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ARTE

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terça-feira, 22 de maio de 2018

SUICIDÁRIO



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***



ao findar da tarde a neve começara a cair em pequenos flocos

tinha deixado a cidade para se instalar numa aldeia remota do nordeste        um povoado de gente envelhecida e doente
durante quarenta anos havia sido bibliotecário e leitor compulsivo        agora aposentado e na pequena casa de granito reconstruída não havia espaço para os livros que amontoara durante dezenas de anos        ficara apenas com uma meia dúzia        os restantes doara-os à pobre biblioteca da vila        teriam alguma serventia já que para si não faziam sentido        estava enfadado de ler de não ter ido mais longe na ânsia de descoberta dos mistérios da vida e da morte

as mãos nuas e enregeladas atearam o lume
chegara de um velório
velórios e funerais tornavam os encontros frequentes na freguesia
      sórdido
      melancólico e imunossupressor
      pensou

ele que fugira da sua própria morte

sorriu com aquele sorrir triste que têm os moribundos quando se despedem dos filhos pequenos dizendo que vão para o céu ter com  nosso-pai celeste

afinal não tinha sido ele que morrera
tinha sido outro
ainda estou vivo        disse esfregando as mãos uma contra a outra

na casa mortuária os vivos estavam sentados em redor da urna especada no centro
o finado tinha os  braços em cima do peito estático        uma por cima da outra        parecia repousar
no rosto lívido sobressaía um nariz enorme com algodão nas narinas
o cabelo tinha sido cuidadosamente penteado e numa cadeira de mogno acostada ao ataúde de boa qualidade o filho mais velho acariciava-o
os sapatos do defunto eram novos e o fato preto também        a gravata azul celeste talvez        nunca o vira usar uma gravata
quatro velas acesas cercavam-no
na parede um quadro do sagrado coração de maria

gemidos abafados        choro seco        lágrimas        suspiros        gritos fortuitos        lamentos        muito era o pranto 
e aquele odor a morte que cheira mesmo quando o cheiro ainda não tem existência real

à porta da casa
ignorando o frio
um grupo de homens pasmavam e
não calavam o facto do morto ter morrido

um deles com um bigode enorme amarelecido pelo tabaco afirmou categoricamente        só nos leva a dianteira        estamos todos no mesmo barco        foi uma esmola para ele e para a família        era bom homem

                os mortos são sempre bons
                  mesmo para os inimigos

falar mal do morto seria sacrilégio e mau agoiro
com o privilégio de ter morrido parecia que o beatificavam


ao lume da lareira não conseguia esquecer a terrível visão do falecido
não se lembrava de ter visto rugas na sua face nem qualquer expressão que denunciasse padecimento e angústia        estava sereno como rio ao luar

tinham-se conhecido quando crianças        na escola primária sentavam-se lado a lado        depois disso cada um seguira o seu caminho       
ele bibliotecário        o fenecido professor de história que se aposentara mais cedo e também retornara à aldeia trazendo consigo a mulher e o filho mais velho que empregou na câmara municipal a troco de umas influências nas últimas eleições
- a câmara da vila mais parecia a santa casa da misericórdia –

a mulher uma gorducha vaidosa de faces rosadas era uma gaiteira        quando recebeu os sentimentos sentira na expressão pesarosa a realidade oculta de quem se libertou de um fardo        ficara a poupança de toda uma vida e metade da reforma        era quanto bastava para viver abastadamente e quem sabe uns amásios de ocasião
naturalmente aproveitaria        dizia-se que não tinha sido muito bem tratada        o marido tinha um feitio quilhado
detalhes que desconhecia

o filho era um asno        escolaridade obrigatória e nada mais        de fato e gravata pavoneava-se nos serviços municipalizados de água a emitir facturas como quem faz decretos ou sentenceia a vida da nação


na altura arriscou-se a dirigir a palavra ao grupo de homens
triste a morte é sempre triste        pelo menos podemos aprender a morrer com a morte dos outros
olharam-no de soslaio e um respondeu
o costa tinha na oficina de carpintaria à vista de toda a gente a sua urna embrulhada em papel pardo        via-a todos os dias mas não me lembro de o ter ouvido falar na sua própria morte

entendera
ali a nossa morte era tabu
a vida além-túmulo não era conversa corrente
só em circunstâncias especiais falavam das almas do outro mundo
como a história da costureirinha autenticada pelos mais velhos e agora repetida
há mais de oitenta anos tinham acontecido na aldeia factos inexplicáveis
de casa em casa ouvia-se horas a fio uma máquina de costura a laborar        quando parava um barulho tal tesoura que era poisada no tampo e logo de seguida o pedal da máquina de novo num som característico e inconfundível 
- máquina que naquelas casas simples e pobres não existia –
as pessoas amigas chamavam-se umas às outras para poderem presenciar o fenómeno que um dia terminou definitivamente

lembrou que a sua própria mãe ainda muito jovem também tinha narrado vários episódios a que assistira e que a instâncias duma mulher mais velha deixou numa das casas mais visitadas um tecido na esperança de que a alminha perdida lhe fizesse um vestido        não o fez o que a entristeceu

dizia-se que era uma alma penada
que cumpria a punição de não ter cumprido uma promessa
teria estado doente e prometera a máquina à igreja em troca da cura
curada não a cumpriu
por isso teve de penar antes do eterno descanso
- almas penadas        a autenticação da existência da vida depois da morte        regresso transfigurado à terra  para cumprimento de obrigações que não foram cumpridas        executadas esperaria por elas o céu o purgatório ou o inferno conforme o seu mérito ou demérito
crer em almas penadas reflectia a inquietação e angústia do homem perante o mistério da morte o  que lhes assegurava a continuidade da existência -   

