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ARTE

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quinta-feira, 17 de maio de 2018

DESCONSTRUÇÃO X



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



vento norte do destino escrito na costa escarpada e sulcada pelo medo da espuma em destroços

                             um sinal

recomeço de vida nos olhares rasgados do musgo pendente do velho muro

                       urro de temporal

nas escotilhas adormecidas estão os fantasmas das margens pantanosas da mente

castelos erguidos por miragens nos campos ceifados      tapetes sangrentos das vítimas em oração

na lonjura as nuvens caladas      na distância as cidades explodem na fuligem dos primeiros transportes da madrugada

há insectos nas viagens sem repelentes
bétulas escurecidas pelo hálito ferruginoso dos operários
desvario das noites por dormir
        
             a escuridão da idade      o riso
                     poemas sem nexo
                  num passado sem siso

olho-a de alto a baixo          a boca ilumina-se-lhe na viração dos vocábulos e das trovas que amaduram nas linhas bravias da medula inflamada
braçados de luz acoitam todos os inconvenientes do passado e do vindouro
ainda palpitantes os gerânios no coração sobem-lhe ao rosto inundando-lhe as gengivas secas

era ela

dulcíssima      superabundante      nomeada pela avessa urdidura do cosmos  
eleita pelo espírito das florações em êxtase e pelas rudes paisagens coloridas em janela de raiva ciúme e inveja

deambulava pelo embarcadouro no meio dos relâmpagos das tempestades que eclodiam nas noites de outono
embarcava no sonho de um novo mundo mostrando carnívora os dentes alinhados com a vida das estacas do quebra-mar a norte
via paraísos nos pontões locuções penetrantes e assoladoras nas amarras dos navios enfeitiçados pelo rio
garroteados pelo sossego das casas dormentes

o corpo como um rastilho espectral arrefecia no odor pontuado pela maresia

um novo poema                       uma nova poesia

murmurava com a fé de quem espoliou as suas veias de todo o sangue e esmagou os seus ossos por detrás das paredes em ruínas pendentes de uma beleza traída por mãos quebradas
nos seus olhos crescia o destino macabro de todas as afogadas

o frio cintilava na imensidão da água

que se convertia subitamente no gelo da alma

                           os sinos dobram

                                a defuntos

                        há rosas pelos caminhos
                          mistérios nas bermas
                            dogmas no coração

            estamos os dois juntos
            sem ciência nenhuma

      sem religião               sem deuses

só nós a irromper na escuridade do vento norte

no sobressalto dos frutos por amadurecer

      na beleza paciente da proa aberta
      ao silêncio das escotas feito morte

se entender o mundo esta terra violenta aguerrida grotesca e impermanente
se ele nada mais for para mim do que simples coisa
que nasce e morre como gente
                            sofrido ou em plena calma
                dar-se-á a visitação da alma
aí estarei contente      um contentamento que permanecerá constante
forte como o amor        puro como quem deveras ama e constante como quem conhece e sente

orion a mais bela das constelações

le solitaire
               o veleiro de todos os mares e tormentas
quilha corrida em rumo certo        mais espírito do que o humano
as coisas também têm vida mas não têm opções porque são coisas e vivem na alma de quem as compreende na sua essência mais profunda

                   pouco falta para a partida
                              um só
                     no grande mar oceano

                            tenho de ir
                          partir de novo
                ver correr o mar no meu peito

a aldeia não é a mesma naufragou na inveja no ódio e ira
        submergiu na mentira

                 o invicta 26        le solitaire
                    aguarda pacientemente 
                             pela sua alma


de barro fora feito modelado ao crepúsculo quando as grandes neuroses sofrem melhorias e os poemas são escritos em raios violentos de sol

cantava-o despreocupado como a rã do charco seco a nadar na superfície do tempo

nele estava o fim do dia a iniciar a longa contrição da porta inútil para a bem-aventurança

sombras nasciam das proas inanimadas na lembrança do gosto do alto

só é do alto quem respeita e não teme as paredes de água sólidas e os acometimentos dos deuses revoltados

               a cobardia é costeira ou palustre 
          e por desencanto navega em águas mansas
                      protegidas e abrigadas 

fim de dia
o sol brilha menos nas coisas mortas à beira-mar que brilham mais incandescentes e se debruçam nas margens do rio azul

um pássaro descansa no paredão

um veleiro volteia insignificante

há comunicações no canal portuário

silêncio no jardim de azáleas
as flores comunicam pelo aroma nascido nas subtis cristas brancas das ondas que se desfazem em lamentação nos limos das amarrações enquanto os homens comunicam pelo canal da mentira

uma mulher vestida de lilás com pétalas nas pálpebras aguarda no som líquido da lira agonizante

virá                   pergunta-se nos lábios cerrados
no horizonte uma vela acesa de vento bonançoso

                será ele            não não o é 
                a traição nunca vem do mar

uma pedra sem nome na árvore que se despe

bebe-se sofregamente vinho adocicado

é antigo o meu anseio

                               contigo
                      na cidade portuária
         onde os turistas fazem amor às escondidas 
              
