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ARTE

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segunda-feira, 21 de maio de 2018

DO LIVRO DOS SALMOS



Download dos textos de ANTIPOESIA ou a insustentável arte da falsa erudição em –



***

                        

                         ditoso é o homem
           que não visita a voz dos profanadores
       nem se detém no trilho dos prevaricadores
        nem toma parte na reunião dos libertinos

                             venturoso 
            é o que se apoia na ordem do senhor
                  e nela medita dia e noite

          árvore plantada à beira da água corrente
           que frutifica na estação conveniente
                cuja ramagem não emurchece

tudo o que faz é bem sucedido

não são assim os irreligiosos 
nem os transgressores
                                na comunhão dos justos
    eles são a palha que o vento leva e espalha
    os que não resistem ao julgamento
                     
      
bem-aventurado é o que não persegue deus –
            esse que é um puro nada
                é perseguido por ele



as nações sublevam-se        os povos urdem planos todos eles levianos        os reis da terra e os seus príncipes maquinam em conjunto        os impérios sacrificam milhões de inocentes
                     tudo contra o senhor

             despedacemos as grilhetas e
    lancemos para longe de nós o seu domínio
   
aquele que habita nos céus sorri-lhes
aquele que aí habita não pediu holocaustos nem vítimas
como são estultos        vasos de argila impura corrompida por vísceras imundas        amanhã serão pó 
             apenas pó

só são felizes os que se entregam confiadamente ao senhor



são tantos os nossos inimigos        tantos os que se erguem contra nós

dizem        nada os há-de salvar        nem o senhor do universo
       
mas o senhor está em nós        protege-se com o seu escudo que nos abriga


invoquemos o seu nome ao despertar ao deitar e nos nossos sonhos        apenas o seu nome e que ele faça de nós o que bem queira e como queira


não temas as multidões de perversos que te cercam
          nem os que podem matar o corpo
porque
em nós reside a bênção do senhor



invoco-te
              senhor da justiça

sempre me libertaste
                               da angústia e
                               da opressão

                    tiveste compaixão de mim
                      e ouviste a minha prece

               senhor estou aqui
              simplesmente aqui
               à espera de nada


                  desprezámos a tua glória
                    mergulhámos na ilusão
                vivemos uma vida de mentira


o senhor escuta-nos quando o invocamos
quando no silêncio dos nossos leitos proferimos o seu nome

clamar pelo seu nome é o maior dos sacrifícios de justiça

                     senhor estou aqui
                   obediente aqui agora
                   e para todo o sempre

a felicidade virá
                       e a sua luz resplandecerá em nós
e mesmo na maior das adversidades
                                                       e dos maiores perigos estaremos em segurança


os anjos do senhor protegem-nos
livram-nos do perigo
não teremos fome nas nossas almas
nem corrupção nos nossos espíritos



as minhas palavras
a minha súplica
a voz do meu clamor

senhor para ti elevo a minha oração

não sou nada        não sei nada        não tenho nada

não me dês nada
                  dá-me apenas o que quiseres
                      seja feita a tua vontade
    
ao alvorecer vigia a minha voz
o sol resplandece no horizonte e as minhas palavras vogam como batéis impelidos pelas correntes de vento

obedeço-lhe
- que mais poderei eu fazer –

o mal
a arrogância
a hipocrisia
a mentira
toda a malignidade
                            ferem-te senhor

o homem é lobo do próprio homem
- como confiar nos homens que louvam com a boca mas blasfemam com o coração -
devastador de mares e florestas compraz-se na sua ganância e ambição        justifica os meios com os fins
sanguinário e fraudulento 


estarei vazio na minha dócil submissão
não sei se quererás entrar na minha casa e se entrares não saberei que fizeste de mim a tua morada

jornadearei pelas veredas do bem e da justiça
serei protegido da astúcia dos que nas minhas entranhas me querem aniquilar        anjos negros dos abismos        os seus corações são sepulcros abertos e a sua língua navalha afiada na casa da peçonha

faz deles o que quiseres senhor


não me repreendas na tua ira nem me castigues com o teu furor

                             senhor
                 tem compaixão de mim
                    desfaleço e adoeço