sorriram
e quando se despediu lembraram-no do funeral
amanhã às quatro doutor
venha senão quando for o seu pode não ter quem o acompanhe        gracejo de ocasião

os homens temem a morte
o que os espera
que não será o que esperam
nem o que julgam        pensou

boa noite disse sorrindo        até amanhã
e afastou-se





aproximou-se do fogo enquanto a sua mente divagava em saltos incoerentes
cavalo selvagem a roçar as asas do desespero

visitara-o no último mês de vida por duas vezes
na primeira estava sentado num cadeirão e a conversa foi curta        a mulher estava perto        entrava e saía com frequência da sala
oculto pelo rosto vislumbrava um sentimento de desesperança        a ideia de que a morte se aproximava
falou do seu passado como professor dos alunos dos liceus que percorrera pelo país e da infância principalmente da infância e da juventude perdida
- para os jovens a morte não existe –
e da doença nem por isso

foi dizendo
praticamente não durmo        fico para aqui a meditar a tentar compreender o inevitável
a rememorar os dias felizes em que pescávamos no rio com cestas de vime e em que armávamos armadilhas aos tralhões com costilos
lembras-te do visco e das bombas que fazíamos com os pirolitos        perguntou
e quando jogávamos à bola        não tinhas nenhuma jeiteira        afirmou
depois referiu o hospital do distrito
aí não        definitivamente não
aquilo é uma morgue        entra-se vivo e sai-se em quatro tábuas
entramos vivos e com esperança e saímos mortos e retalhados
antes em casa do que naquele antro de néscios        aqui ainda há alguma confiança        um caldo quente        uma manta        a televisão para matar o tempo e a família e alguma esperança
a esperança é a última a morrer não é        perguntou sem que aguardasse por qualquer resposta
por alguns segundos os seus olhos brilharam        pareciam dizer        este sofrimento vai terminar        não vou morrer        não        ainda não chegou a minha hora
via-se que não se conformava com o fim e que lutava interiormente

sabes amigo        disse pausadamente encenando alguma tranquilidade e mansidão        só encontro consolo no que lembro da infância e dos primeiros tempos da juventude        como éramos felizes
todo o resto são erros imperdoáveis        toda a minha vida foi construída com os alicerces da ilusão e agora é tarde para remediar os desacertos
tretas        não aprendemos nada com a história        tretas        erros apenas erros
nunca aprendemos nem nunca iremos aprender
mas talvez ainda haja cura
não vou desistir        sempre fui um lutador

silenciou e os olhos ficaram de novo mortiços
o filho acabara de chegar da vila


na segunda visita três dias antes de falecer tudo foi diferente
não estava no sofá da sala        antes no leito apoiado em duas ou três almofadas bordadas à mão com desvelo pela sogra já falecida        graças a deus
a face amarelada os olhos encovados lábios arroxeados e as mãos enrugadas que esfregava ansiosamente tremiam
tinha sido o filho a conduzi-lo ao quarto do pai        a mulher tinha ido ao cabeleireiro à vila
ficaram sós

como estás        perguntou-lhe num vagido continuando a esfregar as mãos
a minha mulher não está foi ao tira-picos        essa        pareceu-lhe ouvir vaca
respondeu-lhe com um ligeiro inclinar da cabeça        vai-se andando        e tu estás melhor
melhor        como        nunca pensei que isto me acontecesse
nunca
é sempre um mal dos outros
mas ninguém fica para semente        parecia ser essa a sua única satisfação
tenho dores horríveis
- dores por que passava e que o atormentavam dia e noite -
eles fingem que se compadecem mas não          
não há merda de mezinha que se aproveite        os cabrões dos médicos não fazem nada não sabem nada        a medicina deles é o dinheiro        hão-de levá-lo para a cova        também vão gemer quando morrerem
agora até fraldas uso        que nojo
sei que se aproxima      não consigo deixar de pensar nisso
parecia aterrorizado
estão todos alheados ao meu padecimento mas também eles irão padecer

perguntou
foi para isto que nascemos
tanto penar tanta angústia para morrer
sei que assim é e assim deverá ser
mas se deus existe         porquê        porquê
com que direito me criou para assim sofrer
contorcia-se com as dores e grossas lágrimas escorriam-lhe pelo rosto amargurado
havia raiva e ódio        um sentimento de revolta que tudo atingia
talvez seja melhor assim        disse numa voz rouca e debilitada
estão todos a sofrer        quero libertar-me da sua falsa compaixão tal como eles se querem ver livres de mim        sou um empecilho
podem gozar a herança        todo o sem-sentido da minha estúpida vida
mas amigo confesso-te        tenho medo        um medo pavoroso do que está ou não para além do túmulo
desperdicei o tempo que me foi concedido para viver
- não há nada mais gravoso do que a perda do tempo -
já estou morto há muito tempo        agora será definitivamente

percebia-se que o seu sofrimento era imenso
fazia parecer que eram velhos amigos numa amizade sincera e de continuidade        falava como quem pensa em voz alta
verdade que a amizade antiga se assemelha aos sapatos velhos que são sempre os mais cómodos mas tinham vivido afastados dezenas de anos        pouco sabendo um do outro