                        ao calar da noite

      há ossos esmagados
           medos encerrados em pulmões comprimidos
                      sexos vandalizados
           seios apertados contra os cabelos do vento

o preço da paz pago com trinta moedas

                         e eu para aqui
                     engolfado no coração
                           do demónio

aquele era um lugar de repouso com pinheiros silvestres blocos de granito e algumas lascas de xisto
por vezes o céu era mais azul e o poente mais rosado
a brisa vinha de oeste e percorria as artérias da alma fazendo-nos ficar
simplesmente ficar como crianças pasmadas que brincam com as alaúdes ou com as ondas mansas da praia esquecida
o desejo repartia-se alígero na pele seca 
a noite escurecia mergulhando nas vidraças viradas ao mar
uma estrela movia-se lentamente entre o leito desfeito e revolvido por corpo em agonia e a linha quebrada do horizonte nublado por riscas de sangue opaco
ninguém vinha
acomodou o coxim                       acomodou-se a si
na camisa de cetim em desassossego ardente citou o sono distante
não haveria quem pudesse condenar os sonhos nascidos do sexo latejante
um rumor longínquo
brilha nas jóias espalhadas das sedas do oriente
um fantasma arcaico mergulha no mar da janela da ponta leste
pousando em cada uma das árvores de cristal plantadas nas asas das borboletas de jade
no leito arrastado pelo soalho o coração alegra-se em duradouro êxtase
       e a noite oceano de luz não findará jamais

nem um veleiro no tejo da minha puerícia ainda surda ao chamamento das ninfas submersas em coifas

um edifício debruça-se nas águas sonolentas da baixa-mar

o fedor da vazante
                a imundície que vem de montante

um cargueiro apresta-se para sair a foz

onde aportará

                    que estiva no coração do porão

choram águas
                 na proa insensitiva     maresia da dor

próxima paragem

                              algés

um circo à beira-rio

                               os animais de outrora

saudade a arrastar pela crista das pequenas vagas do areal

           os carneirinhos prenunciam aguaceiro 

rodados de todas medidas     alguns soldados na berma à sombra de uma obra estupidamente moderna    

as ruínas da velha casa

longínquo o cristo-rei        ausente com a cidade por abraçar
                em puro gemido se eleva     

        sacramento
                       
                             falsidade

                      santidade pecaminosa 

gente que mente                            que não sente

a crise ensandeceu estes homenzinhos sem futuro

                           última paragem

desço o rio em árvore seca

a corrente de maré é o berço desta velhice medonha

a proa resplandece de bronze
dos céus jorram lágrimas azuis

o convés molhado
o mastro emproado
cabos inertes ferozmente mordidos pelo piano dos mareantes

mar e estepe
                  os benefícios da solidão na mesa oval
cabeça 
         entre
                 as mãos
                             crispadas

                         hora de oração

                                sorrio

                    nas nuvens aves migratórias
                               como eu

fogo que se não extingue
                            santelmo
                                os mastros surdos

                 encapelam-se as vagas
    navio de aventureiros do outro lado do mar
                   pátria de negreiros

um coração pulsa no convés     os calcanhares doloridos ferem o madeirame húmido

irrompem selváticas sereias de espuma

lírios oceânicos de frio sorrir 

brilho de um luar que se extingue

na pele molhada pela maresia as histórias contadas pela força obscura das nuvens que rodopiam no topo do mastro real

dia de bruxas no cadáver dos meus sentidos que se ausenta em deriva à vista do areal

observo-te na praia deserta

foste a amante no que o amor tem de místico
com os lábios enxutos percorri o teu corpo a acender o fogo da partida
nada fiz para resgatar os despojos dos guerreiros mortos na clareira de ervas secas
amanhã quando a fúria do mar for sombra e silêncio rumará para as índias a última das naus do oriente
envio-te nela o baú do meu coração exangue moldado a neve pelas crianças eternas

no espelho do luar
                            feitiço do firmamento
                                            lerás a única palavra que dispersou todo o seu sangue nas nuvens doiradas que vagueiam ao sabor das ondas

