais além     além para além do além 

a verdade num corpo e numa alma a ocupar e a consagrar amorosamente o universo

decisivamente





IMORTALIDADE




questionaram-me quanto à causalidade do espaço     
dizem  
o espaço é deus 
não     
o espaço é pensamento e o pensamento limitado
deus não pode ser limitado ou não seria deus 

ao reino nada lhe falta nada sobeja

a alma da iluminação tudo abarca sem que o guarde
espelho mudável da transfiguração

não sou eu que vivo     é a alma que em mim vive

imortalidade que a cada passada crio





VIDA




a vida é um organismo sem partes     não é cientificamente asinina como a medicina e os jumentos de coleira ao cachaço que deambulam desdenhosos pelos corredores do sofrimento
     
os ranhosos nos seus néscios inchaços

nem daqueles jurisconsultos de algibeira rota 
sendeiros e mulas rançosas sem eira nem beira cuspindo no prato que lhes foi ofertado     
tudo isto me lembra uma puta que puta me chamou   

a vida
saboreia-a quem é aliviado do ódio e do amor dualista 

a pluralidade engole-a sem mastigar     cães famélicos desamparados à sua amargurada desdita

uns consomem-na outros são por ela consumidos





NOITE DE CLAUSURA




noite de clausura

amanhã verei veleiros armados para o derradeiro acometimento     cruzadores do grande mar oceano onde mostrengos e seres estupendos se erguem     
essência da solidão de probo mareante     
irresolução     o mar clama por mim     

ouço strauss     há muito que o não ouvia     
trivial é a sonoridade dos grandes santuários apinhados de estultos


a iluminação é o entusiasmo do amante que nunca tocará a amada 
mas que divisa como ninguém     

o vazio dos empreendimentos 

a vulgaridade do êxito

o nada do empenho humano

o sem-sentido da existência


pobre humanidade que se arroja aos chispes de ídolos de barro 
que se peita por pataco infeccionado de duplicidade  
que vegeta nas pedras abrasadas da ilusão
áridos terreais viscosos     
nojo      
  
derrotismo e desesperança?
não espúrios atlantes
ratificação do enlevo temerário de quem perfilha a realidade 
no cerne demoníaco da civilização dissonante





OS TEUS POEMAS




uma águia real no desfiladeiro deserto

um resineiro de almas excomungadas

o coração inflama-se nas vísceras do cisne negro


ser-me-á tolerado alguma vez ouvir os teus poemas?


a voz     ouve-se a voz e o eco nas profundezas do ventre
sombra de nuvens na parede de mármore a interrogar os deuses
desfibrados em trançado     filigrana do passado 

hoje não verei ninguém enquanto a paz reluz na carruagem de seis rodados
vinte azagaias apontadas ao centro da planície onde o melro canta operetas de solaz

prostrado nos degraus cinzentos do salão doirado
conformado à tua tenção vigio

poderei alguma vez auscultar os teus poemas
aconchegar o teu cabelo?





CELA 13




cela 13

a serra tem o aroma da primavera tardia
bálsamo dos caminhos poeirentos de outrora     
louva-se o mês de maria
prímulas
os jardins do seminário solenizam o júbilo do sol nascente
há um emudecimento sepulcral no edifício imenso     o papagaio dormita

partiu um contentor para murrupula
a vertiginosa azáfama dos noviços moçambicanos

chegaram as irmãs da missão na índia com seus harmónicos sorrisos   
esposas de cristo

os noviços estão preparados    vivem da e na fé     

simplifico alguns textos de joão da cruz     os filósofos pouco têm para os alumiar     

abnegação e inocência superam toda a intelectualidade
deus vive nos seus modos afáveis     não demandam o que neles vive
os seus rostos transfiguram-se ao som do nome daquele que amam
disponíveis para a agremiação dos pobres


mas o pecado começa na igreja
tal como ratzinger resta-me renunciar
esconder a minha preferência pela reclusão 
egoísmo calculista da desilusão

abnegação da terra     circuncisão do mar





QUE SEJA O QUE TIVER DE SER




é penosa a largada e apetecida a chegada quando não é mais dolorosa que a partida     aflitivo contra-senso     mas natural tão natural como o frio num dia de inverno e o calor numa tarde de verão