antes a morte ao que padeço
antes a escuridão ao tormento que me corrói a carne e mirra os ossos        à angústia que me destrói a mente
já nada me agrada
cheguei a pensar no suicídio        valeu ou não a pena ter vivido        vale a pena viver neste penar neste mundo sem-justiça
porque não terminar de imediato com tudo isto
a vida tem um peso insuportável quando se esvazia
mas em boa verdade te digo meu amigo        não quero morrer        queria deixar de sofrer

despediu-se e ainda conseguiu ouvir
não te vou voltar a ver        adeus





olhou fixamente para o lume
ajeitou meticulosamente as cavacas 
e os pensamentos sucederam-se ao ritmo do crepitar da madeira em brasa

nascemos para nós para o sonho e para o sono
morremos sozinhos num sono profundo mas não como os lobos que quando sentem a aproximação da morte se isolam num local recôndito da floresta
nós precisamos de cuidados ao nascer e imploramos cuidados ao morrer
a morte não é uma doença da imaginação de espíritos conturbados        está-nos destinada por natureza e há homens que sentem a aproximação da sua sombra como sentem a chegada do outono
haja o que houver no mundo uma coisa é certa        só morremos uma vez        se os que morrem tivessem sido ensinados a morrer decerto que teriam sabido viver

imerso nestes pensamentos 
amplificava a angústia do seu
retiro voluntário

não assimilara praticamente nada com as mortes dos seus familiares e amigos nem com as da humanidade
lembrou teresa em ávila que pedira a deus uma morte escondida para que o prazer de morrer não lhe desse novamente a vida
morro porque não morro dizia a santa em uníssono com joão da cruz
que fé a deles
não era santo nem tinha uma fé verdadeira
aprenderia a morrer vivendo com correcção        não o sabia

a cada morte havia sempre algo que o lembrava de que também ele haveria de morrer
e para além da morte existiria algo        perguntava-se
não        não o que as religiões apregoam        as religiões e suas seitas enganam-nos e a nossa imaginação também        aceitamos os seus dogmas porque temos medo de que a morte seja um abismo negro sem fundo
não há religiosos nem ateus sinceros
a religião com as suas contradições e dogmas patéticos pode fazer de um religioso um ateu
o ateísmo consciente da sua angústia pode transformar um ateu num crente
todos religiosos-submarinos 
- o submarino vem à superfície quando em risco de naufragar –
é tão fácil acreditar quando se tem medo  

teve medo
o medo da morte é pior do que a própria morte
só a morte o libertaria do medo da morte

meditava nela
mas tinha a barriga cheia
afinal aquela gente tinha as suas razões
a pobreza tem mais do que se preocupar do que com o medo do nada
das trevas e do silêncio
do nada absoluto
tinham de se preocupar com a vida
com a extrema dureza dos dias
vida que é comparável à construção de uma casa        quando a concluímos é que a deveríamos principiar
para eles é mais difícil viver do que morrer e quando o sofrimento é grande e doloroso o tormento dos seus encontram alívio na morte mesmo sem que queiram morrer
ninguém quer verdadeiramente morrer        nem os suicidas        mas nada existe que o possa evitar

entendeu que fugia da morte        mas por muito que fugisse ela nunca o abandonaria a menos que aprendesse a morrer em vida

era tarde
o corpo exausto e cérebro esgotado pediam-lhe repouso





na torre da igreja os sinos quebraram o silêncio

missa de corpo presente        as últimas homenagens ao falecido        um objecto numa caixa de madeira
o padre viera da vila
na porta principal da igreja matriz gente da aldeia e das aldeias vizinhas
a lengalenga costumeira do ofício religioso        o coro de beatas esganiçava-se
ao fim de uma hora o cortejo fúnebre

o caminho para o cemitério percorrido a pé com a urna na carrinha da agência funerária
a maior parte dos homens à frente seguindo o padre e os ajudantes com as paragens do ritual a cada cruzeiro
outros atrás com as mulheres

no pequeno sepulcrário da freguesia a cova já estava aberta
últimas orações e o morto desceria à terra que o haveria de comer
contemplou as campas nuas        as lajes de granito        algumas fotografias e datas
nos jazigos os homens mais ricos da freguesia        agora com os bolsos vazios
os mortos alinhados        tão juntos e tão sós
roídos pelos vermes naquela negrura subterrânea
nenhum carregou consigo livros casas e terras        tinham terra quanto baste
tocou com a mão numa das campas com laje de granito e alindada por flores artificiais        ali jaziam três dos seus antepassados
um calafrio percorreu-o

ah eterna noite
em que me deitarei sem frio ou calor
desejo alegria e dor -        
só a noite pura e nua

é esta a morada dos mortos
será esta que vejo a derradeira morada
que local tenebroso

e as palavras do padre
e se tivermos uma alma imortal
e a ressurreição

vida mortal e morte imortal

os segredos da morte        onde estão para que os decifre

seremos eternos
se o for nada tenho a perder com estas meditações
e com todas as suas implicações
nada tenho a perder como na aposta de pascal
remoeu por alguns minutos tais pensamentos pretendendo convencer-se

interrompeu o fluxo alucinante da actividade da mente        observou os familiares amigos e conhecidos do falecido
aparentavam não estar tristes pela morte do que jazia no ataúde castanho escuro mas pela sua
apesar da alegria encoberta de não terem sido eles disfarçavam com a naturalidade possível a sua falsa consternação

antes do corpo descer à cova o padre ladeado pelo sacristão bêbado tornou ao sermão da ressurreição
e o paraíso sempre presente        deixou de ser moda falar do inferno        esvazia os templos e a caixa das esmolas
vai tudo para o céu