                               amo-te

curta mensagem para carga tão penosa e difícil de estivar
será o lastro do navio na tormenta        o leme do rumo incerto        o aparelho da mareação        a certeza oscilante
                        de que o porto será seguro
e o mar
lerá nas tábuas do costado escrito a estopa o recado omisso
                   que ao deixar-te partir
           o mundo para mim tinha acabado

nesta terra

em que fui criado
em mar grosso fui moldado
de pequeno com brandura e amor me dediquei ao sagrado

tudo é passado

           os dias amanhecem e eu acordado
            na noite alegra-se-me o coração
            longas as horas de vigília deitado

os dias escurecem na fronte sangrante
sonhos desprezados        navio que se lamenta ao ranger dos costados
esquadras de vinho velho       mercados de escravos 
      
              uma virgem que se pranteia

            coração estropiado de moribundo
                      alijado à tormenta

          era o fogo vivo
          das longas vigílias
          da sorte cruel

               num pedaço de papel
               as ardentes fibras
               cantavam seu canto
               de profundos segredos

                    a esteira de um
                    desses barcos velozes
                    com o pano todo içado
                    brilhava ao luar

                         era mais de meia-noite
                         e na praia um rapaz
                         acendia uma fogueira
                         de vidas desfolhadas

                  enquanto jardins
          cresciam em lábios delicados
              de duas loucas desnudas 

corpos nus no areal com mãos invisíveis a roçarem os ombros circulares
ritmo infernal de voz estridente a clamar por amor

vã é a vida dos fugidios instantes do apetecer

                         agora sim
                     poderei dizer-te
                   como é bom ter-te

as águas do rio subiram naturalmente

nas suas gelhas cintilam estrelas

passa um veleiro em bolina cerrada

                          para onde irá
             sul onde o quente é mais quente
   norte            setentrião onde a terra é gelada

marear a cavalo na nortada

gente nas margens

                            uma marina cheia de nada

onde estão os navegantes
                                 os sólidos pescadores

     oh dores de portugal
          que morre e deixa morrer
               nos catres de farrapos transfigurados
                            a imagem lúcida da afoiteza

                                                 dóris gelados 
                           nos mares cruzados 
               dos bancos da terra nova
       ornados a gelo e névoa

                 uma viúva perdeu o marido
                   pelo seu filho agora reza

erva orvalhada

por destino o solo desprezado

quando eu morrer
           não chorem     esse é o meu desejo

           não quero sinos a tocar disparates
             não quero velórios de bonifrates

cantem  
          façam amor
                           embriaguem-se
                                                 bailem

          tragam do ancoradouro o meu veleiro
             lancem as minhas cinzas ao tejo
                   meia-noite na baixa-mar

    rio dos meus amores          dos meus pecados
    rio das perdições     
                            dos corações despedaçados


       rio em que nas noites prateadas de luar
como ninguém amei
              e foram tantas as que beijei
   sexo penetrado
   à vista do mar

ao abismo o que é do oceano
          
                          terra é para homem pequeno

                  mar para quem temerário
                  o soube defrontar e amar

as mil mulheres que tive      os quartilhos de vinho que bebi            as mil e uma noites que vivi rindo e sorrindo à madrugada

viço e lascívia                             estúrdias e luxúria

casas que frequentei        boa e má fama
                    perdulário na penúria
                      avaro na abastança    
leitos de solteiras
                         divorciadas
                                          casadas
                    alternadeiras e
                                           rameiras
famas e camas nunca me faltaram

    façam peregrinações a casas de orgia
    levem rufias      carteiristas      proxenetas     
    pelotiqueiros     calaceiros        aldrabões
    femeeiros                               arruaceiros
    gastem a soldada                  o vencimento
                               a pitança

    não ouçam as vozes adormentadas do povo 
    encham as mesas de mulheres e vinho novo
           soltem risadas à minha lembrança
    que o tempo passa e só vos levo a dianteira

lembrem que em cada hora morta
pensei mistérios desvendados e por desvendar
chegando até onde o entendimento humano pode chegar
pensando tudo o que há para pensar

não      não quero mágoas
                                    pesadelos
                                                    saudades

tive tudo
             o que tinha de ter
fiz tudo o
             que tinha para fazer

    e

nos rochedos do cabo escrevam a vento e sombras

        aqui jaz o que não lamuriamos
        com setenta vezes sete vidas vividas
        de alegrias felicidade êxtases e dores
        nos parcos anos que deus lhe deu
        e acanhadas férias que a morte lhe concedeu
        navegante de corpos almas e mares
        amante de vinho mulheres e tempestades

seios de navegantes
                                 corpos firmes
                                          na crista das ondas

o luar
                   desce sobre o mar

                                       a proa corta o silêncio
                               e além fica terra

                      grilhões da liberdade
                     acorrentados à verdade
                      à mentira e à saudade

e o desejo
                       lá está
                                 que já o vejo
                                 do topo do mastro