alquebrado
a minha alma arde de dor e remorso
estou perturbado       as lágrimas inundam-me a face de culpa        sangro e contorço-me no leito e deploro as transgressões de outrora
os meus olhos anoitecem na brevidade dos dias
envelheço como erva pisada pelo tempo

                      cura-me
                       senhor
               salva a minha vida

na vida clamarei pelo teu nome
mas quando na mansão dos mortos não te poderei celebrar
nem em mim amar

             a ti confio o meu corpo e a minha alma
                               entrego-me

livra-me dos que me acossam e salva-me  dos predadores que dilaceram a carne e libam o meu sangue 


todo o meu erro todo o mal e injustiça que fiz seja reparado        

                  que a minha glória seja pó

perscruta o meu coração   
decreta a tua sentença segundo a minha culpa e a minha inocência

que nunca mais possa eu erguer a espada da iniquidade ou retesar o arco da maledicência
e se o fizer que a minha morte seja a punição do primeiro e último juiz do cosmos
em coval destinado aos ímpios


o teu nome paira sobre o universo
                            tu o sem-nome
que és todas as coisas sem o seres e por não seres és
      céus        galáxias        planetas        estrelas
criaturas 

a tua verdade reside nos pequeninos e nos pobres em espírito

salva da morte a minha vida



senhor
quero louvar as tuas maravilhas exultando de alegria
quero cantar-te        a ti que me defendes das injustiças
ao som da lira e da cítara e com as melodias da harpa hei-de louvar-te

decidis com justiça magistrados dos homens
julgais os humanos com rectidão        julgais ou sabeis julgar        vós que nem sequer vos julgais a vós

até quando julgareis injustamente e favorecereis a causa dos ímpios        juízes iníquos

defendei o órfão e o oprimido
fazei justiça ao humilde e ao pobre
libertai os necessitados das mãos sujas dos transgressores
deixai de adular ricos e poderosos com as vossas decisões execráveis 

os vossos corações estão repletos de insensatez e falsidade
e com vossas mãos amparais a violência do suborno
as vossas sentenças são veneno de víboras no calor tórrido do verão


é o senhor que preside à congregação divina
e decreta suas sentenças cercado por seres celestes
e o senhor irá condenar-vos magistrados do demo


a terra brada em uníssono

a recompensa do justo não vem dos filhos do homem mas do senhor
os justos florescerão como a palmeira e crescerão como os cedros do líbano



combate os que me combatem
com a armadura e o escudo vem em meu auxílio
empunha a lança e a espada contra os que me perseguem
diz à minha alma        eu sou a tua salvação

os nossos inimigos serão despedaçados e cairão no vale dos mortos
e tu serás o soberano do reino de todos os reinos        o refúgio do veado e da gazela        dos humildes dos pobres e oprimidos 
a sua defesa em tempo de perseguição
a sua libertação dos portais da morte

não assim os que vivem na ilusão da riqueza e do poder esquecendo-se que são mortais
sendeiros        sábios adulterados e adulterinos


                        ouvi-me
                   ricos e pobres
             humildes e poderosos

porque hei-de eu temer os dias de desgraça e sofrimento mesmo que rodeado pela maldade dos iníquos e oprimido pelos que governam e pelos que em nome da justiça aceitam subornos
os ricos confiam na abundância e pavoneiam-se com suas riquezas
os poderosos alardeiam que tudo podem e espezinham os desvalidos

poderá o homem pagar o resgate da sua vida
não        a vida é breve e mesmo que vivesse por milhares de anos nunca entesouraria o suficiente

os dias dos homens são como erva
              que brota como as flores da planície
              mas quando o vento a sopra
              deixa de existir 
e não se conhece mais o seu lugar

a sepultura será o seu fim nesta terra mais brevemente do que espera

os ricos morrem e não carregam consigo os seus tesoiros
os sábios morrem e não carregam consigo os seus livros
nem os loucos a sua loucura e os pobres a sua pobreza

enganados        como animais a caminho do matadouro
                terão como pastor a morte

o túmulo será habitação de séculos sem fim para o corpo e seus apegos
                               sem riqueza        sem fama        sem poder

mas eu só te quero a ti senhor        


porque te conservas à distância e te escondes nos tempos de angústia        onde te escondes senhor