o homem criou deuses imortais porque tem medo        medo        o medo mais profundo da consciência humana
ninguém quer morrer
e para morrer não precisamos de médico nem de padre
precisamos de nós


desistiu de visitar os frios túmulos
havia gente em todos eles
devia tê-los visitado em vida
é tão triste esperar pela morte dos outros para inundar os olhos de água e o coração de lamentações

baixou a cabeça e pensou
não sei nada        nunca irei saber
então o que é que me prende à vida se nada espero do além-túmulo
antes este envelhecer que é amargura doença e dor
depois o fim de tudo
                             qual escolher

o desespero instalou-se na alma
observou os presentes indiferente
quando eu morrer restará o nada
nem vós nem eu nem o cosmos

                começava a anoitecer
                   o céu escurecia
          prenúncio das primeiras estrelas

subiu a ladeira para casa enquanto repetia dentro de si
deus e o cosmos        alma e imortalidade        criação e aniquilação

sufocava





as noites que se seguiram ao funeral aumentaram todas as dúvidas
os longos serões à lareira alimentavam-nas

estava na terra como o comum dos mortais        planeta que nem sequer é o centro do universo
as estrelas não estão fixas numa abóboda cedendo um espaço imenso a ocupar pelo paraíso pelo purgatório e inferno        não admira que aristóteles e ptolomeu tivessem sido tão amimados pela igreja católica

queria que o universo não morresse
isso dar-lhe-ia alguma esperança de continuidade
e que fosse infinito
porque no infinito
há sempre lugar
mas se o universo nasceu nalgum momento
nunca saberia o que estava aquém desse nascimento
causa atrás de causa
causa primeira

um criador porquê
e quando        em que momento se decidiu a sê-lo
e se foi o acaso
pode o acaso ser um desígnio do criador e ter as suas próprias leis        perguntou-se

numa das noites saiu suficientemente agasalhado para poder permanecer no jardim sem iluminação     do céu sem nuvens caía uma geada furibunda
contemplou a via láctea e na escuridão profunda conseguiu divisar andrómeda        minúscula
para além dela milhares de milhões de galáxias e milhares de milhões de estrelas em cada uma delas
um número indeterminado de planetas habitáveis e com diversas formas de vida
- não precisava de provas científicas para que o pudesse afirmar –
com um cristo sempre a subir e a descer da cruz

para onde caminha o universo        perguntou-se novamente
para onde caminho eu

um universo finito num espaço infinito
também o tempo naturalmente finito na eternidade

corroía-o o facto de nada entender
do que poderia ter acontecido antes do nascimento do universo
- se é que tinha nascido –
criara o seu próprio buraco negro e sentia-se atraído pela sua força e beleza
sabia que dali nunca retornaria        tornar-se-ia invisível no seu seio        mas talvez        quem sabe        luz invisível na luz maior donde nunca escaparia
e ele que parecia real não poderia ser virtual e depois novamente real na eternidade

ouve os teólogos        pensava
os filósofos que não mataram deus
não te questiones sobre o que está por detrás do momento da criação        isso é heresia
se deus quisesse que o soubéssemos ter-nos-ia satisfeito a curiosidade
na criação tudo terá sido pensado milimetricamente
a menor alteração às leis que o determinaram e eu não estaria aqui
este mundo terá sido acto de deus que assim o quis e assim nos projectou na sua expansão e evolução
e deus criou-o fazendo que progredisse num determinado sentido        sujeito a um conjunto de leis invioláveis        invioláveis até por ele deus
só deus criador pode saber o que aconteceu no início        ele que é causa de si mesmo
loucos os que almejam descobrir e compreender as leis de deus        a sabedoria divina
a vida surgiu assim e não de outro modo por desígnio inicial do criador        ele sempre soube o que quis e não pode modificar os seus desígnios
ele não vive no tempo        no que é mudável

não estava convencido        experimentava a sensação de submergir na dogmática

terá sido esta a única possibilidade de criar um mundo catastrófico
terá sido esta a única possibilidade de criar seres inteligentes
ou foi a melhor de todas
será este o melhor dos mundos que deus pôde eleger
terá deus criado um fardo que nem ele pode carregar
que deus será este

e se os filósofos que são homens loucos e os teólogos sendeiros não tiverem razão

se não houve criação
se o universo não teve princípio
qual o papel de deus no mundo

se não há deus
porque existo
porque existe o mundo
porque existimos em vez de nada

o nada        a vertigem e a náusea das perguntas sem resposta





deitou-se ao alvorecer        pouco tinha dormido nas últimas noites
o sono chamava-o        era forçoso        estava exausto
despertou pouco antes do crepúsculo
e durante algumas horas limitou-se a murmurar
nada        nada        nada

medo de abandonar o mundo dos vivos para entrar no reino do nada
um medo horrendo que o fazia acreditar ainda que por instantes fugidios em
crenças        dogmas        na imortalidade da alma ou do espírito        na ressurreição

como havia de pensar o nada se todos dele fogem como o diabo da cruz querendo no seu lugar algo que seja        seja lá o que for        indefinido misterioso mas fonte de alento
nele não havia maior angústia do que quando pensava no nada
mergulhava num verdadeiro inferno

e que maior inferno haveria

e se o universo nasceu do nada
poderá alguma coisa nascer do nada
fará algum sentido questionar o que existia antes do nascimento do universo