sombras chovem descontinuidades enquanto me movimento no precinto sem tecto     
há um santuário doirado efervescente no fundo do coração em chama viva que erijo
um poema em cada verso por rimar
hora de orçar o alento
                                  tempo rijo
marear em águas temperadas na robustez do costado
fenda na alma tapada com estopa alcatroada  
agonia que corrói as entranhas          momento azul
a tarde não deslembra o crepúsculo matinal
as velhas
             vacas amamentadas pelo suor dos ardinas
basculham a sudação sobrenatural das marafonas atlânticas
surdina da fome de mar no tentáculo ofendido em seus tendões  

as nuvens chovem
    no meu movimento 
        quando paro
            ressaca nebulosa de vaga paradoxal
                         anelo de temporal

veleiro expirante na rota impossível discordante aos alíseos dementes
dedos de mareantes colados à cordoalha disforme 
a partida e a chegada dos cavaleiros
            bandeirantes da decrepitude

descobridores do entejo

do tejo parto          imagem de nossa senhora dos navegantes à proa

            sem saber se retornarei ou não
                pela torna-viagem uma loa

                trovões nascem das nuvens
                    não entendo o correio
                 não é de quem deveria ser

anos de anseio

inconformado debruço-me no molhe do cais

prateada a rebentação nos penhascos ameaçadores

pobres são os pescadores de amor lunar

pelas encostas do céu rolam lágrimas 
são de sangue as mal-afortunadas
mais salgadas que as dores marítimas a desovar suicidas

partiria contigo        para qualquer povoado
indemne à fala
tudo seriam idas      sem volta

é tarde        fiz com que o fosse como se o tempo não passasse em arrebatada corredura por meus cabelos expostos ao vento da maré-viva setembrina
purpurina boca        lábios de cristal        dedos de sândalo
     que não mais verei

brilha a paisagem ao remontar do mensageiro        o pescador de búzios        a rede enreda-se nele
pára
demora-se como navio de temerários a costurar destinos elípticos        semicírculos de águas frias nas montanhas circunspectas        portas entreabertas aos leitos desfeitos por magalhães conduzidos ao chapinhar nocturno das raízes do medo        vão mais de cem e voltam pouco mais de dez sem paixão e com esperança

assim respeita a vida de velhos mareantes o senhor dos mares

os paus ardem na lareira do ventre

a desordem instala-se no navio embriagado a sorver cardumes de peixe miúdo na cave da catedral em ruínas

obsoleta como o velho diácono purulento

ossos de náufragos buscam na página de um atlas os seus complementares

há um odor
                a razão
                           na maré a vazar
e o capitão encontra o astrolábio na ponte derretida pelas correntes
                      dos antigos arneses
                    acorrentados ao destino

novamente esta vigília esboçada em sombras áureas no porão da galé onde os penitentes espectros da noite vogando em escuros trirremes
rondam a lua circular comovidos pelas lágrimas dos indigentes prateados
ah as ilusões em fúria sorvida em pequenos goles de estanho
os estúpidos apegos nadando à superfície das cabeças transparentes
os corpos trespassados por vagas palpitantes de árvores dobadas pela cegueira
há um sossego voraz um silêncio mordente uma luz ardente de música que no coração em chamas ecoa
momento de amotinação a espalhar quietação na planície alvar
movimento de asas incapazes de voar
não fora a fraqueza da ralé devorada pelo atrevimento da auto compaixão
reles e verminosa na medula corroída da ousadia
o firmamento desabaria nos crânios esmagados por albatrozes
   
                            o fogo do amor
                        consome a forragem
                               do passado

                   o fogo extinto da misericórdia
                        enterra os seus mortos

o relógio da torre há muito que não bate as suas lânguidas horas e as palavras fluem flamejantes na inutilidade do vácuo 
afinal
onde está a oração salvadora do náufrago moribundo que se veste na sede púrpura da ilusão
no cais de pedra enegrecido pelo lodo milenar a viúva do tempo carrega longos gemidos e solta ao vento de sueste esguios ais
a vida foi-lhe madrasta arrancou-lhe dos braços parasitados por veias salientes filhos marido e a vontade de viver

nada a convencerá a permanecer entre os vivos

uso as minhas próprias mãos
                                       para golpear o medo
as unhas embebidas em veneno
                                           rasgam a angústia
dilacerando o sexo
                       modelando
                                  o manso coração da alba

pouco falta para que o dia nasça com toda a sua turbulência mesquinha
lá na lonjura o apito funéreo do navio que entra a barra singrando o nevoeiro denso da pele crespa dos últimos amantes
velas desfraldadas de lábios carnudos em tempo de geada

          e há um prazer imenso em tudo isto
                enigma do próprio mistério 
         construído por estilhaços indecifráveis

saber que ninguém me irá ler


revolta-se o mar quando o vento nasce no fim do outono

na casa amarela do lago ela penteia os seus longos cabelos

cedo cantam as cotovias no cipreste solitário

no quarto a mão escassa não se abre à cintilação das pétalas rosadas
quando a neve começa a cair à beira-mar