      o ímpio persegue o infeliz
            o delinquente envaidece-se da sua avidez
                       o ganancioso maldiz e despreza-te
  que sejam colhidos pelas suas próprias armadilhas

o descrente afirma na sua soberba        não há castigo        o senhor não existe
arremessa poeira contra o vento        julga que as suas fraudes hão-de florescer para sempre
despreza os seus adversários dizendo        jamais serei abalado        a desgraça nunca me atingirá        não há justiça que me condene

boca imunda de maldição e mentira
língua traiçoeira infecta de dissimulação e maleficência
- mas a ciência do senhor conhece todos os corações -


o ímpio faz emboscadas junto aos povoados e esconde-se para matar o inocente
atraiçoa amigos e inimigos        come o pão que os pobres deveriam comer
seus olhos espiam o miserável e assalta o indefenso arrastando-o nas malhas da sua rede
com as suas garras descarna os infelizes
e diz        o senhor não existe        não há castigo


senhor ergue a tua mão santa e não abandones os desvalidos        só tu podes livrar o desvalido do prepotente e o miserável e o pobre de quem os explora
subjuga os que se alimentam da carnificina da corrupção e da mentira


o senhor tudo vê        ele é todas as coisas        como poderia não ver

ergue do pó o indigente
tira o pobre da miséria e senta-o à mesa dos grandes do seu rebanho
dá filhos à mulher estéril

os ídolos dos pagãos são o ouro e a prata        obra das mãos dos homens

              têm boca mas não falam
              têm olhos mas não vêem
              têm ouvidos mas não ouvem
              nariz mas não cheiram
              têm mãos mas não tacteiam
              pés mas não andam
              nem da sua garganta sai qualquer som

não assim o senhor dos senhores
                                                ele fala-nos
                                                vê-nos
                                                ama-nos

senhor ouve o grito dos humildes porque deles é o teu reino



porque hei-de eu fugir para o monte
como as aves
quando os caçadores se disseminam pelas encostas
eles que apontam as suas armas aos rectos de coração e
furtivos disparam
vangloriando-se da sua malvadez


senhor os teus olhos observam o mundo e os filhos dos homens
tu que és justo e tudo conheces e que odeias a violência
lança sobre os ímpios tições acesos e enxofre


quantos são os justos        onde os encontrar neste mundo inglório de injustiça e pesar        mundo do flagelo maligno

a lealdade desapareceu de entre os filhos dos homens

mentem
        matam
              esbulham
                        torturam

                        línguas saburrosas
                       corações das trevas

pobres e humildes sangram na agonia do desespero
e esperam em ti senhor

esqueceste-te deles senhor        até quando lhes esconderás a tua face

têm a alma em angústia de morte
sentem os laços do abismo
mas confiam em ti senhor


o senhor buscou um sensato       um único neste mundo

os filhos dos homens extraviaram-se e corromperam-se        não há quem faça o bem
não há um sensato que procure o senhor sem procurar        não há um único


poderá alguém habitar o teu santuário
habitarás tu senhor a alma de algum sensato que tenha subido à tua montanha santa


                           vida imaculada
                          justiça nos actos
                      verdade nas palavras
                      língua que não calunia
                      mente que não difama
                           não corrompe
                      nem se deixa subornar

eis o que agrada ao senhor


tantas foram as almas que andaram errantes pelo deserto e pela solidão sem encontrar caminho para uma cidade onde habitar

tinham fome e sede e já se sentiam desfalecer

na angústia clamaram ao senhor e ele livrou-os das suas aflições

conduziu-os depois por um caminho seguro que levava a uma cidade onde podiam habitar

deu de beber aos que tinham sede

matou a fome aos famintos


alguns viviam nas trevas e na escuridão prisioneiros da tristeza e de cadeias pela sua desobediência
entenderam-no e o senhor socorreu-os livrando-os das suas penas
tirou-os das trevas e da escuridão e despedaçou as suas cadeias
desfez em pedaços as portas de bronze e quebrou as barras de ferro

enfraquecidos por causa dos seus pecados
aflitos por causa das suas culpas
qualquer alimento lhes causava náuseas e já estavam às portas da morte

na sua angústia clamaram ao senhor e ele livrou-os das suas aflições
enviou a sua palavra para os curar e livrou-os da morte