o nada        o não-ser        o que não tem existência
trevas        silêncio        solidão 
tudo a espelhar a dor da morte

os gregos diziam que se o mundo teve um princípio enão teve a sua existência no nada
o ser e o não-ser
outros não        
mas se do nada nada vem para o nada nada vai

com a morte deixarei de ser eu permanecendo no mundo nas minhas partículas e na energia dissipada
não sabia o que a si replicar

se o nada é nada        nada para o qual caminho
triste é tudo que no nada acaba


olhou pelo janelo da porta ainda o sol se não tinha posto
sentou-se nos degraus do balcão e recebeu-o amorosamente no seu corpo
os raios quentes alegraram-no        ele e os últimos raios do dia        por momentos experimentou uma sensação de eternidade e infinitude na quietude da mente

no entanto na vida por muito cavado que o emudecimento seja nunca é absoluto
no silêncio um leve zumbido no ouvido direito        mesmo que lhe parecesse ter morrido por instantes aquele zumbido dizia-lhe que estava vivo
o vazio da mente não era o nada        desacerto de místicos


a noite caiu sobre as chaminés fumegantes
cumpriria o cerimonial das longas noites de invernia
a lareira

tornou a espreitar pelo postigo da porta
a geada começara a cobrir a ruela de gelo na escuridão da noite

a cor do nada é o negro
negro que é princípio
negro que é fim

como escolher
criação a partir do nada ou existência eterna
existência que é a sua própria causa ou existência cuja causa é a não-existência
carecia de aniquilar o nada para que todo o desassossego onde naufragava findasse
preciso de deus        dizia para si
ou mato deus e declaro o universo eterno
eternidade acidental        nascimento acidental

tudo lhe parecia absurdo

se deus existe então o nada nunca existiu        porque ele é infinito e eterno        de uma grandeza incomensurável        a causa primeira que não pode criar a partir do nada pois ele já é foi e será
o nada absoluto não pode criar por si mesmo        sem leis        sem energia        sem partículas        sem nada

não estava convencido        haveria algo        teria de haver

quem sabe se fora de deus tudo é um puro nada
e seja esse nada que por tanto o buscarmos não encontramos

sentia-se deprimido        a razão        a razão limitada pelo tempo-espaço confundia-o


acendeu um cigarro
um dos seus poucos vícios

sou mais do que um amontoado de órgãos
mais muito mais do que matéria
tenho de ser
espírito        energia        alma eterna
consubstancial à consciência maior do cosmos

vivo provavelmente na ilusão das aparências neste mundo de partículas e ondas que os meus sentidos não captam
fecho os olhos à alucinação visível da natureza
penetro o infinitamente pequeno onde tudo é incerto e indeterminado
tacteio o infinitamente grande na minha consciência imersa no todo

a fantástica teia do uno faz-me feliz        dá-me esperança        como a dá ao pássaro que cantava no salgueiro do ribeiro e àquela libelinha azul que poisou no meu joelho em criança
naquele dia a energia da natureza acariciava-me o corpo quase nu        depurava-me as entranhas        percorria-me o espírito no espírito eterno e infinito

o nada absoluto não pode ser um nada        não pode        tem de ser um tudo
ah se tudo fosse espírito
o meu espírito num espírito maior
o meu espírito ora aqui ora ali
sem ter de percorrer o espaço sem estar sujeito ao tempo
o meu espírito eterno na eternidade do espírito unificador

apraz-me a unidade
a ideia de tudo e do todo
o princípio e o fim
acontecimento único onde não há diferença entre o nascimento e a morte
quero esse espírito que estando em mim vagueia nos outros deixando pedaços nos pobres e nos que sofrem
quero esse espírito que já viajou antes de viajar
estando ora aqui ora em qualquer lugar
quero esse espírito vivo e imortal
que cria e é criado
essência de todo o universo e
causa angelical da matéria

não        não quero morrer
quero um espírito mortal





em pouco mais de um mês sentira-se obrigado a ir a cinco exéquias        sempre os mesmos ritos as mesmas palavras os mesmos choros gemidos e lamentações        estava empanturrado de tanta hipocrisia        a aldeia envelhecia e morria

saiu depois de um almoço frugal
o sol aquecia-o nos passos lentos da rua principal
as casas e mais além as hortas os olivais alguns pinhais        no céu azul vagueava uma pequena nuvem solitária
rememorou as visitas aos doentes aos moribundos os velórios os funerais e os seus últimos pensamentos

ver o homem tal como ele é        essa criatura mesquinha e de mente estreita
tudo lhe parecia incoerente
que destino para uma humanidade
- da qual fazia parte –
a arder na sua malevolência e ambição que a devora

falam de civilização
para além do conforto de alguns onde é que nos conduziu        o que é que nos oferece
nada        todo o resto é uma selvajaria mascarada de progresso

desonestidade e imoralidade
mundo de indiferença aureolado por uma carga negativa num deserto espiritualmente imundo
o ser humano não amadureceu nos dez mil anos de falsa cultura        limitou-se a aperfeiçoar técnicas na sua maioria violentas odiosas e degradantes  
progresso        enquanto mais de cinquenta por cento da população sobrevive ou morre em pobreza extrema
globalização que torna os pobres mais pobres e os ricos mais ricos

sociedade de figurões e finórios
os cerimoniais e outros aspectos formais da existência não o afectavam nem iludiam
um general numa farda imponente com o peito minado de condecorações
um magistrado na sua toga negra
um papa de vestes sumptuosas
se nus
mais não são do que pobres-diabos