  amor morto derramado no regato da montanha
  estio voluptuoso das tardes quentes da carne
  porquê aguardar por um tempo que nos foge

os anjos da clareira dormitam taciturnos sem que os sonhos os caustiquem
os anjos não sonham com édenes nem abominações e aos seus quartos não têm os amantes acesso
em nossos corpos não há tédio quando a nudez reflecte o anseio
nem no sangue vivo que rebrilha de inocência pecaminosa se acendem as luzes da cidade alagada por sémen putrefacto
lâmpadas que se incendeiam nas ruelas desvirginadas pela concupiscência da aurora
desfloradas pelos ébrios passageiros da noite

o último metropolitano apaga-se

o nevoeiro pousa delicado
                          nas verdes varandas estéreis
corpos em velas vacilantes
                          fanfarras dos portais da escuridão
pés feridos na respiração cortante
                          imersa em azul azedume

                 num leito

                                        de mar

                te penetro

no ermo árido o vento desentoca os ossos furibundos
contentes as folhas de árvore em turbilhão embrionário
nas pedras negras uma flor sonolenta desperta do fingimento da escravidão sôfrega de mágoa
o navio tumbeiro prossegue no grande mar oceano   

um grito ecoa

troco metade da minha existência pela pele de um ofídio  
pus dos recantos inóspitos da humanidade 
e a outra metade pelo olhar meigo de uma pomba 
pela luz da mais pequena estrela de cristal

                        olhos lacrimantes
                        onde se inflamam
                      alvoradas selváticas

        hora da palavra transmudada em gládio 

serei sempre capaz de adivinhar as tuas dores enquanto teu tal pedra fulva lançada às estrelas e que no interior das corolas feitas a cores aguarda que a lapidem até à vinda da morte

vieram de toda a parte sem saber ao que vinham
os seus túmulos terão coroas de flores garridas a murchar aos olhos das longínquas galáxias
eles o povo que ninguém ouve e todos desprezam
mulheres crianças velhos registados em vórtices de portos e abrigos bárbaros do atlântico norte donde voltam na amotinação da crista das vagas quando o mar suspira de grandeza nos molhes do cais

                    e eu no teu interior
                               flor
             ergo-me nas cinzas do vento

o vento murmura ao céu rosado
repara o castigo que te dou
                                         sorte corcunda
em breve serás pisado
                                 até à exaustão
como ave migratória colorida em ramalhete que se detém no muro das estações

                        fiz tantas viagens
              tinha tantas viagens para fazer
  bosques selvas ilhas germinam no meu cérebro

solidão e cansaço

lanço uma âncora bifurcada nas profundezas da alma

uma peónia nasce em terra estranha

insectos de cena tardia repetem-se nas mãos de homens-fósseis

                          sem dó nem piedade
                amanhã o mar será uma inutilidade
                      do tamanho do meu medo

o galo canta
tenho asas posso voar dentro de mim até à sombra das sensações 
há palmeiras rodeadas de rochedos
há uma geada eterna no sopé da montanha e
um rio que corre para nascente
nos cabos gaivotas cruzam com as asas os raios de sol
jardins ornados a vagas e sargaços vesiculosos
                 tudo em mim floresce 

é penosa a largada e apetecida a chegada quando não é mais dolorosa que a partida        aflitivo contra-senso        mas natural tão natural como o frio num dia de inverno e o calor numa tarde de verão
o mundo parece ruir no coração firmado à angústia    
constrição sem regeneração
quando se abala nunca se deve olhar para trás
tal albatroz-errante a perfumar nimbos oceânicos

                  tudo é jogo do mental     
                        cara ou coroa
                        da existência

permutar regalos mundanos pela reclusão silente
quietude liquefeita na chama de círio que alumia as trevas de noites duráveis
o azul de klein evoca o mar do entardecer quando o sol já cabeceia no horizonte e o veleiro vai trovejando nas águas
o ocre dos velhos paisagistas românticos no cume da serra que fala às estrelas
e aqui há que eleger     
sonhos da noite passada        dúvidas e irresoluções que fenecem no desabrochamento da flor da cerejeira
expiram na lentidão do remanso sedentário todos os desígnios
a alucinação de um novo bem-querer do espírito a abjurar temporariamente a carne 
o clamor da serrania nos magníficos ossos da terra e nas veias de águas sacrossantas

                       o luar que o mar
                     irradia cor de prata
         congregação do azul no trilho do infinito

não posso ter tudo        pouco me afecta ou preocupa
há que escolher
talvez o mar                                     talvez a serra
          que seja o que tiver de ser

noite de clausura

amanhã verei veleiros armados para o derradeiro acometimento        cruzadores do grande mar oceano onde mostrengos e seres estupendos se erguem     

