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ARTE

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sábado, 19 de outubro de 2013

POEMA DA CRIAÇÃO DO MUNDO




William Blake - Deus Criador


       
OU POEMA DE DEUS OU DO DIABO


escrevo este esboço doente     não o escreveria se não estivesse assaz enfermo     se não cuidasse no mal que fiz e que hei-de causar     actos de amor     de ódio     de deus ou satanás

- se deus o quiser     por assim o ter destinado quer eu queira ou não     o que está escrito não pode ser apagado - 

se o meu peito sanguinolento não sofresse como sofre
e se a morte não fosse aquele grande mistério que tanto nos apetece e que não se conhece com preces nem é compreendido por filosofias ou teologias em noites de amarga especulação          misérrimo pensamento

vive-se     como se pode      por não haver melhor
come-se     bebe-se     faz-se sexo     dorme-se                         e o pior
é que se vegeta sem nexo
da nascença à cova funerária
e dos que partiram deste mundo
nenhum torna
ninguém dá nova
de corpo ou espectros
ressuscitados     reencarnados
almas de deus
ou de trinta-diabos



        onde estás tu senhor?


        quem sou eu?



ao acaso vou abrindo o desgastado saltério     herança de meu pai

         - ouvi ó deus a minha voz na aflição

eu sou a palha que do terreiro o vento de sueste leva
árvore de folhas ressequidas que em tumulto escondido se inflama
o que aborrece o caminho da mentira

         - tende compaixão de mim senhor porque estou doente

sobre mim cai uma chuva de fogo vivo e enxofre
coração em lágrimas no covil dos leões
corpo que em fornalha ardente novamente sofre
mente angustiada     mortalha de lamentações

         - meu deus meu deus porque me abandonaste?

perfuma-me a cabeça com óleo de nardo 
se és bom e recto a mim que te prezo  
mostra-me o caminho nesta noite escura
alivia-me a mim que sou fraco deste fardo
eu penso no pobre no que sofre no desvalido
sou como o veado que gemente suspira 
gazela em busca de verdes prados e água pura


         do novo testamento que se diz de teu filho
     
       - se alguém quiser vir após mim negue-se a si mesmo
         tome a sua cruz dia após dia
         e siga-me

     sem condições te seguiria
     por vereda de abrolhos
     cardos e despenhadeiros  

     fundearia na tua palavra
     e se teu caminho visse
     e a tua lei entendesse
     nela meditaria noite e dia 

     imita-me dirias
     e eu o faria

     seria como és
     madeiro nos braços
     cravos nas mãos
     e nos pés

     coroa de espinhos
     na fronte
     chagas de verdasca
     a bem aceites
     sangue da alegria
     beberia de tua fonte
     tua missão imitaria

se o mundo salvasse de tanta miséria doença fome morte
terríveis males por teu pai criados     poderes que te foram dados
mas a mim não

se expurgasse do universo cataclismos terramotos guerras malefícios corrupção furor ganância ódio e vingança
males que teu pai previu
mas eu não

se iníquos e ímpios poderosos e governantes deste mundo sanguinários traidores de seus povos famintos
que nada e ninguém temem 
pudesse julgar     esmagando seus braços     exterminando-os e às torrentes malignas de seu sémen no pecado imerso      
que tu em nome de teu pai podes
e eu não

     seguir-te-ia
     mas às tuas igrejas não  




no princípio o teu santo espírito movia-se à superfície das águas
a terra era informe

olhaste o abismo e aí projectaste o mundo no caderno do destino
onde tudo está escrito com infinita ciência     dizes tu

cansado de tanta solidão munido de sólida intenção
- a eternidade também cansa e o vazio entedia –
no primeiro dia fizeste resplender a luz separando-a das trevas

no segundo fizeste os céus separando-os das águas
mas deste-lhes a mesma cor     quererias neles espelhar o amor

no terceiro enxugaste a terra
o mar uniu-se aos céus no horizonte
e ordenaste à terra que produzisse erva 
arbustos e árvores de fruto

no quarto criaste os luzeiros do céu
no quinto povoaste a terra de todo o tipo de animais
domésticos     répteis     ferozes
e sob o firmamento as aves
nalguns brejos     
alguns animalejos alados     

não satisfeito
fizeste-nos à tua imagem e semelhança
a nós falsos dominadores da natureza
pasto de melgas e mosquitos

                  e ponderaste a tua obra muito boa

como pudeste tu o omnipotente o omnisciente
não prever o evidente
não fazer o excelente
se a erva sofre quando calcada
e a árvore quando derrubada

como pudeste na tua omnisciência criar
bicho-come-erva     bicho-come-bicho     bicho-come-gente     gente-come-erva     gente-come-bicho     gente-come-gente

violência e dor

não violaste os princípios de tua omnipotência?