um papagaio engravatado
é sempre um papagaio engravatado
tal como um macaco vestido de púrpura
é sempre um macaco asinino

sociedade de aparências
carro topo de gama
casa luxuosa
                 carne para o cão que não há
               peixe para o gato que não existe –
                          fome em casa

toda aquela gentalha não era diferente dos que abandonara na cidade
os sábios da aldeia já estavam na mansão dos mortos        deles só restavam as ossadas        haviam esquecido as suas palavras
restaram todos aqueles cretinos a cumprir cínicos hábitos e costumes abastardados afirmando-se filhos de deus
pobres loucos
e falavam de amor
onde havia corrupção e compadrio
qual a diferença entre o que por dinheiro se vende
por qualquer regalia ou valor
e quem por poder o faz ou até por amor

o mundo está doente
sempre o esteve
e sempre o estará

se o homem descende do macaco teve de haver um grave desvio na evolução
o homem quando é animal e é-o a maior parte das vezes é sempre bem pior do animal quando é humano

desde os primórdios o combate corpo a corpo        a luta pela sobrevivência
grupos de canibais esquartejavam as suas vítimas
tribos digladiaram-se escravizando os mais fracos        mulheres estrupadas        crianças mortas e violentadas
vieram os estados com os seus exércitos de morte
vieram os impérios governados por alienados sanguinários        a avidez da vitória do poder e da glória construída com excrementos        sangue derramado nos campos de batalha e nas cidades sitiadas
impérios negreiros em expansão        impérios racistas de aniquilação        o massacre dos desvalidos
tortuosos os trilhos dos que aspiram ao comando e ao domínio
a exterminação de povos        holocaustos        cobardes armas de destruição
milhares de milhões feitos pó e cinza        restos mortais a feder        corpos destroçados por corvos e abutres
matéria em putrefacção a alimentar a terra de colheitas futuras

a sociedade contemporânea governada por dirigentes amorais é funestamente mentirosa         atribui aos jovens a responsabilidade do futuro mas incute-lhes princípios monstruosos        um futuro demoníaco
governar um bando de imbecis
assim será mais fácil governar  
o século xx foi o de caim e o actual será o de satanás 

a humanidade é a faceta mais cruel da loucura
impera nela o tédio e o absurdo        pensou
e foi deus que a abençoou nesta terra fecunda e próspera

guerra        fome        injustiça        sofrimento        ganância        avareza        inveja        corrupção        compadrio        obediência cega        poder        riqueza        hipocrisia        mentira        crime sem castigo
e no fim morte        apenas a morte

a inveja lê-se no rosto do invejoso
a crueldade viceja no coração dos ímpios

o avarento é o mais miserável dos homens
vive como um pobre e morre rico

rico não é o que de tão abastado já nada deseja ou muito mais ambiciona mas o que se contenta com o que possui 

o homem ufana-se da sua superioridade
mas os animais são mais humanos que os humanos
o problema dos humanos é a falta de humanidade
um leão depois de saciado não mata a gazela ao seu alcance
o lobo não sai do seu covil se estiver alimentado e se tiver alimento para as suas crias
mas o homem não se sacia
mata por prazer
humanidade        bando de famigerados malfeitores
onde ninguém ergue a voz em nome de quem a não tem

quando nasce chora
implora por cuidados
dão-lhe de comer        mudam-lhe as fraldas        embalam-no para dormir
amam-no sem que ele saiba o que é amar
- sentimento que a maioria nunca perceberá –

as crianças são educadas para a competição material       para serem melhores e terem mais sucesso do que os outros
não para serem adultos mas crianças bárbaras até à morte  

crescem e da autonomia engrandecida nascem insensatos fungíveis no coração dos quais germinam todos os vícios
ensinam-nos a idolatrar os ambiciosos e os gigantes com pés de barro das revistas cor-de-rosa e dos relvados milionários
frívolos abraçam todas as futilidades
combatem com todas as suas forças para ter o que os outros têm e não têm
temem a ruína
querem acumular        enriquecer escravizando os pobres que alimentam os seus desejos e desvarios        violentam a terra que lhes deu o ser
constroem casas sumptuosas        compram carros que impressionam as estradas        tudo o que é luxo
criam impérios        indústrias supermercados centros comerciais bancos e hospitais
políticos industriais comerciantes médicos        advogados        prestadores de serviços
corja de ladrões e exploradores com os quais não sabia lidar 
nacionalismos
clubes 
associações
partidos
selecções
grémios e
religiões
                 são prisões
   
querem ser os senhores de tudo quando nem sequer são senhores deles mesmos
declaram guerra aos seus pares e disputam supremacias entre si
filhos contra pais
irmãos contra irmãos
amigos contra amigos
homens contra homens
a paz é palavra vã        vivem em permanente discórdia

o estado é um monstro frio
a quem o coração morreu
vive da carne e sangue
de indefesos e desgraçados
do luto dos esfomeados

        os políticos        os maiores usurpadores
        propaganda eleitoral
        promessas vãs        palavras dóceis
        mentiras fáceis
        beijos pelas ruas
        um sorriso teatral
        programas lançados à lua

        o político tem duas línguas
        raramente dando uso à primeira
        que é a verdadeira
        mas apenas à segunda
        serva da oportunidade
        e da sua necessidade

        político labrego
        será sempre labrego
        sem raiz
        que com o tempo
        aprenderá a arte das palavras
        melodiosamente falsas
        com o ranho a escorrer do nariz