       essência da solidão de probo mareante
                  irresolução angustiante
                   o mar clama por mim     

ouço strauss          há muito que o não ouvia     
trivial é a sonoridade dos grandes santuários apinhados de estultos
a iluminação é o entusiasmo do amante que nunca tocará a amada 
                      mas que divisa como ninguém     

o vazio dos empreendimentos 

                       a vulgaridade do êxito

                            o nada do empenho humano

     o sem-sentido da existência

pobre humanidade que se arroja aos chispes de ídolos de barro que se peita por pataco infeccionado de duplicidade que vegeta nas pedras abrasadas da ilusão
                     áridos terreais viscosos     
         nojo      
  
derrotismo e desesperança
                   
                         não espúrios atlantes

ratificação do enlevo temerário de quem perfilha a realidade no cerne demoníaco da civilização dissonante

enjeitando as raízes fulgura a débil planta
as candeias afoguearam a bezerra sacrossanta

           avistámos hoje a filha dos céus
          deusa da aurora dos penitentes
   atiçou o fogo dos mais deleitáveis manjares
              e saiu na tipóia dos entes

radiosa a jazer no seu leito embriagado pelas faces brancas da brisa primaveril revelou-nos a perda da sua virgindade
embrião enorme a varrer o pórtico do arco e flechas de terno amor

          que frescura tinha o seu sorriso
                   esbelto seu sono
            longos os doirados cabelos
            nascimento de nova vénus

com as horas o galo cantou
sem tino          sem destino

canção de aventura no mar

voz límpida de água clara

                 fonte de harpa a tanger
                       a palavra amar

não há terra
as montanhas foram engolidas pelo último dos homens ingovernáveis
mar sem fim                voz doce de encantar
que albergas as sereias das noites de insónia

o deus do lar está ausente

saúdo o sol que nasce na curva do horizonte
tristeza que se confunde
                                com a estrela da manhã

lá longe tanta é a gente

num laranjal três virgens
                          testemunhos da volta de mar

ventos erécteis abraçam-se ao luar

purpúreas rosas em veloz esteira

luto da chuva de primavera

nau que dormita em melodia do eterno-minuto

                 enquanto na costa arriba
                        com monotonia
               velame que o diabo carrega

suplícios da loucura        riem-se de ti os insolentes

tempo da simbiose
alma enternecida

tu que nasceste e viveste na cidade cinzenta que nunca viste o verde-vivo da floresta não tens o riso infantil do outro hemisfério

                     a velha casa sofrida
                    tantas rosas morenas
                         a esmorecer

                                nau
                          que navega
                        o luar de prata

recorte da costa no momento em que os seus contornos mais brilham

                    ah navegante errante
                    a voar com as nuvens
                     nos cornos do vento

                 arrefeço as chamas do coração

ergo-me do abismo    

                                arbusto em flor

           clamo pelo teu nome

                  o vento cola-se-me às mãos
                    o sol brilha na escuridão
                  o gelo aquece-me as carnes

pelos degraus corroídos do cais desço à plataforma de embarque

                    destino improvável –
                         o sem nome

que importa se a vida é breve
a noite é durável        aguardo pela opacidade
o vento desliza na folhagem das árvores
a lua cresce na abóboda ofuscando as estrelas
calçadas na estrada das almas

santiago

deixem-nas passar          não as perturbem
não afrontem quem escolhe a via dos roseirais e das andorinhas primaveris
                                negras
                                              negras
anunciadoras de dor e vida

o negro é pesar alegria e amor
                                                 amor 

deus conturba-me              a alma confunde-me
desperto com o espírito obstruído pela obsessão

      deus
                                                alma
alma
                                                         deus

               vai persistir todo o santo dia
um impulso irresistível à oração
silente como a profundeza do universo e a fundura do espírito
palavra inacessível ao avaro e ao ganancioso

a razão é um rio que corre para nascente
um carrossel tresloucado de uma só rédea     orbicular     
a minha vida veloz em movimento de extinção
     
que a razão morra
                          nos braços da intuição
                          da sensibilidade
                          da paixão sem oposto
                 que a leve o diabo  

a noite é estável          demando minha alma cerrando os olhos
já só consigo contemplar as ondas do mar

afinal sou o mareante de outrora
navegante das brisas insondáveis
piloto de vento da quietação

                            criança marítima
                                  hoje e 
                               para sempre

aguardo pelo meu veleiro        assim lavrarei nos mares o silêncio das águas e ao timão fundearei no que é dentro de mim

                    angra dos adoradores

     hei-de beijar o alento que meu ventre acolhe

         o meu barco é a extensão da minha alma
            sou o meu barco o meu barco sou eu
                        âmago da unidade