anunciem as obras do senhor com alegria

os que se fizeram ao mar em navios para fazer comércio na imensidão das águas
viram as suas obras e as suas maravilhas no alto mar
à sua palavra sopraram ventos de tempestade e as ondas ergueram-se
elevavam-se até aos céus e desciam às profundezas enquanto a sua vida desfalecia pelo enjoo
andavam e cambaleavam como ébrios e toda a sua perícia se tornava inútil
na sua angústia clamaram ao senhor
e ele livrou-os das suas aflições
transformou a tempestade em bonança e as ondas do mar amainaram
alegraram-se ao verem as ondas amansadas
e o senhor conduziu-os a porto seguro

converteu os rios em deserto e as fontes de água em terra árida
converteu a terra fértil em salinas
por causa da maldade dos seus habitantes

mudou os desertos em lagos e a terra árida em mananciais
para ali estabelecer os famintos e aí construírem cidades de habitação perene
semearam campos e plantaram vinhas que produziram abundantes frutos
abençoou-os e eles multiplicaram-se em grande número e não deixou que os seus rebanhos diminuíssem
depois foram reduzidos e dizimados por causa da opressão do mal e do sofrimento
        
mas o senhor que mostra desprezo pelos poderosos
fê-los vaguear por desertos sem caminhos
levantou o pobre da miséria e multiplicou a sua família como um rebanho

alegrem-se os justos
silenciem-se os ímpios       



em ti me refugio
tu és o meu senhor        estás em mim e eu não sei           nada existe para além de ti
estás em mim        o meu destino é tua pertença

tenho-te sempre diante dos meus olhos e repouso em paz

do fundo do abismo por ti irei clamar
ouvirás a minha prece
teus ouvidos atentos à voz da minha súplica

se tiveres em conta os nossos pecados poderá alguém resistir
quem poderá resistir

mas em ti encontramos o perdão
eu espero em ti senhor

a minha alma confia na tua palavra
volta-se para ti
mais do que a sentinela para a aurora

confio que na morte viverei        o sepulcro não me estará reservado porque me alumiaste o caminho da vida verdadeira


senhor não oiças os filhos dos homens que me julgam e condenam

                     a minha causa é justa
                     atende ao meu clamor
                      escuta a minha prece

sonda o meu coração
      submete-me à prova de fogo
             escuta as minhas palavras
                   protege-me dos mortais 
                         profere tu a minha sentença
           e concede-me a tua presença

tu és a minha rocha o castelo das sete torres e das sete entradas
abrigo onde me refugio

tu és fiel a quem te é fiel e leal a quem te é leal
iluminaste as trevas da minha alma

fui salvo dos meus inimigos e das torrentes da morte
  
os céus proclamam a tua glória
o firmamento anuncia a obra da tua vontade
e só a tua lei é perfeita        nela reclino a minha cabeça e peço perdão para todos os meus erros e pecados que agora humildemente te confesso


senhor tem compaixão de mim
            misericordioso esquece os meus pecados
            lava-me de toda a iniquidade
            purifica-me dos meus delitos

reconheço a minha culpa e tenho sempre perante mim os meus delitos
contra ti pequei            contra mim pequei
fiz mal e causei dano diante dos teus olhos

                é justa a tua sentença
              e recto o teu julgamento

ensina-me a reconhecer a verdade e a sabedoria no mais profundo do meu ser        branqueia-me
não afastes de mim o teu santo espírito        sustenta-me        


feliz é o que tem as suas culpas perdoadas
feliz o que se absolve a si mesmo e é absolvido
feliz o que não é acusado malignidade


e tu repondes-me nestes dias de constrição        socorres-me na angústia
mostras-me que tudo é vaidade e que para além de ti nunca poderei encontrar paz em nada        nada        mesmo no que criaste


senhor não fiques em silêncio

abriram a boca contra mim com fraudes e traições e falaram de mim com palavras de mentira
cercam-me com palavras de ódio
atacam-me sem razão
em paga do meu amor acusam-me injustamente
mas eu entrego-me à oração

pagam-me o bem com o mal e o amor com o ódio
dizem        quando for julgado que seja condenado e da sua apelação saia incriminado