os que não possuem riquezas cobiçam-nas
os que as possuem
exibem-nas ou escondem-nas branqueando-as
atropelam e armam ciladas a tudo e a todos com a sua ganância desejo de poder e de riqueza
estendem as redes da astúcia e da calúnia para ascender na carreira        calúnia que é como o fogo enegrecendo tudo o que envolve        broncos trabalhadores compulsivos

        egoístas invejosos e rancorosos
        desconhecem o perdão
        maléficos corruptos e sanguinários
        ignoram a compaixão

ardilosos e caprichosos alimentam as suas palavras com veneno
amantes criminosos do oiro fácil  mascaram as suas faces com mentira e engano viperino
não há nada que lhes não seja permitido
nem os sorrisos asquerosos à porta dos tribunais e os elogios das classes reinantes

nunca estão satisfeitos
têm por deuses
o dinheiro o sexo e o poder
a sua santíssima trindade

caluniam e injuriam
invejam e roubam
falsificam e burlam
para atingir fins execráveis

e há a inveja do pobre e a do rico
os poderosos invejam os parcos momentos de felicidade dos humildes confortando-se com o seu infortúnio
os pobres invejam o que a riqueza pode comprar e comprazem-se com a morte que a todos iguala

imagino-os        pensou
uns comem quando querem outros quando podem
há os que padecem no leito cercados por criados e desvelos outros em enxergas na maior das imundícies num abandono atroz
e há os que discutem apaixonadamente os que sonham os que tecem intrigas os que têm fome e frio os presidiários os carrascos os condenados à morte os suicidas os insaciáveis os criminosos os assassinos do corpo e da mente
todos correm para algum lado

loucos        disputam bens e honrarias que deixarão à porta do abismo
são tantos os que vivem como imortais desperdiçando a vida com coisas risíveis quando a morte lhes indica com segurança a sua impermanência





a primavera estava à porta
o frio trazido pelos ventos da serra ficaria por mais um ou dois meses
a reclusão também
juntou alguns livros na cabeceira de madeira antiga
textos sagrados
- mas não há textos sagrados        são todos produto do pensamento como qualquer outro escrito –
a maior parte do oriente e 
o corão        a bíblia

pensou
o caminho não existe
o caminho é uma ilusão
faz-se caminhando

tinha chegado a hora de se despir das coisas        sabia que em pouco tempo não iria necessitar mais delas
olhou-as como quem olha uma inutilidade e despediu-se do imprestável        os livros que ainda guardava teriam o mesmo destino
as suas forças dissolviam-se num corpo a envelhecer em progressão assustadora        perdera o alento para viver e a bênção de um novo dia
tarde apreendera que ter poder é ter o contentamento de não ter poder nenhum

como quem procura nas fossas abismais a mais bela das pérolas ou nas profundezas da terra o mais resplandecente dos veios de oiro buscara a verdade incessantemente
fundeara em palavras vãs assassinando a inocência
mesmo que pudesse ter negociado a verdade qual seria o preço        quanto não teria de pagar por ela
talvez um maior sofrimento e uma angústia fatal para os dias que ainda lhe restavam        um acréscimo à dor psicológica que o minava

tudo seria inútil e diferente        disse para si
se eu cresse como acreditava em criança
se tivesse fé a fé que eu era quando frequentava a igreja e depositava com confiança o meu coração no altar e a minha alma no sacrário
mas não
não te vi morrer nem ressuscitar
se eu te tivesse visto e ouvido        tu o cordeiro pascal ofertado em sacrifício pelos meus pecados        tu que em terrífico duelo travado entre a vida e a morte a venceste
se eu acreditasse que o rei da vida morreu na cruz e voltou das trevas para reinar eternamente na sua glória de filho e de deus ressuscitado
se jesus tivesse ido diante de mim para a galileia
ou me tivesse interpelado na estrada para damasco
e eu tivesse a certeza


não ter a certeza não pode ser a negação de deus ou de uma consciência suprema
vivemos na ilusão        cercados por aparências

começou a especular        sem que os pensamentos tivessem um encadeamento lógico        pensava como quem pensa e não como quem teoriza

a nossa visão do mundo é falsa
vemos e ouvimos motivados pelo que somos
o pensamento arruína a verdade
o inconsciente escraviza a mente        condiciona-a
o que é sujeito a mudança é-o aos nossos olhos e pelos nossos sentidos
as criaturas nascem e morrem
tudo o que existe está sujeito à destruição
será que por detrás desta realidade relativa está a eternidade        o sem-tempo        o que não começa nem acaba        não-nascido        não-causado
a consciência suprema

se não fizer escolhas
libertando-me do ódio e do amor que não é gratuito
do que gosto e do que não gosto
sem tomar partido quanto ao mundo exterior
- em que é que este monte de estrume difere das rosas que se exibem do outro lado do caminho
que diferença existe entre o mendigo esfarrapado que de manhãzinha pediu um copo de vinho na venda e o padre da freguesia que reza paters e ave-marias
entre as moscas que volteiam e poisam no esterco e os fiéis que agora estão à missa -   
passivo perante ti
passivo em mim
pura submissão à vontade das vontades
sem que a busque ou queira
peça ou rejeite
não querer        não pedir        não rejeitar
aceitando mal ou bem o ganho e a perda
dizendo sim ao que é
poderei eu ver o que está por detrás deste mundo pleno de mutações de acontecimentos
a única realidade será ou não
permanência        consciência suprema
algo que existe        que é
que não admite não ser
será ou não
será ele aquilo que é
- que mais poderia dizer dele –