                                    e o espírito de deus a pairar sobre as águas

à beira-mar estás
                           corda de lira retesada
                           corpo prateado de luar
                           em vela enfunada
                           longínqua e surda
                           uma onda desperta
                           e o forte adormece
                           nas rochas azuladas
                           que escurecem

                     caminho para ti
                nas dolorosas pegadas 
                 que não desaparecem

pedras de fogo em explosão narcísica sustentam a brisa que vosso corpo colhe
o céu brame encarcerado na abóbada de musical claridade
                  o mar desfaz-se em escuma
              sémen que a areia feérica recolhe
                    e eu da falésia sofro e calo
por não vos poder amar

movimento diurno da provação          fora a nortada fustiga o mar encapela-o de cinzento com a verdasca ressequida dos últimos guerreiros

um veleiro no meu espírito

                                      uma quimera em meu estreito
                      arbítrio imponderado

                   corpo que em sonho me tenta
                          em pobre verso lírico

                       depressão sanguinolenta
                              escolha adiada

logo haverá luzes no terreiro e sonhos com mulheres de diamante
bainhas talhadas por deuses em cópula ungida a mirra
o som de mozart inunda o aposento

mozart não é gente é sinfonia ou quarteto
mozart não existe                        a sua música sim
               o mesmo me irá acontecer a mim

permanecerá toda esta palha humedecida sem préstimo aguardando a queimação
uma escala de fá sustenido alaga os corpos irrepreensíveis da aparência de meretrizes e das filhas dos deuses que penetro no sono rudimentar de ancestrais desejos
a alma ferreamente apertada por cadeias de aço detona
escuto-lhe o impulso
que mais hei-de eu fazer 
que mais poderei querer

a carne          o sestro que encandeia borra de negrura a mantilha nívea da probidade adormecida em suave leito azul-celeste enquanto o vento ronda para leste
o dia está pintado de castanho          as estrelas caíram desamparadas no lago onde ardem os lenços erguidos da mocidade tão inglória quanto inútil
delícias da carne a roçar os penhascos intransponíveis            a cada noite capitula a tua virgindade como ramo rubro de papoilas silvestres
o prepúcio rende-te homenagem na leveza do voo onde abundam as vozes da infância
as casas são recentes e tingem a paisagem civilizada de infeções oftálmicas
é este o soberbo mundo das inestéticas mãos frias cinzeladas com ressentimentos aguçados
o céu negro tomba retumbante nas águas apodrecidas das comportas
charco do coração com o pecado ao lado junto ao fundo acre que sorri à criação desastrada

                que cada um siga seu caminho
                          estrada da vida
                    rumada no meio do mar

perto te sinto se te afastas
nuvem que peregrina em melífluos aguaceiros

barro e cinza          barco vaiado pelas vagas de espuma
cidade desaparecida no lodo com todas as suas flores e pomares
frondosas árvores cessam o pranto dos caleiros do céu

tempo da rosa                    sorriso de noite morta

       chegaste para logo partir brisa do levante
     sol do meio-dia onde os nevões vão perecer
interpretar os sinais dados em pesadelos nublosos
tantas as vezes que o disse          tantas foram as que o sonhei
a noite é minha como é o rumor da brisa nas árvores gigantescas que circundam o terraço

              adio constantemente a partida
                       uma hora de sono
                           apenas uma

aguardo o meu veleiro
levá-lo-ei nas noites estreladas pelos mares prateados
               dormindo ao leme por instantes
               e para sempre no derradeiro momento

ele ouviu a minha prece mas não compreendo a sua palavra
que venha dando-me a angústia ancestral ou um doce estar em absoluto remanso
ouvir uma cantata enquanto a manhã não germina
                             que venha
                           seu esplendor
                           meu cansaço

nua na areia

praia deserta
                    da nossa paixão

a espuma
                  envolve teus seios
                                                 redondos hirtos

uma gaivota
                                 espreita 
                                                  o movimento

                             gritos
                          de êxtase
                        agitam o mar

mares que gritam na tapeçaria que não desvia o sorriso das velhas histórias de ninar
no poço da minha alma a cerejeira está em flor   
insuportável dor do grão maduro em embaciado olhar

se outra vida não há porque é tão ingénua a alma assim vestida e tão cruel o suplício que o corpo arrosta no coração quebrado

os pés sobre a terra     na água a graça do cisne     no ar as cinzas das trevas    nunca pares avezinha     voa na minha consciência     suspensa nas altas varandas de capitéis doirados        esvoaça sozinha
errando de olhos fechados pelos túmulos secretos cavados no seio da procela fogem-me os sonhos pela porta aferrolhada
da janela crepuscular voam andorinhas negras
pobres que entram no meu inferno e apodrecem como fruta no mármore que se cala