o mundo parece ruir no coração firmado à angústia     constrição sem regeneração
quando se abala nunca se deve olhar para trás
tal albatroz-errante a perfumar nimbos oceânicos

tudo é jogo do mental     cara ou coroa da existência

permutar regalos mundanos pela reclusão silente     quietude liquefeita na chama de círio que alumia as trevas de noites duráveis

o azul de klein evoca o mar do entardecer quando o sol já cabeceia no horizonte e o veleiro vai trovejando nas águas
o ocre dos velhos paisagistas românticos no cume da serra que fala às estrelas
e aqui há que eleger     

sonhos da noite passada     dúvidas e irresoluções que fenecem no desabrochamento da flor da cerejeira 
expiram na lentidão do remanso sedentário todos os desígnios     a alucinação de um novo bem-querer do espírito a abjurar temporariamente a carne 
o clamor da serrania nos magníficos ossos da terra e nas veias de águas sacrossantas
o luar que o mar irradia cor de prata     a congregação do azul no trilho do infinito

não posso ter tudo     pouco me afecta ou preocupa
há que escolher
talvez o mar     talvez a serra
 que seja o que tiver de ser






ONDE ESTÁ O REINO DOS CÉUS?




o vento acaricia com suavidade o cedro e as velhas árvores que agasalham a escuridão da rua deserta 
sussurrando ao sono frases caiadas de amor

há luminosidades no tejo que amimam as águas mansas   na ponte também luzes amarelas e fixas    aviso à navegação   
nenhum outro som respira enquanto as casas dormitam depauperadas na penumbra exterior
apenas elisir d´amore     donizetti como convém ao tálamo ermo

o reino dos céus onde está ele?
na alma recriada e não ocupada cujos olhos são como os da águia planante
vendo a realidade tal qual é     sem dilecção

para que quero eu o ódio flamejante e o amor dualista o desejo o apego as escolhas ou preferências e as tordesilhas da alma antiga? 
labrego

a beleza de uma alma vazia basta-me     nela cabem todos os universos os versos e os poemas o bom e o mau o belo e o feio o agradável e o desagradável o prazer e o sofrimento
tudo lhe cabe momento a momento 
e a cada instante o que passa sem deixar rastro 
conta-nos em surdina a verdade da não-verdade
assim se atingindo o que se não busca

o vento já passou
as luzes aguardam na madrugada o decesso
talvez ainda esteja desperto     certificarei o óbito da noite oculta





A CRIAÇÃO DA ALMA




continuo sem dormir     no marulho das ondas contra a praia o mar soçobra     como um afogado asfixia-se

é urgente construir uma nova alma como quem obra sólida barca para atravessar o abismo 
esta não me apraz     nela nada pode morar para além das imprestáveis velharias acumuladas pela miserável angústia dos espaços nebulosos
xavecos dum ontem apagado à percussão do badalejo das cava-terras     velhas à soalheira 
enegrecidas são suas paredes     lamacenta na profundidade condicionante e inquinada à superfície
de madrugada ascende-se à serra

na noite escura o pedreiro tomando em si desmedida paciência
com mãos sedentas irá armar pedra a pedra  até que o multíplice seja uno
vazio de porta aberta ao porvir e à sua querença
sem escolha sem desejo por onde tudo passa sem criar raízes
como espelho vário de tudo e nada 
como espelho cintilante e astuto
lúcido corajoso solitário 

apenas uma alma desapossada das mil e uma formas pode adquirir o absoluto   

por ora
dele não digo sim nem não     nada assevero ou refuto não me atenho à aparência     não
tenho apenas por companheiro 
o fiel silêncio
e um dedo
aventando o caminho
sem realidade e existência

bem-aventurado o que não observa o dedo
e se queda no mutismo





UM AMOR NOVO




a soledade não é uma doença 
é a sémita do insondável andarilhada em noite de lua nova é o aguaceiro que lava os campos da imaginação e esmorece a indignação do injustiçado
  
