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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

QUANDO EU MORRER




quando eu morrer
não chorem     esse é o meu desejo

não quero sinos a tocar disparates
não quero velórios de bonifrates

cantem     façam amor     embriaguem-se     bailem
tragam do ancoradouro o meu veleiro
lancem as minhas cinzas ao tejo
     meia-noite na baixa-mar

rio dos meus amores     dos meus pecados
rio das perdições     dos corações despedaçados
rio em que nas noites prateadas de luar
como ninguém amei
e foram tantas as que beijei
sexo penetrado
à vista do mar


        ao abismo o que é do oceano
        terra é para homem pequeno
        mar para quem temerário 
        o soube defrontar e amar


as mil mulheres que tive     os quartilhos de vinho que bebi     as mil e uma noites que vivi rindo e sorrindo à madrugada

viço e lascívia     estúrdias e luxúria

casas que frequentei     boa e má fama     perdulário na penúria     avaro na abastança    
leitos de solteiras divorciadas casadas alternadeiras e rameiras
famas e camas nunca me faltaram

    façam peregrinações a casas de orgia
    levem rufias     carteiristas     proxenetas     
    pelotiqueiros    calaceiros     aldrabões
    femeeiros     arruaceiros
    gastem a soldada     vencimento     a pitança
    não ouçam as vozes adormentadas do povo 
    encham as mesas de mulheres e vinho novo
    soltem risadas à minha lembrança
    que o tempo passa e só vos levo a dianteira

lembrem que a cada hora morta
pensei mistérios desvendados e por desvendar
chegando até onde o entendimento humano pode chegar
pensando tudo o que há para pensar

não quero mágoas     pesadelos     saudades
tive tudo o que tinha de ter
fiz tudo o que tinha para fazer

    e

nos rochedos do cabo escrevam a vento e sombras

aqui jaz o que não lamuriamos
com setenta vezes sete vidas vividas
de alegrias felicidade êxtases e dores
nos parcos anos que deus lhe deu
e acanhadas férias que a morte lhe concedeu
navegante de corpos almas e mares
amante de vinho mulheres e tempestades





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