                          o mundo em chamas

               arde
                       o ódio
    
e a coragem
                       incendeia-se

                                             a angústia
                                          e o sofrimento
                                              ateia-se

              o pranto e o lamento
                 tudo se confirma
            em flamas o firmamento

sinos cálidos de minha aldeia          altas torres por onde a lua espreita
uma espiga de milho dorme nos pedernais
é ali
          que o pastor
                                 naquele luzeiro
                                 do sete-estrelo
                         sonha
                         suplicante
                         e
                         que a doce boca
                         sufoca de ânsias

sonhos de ontem nascidos ao som do luar
vento oblíquo nas carnes invisíveis dos cedros ancestrais do ermitério abandonado

o bosque agita-se
              longe o cismático mar
                       e o coração de todos os afogados

labirinto de barcos naufragados
tranquilamente afundados no sangue aberto
ramos de loureiro ferido de verdades

na curva do rio as pombas são sombras nos beirais

                luzes esverdeadas dos pinhais
           onde as cigarras esmolam eternidades

os corpos arrastavam-se na noite salteada de luzes mudas de prédios adormecidos habitados por carne pútrida
ali ninguém perguntava à vida a essência da morte
passavam simplesmente
                                  ou
sonolentos cerravam os olhos ao som de uma televisão surda e insensível
algumas crianças ainda brincavam com jogos de imagens terríficas enquanto no quarto ao lado os pais consumiam em segundos a última erecção
o rio corria lento na direcção das américas com as mágoas à superfície e o pecado acantonado na escura profundidade
cintilavam almas nas cristas das pequenas ondas de marfim polido armadas ao capricho da brisa da memória
alguns pescadores deitaram botes às águas acorrentados à proa por frágeis cabos desfibrados
vagos pensamentos sem nexo das ruas desertas da cidade
as reflexões dum povo literatura-de-cordel reinando ao faz-de-conta da sensibilidade da última claridade lunar acomodavam agora  a almofada de plumas dos sonhos

no meio do rio levantei âncora depois de ter bebido o sumo acre da última meditação do dia
icei a grande apoiado no mastro a penetrar o insondável céu negro
desenrolei a giba da amargura
o vento variável ajustou-se à medida do meu coração alado e com hálito perfumado de jasmim enfunou os panos
quantas milhas a percorrer
quantos nós sacramentais serão servidos na bandeja de prata pela brisa-do-amor
         o rumo incerto em bordos consecutivos
            o certo abatimento do bordejar
        atira-me para um imenso mar de dúvida
            na miragem da terra prometida

olho para as margens com seus bares-mulheres
risos palavras pesadas na balança dos sentidos
viro de bordo e a cada viragem os desejos abatem para terra com o velame a bater descompassado
e os cabos de amarração seminus a vogar ao sabor das delícias enfeitiçadas que nenhuma oração excomungará

          aterrarei alguma vez na terra prometida

                        dúvida existencial

      barcos doirados no horizonte

          o trevo das ondas florido

             a brisa de leste
                                  a golpear o pescoço

a eira e o canto da mocidade
já não repousa no teu peito

         a criação dos mundos respira ofegante
          no reino das trevas enquanto o sinal
       dos tempos é exibido nas garras sagradas

a água dos oceanos engoliu-se a si

                o sábio da negra muralha
                                         esquecido de tudo 
         até de si
                     limpo de mancha
                                   olha o nenúfar
                                                        embriagado
                    que há cem mil anos vive

noite escura
a rua começa a encher-se de esquinas e o mar crucificado entre sorriso e pranto oferece a sua dor aos deuses

                     tanto eu amei
                      tanto eu vivi
                        fui amado
                          odiado
                pelo rubi que carrego

                sempre o mesmo tédio

            sem asas não voltarei a amar
 sem o sonho que sobe a colina ao adormecer
com as árvores a fitar o corpo não voltarei a sonhar

voámos no céu azul com a mente confinada à espada de aço maduro sem nenhum mistério entender sem ninguém que nos pudesse valer

                              o azul
                            é infinito
                       no céu e no mar

               pouco mais há para conhecer

veio a tempestade com a sua purificação arrastando barcos para além do mar

corpos desmembrados do espírito

casas destelhadas dos jardins
                                           e um bando de aves
sobrevoava graciosamente os céus em formação

chaminés incendiaram-se

ventos protegeram os corações empedernidos dos burgueses

                    carregando para os covais
                 o caixão das almas dos pobres

                  a cidade dormia à superfície
           acordada nos subúrbios subterrâneos
      onde se gera a violência das luzes anónimas

por baixo
as formas suavam incandescentes ao som de um quarteto envolto em nebuloso fumo de vozes estranhas
roucas
          recalcadas da fama
          numa busca miserável
          de sossego e concórdia

                   que descansem em paz



***



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