sejam abreviados os seus dias e outro que ocupe o seu lugar
que os seus filhos fiquem órfãos e sua mulher viúva
que seus filhos errem a mendigar e sejam expulsos das suas casas em ruína
que os credores lhe tirem todos os seus haveres e os estrangeiros se apoderem do fruto do seu trabalho
que ninguém tenha compaixão dele nem dos seus filhos órfãos
que seja exterminada a sua descendência e seja extinto o seu nome numa geração
que o senhor conserve na sua lembrança a culpa de seus pais e jamais se varra o pecado de sua mãe
que tais pecados sejam sempre presentes ao senhor e que ele faça desaparecer da terra a sua memória
pois esse homem nunca pensou em usar de misericórdia
mas perseguiu o pobre e o desvalido e empurrou para a morte o aflito de coração
amou a maldição       que ela caia sobre ele
desprezou a bênção        que ela o abandone
revestiu-se da maldição como de um manto        que ela penetre nas suas entranhas como água e como azeite nos seus ossos
seja para ele como um vestido que o envolve e aperta como uma cinta

sejam assim castigados os que me caluniam          
mas tu senhor auxilia-me
salva-me pela tua bondade e misericórdia
porque estou pobre e aflito e tenho o coração angustiado dentro de mim
desfaleço como a sombra que declina
vejo-me enxotado como um gafanhoto que devora os campos cultivados
os meus joelhos vacilam de tanto jejuar e o meu corpo definha de magreza
tornei-me para eles objecto de desprezo
ao verem-me abanam a cabeça

socorre-me senhor
salva-me pela tua bondade
porque tu és o defensor do pobre
a defesa das calúnias que impedem sobre os justos



o humilde disse
meu senhor meu senhor porque me abandonaste

por ti brado em todas as horas e não obtenho resposta
as noites são longas e sofridas
rejeitaste o meu lamento
ignoraste o meu grito de socorro

não sou rei de nenhuma nação
abjecto aos homens        desprezado e escarnecido  pelo povo
mas tu tiraste-me do ventre sagrado de minha mãe e protegeste-me ainda criança de leite
és o meu senhor
só tu me podes dar a mão        fui rejeitado pelos filhos dos homens que dizem        ele que é seu amigo que o salve

estou cercado por touros de basan        dissipado como água vi os meus ossos desconjuntarem-se        o coração liquefez-se no peito como cera aquecida        a boca secou
rodeado por matilhas de cães selvagens e por um bando de malfeitores que repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica
os meus pés e as minhas mãos foram atravessados por ferro ardente

sou pó senhor        não me abandones

livra-me
            da espada
            da boca dos leões
            dos chifres dos búfalos

não me firas com a tua revolta
em mim penetraram as tuas setas
caiu sobre mim a tua mão
o meu corpo ficou destroçado
os meus ossos estão rendilhados
vivo em tristeza e sem força
a morte armou-me uma cilada        os meus dias estão contados e sinto no coração o fardo dos meus pecados

livra-me senhor
tu que és o meu pastor 

senhor        nada me falta
descanso em prados verdes
e bebo dos nascentes mais puros

tu confortas a minha alma
guiando-a pelos caminhos da rectidão
mesmo que percorra vales tenebrosos e temíveis abismos não terei medo

minha luz e salvação        baluarte da minha vida
senhor
           de quem terei medo
           dos salteadores que avançam para me devorar
           dos assassinos que conjuram para me matar  

        nem da mansão dos mortos terei pavor

porque tu estás comigo        habitas a minha morada ungindo-me com o santo óleo do teu espírito