parece-te isto bem senhor
cadeia interminável de sofrimento
outrora agora e para sempre
a isto chamas amor? 

bela é a ave     e ave-come-ave ave-come-bicho bicho-come-ave ave-come-gente e gente-come-ave
é esta a tua natureza
aniquilação dolorosa da beleza?


     razão a de quem diz da vida
     tudo é sofrimento
     nascimento     doença     velhice     morte
     desgraçado o que nasce
     o que teve tal sorte


o homem foi por ti moldado
em pó da terra

colocaste-o no jardim dos jardins
no meio das mais belos jasmins
ó éden de todas as delícias
visões perfumes júbilo carícias 

mas estava só     
e a solidão mata
basta de sevícias
disseste

enquanto dormia     sorrateiro     tiraste-lhe uma costela
e dela 
fizeste a mulher
que por argúcia tal 
de ofídia sua aliada
o fez comer da árvore do bem e do mal
- para que criaste tu o bem e o mal     não sabias que eva faria adão comer o fruto     e que a serpente nada tem com o assunto? –

amaldiçoaste injusto a serpente
aumentaste os padecimentos da mulher
e o homem nascido para o prazer
para a eternidade e lazer 
teve de comer o pão que o diabo amassou
castigo do pecado gerado por quem o criou



eva penetrada por adão
deu à luz caim e abel
e como o que nasce torto
tarde ou nunca se endireita
abel apareceu morto
por obra de seu irmão

ainda assim os homens multiplicaram-se
penetração após penetração no seio da erva
gozo primordial de adão com eva

mas nos seus corações a malícia reinava


arrependeste-te então tristemente
contrário à tua sapiência
usada na criação com displicência
- eu deus omnipotente e omnisciente arrependo-me de ter criado o homem sobre a terra

choraste lágrimas de sangue     amarguradamente     na terra corrompida e cheia de violência
e tracejaste com raiva o malfadado caderno do destino que com negligência escrituraste



de toda a multidão apenas noé te era agradável
e pensando não sei se bem se mal
ordenaste-lhe a construção de uma arca     espécie de barca
nela noé embarcaria a mulher os filhos e dois seres vivos de cada espécie existente na terra

por um dilúvio em sete dias 
– mania a tua – 
exterminaste toda a humanidade
e
aos pobres e impolutos animais
num acto de nova crueldade


não sabias qual a natureza do homem que criaste    
não sabias que no seu sangue correria para todo o sempre corrupção e violência
e que a humanidade é a mãe da demência?

que pecado cometeram os animais que ficaram
com que direito os submergiste     
que tinhas em mente     
tua vontade     discricionária e indiferente?


a ti meu deus assiste a razão quando disseste
- façam-se à minha imagem e semelhança
desgraça atrai desgraça     castigo divino injustiça humana     erro     desesperança

e tu sempre o soubeste
e a noé o disseste
quando assinaste a aliança
de nenhum outro dilúvio lançar
sobre a terra e sobre o mar
- de que te valeria também     nada variaria – 
desististe e bem senhor

      aposentaste-te de criador



     quanto a mim e no restante
     sempre soubeste
     quem iria eu ser
     que iria eu fazer
     que pecados cometer

     dizes
     dei-te o livre arbítrio

     que bom que és senhor

     determinas-me ao acto
     definitivamente lavrado
     no caderno do destino

     e a criatura que agora vês
     pecadora perdida sem tino
     foste tu quem a modelou

     e sem que mudança 
     houvesse na tua ciência
     ou não seria omnisciência

     o que tão contrário
     é à tua essência
     como a presença do mal

     e se por tal iníquo sou
     por tua vontade
     erro ou desacerto 

          eu pecador me confesso
          eu pecador me perdoo



tantos são os males do mundo     e não os reprimes
não podes senhor?     se não podes não és tu o deus do nosso coração     se não queres és um ser indiferente desapaixonado     não és tu o deus de isaac jacob e abraão     
se não podes nem queres és impotente e indiferente       deus dos fracassados e dos dementes

podes senhor     podes exterminar o mal?     essa a tua natureza e essência
mas não o fazes     não cumpres teus preceitos     não alimentas os teus eleitos com paz e rectidão     não és o nosso pastor     quem nos leva a descansar em verdes campos a água pura irrigados



não te entendo senhor
mas uma prometimento te faço     desisto de te buscar fora
buscar-te-ei dentro
e se num qualquer dia
no recanto da minha alma te encontrar
perguntar-te-ei
porque nasce o mal do bem     o imperfeito do perfeito     o injusto do justo     o padecimento da paz

nesse dia
- talvez a final tudo pareça bem - 
com o coração em chamas
o espírito em festa por te ter
sabendo que nos amas
de vez vencido o mal
louvar-te-ei


então
olharás do céu para o filho do homem e encontrarás um sensato que te desejou sem desfalecer em momento algum

per omnia saecula saeculorum








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