se eu for como poderia ser antes de o ser
nada meu poderia condicionar as minhas acções
gostos e aversões
preferências
escolhas
ódio e amor
a favor e contra
tudo armas letais
desejos e apegos        fogo do inferno
palavras e mais palavras        erro fatal 

na vida passo a passo
sem vontade própria
momento a momento
mais longe        mais longe
mais além sempre mais além
sem que o queira 
sem que o saiba  
sem que o possua
alegria        sofrimento        beatitude        tormento        com ou sem fé        esperança         caridade
passo a passo à espera de nada
sem qualquer desejo ou apego
mesmo o apego ao caminho e à vontade de deus

quem sabe

se dentro de nós neste reino por atingir
onde não pode haver lugar para escolhas
a taça do egocentrismo é por ele preenchida

se nem a favor nem contra nada
sem querer ou recusar
talvez a alma se erga no seu esplendor
alma que não pode ser ferida pela espada que mata nem salva pela espada que dá vida
nada a pode destruir ou reconstruir
jarra que recebe e é enchida por vinho divino

se for pobre em espírito
se nada quiser
nada conhecer
nada tiver
desejos e apegos tombam
fazendo porventura
- eu não sei nem sei que não sei -
que a pequena centelha oculta
no abismo da alma
a arrebate em eterno arroubamento
e serei o que era antes do ser que vivia no meu não-ser e no um        quando não era o que sou mas era o que era com o que é foi e sempre será a última essência
consciência suprema que tudo contém
que é tudo mesmo no vazio
onde nada lhe falta e nada lhe foge
suficiente na totalidade
suficiente em si
suficiente nas criaturas
suficiente em mim

ser no tempo
é aceitar a vida
o múltiplo que não permanece
sim ao que é        sim à tua vontade
obedeço e não sou eu
- obedecer é perder o eu para ganhar deus        não porque eu o queira mas porque ele o quer quando o quer -
não sei quem sou
e se tu és em mim
nada tenho ou ambiciono

ser agora como quando ainda não era e serei depois da corrupção do corpo

não há conhecimento perfeito
dúvidas        dúvidas
não sei nada        nada        sou um nada





passara a noite em vigília
- uma entre muitas -
de bruços sobre o leito tinha
proferido as mais belas orações
jamais proferidas
num estado de extrema angústia

os seus olhos brilhavam no escuro do pequeno quarto
a seu lado um cabo entrançado de amarração com alguns metros que havia usado numa pequena embarcação que tivera na cidade
enrolou-o com diligência e perfeição como quem afeita uma criança para dormir  

a escuridão dissipava-se
a manhã nascente trouxe um sol acolhedor        os penedos doiravam a paisagem        as primeiras flores silvestres brotavam dos campos e adornavam a berma da estrada
caminhou com lentidão para o olival que fora de seus avós tendo na mão esquerda o cabo enrolado e na direita um rosário antigo
inconscientemente estreitou-o contra o peito
sem saber porquê beijou-o        também ele em petiz tinha sido um devoto fervoroso de maria
duas lágrimas grossas roçaram pela face envelhecida e sulcada pelos anos

não conseguia ir mais longe no conhecimento        os mistérios seriam sempre mistérios os segredos segredos e a sua ignorância completa
não sabia nada nem nunca iria saber em vida

olhou para trás
ninguém no caminho
a aldeia ainda dormia
nada como antigamente quando os campos se enchiam de aldeões ainda antes da madrugada   
um cão seguia-o
era o leão        de um vizinho        costumava dar-lhe pão com manteiga e biscoitos
chamou-o pelo nome
acariciou-o na cabeça e atrás das orelhas como ele tanto gostava

enquanto pensava

será que existe na consciência um aposento sem passado presente ou futuro que é tudo e nada
que não pode ser diminuído ou aumentado 
que já era antes de eu nascer e que será depois do fim
se eu fosse agora como quando ainda não era
eterno ontem
eterno hoje
eterno amanhã
num corpo mortal
raízes eternas de um rio a desaguar num mar sem margens

que sei eu de deus
que sabe deus de si próprio
o melhor é não saber e saber que o não sei
ou nem isso saber
o conhecimento mata o espírito
e destrói a carne
tal como o querer
e o ter

o leão estava ali consigo
fiel e inquisidor num olhar terno
tão terno e amoroso
tinha decerto a intuição
da ansiedade e do medo
que o atormentavam

por estreita vereda subiram ao olival
com leveza tacteou o tronco da oliveira mais antiga
de joelhos encostou o rosto à terra granítica e sentiu no suave odor o embalo do colo de sua mãe que entoava uma canção de nanar
estava ali com ele na sua meninice
e o pai de mangas arregaçadas com as veias salientes nos braços nus pedindo-lhe o sacho que estava a inchar na mina de água a céu aberto

também agora ali estavam
- como são belas as recordações e as crenças da infância -
chorou amarguradamente  

o leão gemeu de mansinho
enquanto o sol iluminava a velha oliveira e deslizava pelos seus ramos
sentiu-se envolvido por uma ténue brisa
travava-se um duelo horrendo entre a vida e a morte

naquele instante lembrou eckhart
pobre em espírito é aquele que nada quer nada sabe e nada tem
- beati pauperes spiritu quia ipsorum est regnum coelorum -
e a sua oração
senhor não me dês nada
excepto o que tu quiseres
faz senhor o que quiseres
e como quiseres de qualquer modo


                        e ele fê-lo



***



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