revestido de esplendor e majestade
envolto num manto de luz
estendeste os céus como um véu
sobre as águas fizeste a tua morada
as nuvens são o teu carro
caminhas sobre as asas do vento
os ventos são os teus mensageiros
e os relâmpagos teus ministros
fundaste a terra sobre bases sólidas
cobriste-a com o manto do abismo
e as águas cobriram as montanhas
ergueram-se as montanhas
cavaram-se os vales
nos lugares que lhes determinaste
colocaste limites às águas para não os ultrapassarem
e nunca mais voltarem a cobrir a terra
transformas as fontes em rios
que serpenteiam entre as montanhas
eles dão de beber a todos os animais selvagens
neles matam a sede os veados dos montes
os pássaros do céu vêm morar nas suas margens
ali chilreiam entre a folhagem
das tuas altas moradas regas as montanhas
com a bênção da chuva sacias a terra
fazes germinar a erva para o gado
e as plantas úteis para o homem
para que da terra possa tirar o seu alimento
o vinho que alegra o coração do homem
o azeite que lhe faz brilhar o rosto
e o pão que lhe robustece as forças
matam a sede as suas árvores
os cedros do líbano que ele plantou
nelas fazem ninho as aves do céu
a cegonha constrói a sua casa nos ciprestes
os altos montes são abrigo para as cabras
e os rochedos para os animais roedores
a lua cumpre as várias estações
e o sol conhece o seu ocaso
tu estendes as trevas e faz-se noite
nela vagueiam todos os animais da selva
rugem os leões em busca da presa
pedindo-te o seu alimento
mas ao nascer do sol logo se retiram
para se recolherem nos seus covis
então o homem sai para o trabalho
e moureja até anoitecer

a terra está cheia das tuas criaturas
lá está o mar grande e vasto
onde se agitam inúmeros seres
animais grandes e pequenos
todos esperam de ti
que lhes dês comida a seu tempo
dás-lhes o alimento que eles recolhem
abres a tua mão e saciam-se do que é bom
se deles escondes o rosto ficam perturbados
se lhes tiras o alento morrem
e voltam ao pó donde saíram
se lhes envias o teu espírito voltam à vida
e assim renovas a face da terra

como são grandes as tuas obras
fruto da tua sabedoria
glória a ti senhor por toda a eternidade


a ti senhor que és tudo tudo te pertence
o mundo
            a terra
                      os mares
                                    todas as criaturas

à montanha mais alta sobem os inocentes
os que apresentam limpidez de coração
os que de taça vazia nas mãos sem vontade te buscam sem buscar


a ti que por benevolência e compaixão esqueceste os meus pecados
a ti que me ensinas o caminho sem ensinar
eu louvo senhor
porque a minha angústia medo e dor fenecem
no teu amor

                    faz-me justiça
                      em ti confio

esquadrinha a minha alma e o meu coração e sujeita-me à prova
a mim que procuro o caminho da tua verdade
a mim que não me associo com os que adoram os ídolos da permanência
nem me associo com os traidores        abomino a união dos malfeitores e não tomo assento na mesa dos ímpios        repudio os sanguinários e os que se subornam e se deixam subornar        

senhor        lavo as minhas mãos        estou inocente

que os meus pés sejam testemunhas dos meus passos

salva-me senhor       não ensurdeças à minha voz        ouve o grito das minhas súplicas        não permitas no teu silêncio que eu seja como os que descem à sepultura        não me arrastes para o coval dos iníquos
                 apascenta-me e guia-me

ordena aos teus anjos
que me levem nas palmas de suas mãos
que me guardem no caminho
que não tropece nos escolhos e não caia nos abrolhos
guardando-me de todas as tribulações

estava doente e tu curaste-me
os meus olhos transpareciam tristeza
o corpo exausto definhava        amargor e gemidos
a alma extinguia-se na penumbra
mas inclinaste para mim os teus ouvidos quando já me via na mansão dos mortos
           deste-me a vida que é vida em ti e
      o meu coração deliciou-se na tua vontade
                tu a minha rocha e fortaleza



não te agastes por causa dos perversos e dos que jorram intrigas aos quatro ventos
não invejes os que praticam a injustiça e que com ela prosperam nesta vida
eles hão-de murchar como o feno murcha exposto ao sol escaldante e definhar como a erva verde
          faz o bem para que vivas tranquilo
           e possuirás a maior das riquezas

se a vossa riqueza prosperar não lhe entregues o coração
         maior é a perdição do que se apega 


a vida é breve
refreia a tua língua e a tua ambição        de que te servem todos os tesoiros do mundo mesmo que vivas cem anos
os anos passam mais depressa na velhice do que na juventude        a morte espreita nos umbrais
na eternidade do senhor a vida é um nada        um sopro sem sentido
                          efemeridade


só no senhor descansa a minha alma
dele vem a minha redenção
ele é o meu refúgio e a minha salvação
a minha fortaleza
                     jamais serei abalado
     serei recompensado segundo as minhas obras