os mercados declaram-se aos ventos do martírio e do desprezo licencioso
um novo dia     um novo pão e o mesmo café na esquina do bairro amordaçado
a melancolia do gesto ritual no primeiro cigarro do amanhecer aspirado com a volúpia da predição das costelas do pacote de papel     os fumadores morrem prematuramente
penso     a maior parte dos não fumantes também morreu há muito e não esfumaçam     os inglórios petulantes

uma nova viagem     talvez     eternamente circular
como quem viaja sem sair do mesmo lugar

um novo amor de seiva virgem

para quê se já nem sei amar
e se o amor não colhe mais ninguém






O REINO ESTÁ DENTRO DE NÓS




o reino está dentro de nós    
imperceptível à alma mortalmente doente

a infecção nunca é consciente de si mesma





VELEIRO OCEÂNICO




um veleiro oceânico
vejo e revejo as fotografias
é o meu     eu sei     vai ser
com ele farei naufragar o terror





MEDO DE AMAR




vejo-te na noite ouço-te a voz
a tua sombra traz consigo a alma
que a medo insisto amar





ÚLTIMA NEVE DE PRIMAVERA




terá sido esta a última neve de primavera?
a neve assemelha-se ao amor     fria e suave – 
quando aquecerei meu coração?





DEITADOS AO LADO DO SONHO




persistimos deitados ao lado do sonho
o sol vai nascer como sempre 
e não estaremos no mar para o colher







DIÁRIO




a brevidade da vida estampada nos ponteiros do relógio     

o sentimento lúgubre da aproximação da morte nos passos do coveiro
cedros que se achegam ao olhar turvo da idade      

um diário a arruinar-se na noite profunda

um diário é como a filosofia 
subsiste porque a morte existe

perdurará cavalgando-a
subsistirá nela     não  na morte iminente 
a que irrompe num lampejo na sequência dos dias sobranceados pelo enfado 
mas a que nasce do apelo inaudível do vazio existencial

um diário em fragmentos é um verdadeiro aborrecimento que ninguém se dá ao transtorno de ler
gazeta de promiscuidade intelectual 
questão de pouca monta     
poema de circunstância dito em conjuntura garrida e domingueira
simbolismo     realismo     surrealismo     promessas por decifrar 
sentido aparente     palavras improfícuas     masturbações (para não dizer punhetas) 
mentais     
cuas africanas atoladas na selva impermeável
clamores obstinados de régulos apeados 
algo que pouco importa ao amontoado impiedoso da ralé
populacho entorpecido pela propaganda de canapés ortopédicos

abdico de o escrever como delineado
que nele fiquem as estilhas     apenas as lascas
  
os estilhaços pertencem-nos rasgam-nos a carne integram a nossa interioridade mais profunda sangram-nos as emoções
mergulham no abismo da alma decrépita 
ferrugem obsoleta dos dias 
não são passíveis de censura
somos nós os delinquentes e os julgadores dos delitos da vida 
sem que nada haja para julgar censurar ou expurgar

são tão-somente o que são e o que é nada mais é para além do seu ser 
da sua íntima essência
apenas ápices     como um ornato 
que se usa em dia de gozo de romagem
diário da hipocrisia circunscrito ao poema

amálgama intrincada de letras

seja esse o nosso lema
nosso desgostoso emblema
má prosa     pior poesia





quinta-feira, 3 de outubro de 2013

NA TUA PARTIDA




se é hoje que partes
leva contigo a minha tristeza
e ao chegar não a guardes
deita-a ao mar     nessa beleza

que não amealha mágoa ou saudade
porque a vida de quem ama é mudança
e viver de amor só se vive em liberdade
mesmo que nada reste da esperança

nunca os anos são perdidos
e os amores desperdiçados
no terno coração dos amantes

há sempre um pedaço
do amor passado
lembrado em vívidos instantes






terça-feira, 10 de setembro de 2013

VERDE AMOR









Verde é teu manto
Verde o mar dos amantes
Verde em que te escondes

Verde a cor de teus olhos
Verde o tição do amor
Verde a feição da traição

Verde te visto
Verde te alcanço
Verde te dispo

Verde tudo o que vejo
Verde o que em ti amo
Verde amor que beijo

Verde partes
Verde te desenho
Verde te sonho

De verde vivo
De verde padeço
De verde morro

De verde te escrevo