anseio por ti
      todo o meu ser te deseja
            como terra estéril
                  que cultivarás como te aprouver

vale mais o teu amor do que um milhão de vidas que me desses

bem-aventurados os escolhidos


o senhor tirou-me dum charco de lodo assentou os meus pés sobre rocha firme e deu perseverança aos meus passos
          pôs nos meus lábios um cântico novo
não exigiu sacrifícios nem oblações
abriu-me os ouvidos para escutar e os olhos para ver
     libertou-me do cárcere
          deu-me um tecto onde me abrigar
                 e de beber quando tinha sede
                 e comer quando tinha fome

hoje sua ausência faz-me sofrer

a corça suspira pelas águas correntes
assim por ti suspira a minha alma

a minha alma tem sede de infinito
mostra-me a tua face

noite e dia alimento-me de lágrimas
que ressoam nos abismos

onde estás senhor
onde encontrar a luz da tua verdade
não me rejeites na velhice
sacia-me com o teu pão e o vinho da montanha sagrada
na verdade na misericórdia e na justiça

deixa que contigo cavalgue as nuvens mais altas
dá-me a tua mão e diz        eu sou o teu senhor
vem pois em meu auxílio        tu que és grande cuida de mim        eu que sou um pobre infeliz à beira do precipício final


eu estive nas margens do abismo quando senti inveja
         dos ricos fraudulentos
         da prosperidade dos malfeitores
sadios e alegres numa vida de luxo e lascívia
ávidos do lucro entesourando oiro e prata como se vivessem eternamente  
orgulhosos e violentos não padecendo das adversidades dos pobres
- serão eles recompensados pela sua delinquência        pensei –
enquanto eu sofro a cada alba a dor do infortúnio

sem entender sondei o coração do senhor e vi o que os aguarda
gritos e ranger de dentes        corrupção eterna

entendi que mais nada tenho nesta terra do que o senhor
que tive antes de ser criado e que terei depois de finado 

                confio e obedeço-te senhor
          tu és o pastor dos puros de coração


senhor não permaneças em silêncio
não te quedes mudo nem imperturbável
não permitas que os campos onde nos apascentas sejam violentados por malfeitores

que as acções pecaminosas sejam cremadas nas tuas florestas incendiadas

felizes os que temem o senhor
haverá na sua casa abastança e riqueza e a sua prosperidade durará para sempre
o senhor brilha para os homens rectos como luz nas trevas mesmo no infortúnio
ele é piedoso clemente e compassivo

feliz o homem que se compadece e empresta e administra os seus bens com justiça
                    jamais sucumbirá


a memória do justo será eterna
      não receia as más notícias
            o seu coração está firme e confiante
                  nunca vacila nem vacilará

reparte os seus bens com os pobres
a sua generosidade subsistirá para sempre e o seu poder crescerá em glória
            enquanto o ímpio se enfurece
             range os dentes e desfalece



tenho saudades do céu        diz-me a alma
tenho saudades tuas senhor       diz-me o coração

               deliciosa é a tua morada
              atende o filho da tua serva 
           que tem em ti a sua única fonte

até as mais ínfimas criaturas exultam em ti
como não poderia eu rejubilar na permanência celeste 

tu abençoaste a terra onde aspiramos à verdade
e deste-nos os seus frutos
tu bendissestes os céus donde desabrochará a justiça da esteira de teus passos

que a minha oração suba à montanha sagrada

a minha vida acerca-se da garganta da morte
sou um homem já sem forças
estou desamparado entre os mortos em vida
como defunto que jaz em fria tumba

               estendo para ti as minhas mãos
                  minha alma e meu coração

causarás milagres para os mortos
irão os cadáveres erguer-se para te glorificar
poderá a tua bondade ser exaltada na jazida
ou a tua probidade na habitação dos mortos
serão tuas maravilhas sabidas nas negrume dos abismos e a tua justiça nas planícies do esquecimento
e a tua justiça na região do esquecimento
não        senhor
      
é breve a minha existência
haverá alguém que possa viver sem ver a morte           que se livre das garras do abismo
haverá alguém que viva sem dor
foi para isto que criaste os humanos        senhor

tu já eras antes dos céus        do sol e da terra dos mares e de todas as criaturas
tu eras aquele que era e nós éramos em ti antes de sermos criados

num ápice retornaremos ao pó

faz com que retornemos ao que éramos antes de ser aqui neste mundo impermanente



o ignorante não te pode sondar
o insensato não compreende
como magníficas são as obras
que em nós operas

canto-te um cântico novo
harpas liras cornetins e trombetas acompanhai-me
querubins acompanhai-me
céus e terra em harmonia
louvem o santo dos santos
ovelhas do seu rebanho

louvai o amor eterno

louvai o seu nome santo

não esqueças os seus auxílios
é ele que perdoa as nossas faltas
que nos trata como filhos
que cura as nossas enfermidades
que te resgata da sepultura
dos horrores da mansão dos mortos
e enche a tua taça
de graça e carinho
cumula de bens a tua existência
e te rejuvenesce como a águia a sobrevoar os penhascos
com justiça defende o direito de todos os oprimidos
misericordioso        compassivo        paciente        cheio de amor
                    eterno para quem o ama


nada tenho a temer
que mal me poderão fazer os homens

fui castigado mas o senhor não me deixou morrer
deu-me a vida segundo a sua palavra

pela porta da justiça entram os justos
pela porta da justiça entrei a mando do senhor

a pedra que os construtores do mundo rejeitaram
é a pedra angular que me sustenta e apoia

faz com que o meu coração te obedeça
sem que saiba que te obedece
estabelece na minha alma a tua vontade

peregrino na terra em obediência        eis o que sou
senhor auxilia-me        que eu seja submissão e mais nada para além disso

em vão trabalham os construtores
       se o senhor não edificar a casa
              em vão vigiam as sentinelas
                  se o senhor não guardar a cidade

o meu coração não é presunçoso
nem os meus olhos são altivos

não persigo grandezas
ou tudo o que me é superior

vivo tranquilo como criança
que se sacia no colo da mãe

         não entrarei na minha casa
         nem me deitarei no meu leito
         não deixarei que os meus olhos durmam
         enquanto não encontrar um lugar para ti
                   uma morada digna


tu examinaste-me         conheces-me
conheces as minhas acções antes que eu aja

conheces os meus pensamentos
vês-me quando caminho e quando descanso
estás atento a todos os meus passos

ainda a palavra me não chegou à boca
já tu a conheces 

envolves-me por todo o lado e sobre mim colocas a tua mão

sabedoria imensa que me é incompreensível
tão sublime que a não posso alcançar

onde é que poderia eu ocultar-me do teu espírito
para onde me poderia evadir da tua presença
se subir aos céus        tu lá estarás
se descer ao mundo dos mortos        aí te encontras
se entrar em mim não me encontro mas a ti
se voar nas asas da aurora ou for morar nos confins do mar
mesmo aí a tua mão esquerda há-de guiar-me e a tua direita me sustentará

se disser        talvez as trevas me possam esconder ou a luz se transforme em noite à minha volta
          as trevas não me ocultariam de ti
          e a noite seria brilhante como o dia
          luz e trevas seriam a mesma coisa

tu modelaste as entranhas do meu ser
e formaste-me no seio de minha mãe

quando os meus ossos estavam a ser formados e eu em segredo me desenvolvia tecido nas profundezas da terra
            nada disso te era oculto
os teus olhos viram-me em embrião
tudo isso estava escrito no teu livro 
todos os meus dias estavam modelados
ainda antes que um só deles existisse

como são insondáveis teus desígnios e tuas leis como é incalculável o seu número
se os quisesse contar seriam mais do que os grãos de areia das praias e dos desertos
e se pudesse chegar ao fim estaria ainda contigo
        
                  põe-me à prova senhor
                 auxilia-me no meu caminho
                    corrige os meus erros
          e guia-me pela senda da eternidade



louvai o senhor no seu santuário
louvai-o no firmamento
louvai-o pelos seus feitos inigualáveis
louvai-o por todas as suas proezas

louvai-o ao som da trombeta
louvai-o com a harpa e a cítara
louvai-o com tambores e danças
louvai-o com instrumentos de corda e flautas
louvai-o com címbalos sonoros e vibrantes

seres e entes celestes louvai-o



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